Filipe Valões
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Toque de recolher, uma bijuteria de gestor com eficácia zero

Filipe Valões|

Períodos de apreensão e incertezas, como este pelo qual passamos por conta da pandemia, não permitem desperdício de tempo. É preciso tomar decisões, implementar ações e realizar o que é necessário para o bem comum. Por isso, tem chamado a atenção um tipo de medida que levanta o questionamento da população. Qual o benefício de decretar toque de recolher nas cidades, em parte da noite e durante a madrugada? 

Todos vimos a popularização da palavra inglesa LOCKDOWN, que em nossa própria língua basicamente seria a quarentena, uma forma de reduzir a circulação de pessoas nas ruas ao estritamente essencial. Sair de casa, apenas para compra de alimentação ou medicamentos, inclusive com a fiscalização das forças de segurança. Essa medida extrema acarreta o fechamento de tudo, exceto supermercados (ou mercadinhos, na ausência dos estabelecimentos de grande porte) e farmácias, o que serviria para quebrar a corrente de transmissão formada pela grande quantidade de pessoas nas ruas em dias normais.

Uma decisão que não interessa nem agrada a ninguém, mas que é tomada diante da possibilidade de algo muito pior, no caso, o aumento nos casos de disseminação do Covid-19. Na maioria das cidades que adotou a quarentena, houve redução na transmissão do vírus. Mas, com o inevitável relaxamento nas regras, a reabertura de comércio, a movimentação de pessoas nas vias públicas e aparente retorno à normalidade, também voltam o descuido, os exageros e os números de contágio, internamento e mortes voltam a aumentar.

Eis que, para não provocar a revolta de parte da sociedade, mesmo diante de segundas e terceiras ondas do Covid-19 e suas variantes, os governos substituíram a quarentena ou lockdown de fato, por uma medida que pode se mostrar tão inócua quanto um desperdício de tempo valioso: o toque de recolher durante noite e madrugada.

Analisando superficialmente, vemos logo de cara que a decisão não atinge nem mesmo o problema em si que deveria enfrentar. Impedir a circulação de pessoas só faz sentido quando, obviamente, temos muitas pessoas circulando. E não é o caso desses horários. Seria cômico, não fosse trágico, termos de argumentar que é totalmente desproporcional o número de pessoas se deslocando durante o dia em relação aos que saem de noite e, mais ainda, de madrugada.

Quem seria impedido, pelo toque de recolher? Pessoas que sairiam de noite para bares, restaurantes e outros locais de lazer. Pra isso, não há necessidade dessa medida, bastaria incluir novamente os estabelecimentos na lista de locais impedidos de abrir suas portas durante um determinado período, como tem sido feito pelos decretos estaduais e municipais.

É desanimador imaginar que o toque de recolher é meramente uma medida “de fachada”, algo que os gestores sabem de antemão não ter eficácia alguma, mas que servem ao propósito de mostrar serviço, demonstrar que alguma coisa está sendo feita. Mesmo que não sirva pra nada, na prática.

Ao menos da forma como estamos vendo, quarentena ou lockdown seria algo valioso, enquanto o toque de recolher não passa de uma mera bijuteria.

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Coluna sobre Política, Tecnologia

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