Tempo, tempo, tempo, sempre é o senhor razão, inclusive e especialmente na política. Pois bem, o PSDB comandado pelo senador Aécio Neves definitivamente sentiu que o pirulito presidencial foi perdido no sufrágio eleitoral do ano passado e que a tese do quanto pior melhor para afastar a presidente Dilma naufragou.

Pelo menos no jogo de aliança com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), enroladíssimo com seus depósitos suspeitos na Suíça. Cunha, agora, não se vê mais. Mais do que isso, os tucanos deixaram passar a oportunidade de votarem questões que recuperariam a economia. Optaram pelas pautas bombas para enfraquecerem o governo.

Sai dessa pendenga com a imagem arranhada. Primeiro, pela aliança golpista com Cunha, segundo, porque tiveram a chance de ação propositiva e não a fizeram. Pelo contrário, até nas questões referentes à estabilidade fiscal defendida pela sigla os parlamentares votaram contra. Isso terá um preço na próxima eleição presidencial.

Para Aécio e seus aliados recuarem no jogo perverso contra a economia, foram necessários diversos “pitos” de empresários e veículos de comunicação. Foi infantil o partido acreditar no vale tudo para minar e derrubar o governo Dilma sem respeita prazos, a Constituição, enfim. Acabou perdendo credibilidade.

Menos mal. A sigla já anunciou que não vai apoiar as pautas-bomba no Congresso e que vai votar nos temas que promovam estabilidade fiscal, com exceção da volta da CPMF. Além disso, formalmente anunciou o rompimento com o ex-querido aliado Eduardo Cunha.

Enfim, chamado à razão pela elite midiática, econômica e empresarial o PSDB vai seguir um novo caminho. Ufa!

Leia abaixo o que escreveu Merval Pereira, do O Globo:

De volta ao começo

POR MERVAL PEREIRA

O PSDB parece que voltou a fazer política de maneira mais conseqüente. Passada a fase de buscar a qualquer custo apressar o impeachment, agora vai retomar o seu caminho natural.

O rompimento com Eduardo Cunha e a negociação para pontos importantes do ajuste fiscal fazem parte dessa nova postura de oposição consciente. Ser a favor do impeachment da presidente Dilma - e há motivos claros para isso -  não significa que se deva trabalhar para inviabilizar seu governo naquilo que concerne a questões do Estado brasileiro.

Aprovar a DRU (Desvinculação de Receitas da União), instrumento fundamental para o governo ter margem de manobra dentro do Orçamento, e que foi criado pelo próprio PSDB para contornar a rigidez das verbas vinculadas, é perfeitamente aceitável. Aprovar a volta da CPMF, não. 

O PSDB errou muito ao jogar todas as suas fichas no impeachment e, mais que isso, apostar que poderia encontrar atalhos para chegar a ele sem respeitar os prazos, pulando etapas.

Pressionado pelos movimentos de rua, os jovens deputados do PSDB – eles chamam “cabeças negras” contra “cabeças brancas” – foram muito afoitos achando que poderiam apressar o processo de impeachment da presidente Dilma, não entendendo que com isso estavam dando condições ao governo de denunciar um golpe. 

Não há golpe por que o instrumento democrático está previsto na Constituição, mas a partir do momento em que se quer encontrar caminhos mais curtos para chegar ao impeachment e para isso se conta com o apoio de um político como o Eduardo Cunha, completamente desacreditado mesmo antes de aparecerem as provas das contas ilegais na Suíça, é claramente um equívoco político.

Estava evidente desde o início que não valia a pena se aproximar tão efusivamente de Cunha, mesmo para alcançar um objetivo político maior, que é o afastamento da presidente Dilma.

 

Pouparam Eduardo Cunha imaginando que através dele poderiam chegar ao impeachment, e agora entenderam  que ele apenas faz chantagem com o governo e com a oposição para tudo ficar como sempre esteve, enquanto ele tiver esse poder na mão, está garantido.

Até agora, quem se salvou foi só ele, e, em conseqüência, a presidente Dilma. Na sua atuação oposicionista, o PSDB fez um trabalho retórico correto. Não houve uma decisão do governo que merecesse crítica que não recebesse do presidente do partido, senador Aécio Neves, a devida contestação, em notas oficiais, entrevistas coletivas ou discursos no Senado.

A atuação parlamentar do PSDB melhorou muito de intensidade e qualidade neste ano, tanto no Senado quanto na Câmara. Mas errou na questão propositiva. A proposta de governo apresentada pelo PMDB, elaborada pelo Instituto Ulysses Guimarães, é uma peça muito bem feita que deveria ter sido produzida pelo PSDB, que teoricamente tem mais condições estruturais para apresentar à sociedade propostas alternativas, e está na oposição, ao contrário do PMDB, que é governo.

Mas foi o PMDB que saiu na frente, graças a um trabalho coordenado pelo presidente da Fundação Ulysses Guimarães ex-ministro Moreira Franco. A tarefa da oposição é essa, apresentar alternativas ao governo que critica, e não ficar apenas pensando no fim do governo.

No afã de encurtar o mandato de Dilma, o PSDB ajudou a aprovar medidas que são verdadeiras bombas no orçamento do país, medidas que os tucanos não podiam apoiar, como o fim do fator previdenciário. O paradoxo é evidente: enquanto o PSDB apoiou o fim do fator previdenciário, o PMDB em seu documento faz a proposta de idade mínima para aposentadoria.

Todo o conjunto de ações para minar o governo da presidente Dilma acabou minando também a credibilidade do PSDB. Agora, o maior partido da oposição que aparece em todas as pesquisas como o favorito para eleger o próximo presidente da República, tem que refazer seu caminho, começar tudo de novo.