Filipe Valões
Filipe Valões

Lula já começou a dar um jeito em Bolsonaro?

Filipe Valões|

É inegável o impacto do retorno de Luís Inácio Lula da Silva nas ações de Jair Bolsonaro. Em poucos dias vimos e ouvimos decisões do atual presidente que, até pouco tempo, seriam improváveis da parte dele. Se Lula e todos que o cercam na política foram essenciais para o discurso de Bolsonaro em 2018, validando a proposta de retirar o grupo político do poder, agora a situação se inverteu de forma surreal: é a volta de Lula ao jogo político que está direcionando pensamentos e atitudes de Bolsonaro.

Claro, a aparência superficial desse momento é de que a reação de Jair, de seus aliados e de seus eleitores à recuperação dos direitos políticos do petista se resumem ao antagonismo às propostas ideológicas “do outro lado”, mas chega a ser cômico  quando olhamos com mais atenção e vemos um nível quase religioso na revolta, eles enxergam nos seus oponentes figuras equivalentes ao demônio, o que talvez explique tudo que ocorreu nessa última semana.

Bolsonaro defendendo ações de isolamento social, vacinação, até mesmo usando máscara! Os bolsonaristas que se apoiavam no negacionismo de Jair para encontrar o que consideravam coragem, até mesmo hostilizando quem aderiu aos protocolos acima, agora estão desorientados, sem saber exatamente o que fazer. É pra fazer isolamento social ou não? Admitir que a vacina é necessária ou não? COLOCAR AQUELA MÁSCARA QUE O PRESIDENTE DESDENHAVA OU NÃO?

O presidente ficou tão, mas tão atordoado pelo retorno de seu arqui-inimigo que esqueceu dos compromisso assumidos com seus apoiadores. Só falta rejeitar a cloroquina. Enquanto isso não acontece, ele está ocupado com outra situação, claramente influenciada também pelo fantasma da eleição futura, usando camisa vermelha, com barba grisalha e a língua presa. A pancada foi tão forte que Bolsonaro trocou o ministro da saúde. Sim, ele, Pazuello, o militar cujo currículo destaca algum conhecimento em logística, mas que fez tudo, MENOS, exercer um controle logístico do ministério mais visado nessa crise. O presidente em momento algum, antes da decisão que deixou Lula livre das acusações, cogitou retirar Pazuello do cargo. Eis que de repente…

A primeira cotada, para o ministério, a cardiologista Ludhmilla Hajjar, declinou o convite alegando divergências entre o que acredita e o que o governo tem feito e pretende continuar fazendo contra o coronavírus. O novo ministro, Marcelo Queiroga, também cardiologista, assume com um discurso bem ao gosto de Bolsonaro, de que vai fazer o que seu mestre mandar.

Portanto, o que aparenta ser algo digno de riso, ver Jair Bolsonaro apavorado com Luís Inácio, contradizendo a si mesmo em atitudes e palavras, também mexendo no Ministério da Saúde no que está sendo um avanço sem precedentes do covid-19 no Brasil, na verdade é motivo de lágrimas para todos os brasileiros.

O homem responsável pelos destinos da nação não se comove com as mortes, como já deixou bem claro, nem sente a necessidade de agir com urgência e emergência contra o inimigo verdadeiro da população, o coronavírus. Mas se sente desesperado, toma decisões e faz mudanças contra seu “inimigo” pessoal, meramente temendo uma possível perda de poder, a não reeleição em 2022.

Os mais otimistas e menos envolvidos na polarização direita-esquerda poderiam até dizer que a presença de Lula teria um efeito positivo, de empurrar Bolsonaro, forçando-o a finalmente agir melhor, pra ganhar qualquer que seja essa disputa por popularidade que existe em sua cabeça. Mas é otimismo demais em um momento da maior gravidade.

A verdade é que, enquanto estamos lutando contra a pandemia, o homem que muitos brasileiros elegeram em 2018 está em outra luta, contra seu concorrente ao cargo na próxima eleição. Estamos por conta própria.

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Coluna sobre Política, Tecnologia

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