Quitéria é uma mulher preta, que vive faz tempo, em situação de rua, na orla de Maceió, a capital do turismo.

Isolada em seu próprio mundo, dia após dia ,vem sendo consumida pela dependência química do álcool.

É visível como, numa ligeireza abrupta,  a  pele preta de Quitéria descama e entristece, escancarando o abandono das ruas. 

Oficialmente, eu e Quitéria  somos duas mulheres pretas e idosas, e sempre fico pensando como deve ser difícil para Quitéria viver esse-não-ser. Caminhar, sem rumo em trilhas de  um ziguezague sem fim.

Quitéria vive numa situação  abissal, na  clandestinidade das políticas públicas.Sob os olhos indiferentes das gentes que faz de conta que ela nem existe..

Um dia, a preta me contou que é uma cozinheira de mão cheia e sabe fazer um monte de coisas gostosas, até essas comidas de gente rica ( fala, com o olhar,   rememorizando um tempo de estabilidade emocional. Quem sabe era feliz?) mas, jogou tudo para o alto para viver a liberdade das ruas e suas consequencias.

A vida de Quiteria  é coalhada com a cristalização dos tantos , fartos e naturalizados abandonos diários da gente preta.

O racismo estrutural, que caminha em discursos prolixos,  não enxerga Quitéria, nem um tantinho assim, não permitiu que ela tivesse o poder da escolha. A vida que hoje tem foi imposta pelo sistema, cheio de dentes vorazes.

É uma moradora em situação de rua: preta, pobre, alcoólatra, sozinha  e idosa, que não sonha mais com futuro e vive o presente , tendo como  foco manter-se viva .U m-dia-após-outro.

Morte e vida severina.

Levei  um pedaço de bolo, do 5 de agosto, para Quitéria, mas, não a encontrei…