Jair Bolsonaro é um caso perdido. Não de hoje. Não porque tenha, agora e mais uma vez, exposto as tripas de seu autoritarismo em praça pública. Bolsonaro é esse lixo desde os tempos do Exército, um mau militar que foi, como provam documentos oficiais. A tragédia, para o Brasil, é que esse lixo virou presidente da República. No último domingo, ele cruzou mais uma divisa na sua delinquente aventura de afrontar as instituições e a democracia. Falando na manifestação armada para seu gado, ele ameaçou os outros dois Poderes.

Ligado a milícias cariocas, o capitão da tortura insinuou que não vai mais respeitar eventuais decisões do Supremo Tribunal Federal. “Acabou a paciência. Chegamos no limite. Não tem mais conversa”. Com esses relinchos, Bolsonaro partiu pra cima do Congresso e de ministros do STF, de novo em agressão aberta ao Legislativo e ao Judiciário. É também a velha tática de apostar no caos.

Vendo as imagens do presidente miliciano na ultrajante papagaiada de fanáticos apoiadores, resta uma dúvida atroz: de um lado e outro daquele cercado na frente do Palácio do Planalto, não sei quem é mais doente – se Bolsonaro, se a plateia. É um páreo difícil, um dilema dos mais cavernosos, uma escolha bastante temerária. Eles se completam numa iniquidade inquietantemente orgulhosa.

Os bolsonarianos legítimos, os de raiz, exibem um tremendo orgulho ao exercer sua beligerante boçalidade. Há sempre um estímulo à violência nessas manifestações. Bolsonaro, na condição de chefe da gang, de líder da seita, parece reunir – em seus modos, hábitos e ideias – uma síntese de todas as depravações que vê em seus fiéis. Na cerca diante do palácio, um lado é o espelho do outro.

A turma do meliante que desonra o cargo de presidente do país é a ponta final de um extremismo que prega até o extermínio do adversário político. Essa corja defende nada menos que a volta do AI-5 – ou seja, a volta da tortura e do assassinato como políticas de Estado. Isso não decorre de divergências ideológicas. É apenas abjeto, além de caracterizar um crime hediondo.

No ato infame do domingo, enquanto insuflava os perigosos debiloides que pediam o fechamento do STF e do Congresso, Bolsonaro reconheceu um artista que ele admira. Era Paulo Cintura (foto), um dos tantos tipos que, décadas atrás, estavam na Escolinha do Professor Raimundo, do gênio Chico Anysio. Paulo Cintura é, pois, a criatura que se apossou da alma do ator Paulo Cesar Rocha.

Sem querer superestimar o caso Cintura, gastarei mais algumas linhas e algumas palavras com ele. Já havia trombado com notícias sobre o humorista. Vive reclamando da Globo e, em entrevistas, ensaia reivindicar algum reconhecimento e mesmo compensação material por seu “imortal” papel na TV. Isso é apenas sinal de desajuste mental. Além do mais, Paulo Cintura não tinha graça nenhuma.

Bolsonaro se identifica com Paulo Cintura. Na patuscada domingueira, o personagem faz um trocadilho com sua fala na Escolinha. O original “saúde é o que interessa” virou “Bolsonaro é o que interessa”! É idiota e violento, a síntese de tudo nos movimentos do capitão: golpista, autocrático, inimigo da democracia. É Bolsonaro – devastado e resumido numa piada, num bordão de comédia.

Horas depois de sua mais nova demonstração de desprezo pelos valores democráticos, Jair Messias foi alvo de umas trinta notas de repúdio. De todos os lados vieram as reações – da OAB a entidades que representam a imprensa brasileira. Mas a afronta de Bolsonaro à Constituição, às leis e ao Brasil vai ficar por aí até quando? Notas, palavras, retórica... É urgente uma resposta definitiva.

É o que defendem setores na política, na imprensa e nas instituições. Rumo ao impeachment. Mas os doentes da cachola e do caráter continuarão nas ruas pregando ditadura com Bolsonaro. São os dois caminhos que existem agora. De uma coisa tenho certeza: a crise política vai se aprofundar.   

Enquanto o impedimento não vem – ou enquanto Jair não detona o golpe como pretende –, o circo vai pegando fogo. O problema é que estamos debaixo da mesma lona. Fazer o quê? Só me ocorre o seguinte: é defender a democracia e varrer esse lixo, esse pulha que chefia um governo avacalhado.