Filipe Valões
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A mira de Rodrigo Cunha continua a mesma?

Filipe Valões|

Rodrigo Cunha conseguiu uma proeza para poucos, em Alagoas. Ainda muito jovem, tornou-se referência de honestidade e combatividade. À frente do PROCON-AL, mostrou serviço atendendo as demandas dos consumidores, mirando em irregularidades, injustiças e outros abusos. Fez o certo, batendo no que é errado. 

E foi assim que conseguiu outra proeza, a eleição de senador em 2018, disputando com nomes já bem estabelecidos na política nacional. Rodrigo, portanto, é daqueles políticos que é tão forte quanto o “alvo” que escolhe para enfrentar, o que faz dele dependente de um oponente, seja um problema abstrato, seja uma pessoa. E agora, às vésperas da eleição de 2022, Rodrigo Cunha travou a mira em seu mais novo alvo, o também senador Renan Calheiros.

Calheiros, senador da República desde 1995, não é rival direto de Cunha, já que os dois só encerram seus mandatos atuais em 2027. Mas, por tabela, o pai do atual governador de Alagoas, Renan Filho, representa um grupo político que já está no páreo em 2022 pela cadeira do Palácio República dos Palmares. Rodrigo é um dos mais cotados na disputa, com chances reais de concorrer ao posto ocupado hoje por Renan Filho. Portanto, quem quer que seja apoiado pelos Calheiros, será o oponente automático de Cunha, caso ele realmente concorra.

O que poderia ser uma guerra fria ao longo dos próximos meses, já teve sua primeira salva de tiros verbais agora. Por conta da pandemia, dos números cada vez maiores de contágio e mortes, pelas diversas críticas e acusações contra o presidente Jair Bolsonaro na condução e gerenciamento dessa crise, foi criada a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia, na qual os senadores investigarão se há ou não culpa por parte do Governo Federal. E eis que o relator da CPI é nada mais, nada menos que Renan Calheiros. Crítico ferrenho do atual presidente da República, o senador encontra-se agora em uma posição tão decisiva que, pouco antes de ser sacramentado como relator, levou o próprio presidente Bolsonaro a ligar para o governador Renan Filho, buscando estabelecer alguma forma de diálogo, na esperança de desarmar os espíritos.

Para quem acompanha a política, conhece as atitudes de Bolsonaro, sua forma, digamos, desafiadora em relação aos demais políticos, significa MUITO vê-lo ligar para Renan Filho, querendo amenizar a atuação de Renan Calheiros. Há um temor genuíno da parte de Jair, de seus filhos parlamentares, dos seus aliados e base de apoio, diante da perspectiva de ter Calheiros investigando a gestão Federal da pandemia. E nesse cenário, Rodrigo Cunha tomou partido, criticando a própria escolha de Renan para a relatoria.

Tomou partido, em termos. Rodrigo tem revelado, desde 2018, uma capacidade surpreendente de se associar sem se comprometer. Esteve junto de políticos que pediram votos para Bolsonaro em 2018, mas não quis declarar voto direto ou apoio ao candidato do 17. Desde então, expressou opiniões e se posicionou meio lá, meio cá. Agora, se juntou aos esforços para rechaçar a ida de Calheiros para a relatoria da CPI, mas não se opôs ao objetivo da Comissão.

A análise mais apurada, pelo histórico da vida pública de Rodrigo Cunha, considerando também a possibilidade de concorrer ao cargo de governador de Alagoas em 2022, indica que o jovem senador aprendeu a escolher melhor suas lutas e seus oponentes, tanto pela aparência do “combate”, quanto pelo que pode obter ao final de um embate. Mirando em Calheiros, ele atinge todos os Calheiros e aliados, tenta minar um potencial grupo opositor, fica bem na fita com outro grupo, o que está empenhado em proteger o Palácio do Planalto, não se “queima” com o povo e, independente do resultado, mantém sua imagem de jovem combatendo o bom combate.

O senador Rodrigo Cunha permanece, portanto, buscando o alvo certo para as suas necessidades políticas. Será que vai continuar acertando?

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Coluna sobre Política, Tecnologia

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