Blog do Celio Gomes
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O Brasil e o golpe, ontem e hoje

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Bolsonaro e os militares
Bolsonaro e os militares / Foto: Divulgação

Os anos 1980 foram caóticos na vida pública brasileira. Primeiro presidente civil após a ditadura de 64, José Sarney foi alvo até de um ataque a pedradas. Em momentos de crise mais aguda, o chefe da nação mal podia viajar. Em 1988, ele desistiu de uma viagem ao Rio, onde seria padrinho de um casamento. O clima evidente de ameaça levou o Planalto a cancelar o passeio. Enquanto isso, nas ruas da capital fluminense, o carro nupcial foi atacado por manifestantes a socos e pontapés. Isso mesmo: na fúria contra o governo, sobrou para uma inocente noiva de véu e grinalda a caminho do altar.

Àquela altura, o festivo Plano Cruzado já estava sepultado havia quase dois anos. O país parecia condenado a uma inflação de 50% ao mês – e isso não é força de expressão. Não demorou para que surgissem notícias sobre uma temida “inquietação nos quartéis”. O termo significava que os golpistas de farda poderiam retomar o comando do país à base da força bruta. E de que outro modo seria, não é mesmo?

Uma edição da revista Veja insinuava o perigo de eventual ruptura como decorrência da insatisfação nas Forças Armadas. A capa mostrava uma solenidade oficial, com uma foto em que Sarney, o presidente acuado, parecia em posição subalterna a uma fileira de quepes sobre as cabeças de milicos de alta patente. 

Mas esse clima, lembro bem daqueles tempos, era algo irrelevante, restrito certamente a setores mais radicais, sem capacidade para consumar um gesto concreto. Afora a capa de Veja e de um ou outro texto sobre o assunto, essa pauta não demorou na praça. A revolta generalizada com uma inflação indecente poderia ter derrubado o governo. Chegou-se a falar em renúncia, mas o autor de Os Maribondos de Fogo resistiu.

Vai ter golpe em 2022, mais de trinta anos após a volta dos gorilas para os quartéis? É o que ouvimos desde 2019, quando Bolsonaro tomou o Planalto de assalto com sua quadrilha. Não há dúvida que é isso mesmo que o bandido da rachadinha pretende. Desgraçadamente, a tara golpista no Exército está em alta como nunca esteve nas últimas três décadas e meia.

Claro que não há espaço para o golpe clássico como os soldadinhos fizeram em 64. Mas há os que estão dispostos a colaborar com os planos criminosos de Bolsonaro. Tudo isso porque temos um presidente que não respeitará o resultado das urnas em caso de derrota. Daniel Silveira, essa porcaria símbolo da “nova política”, é sinal definitivo do que vem por aí.

É uma lástima, uma tragédia mesmo, que estejamos aqui falando de ameaça de golpe contra a democracia brasileira, mesmo tão jovem, em pleno século 21. República de Bananas. Republiqueta. Terceiro Mundo. Esses eram termos usados para falar do Brasil na diplomacia internacional das antigas. Com Bolsonaro, o país reivindica o retorno àquele status de última categoria.

Para fechar, diria que o golpe está a caminho, mas Bolsonaro vai dançar. Agora, o que vai ocorrer no Brasil depois das eleições de outubro, nem Jesus sabe. A coisa vai ser feia, pode escrever aí. 

SOBRE O AUTOR

Sou formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Tenho quase trinta anos de jornalismo. Comecei, com estágios e trabalhos temporários, a partir de 1990. Em 1991 entrei na TV Gazeta de Alagoas. Na empresa exerci os postos de editor, produtor, chefe de redação e diretor de jornalismo. Depois fui editor de política em O Jornal. Adiante, trabalhei como editor de política e editor-chefe no jornal Gazeta de Alagoas. Tive também uma passagem pela TV Pajuçara como editor de telejornais. Exerci ainda o cargo de coordenador editorial na Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Durante essa trajetória, nos diferentes veículos, escrevi reportagens e tive um blog com textos diários

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