Uma entrevista histórica, esta é a única definição para o que aconteceu na noite de hoje (12/12) no programa Dossiê , do canal por assinatura Globo News, quando o ex-presidente e atual senador Fernando Collor falou pela primeira vez ao repórter Genetton Neto sobre o processo que sofreu há 20 anos atrás de impeachment da presidência do Brasil
“Sei que as palavras do meu irmão Pedro Collor foram determinantes para que eu perdesse meu mandato, conquistado com 35 milhões de votos” disse um surpreendente Collor
O ex-presidente explicou ainda que percebeu que perdeu a presidência quando em um evento que segundo ele beneficiava vários taxistas, pediu que todos vestissem verde amarelo e não foi atendido pela população.
“Eu me arrependi daquela declaração, pois antecipei uma situação em que achava ou me afirmaria nas ruas ou seria abandonado , quando soube uma semana depois, que as pessoas estavam vestidas de preto e não de verde amarelo, percebi que tudo estava perdido, este foi o grande erro político daquele momento”
Collor ainda completou “Eu achava que tinha ainda a força popular, mas ali eu vi que a tinha perdido . No auge da crise recebi a proposta de fechar o Congresso Nacional e outra de soltar os dossiês sobre os deputados que me acusavam. Estas eram as mais singelas sugestões que me chegavam, e eu sempre disse que era o primeiro presidente eleito pelo povo e que não podia trair minhas convicções”
O repórter perguntou ainda se tinha passado pela cabeça dele a dissolução do Congresso, e ele respondeu. “Eu jogo duro, sou um jogador que joga pesado, mas sempre obedecendo às regras do jogo” explicou Collor.
Collor falou sobre o momento em que a Câmara dos Deputados votava o seu impeachment e revelou que estava só no seu gabinete porque assim se sentia.
“Eu fiquei só no meu gabinete, com aquele silêncio esperando a decisão da Câmara, quando ouvi um pipocar de fogos, de carros passando pelo Plenário, foi assim que acompanhei aquele momento”
Collor disse ainda que um turbilhão de coisas passou pela sua cabeça no momento em que ele saiu do Palácio. “Estava tudo muito confuso, e decidi não falar no momento em que saí para não incorrer no mesmo erro que cometi no discurso dos taxistas. Naquele momento eu ainda acreditava que voltaria a presidência”.
O ex-presidente disse que permitiu que sua saída fosse transmitida pela TV porque aquilo foi uma farsa, uma pantomima, um jogo sujo. “Aquela foi uma ação que demonstrou a fragilidade da democracia, e quão são frágeis nossas instituições, isto mostrou o quanto alguns daqueles personagens, não tinham força moral e me criticavam por algum espaço na TV."
O trajeto da saída
Collor revelou ainda que no trajeto de sua saída havia muitas pessoas que o estavam xingando, e uma só que o estava aplaudindo, ele disse que foi na direção de um que o havia xingado, e ele fugiu, e depois foi na direção do único que o tinha aplaudido e o cumprimentou.
Em uma das mais impressionantes revelações, ele falou que foi em um jantar com senadores que supostamente o apoiariam e disse. “Ali eu tinha um número suficiente de senadores para impedir minha saída, mas percebi que não podia acreditar naquelas pessoas, e então renunciei ao cargo"
Collor continuou surpreendendo e confirmou que gravou uma fita onde justificaria seu suicídio. “A fita até hoje está gravada”,Geneton perguntou “Depois de gravada o senhor voltou a ouvir” e Collor respondeu “Não”.
Sobras de campanha e o bloqueio da poupança
As revelações na entrevista não pararam por aí e Collor falou abertamente que cerca de R$ 50 milhões de dólares sobraram da campanha, e que este dinheiro que era administrado pelo seu tesoureiro PC Farias foi usado na campanha de 1990, para a eleição dos aliados do seu governo.
Collor falou ainda do bloqueio da Caderneta de Poupança que afetou milhões de brasileiros, e revelou que foi em uma conversa com Mario Henrique Simonsen, André Lara de Resende e surpreendentemente Daniel Dantas, que decidiu fazer a ação de bloqueio.
“Eu precisava dar um Ippon na situação, e os economistas diziam que isto poderia ser politicamente difícil, mas era o ideal. Aquilo me marcou, pois eu sabia que era inviável ,no primeiro momento eu não queria atingir a poupança,mas por conta da movimentação do Mercado eu tive que fazer o bloqueio total dos ativos” explicou.
O ex-presidente disse ainda que se o atual presidente Lula tivesse sido eleito naquele momento, faria a mesma coisa.
A grande crítica
Geneton finalizou a entrevista com Collor perguntando qual a maior crítica que faria a ele mesmo, tendo 20 anos de distância entre o que aconteceu em 1989.
“O meu grande erro foi não ter me importado em fazer uma base sólida no Congresso Nacional, ninguém governa sem o Congresso. Ninguém”.
Collor revelou ainda que escreveu um livro-bomba sobre o episódio de seu impeachment, e que ele abalaria as estruturas políticas brasileiras, mas após alguns conselhos decidiu não publicar.
Videos abaixo:
Matéria sobre os cara-pintadas, fazendo um resumo da crise
Matéria com a posse de Collor em 1990
Momento da saíde de Collor após seu impeachement
