O escritor,jornalista,pesquisador carioca Vagner Fernandes escreve:


Emicida fez um vídeo e publicou no Twitter, onde tem cerca de 1,5 milhão de seguidores. Ele diz que não irá e não se deve ir para as ruas neste domingo, em um momento de pandemia, porque isso seria fazer o jogo de um Estado que se pauta pela necropolítica. Ou seja, pretos e favelados aglomerados numa manifestação aumentam a possibilidade de transmissão do corovírus e, consequentemente, do número de mortes nas comunidades, sobretudo. Pela visão de Emicida, portanto, a população negra dos Estados Unidos não deveria estar nas ruas. Lá, a morte de UM homem negro desencadeou toda essa onda de protestos que testemunhamos. Aqui, as mortes consecutivas de crianças negras nos últimos dias (sim, nos últimos dias) não leva o Estado a responsabilizar absolutamente ninguém. Nem no exame de balística, que atestaria de quais armas teriam partido os projéteis que ceifaram a vida de João Pedro, podemos confiar. Deu inconclusivo. É um escárnio. A morte de pretos se tornou banal no Brasil. Disso, todos sabemos. Vai para a estatística. Chegou-se ao limite. Se esse limite tem como inspiração os protestos antirracistas nos Estados Unidos, cabe aos especialistas avaliarem. O que observo, na convivência com os territórios periféricos, é que morrer de coronavírus tornou-se questão secundária para uma população que não acredita mais em um Estado homicida e excludente, que mata todos os dias jovens, pretos e sonhos. Acho complicado ir para as ruas neste momento de calamidade pública? Acho. Mas não condenarei quem o fizer. Para os que não têm perspectiva de vida, o risco de se contrair coronavírus é nada diante da certeza da morte por uma vida indigna, que lhes é ofertada por nossa sociedade secularmente escravagista, na qual a casa grande faz a unha, enquanto o filho da empregada cai do nono andar porque a mãe passeava com o cachorro da sinhá moça. O melhor e mais importante da democracia é que também podemos (e devemos) divergir de nossos pares.


Fonte: Facebook do Vagner Fernandes