Filipe Valões
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E se Lula for vice de um alagoano candidato à presidência?

Filipe Valões|
Ex-presidente Lula
Ex-presidente Lula / Internet

O Brasil está testemunhando aquela que já pode ser considerada a pré-campanha não-oficial mais intensa da história da República. Desde que o ex-presidente Lula recebeu de volta sua liberdade e os direitos políticos, o presidente Bolsonaro perdeu o restinho de cerimônia que mantinha e passou abertamente a tratar 2021 como se já fosse 2022.

Como seria de se esperar, a opinião pública veio no rastro dos dois e a imprensa não poderia ficar de fora. Mas, essa última, tem um detalhe em suas fileiras. Se o povo, em grande parte, se divide entre lulistas e bolsonaristas que são mais ‘barulhentos”, enquanto os que não fazem parte nem de uma nem da outra torcida organizada ficam sem expor muito suas opiniões, no caso do jornalismo temos a tal “terceira via” sendo anunciada sem muito constrangimento.

O que acaba causando, por sua vez, um barulho enorme.

Nas últimas semanas, alguns jornalistas ousaram sugerir que Luís Inácio Lula da Silva desistisse da ideia de concorrer à presidência, para  apoiar outro candidato ou então se colocar na condição de vice-presidente. Foi um labafero. Lulistas ultrajados, esquerdistas rejeitando a ideia, até mesmo direitistas moderados considerando isso um absurdo por considerarem isso “trocar o certo pelo duvidoso”, já que Lula tem sido mostrado como um pré-candidato com chances cada vez maiores de ganhar de Bolsonaro já no primeiro turno.

Mas, analisando tudo friamente, sem as paixões ideológicas e o calor desse momento, é tão absurdo assim considerar essa possibilidade?

Vamos aos fatos. A esquerda, por si só, não garantiu a vitória contra Bolsonaro em 2018. Está mais do que comprovado, se alguém quiser ter alguma chance de disputar a presidência com Jair, em 2022, vai precisar unir forças com oponentes tradicionais. Partidos e políticos notoriamente de direita, de centro e de esquerda, que não apoiem o atual governo federal, só terão alguma probabilidade de vitória na próxima eleição presidencial se “fizerem volume”, como se diz no popular.

Também é fato que Lula, candidato à presidência persistente, que foi da derrota de 1989 até a vitória de 2002, sempre concorrendo sem jamais desistir, teve outro trunfo pra chegar lá. Soube se adaptar. Em 1989 era visto como um sindicalista raivoso. Só ganhou, 13 anos depois, quando virou o “Lulinha paz e amor”, baixando o tom de voz, batendo menos e dialogando mais, inclusive andando de braços dados com a classe empresarial, industrial e no topo do poder econômico do Brasil.

Diante de seu maior desafio, voltar à presidência desbancando seu autodeclarado arqui inimigo, que inclusive ganhou eleitores e a eleição com um discurso anti Lula, vai usar da experiência estratégica adquirida ao longo de décadas. Ele sabe que precisa de eleitores, mas reconhece que precisa, primeiro, de aliados.

E um de seus aliados de longa data está hoje em posição estratégica. Em vários frontes, diga-se de passagem. O senador Renan Calheiros, que demonstrou ser fiel ao ex-presidente na alegria e na tristeza, tanto quando foi aliado durante os dois mandatos presidenciais de Lula, como também declarando apoio em seu período de queda enquanto esteve preso na sede da Polícia Federal em Curitiba, agora assumiu um combate diferente, como relator da CPI da Pandemia do Covid-19.

Não é segredo pra ninguém que Calheiros está na CPI decidido a comprovar, legalmente, as culpas e falhas de Bolsonaro na condução do enfrentamento desastroso diante da pior crise enfrentada pelo Brasil nas últimas décadas. E essa determinação do senador alagoano converge com o planejamento de Lula.

Eis que, quase por acaso, Renan Calheiros pode ter outra solução pronta pra entregar à Lula, caso ele escolha realmente disputar a presidência em 2022 na condição de vice. Calma, o senador sabe que existem muitas variáveis envolvendo seu nome, portanto não seria ele o candidato a presidente. Mas foi ele quem, literalmente, criou um candidato em potencial, a ser apoiado por Lula ano que vem.

Renan Filho, governador de Alagoas, tem uma série de fatores que o favorecem nesse cenário.

Filho de um aliado inconteste, governador reeleito, ainda jovem, com um histórico de obras e programas sociais considerável, conseguiu acima de tudo uma proeza: por conta de projetos e planejamento realizados ainda em 2019 na saúde pública, antes de qualquer pessoa imaginar que haveria uma pandemia em 2020, chegou em 2021 como governador de um dos estados brasileiros com os melhores índices de enfrentamento ao coronavírus.

O fato por si só já seria admirável, mas é preciso considerar que Alagoas sempre figurou entre os estados mais pobres, mais desiguais, mais afligido por problemas crônicos, de décadas, principalmente quando o assunto é saúde pública.

E mesmo assim, estamos vendo Alagoas refrear o avanço da pandemia, ao ponto de ter inclusive cedido leitos de UTI e recebido pacientes em estado grave vindos de Manaus, quando o sistema de saúde pública da capital amazonense colapsou em janeiro deste ano.

Lula é o oponente óbvio e natural de Bolsonaro na eleição de 2022. Isso é um fato. Mas também é fato que Lula não é de se arriscar, prefere garantir. Se o petista “cismar das orelhas”, como dizemos em Alagoas, optando por garantias de ter quantos aliados puder, sem dar chance pra o atual presidente se reeleger, talvez olhe pro lado e veja Renan Calheiros, daí olhe pro outro e veja Renan Filho. Aí, TALVEZ, Lula dê um passo pro lado, bote Renan Filho no meio e diga “BORA PRA FRENTE, COMPANHEIRO, AGORA É HORA DE UM ALAGOANO PRESIDENTE COM UM VICE PERNAMBUCANO”.

Lula não é besta. Aprendeu a sobreviver. E sabe que, pra isso, tem que fazer concessões.

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Coluna sobre Política, Tecnologia

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