Filipe Valões
Filipe Valões

A república das baratas tontas

Filipe Valões|

Em menos de uma semana, o governo federal fez mudanças em 6 ministérios, aparentemente por motivos diversos. O que seria um procedimento institucional normal, pode sinalizar algo incomum, mesmo em uma gestão marcada pela instabilidade. Seja atendendo pedidos de demissão, seja retirando quem discordou de Jair Bolsonaro, a presidência da República agiu em poucos dias como nunca fez antes. E uma saída em especial, do agora ex-ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, pode indicar mudanças ainda maiores nas próximas semanas.

A prioridade exigida pelo presidente Jair Bolsonaro aos seus subordinados não é nenhum segredo, ele quer concordância declarada, aquele tipo de situação onde não importa cumprir a atribuição e compromissos que competem a cada cargo, mas uma postura pública de apoio inquestionável, de curtir e compartilhar nas redes sociais aquilo que o presidente diz e defende. Agora, imagine só, um ministro ousar discordar ou divergir dele? 

E esse foi um dos motivos que levou o general Azevedo a ser retirado do cargo, de acordo com jornalistas que acompanham os bastidores do poder em Brasília. Ano passado, quando a pandemia se espalhou pelo Brasil e as primeiras recomendações de distanciamento social foram divulgadas, Bolsonaro manteve críticas duras contra esses cuidados e ao encontrar com o então ministro da Defesa Azevedo, estendeu a mão, ao que o general respondeu com o gesto de cumprimentar com o cotovelo. Se não foi o maior, foi o primeiro desencontro dos dois.

Desde então, outros episódios ocorreram, sempre revelando linhas de pensamento diferentes entre Jair e Fernando Azevedo. Agora, em se confirmando tudo que foi divulgado pela imprensa desde a saída de Azevedo do ministério da Defesa, a coisa foi além das divergências, alcançou um nível preocupante e que envolve toda a nação.

Por conta da insatisfação de grande parte da população, da postura da oposição ao presidente Bolsonaro, do cabo de guerra entre a presidência e vários governadores de estados, até mesmo pelo retorno de Luís Inácio Lula da Silva ao jogo político, Jair Bolsonaro tem se sentido pressionado. E, ao invés de tentar apaziguar os ânimos, teria partido pro acirramento. A possibilidade do governo Federal decretar Estado de Sítio se espalhou entre rumores e boatos.

Se onde há fumaça há fogo, de acordo com o ditado popular, alguma verdade existe nesse boato. A maior prova disso é que o general Fernando Azevedo e Silva teria entregue o comando do Ministério da Defesa por não aceitar a ideia de que o governo Federal instaurasse um estado de exceção, ainda mais em meio à uma pandemia.

Se um militar do mais alto comando rejeita a ideia de impor restrições desse porte à população e conferir ao presidente um aumento desproporcional em seus poderes, fica claro que estamos diante de um cenário indesejado por qualquer pessoa sensata.

E, enquanto, esse texto estava sendo redigido, os meios de comunicação informavam sobre a saída de TODOS os chefes das Forças Armadas do Brasil. Um evento sem precedentes na história recente da República.

A impressão que temos é de estarmos sem rumo, sem planejamento, sem a estabilidade necessária em dias normais e ainda mais indispensável em meio à maior crise global dos últimos 80 anos. Se nós estamos desorientados, é reflexo de um governo federal que tem agido com a organização e planejamento de um punhado de baratas tontas. Parafraseando o que os próprios bolsonaristas bradam, hoje só podemos dizer “Brasil precisando de tudo. Deus, tenha piedade de nós”.

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Coluna sobre Política, Tecnologia

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