“Quero voltar a viver com alegria”, diz homem que espera por transplante; AL tem mais de 400 pessoas na fila

Raíssa França |
Gustavo, trabalhador que perdeu a visão do olho direito
Gustavo, trabalhador que perdeu a visão do olho direito / Foto: Cortesia

Em Alagoas, 441 pessoas estão na fila de espera aguardando por um transplante. A informação foi confirmada ao Cada Minuto pela coordenadora da Central de Transplantes do Estado, Daniela Ramos. Quem espera por um órgão, conta os dias. E enfrenta uma dura batalha contra o tempo.

O mês de setembro traz uma campanha que visa conscientizar a população sobre a importância da doação de órgãos: o setembro verde.

Segundo Daniela Ramos, a pandemia dificultou ainda mais a realização do diagnóstico de morte encefálica (causa que se permite a doação de múltiplos órgãos).

“Afinal, a covid é contraindicação absoluta”, disse. Porém, além da covid, outro fator que dificulta é a família.

"Quando se consegue um diagnóstico de morte encefálica, as famílias não autorizam por desconhecer a vontade do doador em vida”, comentou a coordenadora.

Daniela também ressalta que outra situação é a subnotificação por parte dos hospitais. “Ou seja, no Decreto n°9.175/2017, no seu artigo 18, fala que os hospitais em caráter urgente e obrigatório devem notificar à Central de Transplantes qualquer suspeita de morte encefálica, independente da doação de órgãos”.

E continua: “Para se realizar o diagnóstico de morte encefálica é preciso que se tenha médicos devidamente capacitados e que passem por três etapas: dois exames clínicos (por médicos diferentes) e um exame de imagem (doppler, arteriografia ou eletroencefalograma) para se comprovar a ausência de fluxo sanguíneo ou atividade elétrica no cérebro”.

A coordenadora também lembra que a “legislação Brasileira só permite que a família autorize a doação de órgãos”. Por este motivo, é importante que ainda em vida, a pessoa diga  -- principalmente aos familiares -- de que deseja ser doador de órgãos.

“É preciso se colocar no lugar do outro e pensar que no dia em que morrermos, ainda podemos continuar vivos em outras pessoas que estão nas filas à espera de um órgão”, afirmou Daniela.

A batalha de quem espera

De janeiro a agosto, o estado realizou 39 transplantes. Na fila de espera, 324 pessoas estão aguardando para um transplante de córnea; três de coração; um de fígado e 121 de rins.

Quem está na fila para o transplante de córnea é o trabalhador rural Gustavo Vieira Lima, de 28 anos, que mora em Igreja Nova, em Alagoas. Ele contou ao Cada Minuto que perdeu a visão do olho direito após um acidente de trabalho.

“Eu estava trabalhando quando um besouro venenoso bateu no meu olho provocando irritação e surgindo bactérias que resultaram na perda da minha visão”, contou.

Gustavo disse que está na fila faz quatro meses e que não há previsão de quando irá fazer o transplante. “Quando fui me cadastrar, a moça me disse que era um tempo de até dois anos para receber uma nova córnea”.

O trabalhador disse que o transplante de córnea vai mudar a vida dele.

“Quando eu receber um transplante de córnea vou voltar a viver com mais alegria, perderei a vergonha de olhar nos olhos das pessoas e voltarei a enxergar”, reforçou.

“Esperar nunca foi tão doloroso”

Quem também está na fila de espera por um rim é um alagoano, de 33 anos, que não quis se identificar. Segundo ele, esperar por um rim nunca foi tão doloroso.

“Você fica esperando que seu telefone toque e você seja chamado. É uma angústia”, comentou.

O alagoano disse que se antes da pandemia era difícil, agora ficou ainda pior. “Muitas pessoas morreram por causa da covid e não puderam doar. Muitas famílias não querem ajudar também. E quem fica esperando, fica aguardando a boa vontade das pessoas”.

De acordo com ele, a vida dele nunca mais foi a mesma, mas espera que o transplante aconteça ainda esse ano. “Espero poder levar uma vida normal e saudável”.

E faz um apelo: “Por favor, pensem em quantas vidas vocês vão salvar. Quem morrer continuará vivo. Não existe nada melhor do que fazer o bem”.

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