Blog do Eduardo Bomfim

Vai passar

  • 08/10/2020 11:34
  • Blog do Eduardo Bomfim
Foto: Internet
Vai passar

Nós vivemos uma época ancorada em um pântano onde o que mais viceja é o sectarismo mais infantil, a intolerância mais irreconciliável, o ódio mais descontrolado.

A pós-verdade dispensa o contínuo Histórico, despreza a cultura, erudita ou popular, e o tal do “novo”, tão apregoado pelos aproveitadores de sempre, transformou-se em relativismo absoluto.

Cada semana surge uma nova interpretação de tudo e qualquer coisa, logo substituída por outras novas interpretações, e assim sucessivamente. De tal maneira que, como disse o escritor, “tudo o que é sólido se desmancha no ar”.

Os pensadores atuais são atores e atrizes da grande mídia, personagens do show business, e os filósofos atuais encontram-se quase que diariamente em programas de TV a cabo a deitar “teses” que são mais de autoajuda que propriamente tentativas de interpretações sobre as contradições profundas do mundo contemporâneo.

No vácuo, proposital, da incontornável vida política, que vive sob contínua chibatada dos seus inimigos, cuja fixação é mesmo o seu assassinato, artistas e cantores transformaram-se em líderes e teóricos dos rumos a serem seguidos por extratos médios.

Sem referências do passado, ausência de reflexões razoavelmente bem sustentadas sobre o presente, vive-se um presente contínuo, como em uma roda gigante dos parques de diversão, subindo e descendo sobre o mesmo eixo, passando sempre pelo caminho inicial.

O ativismo político é substituído, quase sempre, pela histeria política, especialmente nas redes sociais, que faz uma ponte com as notícias da grande mídia hegemônica, e se retroalimentam continuamente.

Ser cristão ou ateu, deixou de se caracterizar como uma opção de fé teológica, ou reflexão sobre a condição humana e sua finitude, transformou-se em uma cruzada radical, coletiva, de uns contra os outros. Cada um carregando a sua fé, ou ausência dela, como se fossem medalhas no peito, conquistadas em batalhas sangrentas contra inimigos mortais.

Pensa-se em tudo, menos nos rumos do Brasil, seus dramas, imensas possibilidades, e superações urgentes.

A pandemia do corona vírus mais parece uma catarse de um mundo em crise, onde as soluções de saúde, médicas, contra o vírus, transformaram-se em uma batalha ideológica, como se houvesse vacinas ou antivirais de esquerda, centro ou direita. O que existe são remédios, eficazes ou não.

Como sabem, não sou, nunca fui, nem serei bolsonarista, mas o problema do Brasil é maior que os descaminhos do governo federal, em quase todos os níveis de governabilidade.

Trata-se da doença “espiritual” de vocação autoritária em quase todos os extratos ideológicos, inclusive em parte da sociedade mais esclarecida, enquanto as grandes maiorias sociais, alheias a tudo isso, perambulam pelas ruas na busca da dura sobrevivência, em meio a uma crise sanitária, econômica, social, carregando, ainda por cima, os males estruturais, históricos do Brasil.

Apesar disso, contornam-se as buscas das soluções concretas, através de uma tempestade de falsos ideologismos, incessantes, discute-se uma realidade paralela. Ou como me escreveu o amigo jornalista Ênio Lins: a pós-verdade é pseudoverdade, talvez sem exceções.

No mesmo rumo, lembro a frase do velho amigo Plínio Lins: a boa mídia, a boa imprensa, é o único respiradouro, ao lado da arte, como forma eficaz de juntar inteligência e beleza. Lutemos por elas portanto.

As soluções para as crises, pequenas ou grandes, como a atual, sempre surgiram através da via política, na concertações de consensos, de amplas unidades.

Até nas guerras, porque como afirmou o grande teórico dessa matéria extrema: a guerra é a continuação da política, por outras vias.

Nesse caldeirão sectário que estamos vivendo, creio fundamental a primazia da vida democrática para a solução dos trágicos problemas nacionais. E nessa vida democrática, as eleições, como a que estamos exercendo na excepcionalidade dessa pandemia sanitária.

Porque sem democracia e eleições quem vai decidir os nossos destinos são os caudilhos, os ditadores, ou os loucos predestinados pela fixação do poder.

O que me lembra dos tristes déspotas latino-americanos, que narrou Gabriel Garcia Márquez, como o paraguaio que cismou de combater uma epidemia de sarampo que assolava o País irmão, cobrindo os postes de rua com papel celofane vermelho.

Ou o caudilho de El Salvador, que após uma sangrenta batalha pelo poder, da qual saiu vitorioso, promoveu uma magnífica e babilônica festa de três dias e três noites, para enterrar a sua própria perna, perdida em combate.

A pandemia do corona vírus vai passar, como tantas outras que viveu a humanidade, assim também esses tempos desorientados, como outros que já se foram.

E a democracia, as eleições, são bem melhores que a insanidade dos ditadores. Portanto, vamos pelejar por elas, para o nosso próprio bem e do País. E quem puder, mantenha o isolamento social, até a vacina, porque o bicho é brabo.

O dilema das eleições dos EUA

  • 06/10/2020 15:03
  • Blog do Eduardo Bomfim
Reprodução
Donald Trump e Joe Biden

Por Lorenzo Carrasco, publicado na revista Resenha Estratégica

 

As próximas eleições nos Estados Unidos não têm paralelo na história daquela nação e, devido à sua singular importância estratégica, também representam um dilema para a situação mundial. Não é a democracia que está em perigo, devido ao embate interno que muitos analistas veem como indício de uma nova guerra civil com características raciais ou identitárias. Não se trata do velho conflito entre conservadores e liberais (termo que, nos EUA, remete aos grupos considerados mais "à esquerda"), embora o Establishment esteja profundamente dividido. Poderá haver confrontos mais sérios, que remetam o processo eleitoral às instâncias judiciárias de uma forma extremada, mas eles não refletem os aspectos internos que constituem a característica fundamental do atual pleito eleitoral, por mais dramática que possa parecer a situação interna do país.

 

A realidade é que, no futuro imediato, o mundo experimentará transformações extraordinárias na história humana, de uma forma ou de outra. A pandemia de Covid-19, que paralisou o mundo neste fatídico ano de 2020, evidenciou e agravou sobremaneira os problemas de desigualdade econômica e social que levaram grande parte da população humana a níveis de pobreza extrema, enquanto os grandes interesses econômicos e financeiros acentuaram o inusitado acúmulo de riquezas de que têm desfrutado nas últimas décadas, promovendo um aumento da desigualdade e das injustiças sociais que clama aos céus.

 

Nos EUA, um momento que poderia ser relativamente comparado  ao atual é o do assassinato do presidente Jonh F. Kennedy, em 22 de novembro de 1963, um autêntico golpe de estado "American style". Este trágico acontecimento assinalou  a consolidação do domínio hegemônico na política estadunidense do chamado "complexo industrial-militar", assim batizado pelo antecessor de Kennedy, Dwight D. Eisenhower, com uma agenda que estendeu a Guerra Fria por quase três décadas a mais e pavimentou o caminho para a hegemonia financeira de Wall Street, com a destruição do sistema Breton Woods em 1971, pelas mãos do presidente Richard Nixon.

 

Esses eventos criaram as condições para a criação de uma série de bolhas financeiras impostas não só à própria economia estadunidense, mas a virtualmente todo o planeta, processo que culminou na atual "globalização financeira". Esta, por sua vez, vive claramente os seus estertores, devido à impossibilidade de sustentação dos colossais volumes de dívidas nacionais e privadas, seja pela capacidade física das economias nacionais ou por mirabolantes manobras financeiras de injeções de dinheiro "criado do nada" no sistema financeiro (as famigeradas "facilitações qualitativas"), como as realizadas em 2008 para evitar o colapso do sistema financeiro "globalizado". Mecanismos que funcionam como injeções de drogas para sustentar a "adicção" crescente do sistema financeiro com as transações especulativas desconectadas da economia real, artifícios possibilitados apenas pela posição privilegiada do dólar estadunidense como moeda de referência mundial.

 

Sob outras condições, o enorme poder militar hegemônico dos Estados Unidos - na verdade, a garantia última do dólar - poderia impor um sistema compulsório de aceitação de uma ordem semelhante à da Alemanha de Weimar, na década de 1920, fruto da imposição das potências vitoriosas da Primeira Guerra Mundial, sob Taís condições de austeridade que levaram aquela nação ao nazismo e à Segunda Guerra Mundial.

 

Nós círculos mais altos do poder hegemônico global, esse tipo de alucinação radical pode estar sendo considerada,  mas é aqui que entram em cena as peculiaridades do atual momento histórico. Nos próximos anos, os Estados Unidos tendem a perder para a China a condição de maior economia do mundo. E, em termos estratégicos e tecnológicos também já não têm condições de impor uma supremacia militar a potências como a Rússia e a China.

 

Isso significa que os dias da hegemonia estadunidense estão contados, sem que isto signifique o surgimento de um novo poder hegemônico global, em termos econômicos ou militares. E é aí que reside a característica fundamental do embate eleitoral de novembro próximo: de que forma os Estados Unidos enfrentarão essa realidade? De que forma essa, sem dúvida, grande nação se inserirá no contexto de uma nova ordem mundial cooperativa, na qual a igualdade do direito das nações ao pleno desenvolvimento econômico e social deve ser o imperativo da coexistência global?

 

Quanto aos dois lados da disputa pela Casa Branca, o presidente Donald Trump, apesar de crítico da descaracterização econômica estadunidense e do envolvimento permanente do país em conflitos externos, não deixa de ser um representante do "excepcionalismo" estadunidense, que está na raiz dos seus embates  crescentes com a China, a Rússia e o Irã.

 

Por sua vez, o ex-vice-presidente Joe Biden e a senadora Kamala Harris, a despeito da "torcida" despertada entre setores ditos progressistas internos e externos, que não conseguem enxergar além das agendas identitárias, estão alinhados com a visão neomalthusiana da "Grande Retomada" proposta pelas elites econômicas globais reunidas no Fórum Econômico Mundial, sem que haja, ademais, qualquer indicação de que se disponham a contrariar a orientação belicista favorecida pelo Establishment. Ou seja, as diferenças com Trump são menos de estilo do que de conteúdo.

 

E devemos ter claro que essa característica do momento histórico é válida globalmente e abre uma questão adicional: como pode ser aplicada à  situação atual a chamada "armadilha de Tucídides"? O conceito, como se sabe, foi formulado em 2015 pelo cientista político estadunidense Graham Allisson, para explicar a dinâmica histórica de confronto entre uma potência hegemônica em declínio e uma potência ascendente, tomando como exemplo o embate entre Atenas e Esparta na Guerra do Peloponeso, descrito pelo historiador grego.

 

É evidente que, devido aos arsenais nucleares, um confronto dessa natureza só poderia levar à destruição da civilização. Por isso, é melhor pensar que a "armadilha de Tucídides" não se aplica mais à história humana - pelo menos, se humanos estiverem conduzindo o processo.

Aleijadinho - Bonifácio

  • 03/09/2020 13:48
  • Blog do Eduardo Bomfim

A Seção Brasilidades do Portal Bonifácio comemora, neste 29 de agosto, o aniversário de 290 anos do nascimento de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730), nascido em Vila Rica, atual Ouro Preto, Minas Gerais. Mulato, o mais célebre escultor brasileiro, o Michelângelo do Barroco, era filho natural do arquiteto português Manuel Francisco Lisboa e de sua escrava africana Isabel. 

Suas obras mais célebres são os 12 profetas, esculturas em pedra-sabão localizadas no santuário do Bom Jesus de Matozinhos no município mineiro de Congonhas. Por ocasião da comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil suas obras foram expostas em Paris, quando receberam mais de 300 mil visitantes.

A privatização branca das estatais

  • 24/08/2020 20:41
  • Blog do Eduardo Bomfim
Reprodução

Os privatistas ideológicos, desde a primeira onda de privatizações da Era FHC, tinham a meta de vender as estatais como empresas integradas e parte de um Plano econômico mais amplo, o Plano Real. As operações foram executadas pelo BNDES com modelagens estruturadas por consultorias especializadas e avaliações por especialistas internacionais.

 A venda das empresas integradas e como empresas permitiu ao Governo capturar o VALOR DO CONTROLE que é muito maior que a simples soma dos ativos.

O maior valor da PETROBRAS é o mercado que ela controla, o 3º do mundo em combustíveis, vendendo só ativos perde-se o VALOR DE MERCADO, muito maior que o valor dos ativos físicos vendidos separadamente porque aí não se cobra o valor do mercado que os ativos suprem, como no caso das refinarias em cada região.

Hoje os privatistas descobriram um método muito mais fácil e lucrativo para o mercado do que vender estatais como empresas: É VENDER OS ATIVOS DAS ESTATAIS SEM AS DÍVIDAS.

OS ATIVOS ESTÃO SUBAVALIADOS

Veja-se o caso das refinarias da PETROBRAS. Quando foram construídas nos anos 50, 60 e 70 os terrenos onde foram erguidas eram de pouco valor, áreas longe dos centros, caso das refinarias mais antigas como Cubatão, Duque de Caxias e Paulínia. As refinarias como estruturas produtivas não são obsoletas, ELAS ESTÃO SENDO DEIXADAS OBSOLETAS, DE PROPÓSITO  enquanto os governos não investiram na modernização das estruturas produtivas, preferindo importar combustível refinado dos EUA, a alto preço e gastando divisas.

Os terrenos onde elas foram erguidas hoje são valiosos para empreendimentos imobiliários, enquanto as estruturas produtivas DE PROPÓSITO não foram modernizadas, como ocorre nos EUA, Canadá e Europa, onde as grandes refinarias são MAIS ANTIGAS do que as 11 pioneiras da PETROBRAS, mas nunca foram abandonadas de propósito como se fez no Brasil desde a Era FHC com Presidentes da PETROBRAS que não entendiam nada de petróleo, eram todos do mercado financeiro, como Henri Reichstul e Francisco Gros.  A trajetória continuou com Pedro Parente e agora um Castelo Branco do mercado financeiro.

 
PETRÓLEO é um setor MUNDIALMENTE dirigido por engenheiros de petróleo, tanto nas grandes companhias privadas como Exxon, Chevron, Royal Dutch Shell, Total, como nas 13 estatais que dominam o  setor mundialmente,  das 20 maiores petroleiras mundiais, 13 são estatais, dirigidas por executivos do setor de petróleo. Só o Brasil desde 1995 usa executivos do mercado financeiro para atuar em um setor ultra especializado, sensível, que exige conhecimentos técnicos profundos. Ao colocar executivos do mercado financeiro na estatal petrolífera, o único alvo desses executivos é PRIVATIZAR porque eles não entendem nada do setor, mas entendem de vender ativos, então eles se concentram nisso.

VENDA DE ATIVO NÃO CARREGA DÍVIDAS

Ao comprar uma empresa estatal o comprador leva consigo os ATIVOS e as DÍVIDAS, ele fica com o patrimônio, mas precisa pagar as dívidas dessa empresa. MAS quando ele compra só ativos, como as refinarias da PETROBRAS, ele se livra das dívidas, fica só com o patrimônio limpo, as DÍVIDAS ficam na estatal e ao fim ficarão com o ESTADO, portanto será muito melhor para esse comprador a fórmula de comprar só ATIVOS, que é o método do atual Governo, VENDER OS ATIVOS, AS DÍVIDAS FICAM COM A UNIÃO, quer dizer, com o povo brasileiro.

Ao fim a privatização branca é ainda melhor que a privatização da estatal inteira com ativos e passivos e isso foi PERMITIDO PELO STF em decisão absurda, fruto do desconhecimento do que estavam fazendo ao permitir essa venda de ativos SEM LICITAÇÃO, quer dizer, a direção da estatal pode vender a quem quiser, pelo preço que quiser, nas condições que quiser, sem transparência e sem explicações, BASTA CRIAR UMA SUBSIDIÁRIA, COLOCAR OS ATIVOS NELA, SEM DÍVIDAS e vendê-la sem precisar dar explicações a ninguém, nem ao Governo, nem ao Judiciário, ao Tribunal de Contas da União e muito menos ao Congresso. Como é que permitiram isso?

Há mais um fator, as refinarias no balanço da PETROBRAS estão com seu valor de balanço muito baixo por causa da DEPRECIAÇÃO contábil que pode levar o preço do ativo a zero após décadas do investimento sem modernização, permitindo uma venda legal a custo baixíssimo por causa do baixo valor contábil desses ativos já depreciados legalmente.

JÁ ESTÃO VENDENDO OS ATIVOS DA PETROBRAS

A atual administração da empresa já tem sua marca de prepotência, ignorância e arrogância. O Presidente NÃO é do setor de petróleo, é colega de mercado financeiro do Ministro da Economia. JÁ  FOI VENDIDO o maior  DUTO de petróleo do Brasil, que vem do Norte ao Sul, a uma multinacional francesa, a famosa ENGIE,  subidiária do antigo Grupo SUEZ, em cuja origem e DNA está a Compagnie Universelle du Canal Maritime de Suez, a companhia do canal de Suez, depois de nacionalizada por Nasser em 1956.  Ela se fundiu com outro símbolo do colonialismo francês, LA BANQUE DE L´INDOCHINE, e dessa fusão nasceu o grupo que depois assumiu a belga TRACTEBEL, também dos tempos coloniais em que implantou os bondes no Cairo e em Alexandria no Egito.

O grupo ENGIE, braço de energia do megagrupo SUEZ é ultra experiente no jogo geopolítico de compra de ativos em qualquer situação e regime. Eles sobreviveram a duas guerras mundiais, a nacionalizações no mundo árabe e asiático e são os harpagões do capitalismo predatório. Sabem tudo e são especialistas em situações como o desmonte das estatais brasileiras, que foram as grandes autoras do desenvolvimento do Brasil nos anos 50 a 80.  Do mesmo grupo, é a grife TRACTEBEL que comprou a subsidiária da Eletrobras, ELETROSUL, com ótimas usinas no Sul do País. Eles são profissionais em escolher bons ativos.

VENDA DE CRÉDITOS DO BANCO DO BRASIL

Foi realizada muito recentemente uma venda de créditos do BANCO DO BRASIL no valor de R$3 bilhões para o banco de negócios BTG PACTUAL por R$300 milhões, quer dizer, por 10% do valor dos créditos. Com que critérios, avaliação, interesse do Banco do Brasil, NINGUÉM SABE, transação esquisita, ABSURDA, sem lógica, porque o BB vendeu e porque o BTG comprou?  QUEM AVALIOU O INTERESSE DO BANCO DO BRASIL NESSA TRANSAÇÃO?   Coincidentemente o presidente do Banco do Brasil logo depois dessa venda PEDE DEMISSÃO, alegando cansaço e porque quer ficar com os netos, explicação inédita no mundo bancário e corporativo, digna dos filmes de Laurel & Hardy, O Gordo e o Magro.

Enquanto o palhaço distrai a plateia o mágico do circo foge com o dinheiro das entradas, estamos vendo coisas que nunca, em nenhum Governo, se viu no Brasil e enquanto isso a Lava Jato distrai a plateia com perseguição a doações de campanha de 5 milhões de Reais ocorridas há 6 anos, com a mídia armando o palco das invasões de domicílios. No combate à mini corrupção, enquanto se vende o País a retalho no presente, com planos para vender tudo o que encontrar comprador, é a meta central do Governo da turma do Leblon.

O Brasil, algoritmos e fanatismos

  • 06/08/2020 14:51
  • Blog do Eduardo Bomfim

 

 



 

 


Por Eduardo Bomfim

Que ninguém se iluda, pensar o Brasil é tarefa exclusiva dos brasileiros, seja nas questões da indústria, da agricultura, da saúde, educação etc., e acima de tudo em relação aos interesses nacionais.

Vivemos uma época especial em todo mundo, onde prevalecem mecanismos sofisticados de interferências desestabilizadoras nas sociedades, da parte do capital financeiro, megaempresas globais, além das grandes potências internacionais, na medida em que a revolução digital, a internet, alcançou o protagonismo irreversível que todos conhecemos.

Mas as facilidades advindas das novas formas de comunicação entre as pessoas, no consumo, provocaram novas maneiras de interferências na vida política das sociedades. E são esses os fenômenos que estamos vivenciando.

A competição industrial, agrícola, comercial, e geopolítica, se intensificou de forma exponencial, e nenhuma megaempresa global, ou potência internacional, está presente no mundo de hoje para esclarecer as coisas, mas para fazer valer os seus interesses, ou para confundir, se assim for necessário, desestabilizar as sociedades.

A racionalidade tornou-se um produto raro, ou em falta, nas atuais relações humanas. Muitas vezes tem prevalecido o delírio, quase esquizofrênico, na interpretação dos fatos, principalmente quando se trata das questões políticas.

Os algoritmos, no mundo digital, têm feito, com a rapidez, quase, instantânea, o trabalho que interessa ao grande capital financeiro, à luta política, às grandes potências, ou na competição dos produtos no mercado, seja ele qual for.

Se você adquire um aplicativo para ouvir música, por exemplo, esses algoritmos vão lhe direcionar para as músicas que consideram afins com o seu gosto inicial, e daí vão lhe conduzir para uma “bolha” digital que consideram o seu gosto. O que vai exigir muita consciência crítica e lucidez para que você não se torne um consumidor passivo de músicas.

As redes sociais, através dos mesmos mecanismos dos algoritmos, também vão lhe conduzir ao mesmo processo de identificação de opiniões idênticas às suas, promovendo as “bolhas” de ativismo social, reduzindo o horizonte de reflexão e discernimento dos indivíduos.

 

 


Assim como facilita a promoção das ações de publicação de notícias falsas, as tais das fake news, alimentando uma cadeia de desinformação sobre a verdade dos fatos, que são instrumentalizadas por grupos políticos, interesses geopolíticos estratégicos, ou mesmo na competição de produtos à venda no mercado.

A grande mídia global tem combatido as fake news, mas ela promove também, à sua maneira, as notícias que considera relevantes ou não. Em sua grande parte, ela se encontra a serviço dos interesses do capital financeiro, e promove as suas agendas cultural, política e ideológica, hoje hegemônicas.

E dita, conduz, as pessoas, para a luta que “deve” ser relevante. E em praticamente vinte quatro horas, em todo o mundo ocidental, grupos de “ativistas” sociais digitais, como as recentes manifestações para destruir estátuas e monumentos Históricos relevantes, saem às ruas movidos por uma fúria emocional.

Sem nenhuma reflexão crítica, mais profunda, sobre o significado das suas ações, com base em uma espécie de um difuso, falso, Internacionalismo militante. Dias depois, essa “causa” arrefece e logo é substituída por outra, igualmente carregada do mesmo conteúdo emocional, quando não sectário.

Na atual luta dos cientistas, na área de saúde, contra o corona vírus, existem algumas vacinas, em pesquisa, em estágio avançado.

Um desses surtos emocionais, ideológicos, foi promovido nas redes sociais, contra a possível vacina chinesa, em convênio com o Instituto Butantã no Brasil, sob a alegação de que essa possível vacina, estaria “infectada” com um nano chip que iria controlar as pessoas, vigiá-las, e aliciá-las ao comunismo internacional. Um delírio, impensável em outras épocas, se não fossem os algoritmos, manipulados por um extremismo sectário.

A atual realidade política brasileira está carregada por frenética Guerra Híbrida, cujo objetivo central tem sido a fratura do tecido social da sociedade nacional, entre grupos com agendas identitárias.

Uns procurando negar o contínuo histórico nacional, as grandes figuras que, em cada época determinada, ergueram o espírito do País, através das ideias e das realizações, que formam a nossa civilização única, mestiça e tropical, como descreveu o grande antropólogo Darcy Ribeiro.

Outros, em um campanha irracional, fundamentalista, inimiga do progresso, pretendem levar o País aos tempos medievais passados.

A continuada polarização dessa “ordem” de coisas não serve aos interesses nacionais, porque é falsa, sem perspectiva estratégica, e conduz a nação à imobilidade, ao atraso, e fratura o nosso tecido social.

Já essa atual guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, eles estão jogando o jogo deles, nós devemos estar é com os nossos interesses. Não podemos estar alinhados em disputas ideológicas de ocasião. Devemos ficar com o que serve ao Brasil e ao povo brasileiro. Promover uma diplomacia ampla, pacífica e de cooperação internacional em todos os níveis.

 

 


Quanto à campanha de cerco que atinge a Amazônia, sob o justo pretexto de evitar e combater as queimadas, ela possui, na verdade, o objetivo estratégico da internacionalização de um ativo ambiental, mineral, biológico, geopolítico, inigualável no planeta.

Tudo isso promovido por ONGs suspeitas e potências estrangeiras. É hora de levantar, com serenidade, altivez, uma campanha em defesa da Amazônia, que é nossa, assegurada com muita luta por aqueles que nos deixaram esse extraordinário legado ambiental e patrimônio territorial.

Quando promovem uma campanha contra a agricultura brasileira, isso nada tem a ver com as, falsas, justificativas sobre agrotóxicos e outras coisas mais. Mas é devido ao protagonismo internacional da nossa produção de grãos, carnes etc., que disputa com alta qualidade, tecnologias e cumprimento de todas as normas sanitárias exigidas pelos acordos mundiais. Aliás, é a agricultura que vem salvando o País nessas ultimas décadas.

A luta de ideias nestes tempos de hoje é vital, no empenho por um programa nacional de desenvolvimento estratégico, pela reestruturação do parque industrial nacional, recompor a nossa cadeia produtiva. Pelo investimento maciço em educação em todos os níveis, ciência e tecnologia, infraestrutura, na promoção de políticas públicas com investimentos sociais.

Se o Brasil atingir essas metas, estaremos alcançando o patamar de uma nação verdadeiramente progressista, rumo ao pleno desenvolvimento econômico, combinado com a alta qualidade de vida do povo brasileiro. Território continental, riquezas naturais, matérias primas, uma população de mais de 200 milhões de habitantes, com engenhosidade, vontade de crescer, nós temos. Falta-nos o projeto, a vontade, e a união do povo em torno dos novos desafios.

Em tempos de algoritmos digitais, fanatismos ideológicos, tempestades de ódios difusos, como disse o poeta: falta-nos cumprir o Brasil. E essa obra não cai do céu, ou por geração espontânea. Precisa ser edificada, construída. Talentos, não nos faltam. É fundamental a iniciativa.


 

A soberania limitada e a Guerra Híbrida

  • Blog do Eduardo Bomfim
  • 28/07/2020 21:49
  • Blog do Eduardo Bomfim
Foto: Reprodução

A globalização financeira prossegue na sua determinação de, na prática, impor aos povos e às nações a soberania limitada, em uma escala crescente que marcha, especialmente entre as cadeias mais frágeis de vários Países, para uma forma de colonialismo do novo milênio.

Esse processo caminhou por vias sinuosas, desde a instituição do padrão dólar-ouro na conferência de Breton Woods, em 1944, demarcando a hegemonia monetária dos Estados Unidos.

Em 1971 os Estados Unidos tomaram a decisão de acabar com a paridade dólar-ouro, ficando o dólar como moeda hegemônica global, respaldado pelo tesouro norte-americano. Essa decisão foi ratificada pelo FMI em 1973.

Na década de 80 as políticas neoliberais assumiram o protagonismo de uma doutrina econômica hegemônica mundial, sob os governos de Margaret Thatcher, a dama de ferro, na Inglaterra, e do presidente Ronald Reagan nos Estados Unidos.

Todo esse processo levou à desregulamentação dos fluxos financeiros domésticos, vinculados à produção de riquezas. Estava inaugurado o caminho para o extraordinário processo de acumulação financeira especulativa global, através do rentismo predador, que, de crise em crise, segue até os dias atuais.

Nesse mesmo período a hegemonia unipolar econômica, financeira, militar dos Estados Unidos, conquistada após a extinção da União Soviética, foi perdendo a liderança desse processo.

Ao tempo em que todas as formas de controle administrativo, das taxas de juros, do crédito e dos movimentos do capital financeiro foram progressivamente abolidas.

A desregulamentação do capital foi, dessa forma, um dos elementos motores da globalização financeira. Estavam abertas as condições para uma espécie de governança mundial do capital financeiro especulativo.

Uma governança informal, invisível, mas que nem por isso deixa de ser efetiva e de caráter multilateral.

Cifras astronômicas de trilhões de dólares circulam, sem regulação alguma, pelo mundo em poder de megaespeculadores internacionais, desligadas da produção de riquezas. Esse é o mundo em que vivemos hoje.

Como é óbvio, as instituições internacionais “oficiais”, criadas no pós Segunda Guerra mundial, para fins de construção de consensos e administração de conflitos regionais, passaram a seguir o rastro do dinheiro em mãos dos especuladores globais, e as suas diretivas.

De tal forma que tratados internacionais, úteis ao processo hegemônico da livre financeirização dos fluxos de capitais, foram sendo oficializados por essas instituições mundiais e transferidos, como normas, aos Países.

A hegemonia do capital especulativo predador chegou igualmente à grande mídia, transformando-a em sua porta voz oficiosa.

Tratava-se, a partir daí, de constituir uma espécie de ideologia hegemônica, que satisfizesse aos interesses da globalização financeira e substituísse as culturas nacionais, sua raízes, características próprias etc.

Formatou-se, entre outras coisas, uma espécie de anarquismo invertido, visto que não serve aos propósitos com que sonhava o teórico anarquista Bakunin, mas ao anarquismo desregulamentador do capital financeiro.

Assim como surge uma espécie de neotrotskismo internacionalista, mas, ao contrário do que sonhava Leon Trotsky, não um trotskismo das classes trabalhadoras, mas um trotskismo internacionalista sob a égide do capital financeiro.

Com a soberania cada vez mais limitada pelas orientações e tratados do capital financeiro, no plano econômico, administrativo, comportamental, os governantes foram perdendo os seus protagonismos de efetivos dirigentes nacionais. Transformaram-se, em grande parte, em gerentes e administradores das orientações e diretivas vindas do capital financeiro

A pandemia da crise e a crise da pandemia

O teórico nipo-americano Francis Fukuyama quando previu, falsamente, o Fim da História em seu famoso livro publicado no fim do século XX, não se referia necessariamente à liderança unipolar dos Estados Unidos, mas à celebração da hegemonia superior do capital financeiro como forma de governança mundial.

No entanto, tamanha acumulação desenfreada do capital parasitário e especulativo, desligado da produção dos povos e nações, começou a provocar uma sucessiva desestabilização da Nova Ordem mundial e atingiu o ápice na crise financeira em 2007 e 2008, que iniciou nos Estados Unidos e rapidamente se espalhou pelo mundo.

A catástrofe financeira, que abalou as economias nacionais, não teve como solução o reordenamento da economia global mas o aprofundamento das estratégias do próprio capital financeiro especulativo.

Essa crise acarretou uma debacle das economias nacionais, além de novas diretivas para a desregulamentação dos fluxos financeiros especulativos, a queda do crescimento das economias nacionais, o empobrecimento das sociedades em, praticamente, quase todo o mundo.

O planejamento econômico foi cada vez mais substituído pela anarquia sem freios que rege a globalização do capital especulativo. O cuidado com as atividades básicas de investimentos em educação, saúde pública, ciência e tecnologia em escala global, cedeu cada vez mais à privatização, e a extrema precarização dessas funções essenciais para os povos.

Pode-se afirmar que antes de estourar a pandemia sanitária que hoje vivenciamos, tivemos a pandemia da extrema desregulamentação dos fluxos financeiros, com as suas dramáticas consequências, com a queda do crescimento econômico dos países, de forma sistemática e contínua, o desemprego e a catastrófica crise social que jamais parou de crescer.

Em resumo, a crise financeira, e suas consequências, antecedeu à crise sanitária do corona vírus 19. E será necessário calcular quanto dessa primeira crise possui relação, de causa e efeito, com a pandemia sanitária que vivemos de forma trágica em todo o mundo.

Em algum momento no futuro próximo deve haver algum balanço sobre a insuficiência das medidas da OMS em relação a essa pandemia. Seja para a ela se antecipar, seja para sugerir medidas rápidas e eficazes para minimizar os seus efeitos. E aqui não se encaixam teorias da conspiração, tão em voga nos dias atuais.

Mas a verdade é que os organismos internacionais institucionais se encontram defasados quanto aos seus propósitos intrínsecos. Na maioria das vezes eles adotam medidas, sugestões paliativas e secundárias, ou de marketing, para fins de justificar as suas existências.

A atual crise sanitária global, entre outras coisas, serviu para mostrar a pouca eficiência desses organismos, assim como a guerra do Iraque, entre outros conflitos regionais, demonstrou a pouca eficácia da ONU como autoridade real em administrar conflitos regionais ou globais de grande porte.

A atual pandemia sanitária não foi a responsável pela catástrofe econômica e social que vivemos, mas levou ao seu aprofundamento em nível brutal, como um catalizador, ou reagente químico.

Assim a crise financeira, econômica e social atingiu uma escala formidável. É inacreditável a tendência que se vende, aos incautos, que a pós pandemia vai possibilitar uma sociedade mundial mais harmoniosa, mais limpa e mais solidária, quando na verdade já estamos em uma crise econômica, social e humanitária, sem precedentes na História contemporânea. Na História, muitas vezes, os mitos são mais importantes que a realidade.

Dois meses após o reconhecimento da pandemia sanitária, as discussões nas mídias e redes sociais, desconectaram-se das questões concretas de como enfrentar melhor o corona vírus e passaram ao campo político. Não se abordam as propostas econômicas, sociais, para enfrentar uma realidade dramática de desemprego massivo e a consequente, trágica, crise social.

Assim, como nas ultimas décadas, cria-se uma falsa perspectiva sobre a verdade dos fatos, elabora-se, mais uma vez, uma realidade paralela e fantasiosa sobre o mundo em que vivemos. E, convenhamos, é necessário muito investimento e capital, além de mídia, para se imporem concepções tão dissociadas da vida concreta dos povos.

Não é à toa que vários segmentos intelectuais e acadêmicos vivem, há um bom tempo, em uma torre de marfim de agendas identitárias, descolados das grandes maiorias sociais e das necessidades concretas dos seus Países.

É um fenômeno, a dissociação de setores esclarecidos das sociedades das necessidades objetivas das grandes maiorias do planeta. E ao mesmo tempo é como se uma parcela de classe média, estivesse vivendo em uma sociedade dividida em castas.

Mas na verdade trata-se do “investimento” da globalização financeira em uma elite que encampe as suas agendas culturais e comportamentais. Uma estratégia de cooptação dos de “cima”, e o abandono à própria sorte dos novos deserdados da terra, a grande maioria das populações das nações. O objetivo é constituir uma vanguarda intelectual, de ativistas nas redes sociais, incorporada às perspectivas, doutrinas e agendas do capital financeiro, na tentativa de enfraquecer as possibilidades dos Estados nacionais quanto à formação de uma massa crítica e pensante, relativa aos programas e projetos de desenvolvimento nacionais.

Assim como os identitaristas fundamentalistas religiosos, reacionários, movidos por uma orientação econômica neoliberal ultraortodoxa, representada no Brasil pelos bolsonaristas hoje no poder central do País. Uma verdadeira Guerra Híbrida em curso.

Assim, a centralidade da questão nacional passa a ser a inimiga principal do capital financeiro, da Nova ordem mundial, e o protagonismo do Estado nação, o adversário a ser aniquilado.

Da soberania limitada ao novo neocolonialismo financeiro, a ausência de uma perspectiva Histórica no “presente contínuo”, a divisão internacional das cadeias produtivas, a substituição do protagonismo político das grandes maiorias pelas agendas das corporações.

Mas, quando alguém, como Francis Fukuyama, decreta o fim da História, essa afirmação encontra-se carregada de um fundamentalismo doutrinário, quase fanático. Porque deseja que a sua visão econômica e filosófica seja hegemonicamente imposta aos demais e às sociedades. Tal enunciado não prospera, como de fato aconteceu.

Em 1938 Hitler anunciou o seu império, o Reich de mil anos, um mundo sem fronteiras. E deu no que deu, a terrível carnificina da Segunda Guerra mundial. Hoje temos, de novo, um mundo em que a racionalidade política é um bem escasso. No caso de um propalado mundo sem fronteiras, há que se perguntar quem será o seu gerente, ou os administradores desse consórcio que fará as tratativas de um mundo sem fronteiras.

Vivemos atualmente um momento semelhante ao período de entre guerras, anterior à Segunda Guerra mundial, onde a polarização fanática tem sido a regra e a busca por consensos uma exceção. Nesse estado de espírito atual, tem prosperado o fundamentalismo, e o fanatismo, a evidente ausência de perspectivas históricas.

A busca por consensos, a procura por amplitudes, soa quase como um sonoro palavrão. A globalização financeira já provocou catástrofes econômicas e agora mostra que a tal da internacionalização das cadeias produtivas se mostrou trágica e a pandemia evidenciou a fragilidade das nações, onde não existiam, na maiorias dos Países, nem a produção de máscaras sanitárias ou de ventiladores. A grande maioria das nações tiveram que importar da China.

Qualquer nação que minimamente preze a própria soberania, e pense no seu futuro, precisa se preparar para constituir um novo ciclo para a reconstituição completa da sua cadeia produtiva, inclusive industrial, é o caso do Brasil, ou vai amargar um novo estágio de recolonização financeira, bem mais radical que a atual soberania limitada que vivenciamos.

No Brasil, sob o argumento de irresponsabilidades cometidas, efetivas e reais, a grande ameaça que vivemos é a ofensiva pela internacionalização da Amazônia, um território superior ao da Europa ocidental, com imensas riquezas minerais, aquíferas, biossegurança, potencial de reservas genéticas a ser pesquisado, patrimônio ambiental único no planeta, além de um estratégico ativo geopolítico inigualável no planeta.

Está correto o embaixador Marcos Azambuja, ao alertar para o fato de que com a crescente guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, o País deve se preparar para navegar em águas oceânicas muito turbulentas.

E que uma diplomacia sectária, ideológica, unilateral, alinhada aos Estados Unidos, como a atual, no governo Bolsonaro, nos é extremamente prejudicial.

Devemos propugnar por uma política externa ampla, sempre pautada pelas soluções de conflitos, e acima de tudo com base nos nossos interesses nacionais geopolíticos, comerciais e econômicos.

Enfim, devemos persistir com firmeza por uma política que construa a união das grandes maiorias sociais do povo brasileiro. A polarização extremada, intolerante, irreconciliável que divide a nação não nos convém.

Cabe-nos propugnar pela constituição de uma projeto nacional de desenvolvimento estratégico, reconstruir as nossas plantas científicas e tecnológicas, investir massivamente em educação em todos os níveis, recuperar sob novas bases a nossa cadeia industrial, fortalecer a nossa agricultura.

Porque o mundo atual, e pós pandemia sanitária, não será harmonioso, limpo, ou de solidariedade global. Mas turbulento. Devemos nos preparar, com as nossas tradições pacíficas, e persistência, para navegar em uma realidade geopolítica tempestuosa e cheia de incertezas.

A Construção da Fronteira Sul – A guerra de 1825

  • Blog do Eduardo Bomfim
  • 27/07/2020 21:53
  • Blog do Eduardo Bomfim
Foto: Divulgação
Bastidores da Guerra da Cisplatina: atentados, sequestro, traições, pirataria e muita política no livro de Sérgio Muniz

A chamada Guerra da Cisplatina foi o episódio central que ratificou a criação do Estado brasileiro unitário com a conformação política e geográfica que hoje constitui a herança da República Federativa do Brasil.

Sem dúvida, uma ideia inesperada, se não nova, para muitos, é a tese central do livro “A Construção da Fronteira Sul – A guerra de 1825”, do historiador Sérgio Paulo Muniz Costa, editado pelo Instituo Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS). Uma obra de luxo, com alto padrão técnico e bom gosto gráfico. O conteúdo é impressionante e desenvolvido com um texto moderno, um convite à leitura. 

Nesse livro o autor mergulha na história da primeira guerra internacional do Brasil depois da Independência (ainda na regência de dom João VI, tropas do então Grão-Pará atacaram e tomaram a Guiana Francesa) e sua influência na consolidação da unidade nacional.

O relato narra o resultado positivo do esforço político e militar desse primeiro grande e dramático teste do consenso de forças heterogêneas que produziram a criação do estado unitário e o esforço para a preservação do território herdado. No caso, a secessão da efêmera Província Cisplatina foi um ponto fora da curva.   O atual Uruguai não fez parte efetiva da colonização pela cultura lusitana.  

O autor é coronel da reserva do Exército. Um historiador super qualificado. Atualmente é assessor de imprensa do Vice-Presidente da República, general de exército da reserva Hamilton Mourão. Doutor em Ciências Militares, com uma participação relevante nas áreas acadêmica (nas principais universidades e escolas superiores militares) e diplomática.

Para ratificar sua carreira no segmento, basta destacar que integrou a Junta Interamericana de Defesa da OEA, em Washington e, como historiador, no tema em pauta, defendeu sua tese numa conferência no XXXIX Congresso Internacional de História Militar, em setembro de 2013, em Turim, na Itália com a palestra intitulada “Estratégia do Brasil na Guerra Cisplatina (1825-1828)”, numa sessão que reuniu historiadores austríacos e italianos.  

Ponto central do livro: a guerra contra os hispânicos constituiu o ato final da independência do Brasil, encerrando o ciclo europeu de um processo histórico que se iniciou nos tempos coloniais. Juntando com sua continuidade regional, que vai de 1766 (invasão de Pedro Ceballos ao Rio Grande) e termina na Guerra do Paraguai, em 1870, conclui o desenvolvimento histórico que se completa com o desenho do atual mapa do Brasil.

Como diz o autor Sérgio Muniz (seu nome de guerra nos meios acadêmicos), esta poderia ser a nossa guerra dos cem anos. Normalmente, ele diz, as guerras têm suas denominações históricas atribuídas a posteriori, como a própria Guerra dos Cem Anos (1337 a 1453 entre França e Inglaterra), só assim chamada pelos historiadores dois séculos depois. Também a nossa Guerra da Cisplatina só ganhou essa denominação no futuro: pelos contemporâneos, no Rio de Janeiro, foi chamada de “Guerra do Sul” e, em Buenos Aires, de “Guerra do Brasil”. No seu tempo, o nome de guerra da Cisplatina era dado à campanha da conquista do Uruguai, entre 1816 e 1821, hoje chamada de Guerra de Artigas.

Guerra dos cem anos

Já a nossa guerra dos cem anos ainda está, na historiografia convencional, subdivida em episódios separados, como se fossem eventos independentes entre si. Este cronista, eu também sigo a mesma formulação do coronel Muniz, pois é o que digo em meu livro sobre esse mesmo tema, intitulado “Cem Anos de Guerra no Continente Americano” (Editora Record), subdivido em dois volumes, abordando duas épocas complementares e consecutivas: “Rios de Sangue”, da invasão espanhola até a Guerra da Cisplatina, e “Cinzas do Sul” até o final da Guerra do Paraguai.

Assim como o grande conflito medieval, na região do Canal da Mancha, entre as famílias Plantageneta (inglesa) e Valois (francesa), na América do Sul, esse processo durou quatro gerações da família Bragança, no lado lusitano, começando no reinado de Dom José I e terminando com seu trineto, Dom Pedro II, passando pelos reinados de Dona Maria I, Dom João VI e, já no Brasil independente, de Dom Pedro I (IV em Portugal) e de seu filho Pedro Segundo. No lado espanhol, o confronto ibero-americano se iniciou com a família Bourbon e foi herdado pelas antigas províncias do Vice-Reinado do Prata. Nenhum outro conflito durou tanto tempo no Hemisfério Ocidental.

Isto porque não estamos botando no mesmo saco a guerra entre Buenos Aires e a Colônia do Sacramento, outra disputa direta pelo Rio da Prata, entre portugueses e espanhóis. Iniciadas ainda nos tempos dos bandeirantes, no século XVI, essas guerras coloniais se estenderam das conquistas dos navegadores até o Tratado de Madrid, em 1750, prolongando-se com a Guerra Guaranítica, entre os índios missioneiros e seus mentores jesuítas contra os governos de Lisboa e Madrid, concluída na Batalha de Caiboaté, travada nos subúrbios da atual cidade gaúcha de São Gabriel. Neste caso, juntando tudo, seriam 300 anos de guerra ininterrupta.

Voltando ao livro do coronel Muniz (no final desta resenha vamos mostrar uma parte maior do currículo do autor, que vale a pena), como ele também fez, apresentando os antecedentes do foco de seu trabalho. As guerras são demarcadoras de acontecimentos históricos, como elementos da ação política de governos no seu tempo e determinantes do destino geográfico de estados e de povos. Não são os únicos eventos relevantes.

Nas Américas, entretanto, nenhum outro ponto de tensão e disputa foi tão duradouro quanto a foz do Rio da Prata. Seu controle determinava o futuro dos países da costa do Oceano Atlântico. E assim foi desde que portugueses e espanhóis botaram o pé no Novo Mundo. Estes são os principais atores, mas também, desde os primeiros momentos, franceses e ingleses estiveram pelos mares sul-americanos, sem êxito para deslocar os ibéricos.

Portanto, como ressalta Sérgio Muniz, a Guerra da Cisplatina é apenas, ou muito, um evento exuberante desse contexto que vem da Colônia do Sacramento, passa pela consolidação dos limites dos Tratados de Madrid e Santo Ildefonso e vem até a delimitação atual dos países da região do Mercosul, finalmente integrados, depois de muita briga e de gastarem muita pólvora e fio de espada.

Mão e contramão   

A Guerra da Cisplatina, nesse aspecto, é o mais relevante de todos os conflitos armados, pois ali se decidiu o destino político que mudou o rumo daquela longeva confrontação legada pelos colonizadores, deixada para os novos países decidirem. A partir desses acontecimentos, a colônia lusitana, originada das possessões portuguesas, de que o estado do Brasil fora apenas uma parte, consolidou-se como país continental e unificado. A parte hispânica, integrada pelo Vice-Reinado do Prata e pelo Chile, fraccionou-se. Como num tráfego de estrada, na mão e contramão.

Nesse processo, o antigo Reino do Brasil (aqui só o atual Sudeste brasileiro) conquistou, a ferro e fogo, mas também com boa política, o restante do território colonial, integrado num império unitário; o vice-reinado espanhol estilhaçou-se em vários países ou em províncias ditas unidas, com maior ou menor autonomia, mas relativamente independentes. Foi na guerra contra o império do Rio de Janeiro que Buenos Aires perdeu sua hegemonia. Iniciou o conflito armado à frente de uma força composta por elementos de todas as províncias. Terminou sozinha, em contraste com um Brasil já unificado administrativamente em função do esforço de guerra.

Resultados contrários

A capital portenha só reconquistou essa parte de seu comando político às vésperas da Guerra do Paraguai, com o governo provincial de Bartolomeu Mitre, sustentado, militarmente, com o concurso do Exército Imperial, estacionado em Concórdia (antiga Índia Muerta) dentro do território argentino, pronto a se deslocar e intervir no quadro interno daquele País, para manter o governo de ideologia liberal, alinhado com os liberais brasileiros de  Zacarias de Góes e os uruguaios Venâncio Flores, de Montevidéu. O inimigo comum, o ditador paraguaio Solano Lopez era o bode expiatório nesse corte da narrativa.  Parece lembrar os tempos recentes da “entente” de Lula da Silva, Néstor Kirchner e Tabaré Vasquez.

Nessa abordagem, o evento histórico da Guerra da Cisplatina foi uma grande vitória para o Rio de Janeiro, que saiu do conflito comandando um grande império, na época o país de maior extensão territorial do mundo. Perdeu Buenos Aires, que nunca mais recuperou suas províncias da Banda Oriental do Uruguai, do Paraguai, do Alto Peru (atual Bolívia) e, ainda, ficou por mais 40 anos com meia soberania sobre sua hinterlândia, reduzidas apenas a um mambembe arranjo de “províncias unidas”, que mais eram dissidências ativas do que um modelo federativo. Tudo isto está claramente bem desenvolvido no livro de Sérgio Muniz.

Guerra secreta

O livro é muito completo. Entretanto, não se pode deixar de mencionar o detalhamento de ações paralelas ao epicentro do conflito, que o qualificam como algo inteiramente novo no panorama bélico da América do Sul daqueles tempos. A situação era de guerra total, com ações marítimas ao longo de toda a costa atlântica do subcontinente. No mar, corsários armados por Buenos Aires que assolaram o litoral brasileiro, realizando pilhagens e ações estratégicas por toda a orla, desde o Pará até o litoral do Rio Grande do Sul. Em contrapartida, a Marinha Imperial realizou operações ofensivas na Patagônia e houve confrontos navais até nas costas da África.

Nem mesmo a Guerra da Independência dos Estados Unidos ou  as campanhas de San Martin, no Chile e Peru, ou de Simon Bolívar nas atuais Venezuela, Colômbia (Nova Granada, na época), Peru e Alto Peru (Bolívia) alcançaram tamanha abrangência geográfica. Além disso, o território brasileiro (sem contar a Cisplatina, então ainda reconhecida internacionalmente com território parte do Brasil), teve três invasões de exércitos inimigos, esta aqui narrada comandada pelo general de Carlos Alvear, que é o tema deste livro, mas as outras duas, uma nas Missões, liderada por Frutuoso Rivera, e outra tentativa argentina na região da Lagoa Mirim.

Sérgio Muniz detalha também a guerra secreta realizada pelos inimigos platinos, que tentam desestabilizar o governo brasileiro e, mais do que isto, criar situações políticas que levassem ao rompimento da frágil unidade nacional construída por José Bonifácio de Andrada, no processo da Independência no início daquela década de 1820.

Além das ações militares, assim chamadas, realizadas pelos exércitos de terra e pelas forças navais dos dois países, os governos de Buenos Aries (principalmente os presidentes Bernardino Rivadavia e Manuel Dorrego) organizaram operações secretas de grande envergadura, até então desconhecidas nos meios sul-americanos.

A mais espetacular seria o sequestro e, eventualmente, o assassinato do imperador Dom Pedro I. Os estrategistas argentinos acreditavam que a unidade nacional brasileira se devia ao imperador e sua legitimidade. O desaparecimento do monarca seria o suficiente para que metade do Brasil se sublevasse. Com isto acabariam com a guerra e concluiriam a re-anexação do Uruguai às Províncias Unidas, como então se chamava a Argentina.

Um segundo objetivo seria impedir que as antigas colônias portuguesas se mantivessem como uma unidade política. Havia a certeza de que um país tão grande territorialmente acabaria por se impor e, inevitavelmente, teria as hegemonias política e econômica da região. Esse lugar seria reservado para os herdeiros do Vice-Reinado do Prata recomposto, que Rivadavia havia conseguido reunir para enfrentar o inimigo externo, mas que se esboroava com o insucesso militar nos campos de batalha. Outra operação secreta fracassada foi o levante dos mercenários no Rio de Janeiro, com o objetivo de conquistar Santa Catarina.

Sequestro do imperador

Tanto uma quanto outra operação só foram conhecidas na década de 1940, graças as pesquisas do diplomata Sérgio Correia da costa, então secretário da embaixada do Brasil em Buenos Aires, em 1944/45.

As três tentativas de atentado contra Dom Pedro I eram inteiramente desconhecidas pelos historiadores, tanto brasileiros quanto argentinos, até então. O jovem secretário de embaixada (depois foi um importante embaixador), historiador e diplomata, encontrou os documentos, que estavam perdidos numa gaveta do Museu Mitre, em Buenos Aires. 

A primeira tentativa de eliminar o soberano brasileiro, ainda no governo Rivadavia, seria realizada pelo corsário francês Carlos Fournier, mas que não chegou à fase final de planejamento porque o navio do pirata foi atacado pela Marinha Imperial e teve de se retirar dos mares, voltando ao Prata. O plano era capturar o imperador, levando-o como prisioneiro ou seu cadáver.

Nas duas outras tentativas, na de Rivadavia ou no governo Dorrego, o executor seria o corsário inglês John Holstead Coe. Na primeira, o navio corsário Congreso deveria aportar em Sepetiba, no litoral fluminense, lançando um comando que deveria sequestrar o imperador e levá-lo vivo ou morto, capturado quando estivesse na fazenda de sua família em Santa Cruz, hoje subúrbio do Rio de Janeiro e sede uma poderosa guarnição da Força Aérea.

Na outra tentativa, com o navio Níger, o pirata Coe desembarcaria um sicário numa praia próxima à capital, que entraria na cidade para matar Dom Pedro quando o imperador estivesse passeando sozinho no Jardim Botânico, um logradouro regular do monarca para se exercitar. Também não chegou a ser levado a cabo.

O terceiro projeto secreto era mais mirabolante. A ideia seria subornar os comandantes das unidades de mercenários alemães e irlandeses do Rio de Janeiro, transportá-los até Santa Catarina, tomar a ilha e declarar a província como país independente, para isolar o Rio Grande do Sul e criar um novo estado alinhado com Buenos Aires.

O projeto não funcionou porque, primeiro, a força tarefa naval que transportaria os rebeldes do Rio para o sul foi destruída pela Marinha Brasileira, quando realizava operações de corso no litoral norte do País. Depois, os rebeldes tentaram ir por terra, mas sequer conseguiram sair da cidade, cercados por tropas nativas leais. No fim, tudo acabou com o fuzilamento do mercenário August Steinheusen, que assumiu a culpa de tudo. O episódio, que envolveu todas as unidades de soldados estrangeiros (2º BC, 10º BC, 28º BC e 5º de Granadeiros), foi registrado oficialmente como um motim disciplinar, e assim ficou até ser desvendado por Sergio Correia da Costa como um projeto de traição, levado a efeito por dois espiões argentinos bem colocados junto à administração pública brasileira, o mineralogista Frederico Bauer, e o comerciante na praça de Montevidéu Antonio Martin Thym. Nenhum dos dois foi descoberto. Seus nomes emergiram dos documentos localizados pelo diplomata do Itamaraty.

Grosso calibre

“A Construção da Fronteira Sul” é um livro de grosso calibre. Seu conteúdo vai a fundo nos processos militares, políticos e diplomáticos que envolveram as duas principais potencias sul-americanas nesses momentos cruciais de formações e definições de suas fronteiras. Estes bastidores são relevantes para demonstrar onde o novo país foi jogado na realidade de sua independência política e tendo que arcar com responsabilidades e consequências.

A situação do nascente Brasil era dramática. Politicamente, o País estava órfão, assim dizendo com certa liberdade de expressão, pois na sua volta a Portugal o rei Dom João VI levou com ele à Europa não só o tesouro nacional, como se diz, para demonstrar a penúria em que deixou seu filho regente, mas também seus gestores, seus juízes, seus chefes militares, toda a superestrutura que um estado independente demanda para se envolver numa guerra externa. Foi um desafio sem tamanho, que não pode ser medido pela régua a que muitos historiadores submetem aqueles momentos. Sérgio Muniz bota os pontos nos íis.

O retorno da Corte para Lisboa em abril de 1821 provocou não apenas um raspa nos cofres públicos brasileiros, como também uma debandada da classe política. Embora a Revolução Americana e os processos de independência e criação das repúblicas hispano-americanas sejam festejados pelos historiadores hemisféricos como fatos políticos e sociais de relevância muito superior em complexidade à independência do Brasil, aquela transição de Reino para Império foi uma transformação mais profunda e muitíssimo mais rápida.

No curto espaço de um ano e pouco o País sofreu uma amputação total de seus membros, e assim mesmo soube caminhar na situação que se criou. Como foi isso? O livro dá uma informação bastante precisa, pois a guerra da Cisplatina foi o fecho desse processo, que consolidou a unidade nacional, firmou no poder as novas elites e deu consistências às Forças Armadas que, dali até hoje, são os garantes da unidade territorial e política do Brasil.

No Hemisfério Norte, a independência dos Estados Unidos foi um processo que levou anos, podendo dizer-se que o ato se completou com a guerra de 1812 contra a Inglaterra e a incorporação definitiva da Louisiana. Quase meio século de lento expansionismo até chegar à base territorial com que se lançou, e só chegou ao país continental, de dois oceanos, no quarto final do Século XIX com a incorporação do extremo oeste.

O Brasil já estreou com mais de oito milhões de quilômetros quadrados, quando a Rússia ainda se batia nos Bálticos para incorporar territórios que hoje constituem repúblicas independentes ou ermos tão distantes quanto os urais, no extremo oriente.

Aqui na América, os hispânicos levaram mais de 20 anos desde o rompimento com a metrópole, para consolidar suas independências e delimitar minimamente os territórios de cada estado. O México chegou a ter um rei europeu (primo-irmão de nossos imperadores), finalmente fuzilado.

Na mesma quadra histórica, ou seja, no bojo da desordem europeia provocada por Napoleão Bonaparte no início do século XIX, o Brasil, em pouco mais de um ano, consolidou sua unidade territorial e, contando tudo, entre o levante da Bahia em 1821 e a eleição e posse da  Constituinte, em 1823, gastou mais um pouco, cerca de dois anos, e, mais cinco, até o reconhecimento da independência e a secessão da Cisplatina, que terminou, finalmente, nas fronteiras inquestionáveis por seus vizinhos e pela comunidade internacional.

É verdade que essas questões se desenvolveram até o início do século XX, num processo comandado basicamente pelo Barão do Rio Branco, mas aí já foram desenvolvimentos diplomáticos e jurídicos. Conquistados a bala foram os movimentos territoriais do entorno da independência, com a anexação, primeiro, do Norte e Nordeste, e, depois, nas revoltas regenciais, a consolidação do Império e da liderança do Rio de Janeiro como capital nacional. Isto foi um feito político que desemboca na guerra da Cisplatina, de efeito contrário no Rio e em Buenos Aires.

O salvador da pátria

“Há males que vêm pra bem”, diz o gaúcho campeiro para explicar o inexplicável. No caso do Brasil, caiu do céu um político que reuniu, rapidamente, todas as condições para liderar o processo de independência e superar as contradições internas, compor os interesses (econômicos e sociais), superar as rivalidades (regionais e políticas), compor forças heterogêneas, articular aliados regionais e internacionais. Este homem foi José Bonifácio de Andrada e Silva, hoje reconhecido como o Patriarca da Independência.

Embora já estivesse afastado do governo quando se deu o conflito platino, fora do Brasil, exilado pelo governo e antagonizado com as forças políticas, José Bonifácio foi o autor do amalgama (metáfora de sua autoria, com inspiração mineralógica) que soldou a unidade nacional permitiu ao um país recém-saído dos cueros enfrentar uma república já musculosa, adolescente, como era a união argentina liderada por Buenos Aires, quando estourou o conflito na Banda Oriental.

José Bonifácio caiu de paraquedas no Reino do Brasil como se fosse um ET desembarcado de um disco voador. Idoso para a época (56 anos), aposentado de uma carreira acadêmica e técnica na Europa, desenvolvida num país agonizante como era Portugal, ocupado por uma potência estrangeira e administrado por um governo militar. Este homem chega ao seu país, para esperar o fim de seus dias, como era seu propósito, e, diante do vazio político e da grande crise provocada pelo retorno da classe dirigente e da rapina econômica, assume o comando da nave que velejava numa neblina espessa. Por ter feito toda sua vida fora do País, não estava comprometido com as forças políticas remanescentes, não tinha passivo a resgatar com as dissenções internas, podendo, com isto, colocar-se livremente no centro dos acontecimentos. Assim José Bonifácio conduziu o país pela figura do príncipe herdeiro, dom Pedro de Alcântara. Com mão de ferro, astúcia e visão na única direção possível: manter a unidade territorial a qualquer custo.

Essa manobra foi possível porque o Patriarca conseguiu unir, na hora do epicentro do furacão, todas as forças antagônicas, abandonando as divisões e concentrando nas convergências. Por exemplo: ele precisou compor com os traficantes escravistas para conseguir o dinheiro vivo para comprar à vista uma marinha de guerra e contratar em moeda sonante tripulações de marinheiros estrangeiros para expulsar as tropas portuguesas que ocupavam duas cidades chave do reino, Salvador e Montevidéu, e conquistar as capitais do norte e o nordeste, onde as elites confusas ameaçavam aderir a projetos divisionistas.

Num ambiente para lá de provinciano, ele logo percebeu a urgência de se articular no âmbito internacional. Ainda antes do Grito do Ipiranga mandou delegação à Argentina, aproximou-se da Inglaterra, conseguiu o reconhecimento dos Estados Unidos e obteve uma certa complacência de Dom João VI ao acenar com a unidade territorial do Reino.  É bom lembrar que as grandes potências da Santa Aliança (Áustria, Prússia e Rússia) não viam com bons olhos a formação de um país gigante na América do Sul.

Ao compor as convergências passando por cima das divergências, José Bonifácio criou uma espécie de protocolo que veio a ser uma escola de política no Brasil. As grandes questões nacionais passaram, desde então, a se resolverem em consensos de forças heterogêneas. Isto ocorreu com os impasses, desde a Maioridade, passando pela Guerra do Paraguai, Abolição, República, 1930, participação na Segunda Guerra Mundial, Redemocratização e bem possivelmente o Brasil encontrará essa mesma solução para sair do mergulho no escuro produzido pela debacle da pandemia do novo coronavirus.

A Guerra da Cisplatina foi um desses momentos. Ao formar um exército com tropas originárias de todas as províncias, dando fôlego a uma Marinha que defendeu o território ao longo de todo o litoral e levou a guerra às ribeiras e costas do inimigo, da foz do Amazonas até as beiradas do Círculo Polar, a força armada e o inimigo externo concluíram a solda aplicada por José Bonifácio, como única saída, por sinal.

Foi essa vitória política que permitiu ao Brasil desorganizado enfrentar uma potência como a Argentina, pois embora ainda muito jovem, já tinha mais de 10 anos de guerra, uma força terrestre respeitada e vitoriosa, o Exército dos Andes, que foi usado para a invasão do Brasil e combateu na Batalha do Passo do Rosário. É uma história vibrante, épica e muito útil para conhecimento do Brasil contemporâneo, para ver o País real, multiétnico e multiterritorial, com uma tradição política positiva para solução de seus problemas.

Foco na guerra

O foco do livro é a guerra em si. O autor é um historiador militar. Ele enfrenta um grande desafio, como diz, na apresentação, o general de exército Jonas Correia Neto, membro ativo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul e do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil: “A Guerra da Cisplatina é muito mais do que um tema. É uma temática – rica, enredada, confusa, provocativa, repleta de gente, transbordante de ações, vibrante nos episódios, desafiadora nos enfoques, nas interpretações, nas conclusões. Pródiga em consequências”. Sérgio Muniz faz jus a esta proposição.

Ao longo da obra, Muniz percorre todo esse processo histórico e detalha as operações e as estratégias que levaram os comandantes a tomarem tal ou qual decisão. Os argentinos tentando tomar o território uruguaio para incorporar a banda oriental ao projeto territorial da nação argentina, enquanto o Brasil realizava uma campanha defensiva, sem atacar o território inimigo. As tropas brasileiras mantiveram o controle político da Cisplatina, controlando a capital Montevidéu e a principal cidade ribeirinha, Colônia.

Os argentinos tinham como objetivo estratégico a cidade de Porto Alegre, capital da província de São Pedro do Rio Grande, e como objetivo secundário, somente revelado nas pesquisas do embaixador Correia da Costa, a cidade de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis. Ou seja: a invasão argentina nunca ameaçou diretamente os centros vitais tanto da Cisplatina como do Rio Grande do Sul (Santa Catarina sequer foi atacada), desenvolvendo-se em marchas, contramarcas, combates e batalhas nos desertos dos pampas, onde se encontravam apenas pequenos povoados, como Bagé, São Gabriel ou Jaguarão.

A ação estratégica do governo brasileiro, que decidiu a guerra, foi no mar. A novel Marinha Imperial conseguiu isolar o tráfego naval no Rio da Prata e sufocar a economia argentina, a ponto de Buenos Aires interromper suas ofensivas terrestres e propor um tratado de paz. Neste sentido, os argentinos foram derrotados, pois não conseguiram alcançar seus objetivos políticos e territoriais.

A proposta portenha era de uma desistência da soberania sobre a banda oriental, retirada brasileira do Uruguai e a incorporação da Cisplatina à federação da Províncias Unidas do Rio da Prata. O projeto Rio de Janeiro era criar um novo estado de demarcação definitiva da fronteira Sul, que consistia no maior problema político do Império naquele momento. Acabou prevalecendo o objetivo estratégico brasileiro (embora houvesse, no Rio, grupos que defendessem manter a Cisplatina integrada ao Brasil).

Quanto ao Exército, conclui-se que cumpriu sua missão de defender a integralidade do território brasileiro. Com todas as suas dificuldades, o Exército do Sul conseguiu forçar o Exército Republicano (nome dado à força argentina) a se retirar do Rio Grande do Sul em todas as suas investidas. Por outro lado, as forças que ocupavam as grandes cidades uruguaias mantiveram-se intactas. Ou seja: o inimigo não ocupou (nem mesmo atacou frontalmente) a capital brasileira, no caso Montevidéu.

Muniz conta como a guerra no Sul teve pouca repercussão no Rio de Janeiro. A classe política brasileira, digamos assim, usando o jargão de hoje, não conseguia entender o que estava ocorrendo naqueles ermos dos pampas gaúchos e nos mares além da Baia da Guanabara. A oposição aproveitava a confusão para bater no governo de Dom Pedro. Diziam que aquele conflito não passava de uma revolução interna, sem dar crédito à guerra internacional em que o País se metia, dando espaço para que os hispânicos organizassem o maior exército que se armou no subcontinente naqueles tempos. Nem mesmo as guerras da rica e desenvolvida Nova Granada contra o Reino de Espanha teve tantos combatentes e tanto poder de fogo como nos momentos decisivos da Guerra da cisplatina, entre 1825 e 1826.

Esta é a conclusão do historiador Sérgio Muniz. Considerando na sua totalidade, o Império teria vencido a guerra, por ter alcançado seus objetivos estratégicos, quando o inimigo foi obrigado a recuar em suas propostas. O resultado final, entretanto, foi a queda dos dois governos, tanto no Rio como em Buenos Aires. Como sequelas da guerra, o imperador Dom Pedro I foi levado a uma crise que terminou com sua abdicação; na Argentina o governo Rivadavia caiu e a precária unidade nacional esfacelou-se.

Entretanto, diante de uma batalha com resultado controvertido, no Passo do Rosário, no rio Santa Maria, próximo à atual cidade de Rosário no Rio Grande do Sul, pois ambas as forças se retiraram do campo de batalha antes da destruição total do inimigo, ambos os lados cantavam vitória. Nessa batalha bateram-se cinco presidentes de república em seus países: Carlos Alvear já havia sido diretor-geral da Argentina, cargo do chefe do Executivo; Manuel Oribe, Fructuoso Rivera, Juan Antonio Lavalleja, foram presidentes do Uruguai; e Bento Gonçalves presidente da efêmera república Rio-Grandense. Recentemente, em função da política de boa vontade com seus vizinhos, o Brasil abriu mão de considerar uma vitória a Batalha do Passo do Rosário. Sergio Muniz rejeita essa concessão nitidamente política de um fato histórico, e defende que o Exército do Sul de fato teve um resultado positivo.

Um autor prolífico

Coronel do Exército Brasileiro, o escritor Sérgio Paulo Muniz da Costa proferiu palestras sobre História Militar nas universidades USP e Unicamp, na Escola de Comando e Estado Maior do Exército e na Associação dos diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), além de sua destacada participação como palestrante no 39º Congresso Internacional de História Militar, em Turim, na Itália, em 2013. É autor dos livros: “Os Pilares da discórdia: fundamentos de uma incerteza” (BIBLIEX), “Diálogos: acontecimentos de história no Brasil contemporâneo” (UFPR), e “Idade Média: mil anos no presente” (PUCRGS). Gerenciou o projeto de recuperação, restauração e valorização de fortes históricos em Salvador-BA, chefiou a Seção de Ensino de Geografia e História Militar da Academia Militar das Agulhas Negras-RJ, e foi Delegado do Brasil na Junta Interamericana de Defesa, em Washington-DC, nos Estados Unidos. Atualmente é assessor de imprensa da Vice-Presidência da República, em Brasília.

Intérpretes do Brasil – José Bonifácio de Andrada e Silva

  • Felipe Maruf Quintas
  • 11/07/2020 21:22
  • Blog do Eduardo Bomfim

Este é o primeiro de uma série de artigos de Felipe Quintas sobre os intérpretes do Brasil. O Instituto Bonifácio promoverá, a partir da série, o curso Intérpretes do Brasil, a ser ministrado pelo próprio Felipe Quintas.

José Bonifácio de Andrada e Silva (Santos, 1763 – Niterói, 1838), o Patriarca da Independência brasileira, foi um caso raro, na História mundial, de um homem ao mesmo tempo de ciência e de ação política.

Conhecido nos principais círculos intelectuais europeus, foi um dos maiores mineralogistas de sua época, responsável pela descoberta de quatro minerais, entre eles a petalita, a partir da qual se extrai o lítio e a andradita, batizada em sua homenagem.  Ocupou a cátedra de Metalurgia na Universidade de Coimbra e também funções de destaque na administração pública portuguesa, onde se empenhou em desenvolver, pela ação do Estado, a mineração e a siderurgia nacionais.

Em 1808, quando da invasão napoleônica a Portugal, comandou batalhões portugueses contra as tropas francesas.

Tendo retornado ao Brasil em 1819, assumiu papel de destaque na Independência, por ele chamada “Revolução Brasílica”. Foi iniciada em reação ao intento das Cortes portuguesas de recolonizar o Brasil e fazê-lo voltar ao estatuto pré-1808, o que Bonifácio foi um dos primeiros a denunciar, ainda que tivesse sido até então um ardente defensor do Império luso-brasileiro sediado no Brasil.

Tendo sido ministro do Reino e dos Negócios Estrangeiros de janeiro de 1822 a julho de 1823, comandou com mão firme a Guerra de Independência contra Portugal e atuou com severidade contra as facções radicais, por ele chamadas de “anarquistas”, e as reacionárias, por ele chamadas de “corcundas” e “pés de chumbo”. Nesse processo, organizou o Exército e a Marinha brasileiros, bem como a diplomacia, tendo contado com a importante colaboração da Imperatriz Maria Leopoldina. Dessa maneira, estabilizou o cenário político na Independência e impediu que o País se fragmentasse. Após ter sido demitido do Ministério, fundou, junto aos seus dois irmãos, o jornal nacionalista O Tamoio. Em seguida, foi eleito, também com os irmãos, deputado constituinte em 1823, incendiando os debates com ousadas propostas nacionalistas e abolicionistas. Quando da dissolução da Assembleia Constituinte, perdeu seu mandato, foi preso e exilado.

Em sua trajetória política, exerceu a função de estadista consoante uma interpretação do Brasil, segundo a qual o nosso País, mais do que uma Nação, seria, pela sua grandeza e fertilidade, um Império e uma Civilização singular, de caráter mestiço e autossuficiente em termos materiais e culturais. Foi o primeiro a elaborar e colocar em prática um projeto nacional de emancipação política, desenvolvimento econômico e justiça social à altura das amplíssimas potencialidades brasileiras.

Para tanto, ele defendia a edificação de um Estado unitário que, por um Poder Executivo enérgico, constituísse “um centro comum de União e de força entre todas as Províncias deste vastíssimo País”, de modo a resguardar e aperfeiçoar “a responsabilidade e harmonia mútua entre os Poderes Civil, Militar e Financeiro” e “desempeçar o caminho para o aumento da civilização e riqueza progressiva do Brasil”, conforme expresso no Manifesto da Independência, redigido por ele e proclamado por Dom Pedro I. Ou seja, um Estado capaz de dirigir e coordenar a Nação, dando-lhe a musculatura institucional necessária para a manutenção da ordem e a condução do progresso.

Sua defesa da monarquia constitucional centralizada não derivava de nenhum apreço ao passado como tal, mas à consideração pragmática e realista de ser essa a forma de governo mais adequada para preservar a unidade nacional de um país de grande extensão territorial como o Brasil. Esse posicionamento encontrava respaldo na observação empírica do sucesso das experiências europeias de centralização territorial pela via monárquica – sendo o caso mais marcante o da Rússia, único país que, à época, superava o Brasil em território -, do malogro do republicanismo na América Hispânica em evitar a balcanização e a conflagração das ex-colônias espanholas e do exotismo da forma institucional federalista adotada nos EUA, país de formação, raízes e tradições muito distintas.

A proposta do Patriarca de transferência da capital para o interior, mais especificamente para o Planalto Central visava promover essa centralização política na base física do País.

O exercício da autoridade estatal em todo o território viabilizaria a integração nacional pelo desenvolvimento produtivo e social. Em sua concepção, o eixo econômico e demográfico brasileiro deveria ser deslocado para o interior, amplificando-se na imensa base continental. Daí a necessidade, segundo ele, de ocupar o interior por meio de empreendimentos estatais de infraestrutura e de fomento à agricultura, à mineração e à indústria, entendidas como complementares entre si.

Para isso, Bonifácio propunha a criação da Direção Geral de Economia Pública, órgão estatal responsável pelo planejamento e execução de tais iniciativas, de maneira também a estimular a criação de um empresariado nacional ainda inexistente. Em muitos aspectos, e com mais de um século de antecedência, a Direção Geral de Economia Pública assemelhava-se ao famoso MITI japonês (Ministério do Comércio Exterior e da Indústria), responsável pela alavancagem econômica do Japão após a II Guerra Mundial.

Suas ideias sobre preservação ambiental eram subsidiárias, não antagônicas, ao desenvolvimento agrícola e industrial, pois a racionalização do uso do solo e das riquezas naturais seria condição indispensável para a manutenção das atividades produtivas e das condições de antropização da continentalidade brasileira.

O Patriarca também defendeu, de maneira incisiva, a abolição gradual da escravidão e do tráfico negreiro, chegando a apresentar um projeto de lei nesse sentido durante o seu mandato de deputado constituinte em 1823, conhecido como Representação sobre a Escravatura. Não lhe interessava apenas abolir a escravidão, mas também, e sobretudo, os seus efeitos funestos em termos de desigualdades sociais e aviltamento humano e produtivo do País.

Então, ele defendeu a execução de uma reforma agrária que coibisse o latifúndio e distribuísse terras aos negros libertos, aos indígenas e aos brancos pobres, bem como fornecesse instrução formal e assistência técnica a esses grupos. Não por menos, advogou pela criação de escolas e universidades em todas as províncias, para “espalhar pelo Povo os conhecimentos, que são indispensáveis para o aumento, riqueza e prosperidade da Nação”. Em sua concepção, os negros e os índios deveriam ser incorporados, de forma pacífica e consistente, ao progresso nacional, cabendo haver, inclusive e na contramão do racismo imperante, o estímulo público à homogeneização étnica e social do Brasil pela miscigenação entre eles e os brancos, com o fito de assegurar a unidade nacional.

O caráter desenvolvimentista e social do projeto nacional de Bonifácio inseria-se no plano maior de avançar a Independência do Brasil em relação aos âmbitos comercial e financeiro relativos à Europa, sobretudo à Inglaterra, não limitando a emancipação nacional à libertação política a Portugal. Sendo o Brasil dotado de inesgotáveis recursos, não dependeria do comércio com os países centrais para prover seu próprio sustento. O Brasil deveria orientar suas atividades para dentro, e não mais para o exterior, rompendo definitivamente com o estatuto colonial.

Ele o seu irmão Martim Francisco, 1º Ministro da Fazenda do Brasil, foram, nas ideias e na prática, ferrenhos opositores do livre-comércio, do endividamento externo e da submissão do País a grupos financeiros. Martim Francisco, com o aval do irmão e contrariamente aos interesses britânicos, elevou as tarifas alfandegárias sobre produtos importados, recorreu a um empréstimo interno para sanear as contas públicas, impedindo a tomada no exterior, e reestruturou o Banco do Brasil, salvando-o momentaneamente da bancarrota no intento de torná-lo, enquanto banco estatal, a agência central de crédito do País. Ambos criticaram veementemente os empréstimos externos, o arrendamento das finanças e os tratados comerciais desfavoráveis ao Brasil, feitos logo após a saída deles do governo.

A autossuficiência do Brasil também foi utilizada por Bonifácio como instrumento dissuasório para obter da Inglaterra o reconhecimento da Independência, em admirável postura soberanista. Na Instrução diplomática endereçada a Felisberto Caldeira Brant Pontes, representante do Brasil na Inglaterra, o Patriarca escreveu: “Este Reino […] está resolvido a fechar seus portos a qualquer Potência que não quiser reconhecer nele o mesmo direito que tem todos os Povos de se constituírem em Estados independentes […]. O Brasil não receia as Potências Europeias, de quem se acha apartado por milhares e léguas, e tampouco precisa delas, por ter no seu próprio solo tudo que lhe é preciso”.

A fim de zelar por essa autossuficiência, caberia ao País constituir sólida defesa nacional para proteger e defender o seu patrimônio físico e humano. Daí o já citado esforço empreendido por Bonifácio de organizar o Exército e a Marinha nacionais, bem como um serviço de inteligência, por ele chamado “alta polícia estrangeira”, para vigiar e espionar outros países – no que ele incluiu nominalmente EUA e Inglaterra -, de maneira a fazer valer os interesses do Brasil no mundo. Como ele afirmou, em passagem citada por Glycon de Paiva, membro da Assessoria Econômica de Getúlio Vargas, em artigo presente no Volume 1 das Obras Científicas, Políticas e Sociais de José Bonifácio de Andrada e Silva: “Pão, pólvora e metais são o que sustenta e defende as nações: sem eles de próprio fundo, são precárias a existência e a liberdade de qualquer Estado”.

Por fim, em seus esforços para assegurar a soberania nacional, Bonifácio, em Instruções diplomáticas a Correa da Câmara e Rivadavia, representantes do Brasil nos Estados do Prata, propôs a seus respectivos governos a formação de uma Confederação entre o Brasil e os países da América Hispânica para juntos se defenderem contra o imperialismo europeu. Bonifácio antecipou-se ao presidente estadunidense James Monroe, idealizador da Doutrina Monroe, ao propor um pacto de defesa continental liderado pelo Brasil.

Significativamente, os EUA não seriam abrangidos, o que sinaliza para possíveis desconfianças que o Patriarca já tinha em relação ao país cujos líderes declaravam pretensões imperialistas, a exemplo do Destino Manifesto e dos Artigos Federalistas, que posteriormente tornar-se-iam a realidade da sua política externa.

Integrando as dimensões política, econômica e militar em um projeto nacional, o Patriarca orientava sua liderança no sentido de romper a subordinação brasileira, em todos os sentidos, às potências europeias e ao comércio atlântico com elas. O intuito era fazer o Brasil emergir como potência mundial, altiva para fora e generosa para dentro. 

Não admira que, na sua vida política no Brasil, Bonifácio tenha colecionado, entre as oligarquias, mais desafetos que aliados, e tenha pagado o preço com a prisão por mais de uma vez, o exílio e o ostracismo ao final da vida, levada por ele de forma pacata em Niterói. Seu projeto nacional ameaçava interesses e preconceitos arraigados, todos voltados para manter o Brasil escravocrata, primário-exportador e subjugado à Inglaterra, mesmo depois da sua Independência.

Todavia, o Patriarca inspirou inúmeros movimentos posteriores de libertação nacional, como o abolicionismo, que o considerava um mentor; o positivismo, que resgatou a sua memória como Pai da Pátria, defensor de um Poder Executivo forte e protetor dos índios; a Revolução de 30, cujos programas educacional e de implementação da mineração e da siderurgia nacionais foram abertamente inspirados nas suas ideias.

Ainda hoje, a sua visão e interpretação de Brasil permanece atual e por ser feita. O desafio de formar o Brasil soberano, desenvolvido e fraterno mantém-se de pé. A memória de José Bonifácio ilumina os fundamentos da Independência brasileira, em sentido formal e substantivo. A importância em fazê-la viva na prática política consiste em que, como ele afirmou: “sem independência não há para as nações nem constituição, nem liberdade, nem pátria”.

Referências para o estudo do pensamento e da obra de José Bonifácio:

– Obras Científicas, Políticas e Sociais de José Bonifácio de Andrada e Silva (3 volumes). Coligidas e Reproduzidas por Edgard de Cerqueira Falcão. Câmara dos Deputados, 2006.  

– José Bonifácio de Andrada e Silva: Projetos para o Brasil. Organizado por Miriam Dohlnikoff. Companhia das Letras, 1998.

– José Bonifácio. Autor: Octávio Tarquínio de Sousa. Biblioteca do Exército, 1974.

– José Bonifácio e a Unidade Nacional. Autora: Therezinha de Castro. Biblioteca do Exército, 1984.

– O Homem que Inventou o Brasil – Um Retrato de José Bonifácio de Andrada e Silva. Autor: Geraldo Lino. Capax Dei, 2019.

– 1822. Autor: Laurentino Gomes. Globo, 2010.

– A Era Vargas (vol.1, cap. 5 – A Revolução de 30 retoma propostas de José Bonifácio). Autor: José Augusto Ribeiro. Casa Jorge, 2001.

Notícias do Brasil

  • Redação
  • 07/07/2020 01:04
  • Blog do Eduardo Bomfim

A grande mídia anuncia o que todos já previam: a crise social no mundo será uma segunda onda, um tsunami decorrente da pandemia do corona vírus 19. O setor de serviços, que mais emprega gente, será o mais afetado no Brasil. Serão milhões de desempregados, isso não contabilizando aqueles que se encontram entre os chamados informais, que representam um número bem maior de pessoas.

Enquanto uma jornalista de economia dessa mesma mídia nos informa, pela TV a cabo, que há trilhões de dólares especulativos voando através das “nuvens” digitais, em busca de “oportunidades” para serem aplicados em algum investimento rentável, em qualquer oportunidade que apareça, como se essa fosse uma grande notícia.

Essa globalização dos fluxos financeiros especulativos, desgarrados de investimentos produtivos, que não geram riquezas, é uma das maiores catástrofes dos tempos contemporâneos, que se consolidou enormemente a partir do novo milênio.

A Bíblia sagrada, não me julgo um dos seus conhecedores, mas que nem por isso deixa de ser um dos maiores livros da humanidade, é, também, em termos literários, uma compilação de grandes narrativas Históricas, em forma de parábolas.

Mas se a Bíblia fosse reescrita nos tempos atuais, a globalização financeira constaria como uma das “sete pragas” da humanidade e excluiria delas a pandemia sanitária do corona vírus, com as suas terríveis consequências, pela razão que as pandemias são recorrentes, de tempos em tempos, na História humana.

No entanto, o ministro Paulo Guedes, em entrevista concedida à Globo News, reafirma os seus postulados neoliberais ortodoxos, anunciando para em breve uma onda de privatizações, com o objetivo de relembrar ao Mercado Financeiro, os compromissos do governo Bolsonaro para com o capital especulativo global.

E ao mesmo tempo demonstra total ausência de preocupação com o caos social e econômico já instalado no País desde antes da pandemia, mas agravado com os efeitos trágicos do corona vírus. Como se sabe, o foco do ministro é para com o capital rentista, e a destruição do patrimônio estatal do Brasil.

Para ele, os investimentos públicos são responsáveis pela corrupção no País e portanto devem ser extirpados, assim como as próprias empresas que são patrimônio do Estado brasileiro. Um argumento delirante, se não fosse um atentado contra os interesses nacionais.

Já o presidente Jair Bolsonaro continua tratando a pandemia sanitária como se fosse mera gripe sazonal, enquanto cálculos aritméticos, razoavelmente primários, indicam que até o fim do ano podemos chegar entre 150 a 200 mil mortos vítimas do corona vírus no Brasil.

E o ex-juiz Sérgio Moro, em entrevista exclusiva na televisão, afirma que a questão estratégica do País é o, óbvio, combate à corrupção.

Não falou, nem foi perguntado, sobre as fartas denúncias do pacto da operação da Lava Jato com o FBI e a NSA, agências de inteligência norte-americanas, para mover ações contra a Petrobrás e outras empresas estratégicas nacionais. Como se isso não caracterizasse graves atentados contra a segurança nacional.

Pacto de colaboração, formal e informal, que, aliás, é vigente desde os governos do Partido dos Trabalhadores. Cujas consequências abriram um vácuo político no País, sendo uma das causas responsáveis pela eleição do atual presidente Bolsonaro.

A pergunta que não quer calar é: qual a nação de grande porte no mundo, como o Brasil, permite, oficialmente, tal ingerência nos seus assuntos internos, venha de onde vier, sem pagar alto preço econômico e em sua soberania?

Enquanto isso, trava-se uma guerra ideológica, do tipo guerra híbrida, entre identitaristas de direita com as suas agendas conservadoras, carregando, para todos os lados, as bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, desautorizada pela sua embaixada no País, e identitaristas ditos “progressistas” com as suas agendas racialistas, contra monumentos e personagens históricos. Uma desorientação generalizada.

Já o Brasil real, onde habitam as grandes maiorias sociais, tem outras prioridades: como conseguir sobreviver à pandemia sanitária, à angústia da trágica depressão econômica, ao crescente e inevitável caos social etc. Essa é a dramática realidade em que vive o povo brasileiro.

O Brasil é inevitável. Mas só através de um programa de emergência econômico, social, para livrar o país da crise atual, e da elaboração de um programa nacional de desenvolvimento estratégico e soberano, a nação pode trilhar novos rumos e iniciar uma nova etapa da sua História.

A serventia

  • Eduardo Bomfim
  • 30/06/2020 19:10
  • Blog do Eduardo Bomfim

Com o Brasil caminhando para o número macabro de 60 mil mortos e milhões de infectados pelo corona vírus 19, e nessa batida podemos chegar, desgraçadamente, a 100 mil mortos, ou mais, e milhões de pessoas atingidas por esse vírus maldito, pergunta-se: qual o rumo para a nação?

Mas, parece que essa pergunta, que é fundamental e de enorme serventia para as grandes maiorias sociais, do Brasil real, não se encontra na ordem do dia em setores das elites, econômicas ou políticas, porque se discute de tudo, menos as grandes interrogações, ou angústias, do povo brasileiro.

Assistimos, diariamente, na grande mídia hegemônica a promoção diária, mais que diária, pode ser medida em termos de horas, de uma guerra identitária entre pautas aparentemente de “esquerda” versus os identitaristas de “direita” que, no momento, se encontram encastelados no governo federal, sob a batuta do presidente Bolsonaro.

Essa guerra ideológica, movida por tempestades de emoções, de ansiedades difusas, insuflada pelos noticiários dessa mídia hegemônica, e dos robôs nas redes sociais, vem alimentando a agenda política nacional, ad nauseam, motivando correntes de ativistas digitais.

Enquanto isso, o presidente Bolsonaro, insiste em ignorar a pandemia, e o seu ministro plenipotenciário, Paulo Guedes, continua com a sua política econômica neoliberal ortodoxa, que já não é aplicada em canto nenhum do mundo, uma relíquia chilena macabra do governo ditatorial de Pinochet, e, nessa catástrofe pandêmica, aí é que é impossível mesmo de ser aplicada.

Os segmentos lúcidos de oposição deveriam, com urgência, abordar as grandes questões que precisam de respostas para ontem; como o País vai lidar com esse terremoto provocado pela atual pandemia sanitária.

Como enfrentar a catástrofe social dela decorrente, associada aos indicadores sociais que já vinham se acumulando em anos anteriores.

Como recuperar a economia que afeta milhões de pequenos e médios empresários, os segmentos na área de serviços, restaurantes e bares.

Qual a estratégia econômica para enfrentar o tsunami dos dezenas de milhões de desempregados pela pandemia, que se acumulam com os milhões de desempregados anteriores a ela. Além de dezenas de milhões de informais, também desesperados.

Como soerguer o parque industrial, já bastante debilitado e defasado, mesmo antes da crise sanitária.

Mesmo que o governo Bolsonaro não esteja interessado nessas e outras graves questões, cabe, minimamente, à oposição abordar os problemas candentes que se não forem tratados, vão levar o País ao caos absoluto, total.

Seria entre, outras coisas, uma proposta, uma plataforma, mínima, para tirar o Brasil, e acima de tudo o povo brasileiro, dessa tragédia que vai se acumulando rapidamente como uma bola de neve. Nessa frente ampla, todos entrariam, a nação a abraçaria com vigor e entusiasmo.

É a tarefa maior dos amplos setores oposicionistas ao governo Bolsonaro. Se não for uma estratégia, uma tática, um projeto, um programa, uma plataforma política de emergência, que seja, pelo menos, por razões humanitárias.

Porque mesmo não sendo, hoje, governo, as oposições têm imensas responsabilidades para com o destino do País, em um horizonte próximo. Mais próximo do que se possa imaginar.

Os Estados Unidos e a guerra híbrida

  • Eduardo Bomfim
  • 24/06/2020 19:47
  • Blog do Eduardo Bomfim


“O espírito é como um paraquedas. Só funciona bem quando está aberto”

Após o final da Segunda Guerra mundial, emergiu o protagonismo dos Estados Unidos como potência global.

Paradoxalmente, a Grã-Bretanha que enfrentou sozinha, com a Europa ocupada, a fúria das armas nazistas, suas cidades bombardeadas diuturnamente pelos aviões alemães, acarretando a morte de dezenas de milhares de civis soterrados nos escombros dos edifícios, essa mesma Grã-Bretanha, que saiu vitoriosa do conflito mundial, perdeu as extensões territoriais do seu vasto império colonial, em decorrência das lutas pela independência anticoloniais que varreram o planeta.

A União Soviética foi outra potência mundial que saiu vitoriosa do terrível confronto da Segunda grande guerra mundial, com um saldo terrível de 25 milhões de mortos, o maior entre as demais nações em beligerância.

Mas a URSS não só venceu a batalha contra o nazifascismo, como manteve e ampliou o seu espaço territorial, expandindo-o aos limites da Europa ocidental com a divisão da Alemanha nazista derrotada.

Estava inaugurada a época da chamada Guerra Fria, que perdurou de 1945 até o início dos anos 90 com a extinção da União Soviética. Mas o protagonismo global da Rússia, centro geopolítico da ex-URSS, depois de um breve período de debacle, ressurgiu a partir da liderança de Putin com a recomposição do seu espaço histórico de séculos e séculos.

Essa bipolarização mundial, entre os Estados Unidos e a URSS, determinou a configuração global em todos os níveis: militar, geopolítico, cultural e ideológico. E as suas consequências deixaram rastros até os dias atuais.

Por muito tempo, as lutas políticas no planeta estiveram carregadas de conteúdos ideológicos que opunham essas duas grandes potências, que praticamente dividiam o mundo em duas partes.

Muitos golpes de Estado deram-se com a justificativa da “ameaça soviética”, e muitas lutas de libertação colonial tiveram o apoio geopolítico, quando não militar, da URSS.

Tratava-se, em última instância, de reforçar o protagonismo global, comercial, econômico, geopolítico, cultural, ideológico, de cada uma das duas gigantes super potências.

Quem melhor definiu o que foi essa época, que ocupou a metade do século XX, foi o presidente francês Charles De Gaulle, herói da luta contra o nazismo, ao afirmar: quem desejar saber exatamente o que é a Guerra Fria, precisa olhar com muita atenção quais são os interesses geopolíticos dos Estados Unidos e da URSS.

De Gaulle foi um dissidente da divisão do mundo em dois grandes campos. Sempre defendeu o protagonismo independente da França, em meio a uma época turbulenta e perigosa.

Renasce o Império do Meio

“Quando a China despertar, o mundo irá tremer” (frase atribuída a Napoleão)

Na geopolítica atual, os Estados Unidos foram o grande beneficiário. Produziu uma formidável indústria militar, cultural, ideológica, midiática, e de diversões, que propagou o estilo norte-americano de vida aos quatro ventos do mundo, como se ele fosse o único, ou mesmo universal.

A extinta União Soviética que em 1917 promoveu uma revolução social contra um sistema opressor, herdou e não se desfez do antigo espaço do velho império czarista de muitos séculos.

Ao contrário, manteve e o ampliou. Falta à Rússia, hoje sob a liderança de Putin, reaver um único território que sempre foi a sua área “natural” de influência: a Ucrânia.

Mas, em 1949 ressurge, sob novas condições Históricas, o milenar Império do Meio chinês, depois de altos e baixos, ascensões e declínios, e uma época de profundas humilhações colonialistas.

A China é um ator de primeira grandeza no cenário geopolítico desde, quase, sempre. Mesmo quando não o quis ser, e voltou-se para si mesma, em uma das suas dinastias.

E hoje, é considerada a segunda maior economia do planeta, em franca ascensão. O seu traço principal é a expansão comercial, através de múltiplas parcerias e trocas comerciais. O Brasil é, hoje, um dos seus principais exportadores agrícolas e de matérias primas, e importador de produtos industrializados chineses.

A tentativa europeia

Já a Europa, séculos atrás o centro do mundo ocidental, perdeu a liderança para a exuberância imperial norte-americana, apesar da sua extraordinária cultura, tesouros arquitetônicos, e busca, através da União Europeia, reconquistar o seu papel na arena internacional.

Mas, o velho continente, composto por antigos e ex-impérios, debate-se internamente em rivalidades mútuas e históricas, além do protagonismo industrial, econômico e financeiro da Alemanha, que se soergueu da derrota na Segunda Guerra mundial e almeja a liderança do continente nessa atual união federativa europeia.

Os Estados Unidos fraturados

“O mundo moderno... tem como principal objetivo simplificar o que quer que seja, destruindo quase tudo”. (G. K. Chesterton, escritor britânico)

Com o extraordinário crescimento econômico da China, que em algumas décadas deixou de ser uma grande nação de quase miseráveis, toda uma população de uniformes azuis, dirigindo bicicletas, e passou a ser a segunda potência global, a caminho acelerado para o pódio superior, a hegemonia unipolar dos EUA, após a debacle da URSS em 1990, desaparece.

Some-se a esse fato, o reaparecimento da Rússia, o grande urso, como sempre foi chamada, com seu enorme espaço de influência recuperado, e poderio atômico-militar, herdado da ex-União Soviética.

Assim, a liderança mundial dos Estados Unidos se encontra abalada. E internamente estão divididos, praticamente ao meio.

De um lado, há o projeto de uma parte das suas elites que aposta na estratégia do isolacionismo, e no “excepcionalismo” de uma nação voltada para guiar a humanidade tal e qual a sua imagem e semelhança.

E frente à crise financeira global, defendem a reagrupação da sua indústria em seu próprio território, como diz o slogan “América First’, primeiro a América. Essas lideranças estão, basicamente, ligadas ao presidente Trump, ao partido Republicano no poder.

De outro lado, encontram-se as elites no partido Democrata, que insistem em reassegurar a hegemonia dos Estados Unidos pelos caminhos da própria globalização financeira e, com ela, definir estratégias para reassegurar o protagonismo norte-americano como nação líder do planeta.

Tanto os Republicanos como os Democratas disputam essa batalha entre os corações, as mentes e os votos nas eleições presidenciais e proporcionais, em novembro próximo.

Nesse confronto político radicalizam-se as linhas ideológicas. Daí é que surgiram as agendas identitárias que se auto intitulam de “direita” e de “esquerda”, em negação radical uma da outra, como se isso fosse possível na construção histórica dos EUA.

Os Democratas perderam as eleições passadas porque teriam abandonado as grandes linhas de administração e de políticas que falavam para o conjunto da nação e assumiram a orientação multiculturalista de parcelas da sociedade que passaram a condenar as grandes maiorias sociais por injustiças às chamadas minorias.

Abandonaram a visão central da nação, do sentimento de solidariedade, do espírito de oportunidade para todos e o dever público, perdendo o sentido do que compartilham como cidadãos e do que os une como nação.

Nos anos 60, a política pelos Direitos Civis significava a batalha das grandes maiorias sociais, ombreadas e junto às lutas das mulheres pelos seus direitos, contra o racismo, pelos direitos das minorias sexuais etc.

Mas a partir dos anos 80, essa política cedeu lugar a uma pseudopolítica de autoestima e autodefinição, cada vez mais autocentrada, estreita e autoexcludente e, por óbvio, condenando as grandes maiorias sociais que não pertencem às especificidades “classificadas” como responsáveis pelas injustiças históricas.

Assim as agendas identitárias passaram a ser vistas como uma doutrina professada basicamente pelas elites urbanas “esclarecidas” sem contato com todo o resto da população. As agendas identitárias reduziriam o espírito nacional ao grupo, ao indivíduo.

Já os identitaristas de “direita” espalham mentiras, promovem teorias da conspiração, consideram que há “uma onda comunista” em qualquer lugar, contexto, filme, livro, peça de teatro, no mundo da política etc. etc. Um verdadeiro caldo tóxico que termina promovendo todos os tipos de delírios e alucinações possíveis e inimagináveis, que se estendeu também ao bolsonarismo no Brasil.

Esses parágrafos acima foram extraídos do livro “O progressista de ontem e o do amanhã”, do cientista político norte-americano Mark Lilla, escrito logo após as últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos.

Perto das próximas eleições presidenciais americanas, as agendas identitárias não apenas continuam, como recrudesceram e adquiriram novas formas mais radicalizadas.

As agendas identitárias se propõem, no momento, destruir toda a História existente até o presente, e reescrevê-la como uma espécie de tábua rasa, em uma folha de papel em branco.

Para tanto, iniciaram pela destruição de monumentos e estátuas que indicam personalidades, como Thomas Jefferson nos EUA e Winston Churchill que, ao lado de Stalin e do presidente Roosevelt, liderou a Grã-Bretanha, absolutamente sozinha na Europa, frente às hordas nazistas de Hitler, poderosamente militarizadas. Em Portugal, o identitarismo atingiu alvos como a estátua do padre Antônio Vieira, e no Brasil, do padre José de Anchieta. Por enquanto.

Essas manifestações identitárias se espalharam pelo mundo ocidental a partir do assassinato, racista, covarde e brutal, de George Floyd, nos Estados Unidos, e chegaram a várias capitais no Ocidente. Em plena pandemia do corona vírus que já ceifou a vida de centenas de milhares de pessoas no mundo e no Brasil, e infectou milhões de pessoas. A cinco meses das eleições nos EUA.

Elas indicam que vivemos uma Guerra Híbrida, uma nova “revolução colorida”, diversionista, como a que atingiu os povos árabes anos atrás, com objetivos econômicos e geopolíticos específicos: fazer assegurar aos Estados Unidos a hegemonia cultural, ideológica, junto ao mundo ocidental, na atual, estratégica disputa comercial e política sino-americana.

Tudo isso em meio ao caos sanitário, à onda gigantesca de desemprego pelo mundo, à queda brutal do PIB em escala global, que assumirá forma dramática.

Mas, revela, igualmente, que os Estados Unidos ainda são uma nação poderosa, com um forte aparato midiático hegemônico, com capacidade de ditar as pautas ideológicas e culturais, pelo menos em grande parte do mundo ocidental.

Está correto o embaixador Marcos Azambuja quando alerta para a atual e errática política externa do governo Bolsonaro: somos um País destinado a encontrar convergências com muitos, e não com poucos. Éramos naturalmente criadores de amplos consensos - e não parte de alianças sectárias. Usávamos a nosso favor as muitas dimensões da nossa identidade. Parecemos esquecidos de tudo isso.

Temo que o agravamento das tensões e disputas entre os Estados Unidos e a China crie condições que devem nos obrigar a navegar com cuidado em águas que ficarão perigosamente agitadas. Temos que cuidar dos nossos imensos interesses em jogo e agir com racionalidade e lucidez.

O falso detetive Charlie Chan famoso em filmes nas décadas de 1930-1940, dizia sempre o seguinte: o espírito é como um paraquedas. Só funciona bem quando está aberto.

Em meio a essa tormenta sanitária, social, ideológica, comercial, geopolítica, o Brasil precisa encontrar os seus objetivos com base na centralidade da questão nacional, em nossos interesses estratégicos fundamentais.

Não podemos ficar à mercê ou alinhados a essa disputa ideológica, de uma guerra híbrida, e sectária, das correntes identitárias de “esquerda” e de “direita”. Uma, desejando vandalizar estátuas e monumentos, “reescrever” a História a partir do zero, e negar as grandes figuras emblemáticas, que são referências da nossa formação como povo, de uma sociedade singular e mestiça que somos.

A outra, querendo nos alinhar a um falso, também sectário, excepcionalismo do “ destino manifesto” ,“divino”, da missão norte-americana no mundo, que não corresponde à verdade, e à própria História.

Ambas as vertentes em confronto não nos servem, não refletem a nossa realidade, interesses, formação histórica, a possibilidade de caminhos ao nosso protagonismo como nação, que construímos até agora, com virtudes e deformações, porque não existe no planeta, nações unicamente virtuosas.

Esse é o rumo a que precisamos dar sequência, honrando o nosso legado de um País continental e promissor, com imensas possibilidades ao seu futuro.

O colapso de um sistema

  • Eduardo bomfim
  • 20/06/2020 22:17
  • Blog do Eduardo Bomfim


Não é que tudo ia bem e a pandemia global do corona vírus 19 foi um agente biológico externo que desestabilizou uma ordem mundial que funcionava com razoável eficiência.

O edifício erguido pela globalização financeira já apresentava fadigas de material, anunciadas pelos economistas, políticos e sociólogos, há bastante tempo.

Em primeiro lugar, porque seria impossível manter por tempo indeterminado uma acumulação financeira de centenas de trilhões de dólares, em mãos do capital especulativo parasitário, absolutamente predador, desvinculado dos investimentos nos setores produtivos das nações, que geram as riquezas materiais e impulsionam o desenvolvimento real das sociedades.

A alternativa, fartamente “vendida” como panaceia geral, em substituição à ausência da geração de riquezas materiais, foi, e tem sido, o inchaço fenomenal do setor de serviços, que formaria uma nova sociedade, uma nova classe média, um novo tipo de civilização altamente urbanizada e cosmopolita.

Como já se disse, através da neurociência, a propaganda produz o pensamento, o pensamento conduz aos sentimentos e o sentimento gera a crença. E essa “crença” foi difundida amplamente pelos meios de comunicação globais, as redes sociais, as chamadas “infovias”, sob a hegemonia do mesmo capital especulativo rentista.

Ao ponto que muitos passaram a acreditar que não existe um pensamento hegemônico, nem a mídia hegemônica. Seriam as redes sociais o revolucionário espaço de intercomunicação de uma sociedade mundial, mais democrática que jamais existiu, onde prevalece o protagonismo do indivíduo autocentrado, se comunicando com outros indivíduos, igualmente autocentrados.

Assim, foi constituída uma nova “crença”, uma nova maneira de enxergar o presente, onde já não mais se tratava de se envidar esforços coletivos em prol de uma sociedade próxima de uma cidadania mais igual, socialmente mais justa.

Inaugurava-se a paradoxal sociedade individual, a sociedade do “eu”, da internalização do indivíduo. Para esse objetivo, surgem, bastante municiadas financeiramente, as agendas identitárias, carregadas de toda uma justificativa pretensamente teórica, e de formadores de opinião, “líderes globais” que, aparentemente, surgem “das nuvens”, através das redes sociais.

Apesar dos alertas de Edward Snowden e Julian Assange, de que as redes sociais, o mundo digital, são uma poderosa cadeia de instrumentalização hegemônica, política, espionagem geopolítica, disputa empresarial e robôs direcionando a informação, e a opinião pública, mesmo assim, permanece a “crença” de um admirável mundo novo, onde o que é fundamental são as tratativas dos indivíduos e dos seus grupos afins.


O ressurgimento do protagonismo soberano

A sisuda e conservadora revista inglesa The Economist, voltada para o mundo das finanças, já alertava, em maio, ao seu público privilegiado, para a debacle do modelo econômico da Nova Ordem mundial, instituída pelo capital financeiro, especialmente o especulativo, com a seguinte manchete: Adeus Globalização.

No período anterior à pandemia, a economia global patinava em crescimento pífio, notadamente a partir da crise econômica mundial em 2008, iniciada nos Estados Unidos. Os índices de crescimento dos Países sempre apontavam para números, na média, entre um a dois por cento, no máximo, quando não negativos.

A divisão internacional da produção de riquezas não só debilitou como aumentou a dependência das nações a essa internacionalização das cadeias produtivas. Ao ponto que durante a pandemia atual, nações europeias não tinham ventiladores para os seus hospitais, como tiveram que importar máscaras para os seus cidadãos. Algo impensável em outras épocas.

Essa divisão internacional do trabalho simplesmente esfarelou as cadeias industriais da grande maioria das nações do mundo desenvolvido ou em desenvolvimento.

Mesmo na área agrícola, os agricultores europeus viram-se forçados a alguma divisão, reduzindo a autonomia alimentar da população, assim como a capacidade de exportação de muitos Países.

Porém, não é recente a opinião, no “velho mundo”, de que a comunidade europeia caminha para uma espécie de “germanização”, tendo em vista a força da indústria, complexa em ciência e tecnologia, e o poder concentrado do capital financeiro da Alemanha.

A explosão das grandes cidades, no período mais recente, deve-se ao crescimento descomunal do setor de serviços, tanto como ao desmantelamento da produção agrícola, em muitas nações.

Para uma população “anestesiada” pelo discurso da globalização, a democracia virou sinônimo, quase que exclusivo, de um consumismo desenfreado - refiro-me às elites e setores da classe média - de produtos cujas inúmeras cadeias de serviço disputam, entre elas, esses consumidores, avidamente.

A produção de filmes, séries etc., segue, quase, a mesma linha desse mesmo consumismo, retroalimentando-o.

Trata-se de um círculo contínuo e alienante. A cidadania e o respeito ao seu próprio País tornou-se uma ideia pejorativa, para ser afastada a todo custo.

O futebol, esporte das multidões, pela sua capacidade lúdica e apaixonante, transformou-se, quase, simplesmente, em um espetáculo bilionário e global, enquanto o carinho pelas cores das seleções de cada nação virou algo secundário, muitas vezes confundido como uma espécie de “patriotada”. Com o beneplácito de muitos cronistas esportivos.

Uma realidade perversa

A pandemia sanitária global foi como uma fórmula de reagente químico sobre a realidade já perversa. Aliás, um dia será escrito como essa epidemia transformou-se em uma pandemia, com tantos recursos tecnológicos e de saúde, sofisticados, a serviço da globalização financeira, para evitar essa catástrofe monumental.

Enquanto crescia uma classe média empregada no setor de serviços, a desindustrialização em cada País provocava uma massa formidável de desempregados formais, que se juntava a uma legião bem maior de subempregados.

O anúncio do Banco Mundial, de que a retração do PIB global será de 5,2% com a pandemia, além de ser otimista com a realidade, esconde a crise antes do corona vírus.

A queda do PIB europeu, anunciada pela Comissão da União Europeia, está prevista para 7,5% este ano. Que devem ser somados ao quadro econômico anterior à crise sanitária.

O FMI prevê uma retração econômica de 5,9% para os Estados Unidos com a pandemia. Mas se sabe do seu pífio crescimento econômico antes da tragédia sanitária.

A China, que ao contrário das orientações da globalização financeira em promover a divisão internacional da produção, resolveu fazer o oposto, produzir de tudo e qualquer coisa mais, e importar matérias primas, alimentos, para o seu gigante parque produtivo e população gigantesca. Quer dizer, a China está fazendo o jogo dela, os outros é que abdicaram de seus papeis estratégicos.

Ao ponto em que no começo da pandemia ela se transformou na, quase, única exportadora de ventiladores hospitalares e, incrível, até de máscaras, para o planeta.

O Brasil tem uma previsão de queda do PIB na base de 7,4% neste ano. O desemprego no País tem uma previsão, feita em abril, de crescimento dos 11,9 % em 2019, para 14,7% em 2020. Em suma, são dezenas de milhões de desempregados no setor formal, somados a outras dezenas de milhões na informalidade.

O único setor que cresceu foi a agricultura, seja em alta escala como de médios e pequenos produtores, mesmo com a pandemia. Em resumo, é a agricultura que vem sustentando o País.


Um mundo em transição

Não é de admirar que as nações estejam se rebelando contra a divisão internacional das cadeias produtivas da globalização, muito menos que a insatisfação social comece a atingir altas temperaturas em dimensão mundial. Ou seja, a centralidade da questão nacional adquire nova dimensão em escala global.

Quer dizer, os Países começam a se voltar para a ideia da recomposição completa das suas cadeias produtivas internas, na medida das suas potencialidades e recursos. E aqueles que não o fizerem, podem entrar em um novo ciclo histórico de subcolonização internacional Com as consequências da atual pandemia, associadas ao ciclo estagnado da Nova Ordem mundial, o que poderemos assistir é um período de caos social, profunda crise econômica, e intensa luta, com variados confrontos políticos.

No Brasil, o governo Bolsonaro, intolerante, reacionário, visivelmente esgotado, refém da sua própria narrativa de uma política neoliberal ortodoxa, do ministro Paulo Guedes, chega a um impasse político.

Assim como se encontra na contramão aos rumos de um novo projeto nacional de desenvolvimento estratégico, nestes novos tempos de uma encruzilhada Histórica.

Precisamos encontrar o nosso destino, democrático, com base nessa nova realidade global multilateral em transição, que vai se formando.

Porque somos uma nação com enorme manancial de riquezas, dimensões continentais, capacidade industrial e agrícola, potencial tecnológico, um grande mercado interno e imensa capacidade exportadora. Falta-nos o projeto estratégico, o rumo político. O que, evidentemente, é o que define tudo.

O progressista de ontem e o do amanhã

  • Eduardo Bomfim
  • 17/06/2020 19:42
  • Blog do Eduardo Bomfim

Frente ao processo de radicalização política, no auge da pandemia do corona vírus 19, das pautas racialistas, das ofensivas contra estátuas e monumentos históricos, por exemplo, como Tiradentes, Padre Antônio Vieira e Winston Churchill, que liderou a Grã-Bretanha contra o nazismo hitlerista na Segunda Guerra mundial, ao lado de Stalin, do presidente Roosevelt, republico a minha resenha do livro do cientista político norte-americano Mark Lilla, publicada no Portal Bonifácio, um ano atrás. Pela simples razão que ele continua mais atual que nunca. Boa leitura.

Ao se ler o livro O progressista de ontem e o do amanhã do cientista político Mark Lilla, escrito após a vitória de Donald Trump, tem-se a certeza de que os seus argumentos e análises referem-se igualmente ao recente processo eleitoral realizado no Brasil, quase que literalmente.

Assim é que por aqui também parece existir a polarização entre os partidos Democrata e Republicano dos Estados Unidos, especialmente o confronto das políticas identitárias fomentadas desde os anos 80, sob a hegemonia do clã dos Clintons, apoiadas pelas estratégias dos grandes especuladores financeiros do tipo George Soros e outros, versus uma outra casta de financistas aliada ao presidente Trump.

Os democratas norte-americanos, afirma Mark Lilla, teriam abandonado as grandes linhas de administração e políticas que falavam para o conjunto da nação e assumiram a orientação multiculturalista de parcelas da sociedade, que passaram a condenar as grandes maiorias sociais por injustiças cometidas às chamadas minorias.

Abandonaram “a ideia e a visão central da nação, do sentimento de solidariedade, do espírito de oportunidade para todos e do dever público, perdendo o sentido do que compartilhamos como cidadãos e do que nos une como nação”, afirma Lilla.

Nos anos 60, prossegue, a luta pelos Direitos Civis significava a batalha de grandes grupos de pessoas em defesa dos direitos das mulheres, contra o racismo, pelo reconhecimento efetivo das minorias, que tinha a simpatia e adesão entusiasmada das grandes maiorias sociais.

Mas nos anos 80, continua o cientista político norte-americano, essa política cedeu lugar a uma pseudopolítica de autoestima e de autodefinição cada vez mais estreita, autocentrada e excludente, promovendo sucessivas fragmentações internas, visões tribais, e, por óbvio, a condenação das grandes maiorias que não pertenciam às especificidades classificadas, que seriam responsáveis pelas alegadas injustiças históricas, fazendo voltar-se a juventude para a própria interioridade e praticamente condenando o mundo exterior não pertencente aos grupos identitários.

Assim, o identitarismo passou a ser visto pelas maiorias sociais como uma doutrina professada basicamente por determinados setores das elites urbanas instruídas, sem contato com o resto do país, cujos esforços se resumem em zelar e alimentar movimentos hipersensíveis, que dissipam, em vez de concentrar, as energias da sociedade como um todo.

O identitarismo, ao contrário de negar as agendas do neoliberalismo radical, reforça-o, afirma Lilla, porque reduz o espírito da comunidade nacional ao indivíduo, ao grupo. Em consequência, o identitarismo deixou de ser um projeto político relevante e se metamorfoseou num programa de evangelização.

Espertamente, Donald Trump tirou proveito da crise estrutural, da desindustrialização que vivem os EUA e pôs a culpa nos democratas, sob a orientação do estrategista e marqueteiro Steve Bannon. O mesmo que atuou nas eleições no Brasil.

As políticas identitárias atuais dos democratas e o discurso demagógico, chauvinista da ala direita republicana de Donald Trump representam um dos tempos mais medíocres da história dos Estados Unidos.

De tal forma é a influência dessas duas correntes em disputa nos EUA, aqui no Brasil, que jornalistas e analistas afirmam que os blogs, portais, a grande mídia e o mundo da política nativa encontram-se cada vez mais alinhados e semelhantes à linha dos democratas e republicanos norte-americanos.

Exatamente nas coisas eivadas de uma carga ideologizada fora da realidade, que serve a interesses que promovem a desunião do povo brasileiro tais como uma antropologia binária, que não é a nossa formação histórica policrômica, mestiça, a nossa visão de um Estado laico, a tradição do culto de sincretismos religiosos tradicionais celebrados em muitas manifestações populares como as afro-católicas, por exemplo.

Assim como o alinhamento a um neoliberalismo extremado da Escola de Chicago que já não é praticado nem nos EUA, onde se pauta a independência do Banco Central, mas não o dos EUA, eufemismo para doação do nosso BC às finanças globais, uma reforma da Previdência Social que privilegia o sistema financeiro, penaliza a classe média e os pobres, privatização de empresas estatais estratégicas, etc., etc.

A política externa é alinhada, com as tintas de religiosidade puritana, à visão supremacista do governo Trump.

Desvia-se da tradição multilateralista do Itamaraty na mediação diplomática e dos nossos objetivos nacionais, abrindo mão da liderança regional hemisférica, cujas consequências têm sido a crescente presença geomilitar da Rússia, a comercial da China, na região perigosamente conflituosa como a Venezuela.

Resultado do vácuo que vai sendo deixado pela ausência de uma diplomacia estratégica eficiente, mediadora e propositiva.

Essas potências estão jogando o jogo delas, o Brasil é que está abrindo mão do seu papel histórico.

Já setores de “esquerda” insistem nesse discurso identitário, que a levou a uma derrota eleitoral “acachapante” e plebiscitária, cuja matriz é patrocinada por megaespeculadores como George Soros e ONGs que atuam no mundo visando desestabilizar, fraturar os povos.

É surreal a existência de 800 mil ONGs atuando alegremente no País, muitas delas contrárias à nossa soberania, desenvolvimento econômico, associadas a países que sabotam o nosso protagonismo internacional.

São pertinentes várias observações feitas por Mark Lilla. E diante desse caldo tóxico de ódios, intolerâncias mil, “guerras ideológicas”, da pós-verdade onde o que menos vale é a análise concreta da realidade concreta, a racionalidade, é aconselhável ficar com os princípios indeclináveis em defesa da nação, do espírito progressista, das liberdades democráticas.

 

A união do povo brasileiro

  • Eduardo Bomfim
  • 16/06/2020 20:15
  • Blog do Eduardo Bomfim

A Guerra Híbrida contra o Brasil.

A propaganda produz o pensamento. O pensamento conduz ao sentimento. O sentimento gera a crença.

Essas são deduções comprovadas pela neurociência. Essa constatação serve à promoção de bons sentimentos, laicos ou religiosos.

Mas também tem sido útil a propósitos malignos, danosos, como a Guerra Híbrida não convencional, as “revoluções coloridas”, contra outras nações. Como tem sido contra o Brasil atualmente, fomentando tempestades ideológicas, para buscar dividir e lançar em confrontos parcelas da sociedade, umas contra as outras, em meio a uma pandemia sanitária que tem vitimado dezenas de milhares de brasileiros.

Exatamente quando, ao lado dessa pandemia terrível, está acontecendo uma crise econômica gigantesca, e uma tragédia social sem precedentes nos últimos cem anos, que irá se agravar enormemente.

Ainda mais com o governo do presidente Bolsonaro, absolutamente contrário às recomendações mínimas da ciência médica e às experiências sanitárias consagradas há quase um século. E sendo, também, um dos polos promotores dessa guerra ideológica, base da Guerra Híbrida contra o Brasil.

Para defender a nação nesse quadro dramático, só há um caminho: a união do povo brasileiro em defesa do que é fundamental: a luta pela vida e a saúde nessa pandemia, o soerguimento da cadeia econômica produtiva destroçada. A defesa do trabalho e do emprego, em condições caóticas. E a defesa da democracia e da Constituição, constantemente ameaçadas.

O discurso de Gabriel García Marquez ao receber o Nobel

  • Eduardo Bomfim
  • 08/06/2020 14:39
  • Blog do Eduardo Bomfim

O discurso de Gabriel García Marquez ao aceitar o prêmio Nobel de Literatura de 1982, texto original em espanhol, no http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1982/marquez-lecture-sp.html.

Aqui publico a tradução feita por Selma Villela:

A solidão da América Latina

 

Antonio Pigafetta, navegador florentino que acompanhou Magalhães na primeira viagem ao redor do mundo, escreveu em sua passagem por nossa América do Sul uma crônica rigorosa que no entanto parece uma aventura da imaginação. Contou que havia visto porcos com o umbigo no dorso, e uns pássaros sem pés cujas fêmeas chocavam nas costas do macho, e outros como alcatrazes sem língua cujos bicos pareciam uma colher. Contou que havia visto uma criatura com cabeça e orelhas de mula, corpo de camelo, patas de veado e relincho de cavalo. Contou que ao primeiro nativo que encontraram na Patagônia lhe colocaram em frente um espelho, e que aquele gigante exaltado perdeu o uso da razão pelo pavor com sua própria imagem.

 

Este livro breve e fascinante, no qual já se vislumbram os germes de nossos romances de hoje, não é nem muito menos o testemunho mais assombroso de nossa realidade daqueles tempos. Os Cronistas das Índias nos legaram outros incontáveis. Eldorado, nosso país ilusório tão cobiçado, apareceu em numerosos mapas durante longos anos, mudando de lugar e de forma segundo a fantasia dos cartógrafos. Em busca da fonte da Eterna Juventude, o mítico Alvar Núñez Cabeza de Vaca explorou durante oito anos o norte do México, numa expedição fanática cujos membros comeram-se uns aos outros, e só chegaram cinco dos 600 que a empreenderam. Um dos tantos mistérios que nunca foram decifrados, é o das onze mil mulas carregadas com cem libras de ouro cada uma, que um dia saíram de Cuzco para pagar o resgate de Atahualpa e nunca chegaram a seu destino. Mais tarde, durante a colônia, vendiam-se em Cartagena de Índias umas galinhas criadas em terras de aluvião, em cujas moelas eram encontradas pedrinhas de ouro. Este delírio áureo de nossos fundadores nos perseguiu até há pouco tempo. Apenas no século passado a missão alemã encarregada de estudar a construção de uma ferrovia interoceânica no istmo do Panamá, concluiu que o projeto era viável com a condição de que os trilhos não fossem feitos de ferro, que era um metal escasso na região, mas que se fizessem de ouro.

 

A independência do domínio espanhol não nos pôs a salvo da demência. O general Antonio López de Santana, que foi três vezes ditador do México, fez enterrar com funerais magníficos a perna direita que havia perdido na chamada Guerra dos Bolos. O general Gabriel García Morena governou o Equador durante 16 anos como um monarca absoluto, e seu cadáver foi velado com seu uniforme de gala e suas condecorações sentado na cadeira presidencial. O general Maximiliano Hernández Martínez, o déspota teólogo de El Salvador que fez exterminar em uma matança bárbara 30 mil camponeses, havia inventado um pêndulo para averiguar se os alimentos estavam envenenados, e fez cobrir com papel vermelho a iluminação pública para combater uma epidemia de escarlatina. O monumento ao general Francisco Morazán, erguido na praça principal de Tegucigalpa, é na realidade uma estátua do marechal Ney comprada em Paris num depósito de esculturas usadas.

 

Há onze anos, um dos poetas brilhantes de nosso tempo, o chileno Pablo Neruda, iluminou este local com sua palavra. Nas boas consciências da Europa, e às vezes também nas más, irrompeu desde então com mais ímpeto que nunca as notícias fantásticas da América Latina, essa pátria imensa de homens alucinados e mulheres históricas, cuja obstinação sem fim se confunde com a lenda. Não temos tido um instante de sossego. Um presidente prometeico entrincheirado em seu palácio em chamas, morreu lutando sozinho contra todo um exército, e dois suspeitos desastres aéreos nunca esclarecidos ceifaram a vida de outro de coração generoso, e a de um militar democrata que havia restaurado a dignidade de seu povo. Houve 5 guerras e 17 golpes de estado, e surgiu um diabólico ditador que em nome de Deus leva a cabo o primeiro etnocídio da América Latina em nosso tempo. Enquanto isso, 20 milhões de crianças latino-americanas morriam antes de completar dois anos, que são mais do que as que nasceram na Europa desde 1970. Os desaparecidos por motivos da repressão são quase 120 mil, que é como se hoje não se saiba onde estão todos os habitantes da cidade de Upsala. Numerosas mulheres grávidas foram presas, deram à luz nos cárceres argentinos, mas ainda se ignora o paradeiro e a identidade de seus filhos, que foram dados em adoção clandestina ou internados em orfanatos pelas autoridades militares. Por não querer que as coisas continuem assim foram mortos cerca de 200 mil mulheres e homens em todo o continente, e mais de 100 mil pereceram em três pequenos e voluntariosos países da América Central, Nicarágua, El Salvador e Guatemala. Se isso ocorresse nos Estados Unidos, a cifra proporcional seria de um milhão e seiscentas mil mortes violentas em quatro anos.

 

Do Chile, país de tradições hospitaleiras, fugiram um milhão de pessoas: 12 por cento de sua população. O Uruguai, uma nação minúscula de dois milhões e meio de habitantes que se considerava como o país mais civilizado do continente, perdeu no exílio um de cada cinco cidadãos. A guerra civil em El Salvador causou desde 1979 quase um refugiado a cada vinte minutos. O país que se poderia criar com todos os exilados e emigrantes forçados da América Latina, teria uma população mais numerosa que a da Noruega.

 

Me atrevo a pensar, que é esta realidade descomunal, e não só sua expressão literária, a que este ano mereceu a atenção da Academia Sueca das Letras. Uma realidade que não é a do papel, mas que vive conosco e determina cada instante de nossas incontáveis mortes cotidianas, e que sustenta um manancial de criação insaciável, cheio de infelicidade e de beleza, do qual este colombiano errante e nostálgico não é mais do que um indivíduo mais assinalado pela sorte. Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todas as criaturas daquela realidade desaforada, tivemos que pedir muito pouco à imaginação, porque o desafio maior para nós foi a insuficiência dos recursos convencionais para fazer crível nossa vida. Este é, amigos, o nó de nossa solidão.

 

Pois se estas dificuldades nos entorpecem, que somos de sua essência, não é difícil entender que os talentos racionais deste lado do mundo, extasiados na contemplação de suas próprias culturas, se tenham encontrado sem um método válido para nos interpretar. É compreensível que insistam em medir-nos com a mesma vara com que medem a si mesmos, sem recordar que os estragos da vida não são iguais para todos, e que a busca da identidade própria é tão árdua e sangrenta para nós como foi para eles. A interpretação de nossa realidade com esquemas alheios só contribui para fazer-nos cada vez mais desconhecidos, cada vez menos livres, cada vez mais solitários. Talvez a Europa venerável fosse mais compreensível se tratasse de ver-nos em seu próprio passado. Se recordasse que Londres precisou de 300 anos para construir sua primeira muralha e outros 300 para ter um bispo, que Roma se debateu nas trevas da incerteza durante 20 séculos antes que um rei etrusco a fizesse entrar para a história, e que ainda no século XVI os pacíficos suíços de hoje, que nos deleitam com seus queijos suaves e seus relógios impávidos, ensanguentaram a Europa como soldados mercenários. Ainda no apogeu do Renascimento, 12 mil mercenários a soldo dos exércitos imperiais saquearam e devastaram Roma, e passaram à faca oito mil de seus habitantes.

 

Não pretendo encarnar as ilusões de Tonio Kröger, cujos sonhos de união entre um norte casto e um sul apaixonado exaltava Thomas Mann há 53 anos neste lugar. Mas creio que os europeus de espírito esclarecido, os que lutam também aqui por uma pátria grande mais humana e mais justa, poderiam ajudar-nos melhor se revisassem a fundo sua maneira de nos ver. A solidariedade com nossos sonhos não nos fará sentir menos sós, enquanto não se concretize com atos de apoio legítimo aos povos que assumam a ilusão de ter uma vida própria na divisão do mundo.

 

A América Latina não quer nem tem porque ser uma peça de xadrez sem arbítrio, nem tem nada de quimérico que seus desígnios de independência e originalidade se convertam em uma aspiração ocidental. Não obstante, os progressos da navegação que reduziram tantas distâncias entre nossas Américas e a Europa, parecem haver aumentado em troca nossa distância cultural. Por que a originalidade que nos admitem sem reservas na literatura se nos nega com todo tipo de suspeitas em nossas tentativas tão difíceis de mudança social? Por que pensar que a justiça social que os europeus avançados buscam alcançar em seus países não pode ser também um objetivo latino-americano com métodos distintos em condições diferentes? Não: a violência e a dor desmedidas de nossa história são o resultado de injustiças seculares e amarguras sem conta, e não uma conspiração urdida a 3 mil léguas de nossa casa. Mas muitos dirigentes e pensadores europeus acreditaram nisso, com o infantilismo dos avós que esquecem as loucuras frutíferas de sua juventude, como se não fosse possível outro destino que viver à mercê dos grandes donos do mundo. Este é, amigos, o tamanho de nossa solidão.

 

No entanto, frente à opressão, ao saque e ao abandono, nossa resposta é a vida. Nem os dilúvios nem as pestes, nem a fome nem os cataclismos, nem sequer as guerras eternas através de séculos e séculos conseguiram reduzir a vantagem tenaz da vida sobre a morte. Uma vantagem que aumenta e se acelera: cada ano há 74 milhões mais de nascimentos do que mortes, uma quantidade de novos vivos como se aumentasse sete vezes a cada ano a população de Nova York. A maioria deles nasce nos países com menos recursos, e entre estes, é claro, os da América Latina. Por outro lado, os países mais prósperos conseguiram acumular poder de destruição suficiente para aniquilar cem vezes não só a todos os seres humanos que já existiram até hoje, como também todos os seres vivos que passaram por este planeta de infortúnios.

Um dia como o de hoje, meu mestre William Faulkner disse neste lugar: “Me nego a admitir o fim do homem”. Não me sentiria digno de ocupar este lugar que foi seu se não tivesse a consciência plena de que pela primeira vez desde as origens da humanidade, o desastre colossal que ele se negava a admitir há 32 anos é agora nada mais que uma simples possibilidade científica. Ante esta realidade surpreendente que através de toda a existência da humanidade devia parecer uma utopia, os inventores de fábulas que em tudo cremos nos sentimos no direito de crer que não é demasiado tarde para empreender a criação da utopia contrária. Uma nova e arrasadora utopia da vida, onde ninguém possa decidir pelos outros até a forma de morrer, onde verdadeiramente seja certo o amor e seja possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham por fim e para sempre uma segunda oportunidade sobre a terra.

A tempestade perfeita

  • Eduardo Bomfim
  • 05/06/2020 18:13
  • Blog do Eduardo Bomfim

A pandemia do corona vírus 19 vai abalar os alicerces das estruturas econômicas globais, e também do Brasil, que já estavam em crise e bastante debilitadas desde a debacle financeira mundial em 2008, iniciada nos Estados Unidos.

As distâncias entre o mundo das elites financeiras e o resto das sociedades estão aumentando meteoricamente em meio às consequências da pandemia sanitária.

Assim como crescem as distâncias entre uma parcela da classe média e a grande maioria das sociedades, que já viviam em situação de vida extremamente precária.

Somadas às condições anteriores da, quase, estagnação dos indicadores de crescimento econômico, com o impacto provocado pela atual crise sanitária, vamos assistir a um empobrecimento rápido de muitas parcelas dos segmentos médios, além de uma catástrofe social de proporções gigantescas junto às grandes maiorias sociais do mundo, e do povo brasileiro.

Se fizéssemos uma analogia desse cenário com um desastre natural, poderíamos compará-lo, sem nenhuma caricatura, a um terremoto de grande magnitude, seguido de incêndio, sequenciado por um tsunami de ondas enormes.

As sociedades estão hipnotizadas pelas narrativas da grande mídia tradicional, que simplesmente não se debruça, propositalmente, sobre o conjunto desses graves fenômenos simultâneos em curso.

Fechada em casa, pelo necessário isolamento social, parte dos setores progressistas, dos segmentos médios, vive em um mundo paralelo fantasioso, erguido durante anos, de agendas políticas identitárias, mas que não sinalizam, nem de longe, para o caos, a tragédia econômica, social que os atingirá com um impacto imenso.

Estamos em vias de conviver, em termos econômicos, com um gigantesco passo atrás, jamais acontecido nos últimos cem anos.

Por isso, as narrativas da grande mídia hegemônica tradicional, associada às injunções culturais do grande capital financeiro, produziram em parcelas esclarecidas dos setores de classe média enormes efeitos anestesiantes.

Enquanto vão se formando as condições para uma tempestade perfeita, a sociedade, os diversos segmentos políticos, encontram-se alheios e ausentes de “uma análise crítica a longo prazo”.

Porque grande parte desses setores políticos incorporaram, de um jeito ou de outro, as agendas ultra liberais da globalização financeira, nas linhas econômicas a serem traçadas para o Brasil, como os neoliberais no governo Bolsonaro, do ministro Paulo Guedes.

Mas também setores políticos de oposição, como nas áreas da chamada “nova esquerda”, que adotaram a agenda cultural do liberalismo financeiro associado a compensações de políticas sociais, com as mesmas políticas econômicas.

Diante da tempestade perfeita, que se forma rapidamente, a comparação que pode ser feita é semelhante ao famoso “último baile da Ilha Fiscal”, em 9 de novembro de 1899, no Rio de janeiro, às vésperas da queda do Império no Brasil.

Sem uma visão crítica de longo prazo, em meio a um quadro econômico, social e político apocalíptico em formação, sem a união de amplas forças no País, em torno de um projeto estratégico de desenvolvimento nacional, que considere esse novo cenário dramático em curso, o Brasil corre sério risco de ver regredir o seu protagonismo econômico, em um século.

Cabe-nos somar forças em defesa do País e do povo brasileiro. Na crise, também surgem as grandes oportunidades. Mas isso depende do nosso esforço conjunto, empenho e determinação. Não há uma terceira alternativa.

Tempos dramáticos

  • Eduardo Bomfim
  • 03/06/2020 20:23
  • Blog do Eduardo Bomfim

Com a pandemia do corona vírus, que provocou uma crise sanitária inigualável nos últimos 80 anos, com milhões de infectados e centenas de milhares de falecidos, as cadeias da ordem mundial interconectadas entraram em colapso, apesar do crescente, e estratosférico, lucro do capital financeiro especulativo e parasitário.

Mas o colapso sistêmico não implica a morte da globalização financeira, muito menos o poder gigantesco da sua hegemonia, que deu um salto fantástico a partir da crise mundial em 2008, iniciada nos Estados Unidos.

Os mega especuladores globais continuam ditando as agendas financeiras, políticas, midiáticas, culturais, em escala planetária, à exceção do protagonismo soberano de Estado de algumas potências mundiais, que a exercem seja através da magnitude da sua economia, como a China, ou pelas vias do poder militar, como a Rússia, herdado da extinta União Soviética.

Vejamos a escala do poder, e magnitude, da Governança Mundial exercida antes da pandemia do corona vírus, sob a égide do capital financeiro especulativo em dimensão internacional.

O mundo já vivia uma época de rupturas que se acentuaram rapidamente nos últimos anos. O vácuo político, a desorientação generalizada, o conformismo ao status quo da globalização das finanças e suas diretivas, eclipsaram muitas forças políticas importantes nas sociedades.

E permitiram a ascensão ao comando dos governos centrais, de grupos políticos de inspirações autoritárias, com inclinações fascistas, como é o caso do presidente Bolsonaro no Brasil.

A História nos ensina que em épocas de brutal exploração dos povos e nações, o capital financeiro rentista se utiliza sempre de soluções e grandes ameaças à democracia, de rupturas do pacto democrático, como tem sido recorrente com Bolsonaro.

Seria uma grande ingenuidade achar que, além da abolia crônica do mundo político, sem alternativas à crise econômica, social, civilizacional que se abateu sobre o nosso País, a eleição do presidente Bolsonaro não contou com o apoio decisivo de uma parcela do mundo das finanças especulativas global.

O esgotado governo do atual presidente, seja na esfera política, seja no campo das agendas neoliberais ortodoxas, não tem conseguido, como pretendia, impor com pleno êxito, a estratégia radicalizada da precarização das condições de vida dos assalariados, o desmonte do Estado nacional, do parque produtivo estatal e privado, a total alienação das suas imensas riquezas naturais, como por exemplo a Amazônia brasileira. Inclusive, pela pandemia do corona vírus.

Daí a sua insistência em negar a gravidade da crise sanitária e combater as políticas de isolamento social, a única eficaz em pandemias quando ainda não há vacina. Não se trata de pura estupidez, mas a pressa em por em prática a sua agenda para a qual foi escolhido.

A grande mídia global, associada ao projeto do capital especulativo, já percebeu, recentemente, a inviabilidade da gestão Bolsonaro pelo radicalismo, ameaças golpistas, falta de trânsito político, incapacidade de lidar com a agenda neoliberal ortodoxa extremada, o seu isolamento político.

O plano B

Nessa situação em curso, de esgotamento do “projeto Bolsonaro”, das ambições do capital financeiro, que seria uma blitzkrieg, uma operação relâmpago demolidora contra o Brasil, povo, patrimônio e riquezas naturais, articula-se, com certa ligeireza, uma alternativa de poder, com a colaboração da grande mídia global.

O brutal assassinato de Floyd, um homem negro desempregado nos Estados Unidos, gerou indignação e a justa revolta não só nos EUA mas em todo o mundo.

E tem sido com intensidade a cobertura da grande mídia do assunto no Brasil, por mais de sete dias, com horas seguidas, ao vivo, através da mídia hegemônica, via satélite, como agenda central, quase única, pondo em segundo plano a terrível pandemia no Brasil, a crise política e os nossos abismos sociais.

Assim, começou a ficar evidente, para muita gente, que havia algo no ar além dos aviões de carreira, que aliás, se encontram, em sua maioria, no solo, em virtude da pandemia.

O estúpido, covarde e criminoso assassinato de Floyd mereceu o repúdio, indignação de todos os democratas aqui e no mundo.

Lá nos EUA o assassinato do cidadão Floyd foi o estopim contra a brutal crise social, econômica, generalizada, que toma conta do cidadão comum norte-americano, agravada pela pandemia.

Trata-se do racismo violento enquistado nos EUA. Além da insubordinação, a revolta das maiorias nos EUA contra a tragédia que vive o povo norte- americano, em virtude de uma política da globalização financeira que destruiu as estruturas da classe trabalhadora e da classe média, em sua maioria, endividadas ou desempregadas. Isso a grande mídia esconde, não deve por em cheque o sistema de que ela mesmo faz parte.

Aqui no Brasil, como na Europa, também existe a mesma tragédia social, agravada na pandemia, centenas de milhões de pessoas desesperadas, desempregadas, sem teto, trabalho.

Estima-se que teremos 300 milhões de desempregados no mundo após a pandemia, que se juntam às outras dezenas de milhões anteriores à crise sanitária.

Antes da pandemia, que multiplicou, como um reagente catalizador, as nocivas políticas da globalização financeira em todo o mundo e no Brasil, os mega especuladores financeiros, através da grande mídia global, que é a Boca do sistema, empregavam uma agenda social, as pautas indentitárias, na maioria, auto justificáveis.

Mas, cujo objetivo sempre foi a fragmentação da sociedade em movimentos compartimentados, de tribos cosmopolitas, em reinvindicações em torno das suas especificidades de gênero, raça, etc. etc. Muitas culpam as grandes maiorias sociais quanto às suas reinvindicações.

É, como muito se ouvia, cada um na sua caixinha, no seu quadrado. Mas não na participação dos destinos comuns a todos, que implica nas transformações urgentes de uma sociedade profundamente desigual, violenta e excludente.

Em saúde, educação, habitação, segurança pública, emprego, mobilidade social, um País voltado para o Brasil oficial, as elites e parcelas da classe média alta, e de costas para o Brasil real, mais de 180 milhões de brasileiros.

Unidos venceremos, deixou de ser uma máxima Histórica dos povos, e, em alguns círculos, até um slogan condenado.

Com a subjetividade da visão de grupos identitários, sucederam-se ao longo dos últimos tempos uma série de derrotas políticas e eleitorais previsíveis, incluindo para o bolsonarismo, com sua agenda reacionária, preconceituosa, medieval, anticientífica e antinacional.

Mas enfim, o que está em curso no Brasil, nessas últimas semanas, em paralelo às coberturas da mídia às justas revoltas contra a morte do cidadão Floyd, é a articulação de um movimento que possibilite assegurar as políticas neoliberais ortodoxas do ministro Paulo Guedes, do capital financeiro, possivelmente, sem o presidente Bolsonaro. Ou do próprio ministro Guedes.

Talvez, através de alguém mais refinado, com punhos de renda, porém com firmeza na direção dos negócios da agenda econômica que Bolsonaro não conseguiu dar cabo da sua execução. Vivemos tempos muito estranhos, tempos dramáticos.

A morte do mestiço brasileiro e a morte do negro norte-americano

  • Aldo Rebelo
  • 02/06/2020 21:42
  • Blog do Eduardo Bomfim

Uma onda de indignação percorreu os Estados Unidos e espalhou-se pelo Brasil em protesto pelo assassínio de um homem negro, George Floyd, em uma abordagem policial no estado de Minnesota. Floyd foi brutalmente morto por policiais diante de várias testemunhas, e é natural a indignação do mundo contra mais um crime no seio de uma sociedade marcada historicamente pelo racismo.

Nos Estados Unidos o abismo que separa as raças não excluiu sequer o humanista Abraham Lincoln, presidente que conduziu o país na Guerra Civil que aboliu a escravidão, mas que achava que os negros não tinham lugar na América branca, e que teriam que aproveitar a liberdade e empreender a jornada de retorno à África.

Aqui no Brasil a morte de Floyd alcançou ampla repercussão na mídia tradicional e entre os chamados movimentos sociais. O que espanta é que tal indignação não ocorra quando milhares de jovens mestiços brasileiros são vítimas da escalada da violência diante do silêncio constrangedor e cúmplice da mesma mídia e dos movimentos sociais tidos como progressistas.

Uma ligeira busca na internet é suficiente para comprovar que antes de ser morto nas ruas do País, o mestiço brasileiro já está morto nas estatísticas, nas notícias da imprensa e nas manifestações das redes sociais das correntes identificadas com as lutas libertárias.

O morticínio dos mestiços não desperta uma nota de pé de página da nossa mídia tradicional e nem uma singela manifestação de pesar ou um lamento dos grupos sociais progressistas. Aliás, a palavra mestiço foi banida da narrativa dos meios de comunicação e das organizações pretensamente avançadas da sociedade.

Precocemente, o mestiço tornou-se arcaísmo banido do discurso contemporâneo e legado à literatura de um Guimarães Rosa com seus jagunços, de um Graciliano Ramos com seus sertanejos, ou à pintura de Portinari, com seus trabalhadores do café e Di Cavalcanti com suas mulatas.

Esquecemos a mestiçagem de nossa psicologia herdada de nossas avós remotas, índias e negras, da nossa música, culinária, e do nosso português moldado no sotaque negro e no vocabulário pleno de expressões do Tupi para nossa fauna, flora e geografia.

Abandonamos tudo isso para importar o modelo de sociedade biracial dos Estados Unidos. Não temos mais mestiços. Somos pretos ou brancos. Adotamos a regra de uma gota de sangue (One-drop-rule), base da classificação racial dos Estados Unidos, pela qual bastava um único ancestral de ascendência africana, ou uma gota de sangue para alguém ser considerado negro. Era o princípio que, segundo os supremacistas brancos, garantiria a “pureza” da raça branca.

A questão é que no Brasil a negação da mestiçagem fere mortalmente a identidade nacional brasileira e a imagem que projetamos das nossas origens, obrigando-nos a reinventar uma interpretação para nosso processo civilizatório que não existe fora do encontro do europeu, do índio e do negro desde o nascimento dos primeiros mamelucos.

Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro e Euclides da Cunha viram no mestiço a essência da brasilidade, sem exclusão das minorias brancas e negras na formação da nacionalidade. Ao cunhar a expressão mestiço é que é bom, Darcy Ribeiro não menosprezava as qualidades de outros formadores étnicos da população nacional, mas, ao contrário, exaltava as virtudes de todos eles concentradas no mestiço.  

O genocídio sociológico, estatístico, jornalístico e político do mestiço brasileiro não pode ser o preço a ser pago para o justo e necessário protesto pela morte brutal de negros brasileiros ou norte-americanos.

A falência total do sistema dará origem a uma nova economia

  • Por Pepe Escobar especial para o Asia Times
  • 02/06/2020 19:17
  • Blog do Eduardo Bomfim

Ninguém, em lugar algum, poderia ter previsto o que estamos testemunhando agora: em apenas algumas semanas o colapso acumulado das cadeias de suprimento globais, da demanda agregada, do consumo, investimento, exportações, mobilidade.

Ninguém aposta mais em uma recuperação em forma de L – para não dizer uma recuperação em V. Qualquer projeção do Produto Interno Bruto (PIB) global em 2020 entra no território incerto da “queda de um penhasco”.

Nas economias industrializadas, em que cerca de 70% da força de trabalho está nos serviços, inúmeras empresas de diversas indústrias entrarão em um colapso financeiro que eclipsará a Grande Depressão.

Isso abrange todo o espectro de possivelmente 47 milhões de trabalhadores dos EUA em breve demitidos – com a taxa de desemprego disparando a 32% – até a advertência da Oxfam de que, no momento em que a pandemia passar, mais da metade da população mundial de 7,8 bilhões de pessoas poderia estar vivendo na pobreza.

De acordo com o cenário mais otimista de 2020 da Organização Mundial do Comércio (OMC) – certamente desatualizado antes do final da primavera – o comércio global afundaria em 13%. Um cenário mais realista e sombrio da OMC vê o comércio global mergulhar 32%.

O que estamos testemunhando não é apenas um curto-circuito maciço da globalização: é um choque cerebral estendido a três bilhões de pessoas hiperconectadas e simultaneamente confinadas. Seus corpos podem estar bloqueados, mas são seres eletromagnéticos e seus cérebros continuam trabalhando – com possíveis consequências políticas e outras imprevisíveis.

Em breve estaremos enfrentando três grandes debates interligados: o gerenciamento (em muitos casos horrorosos) da crise; a busca de modelos futuros; e a reconfiguração do sistema mundial.

Para ler mais: http://www.orientemidia.org/pepe-escobar-a-falencia-total-do-sistema-dara-origem-a-uma-nova-economia/

Um grande acontecimento

  • Blog Eduardo Bomfim
  • 01/06/2020 18:53
  • Blog do Eduardo Bomfim

Em meio à pandemia do corona vírus 19, à crise econômica, à debacle das agendas do capital financeiro, que mergulharam centenas de milhões de assalariados, empresas e nações na maior catástrofe dos últimos oitenta anos, agravadas pela crise sanitária com dezenas de milhares de mortos, por enquanto, incentivada no Brasil pelo governo Bolsonaro ao se contrapor aos governadores, prefeitos, na defesa do isolamento social, a ofensiva de forças de inspiração fascista parecia absoluta.

Mas com a crise sanitária, o terremoto social e econômico que começa a mostrar sinais dramáticos, os segmentos alinhados ao Mercado financeiro, que auferem lucros fabulosos mesmo em tempos de covid 19, percebendo o esgotamento do governo federal, procuram, com a ligeireza que impõem os fatos, uma alternativa política sem o presidente Bolsonaro, porém mantendo as orientações neoliberais ortodoxas, entreguistas, antinacionais, contra a sociedade brasileira.

Para isso conta com o apoio da grande mídia “global” hegemônica, associada ao mesmo capital financeiro predador. Com o objetivo de entregar os anéis para ficar com os dedos, ou seja, continuar o butim contra uma grande nação, dilapidada, sofrida e ameaçada.

No entanto, existem os momentos estelares, singulares, na História. Aqueles que indicam uma viragem decisiva nos acontecimentos, como disse o grande escritor austríaco Stefan Zweig, que se exilou em Petrópolis, escapando das hordas nazistas durante a ascensão de Hitler.

O que se notava era a perplexidade da grande maioria da sociedade, atônita, frente à crise estrutural multilateral: econômica, social, política e, agora, sanitária, que se abate sobre o País.

Mas, eis que surge em São Paulo, e em vários lugares do País, esse tal momento singular que tanto narrou Stefan Zweig: a cara do povo nas ruas, através das torcidas de futebol, organizadas em defesa da democracia, contra o autoritarismo, as ameaças fascistas. Com a marca registrada de uma grande união social. Esse é o ponto principal.

Que elas sejam inspiradoras a todas as forças políticas que defendem a plena democracia, combatem a escalada autoritária de tipo fascista, propugnam pela retomada do desenvolvimento, sob as bases dos reais interesses do povo brasileiro e da nação, em um período dramático da nossa História.

Em defesa do Brasil

  • Eduardo Bomfim
  • 24/05/2020 15:01
  • Blog do Eduardo Bomfim


Detalhe do mural Guerra e Paz, de Portinari, oferecido pelo Brasil como presente à Organização das Nações Unidas (ONU) em 1957, colocado em posto de honra à entrada do grande anfiteatro da Assembleia Geral da ONU.

Em pouco mais de 500 dias, o governo Bolsonaro esgotou-se. Esgotou-se mas não acabou. Essa é uma lição que a História tem nos ensinado ao longo dos tempos. Nem tudo que perde a sua utilidade às sociedades, significa que se encerra de imediato.

A verdadeira política, aquela que é a grande arte, ou ciência, da organização, administração, dos Estados e da nações, nos ensina que o êxito de um governo é aquele que conduz os interesses nacionais visando o bem comum de um País, sob a égide da soberania nacional, através da democracia e das mais amplas liberdades políticas.

A gestão do presidente Bolsonaro representa um corolário de ideias associadas a um fundamentalismo ideológico intolerante, como todos os fundamentalismos ideológicos, medieval e acima de tudo excludente das grandes maiorias sociais.

Por isso ele tem agido sistematicamente através do confronto, contra o conjunto da sociedade, com vistas a manter unidas as suas bases de apoiadores, que vêm diminuindo na medida em que grandes parcelas dos seus eleitores vão paulatinamente se desencantando com as suas ações e diretivas administrativas.

Quanto mais o presidente Bolsonaro fala em liberdade, mais revela os seus pendores autoritários, quanto mais fala em Brasil, na prática demonstra a sua intenção de alienar o patrimônio estatal do povo brasileiro, muitos construídos há quase um século, a exemplo do ministro Paulo Guedes que em reunião ministerial declarou a sua intenção de vender “a porra do Banco do Brasil”.

Na verdade, se deixarem ele privatiza todo e qualquer patrimônio estatal, com a sua visão neoliberal ortodoxa e ultrapassada, que já não é mais usada em canto nenhum do mundo. O ministro Paulo Guedes age como um mascate de tempos mais antigos: vende e troca qualquer coisa.

Assim é que por tudo isso, e mais algumas coisas, o presidente Bolsonaro usurpou a bandeira do Brasil, por um grande erro, também, das oposições, e a usurpou vendendo um falso nacionalismo, porque ele não representa os interesses nacionais, mas, exatamente, um governo antinacional, antipatriótico.

Ao clamar diariamente em nome de Deus, ele age espertamente contra uma agenda ativista antirreligiosa, que virou moda em alguns estratos da sociedade, sabendo que o povo brasileiro tem em seu imaginário social o sentimento religioso.

Mas, que nunca impediu esse mesmo povo de votar em candidatos de todos os espectros políticos, como aqueles presidentes que antecederam Bolsonaro até 2016, por exemplo, e que, aliás, todos sempre se anunciaram cristãos declarados e devotos, sem exceções.

Assim, a base social do bolsonarismo é confusa, alimenta-se de falsos simbolismos, foi ganha por um discurso diuturnamente repetido em redes sociais à exaustão, contra inimigos, praticamente, imaginários, em cada esquina, beco ou viela.

Mas ele elevou-se ao poder através de um vácuo político, da sistemática campanha das grandes corporações do Estado contra a política, e a pobreza da própria atividade política partidária, que foi absorvida pelo discurso do Mercado financeiro, com suas agendas existenciais e comportamentais, que se propõem hegemônicas.

Que terminaram substituindo e exilando os rumos, as propostas que galvanizassem os anseios de um Brasil real de mais de 180 milhões de almas, que se sentiram órfãs de representatividade e referências políticas.

O Brasil encontra-se fraturado em diversas questões. Mas todas essas fraturas não são “naturais”. Elas foram sendo plantadas passo a passo com vistas à divisão da sociedade brasileira. Como dizia a máxima do antigo império romano: dividir para reinar.

O Brasil, mergulhado em uma terrível pandemia sanitária, depara-se com um governo Bolsonaro que contraria todas as recomendações médicas de isolamento social, apostando demagogicamente na onda de desemprego que será provocada pelas consequências, inevitáveis, da pandemia do corona vírus, pondo a culpa nos governadores e prefeitos.

Não se sabe, porém, se o resultado lhe será favorável, os movimentos da vida política são mais complexos que sonha ou aposta o presidente. Perante as demais instituições do Estado nacional Bolsonaro encontra-se isolado e encurralado através de várias investigações. Por isso ele vai radicalizar no confronto total.

Mas por tudo isso, é fundamental a união do País e do povo brasileiro, a divisão e a fratura só o beneficia. A polarização extremada o favorece. O confronto emocional e irracional é a sua praia.

A nossa grande tarefa é a união nacional, pelas exatas razões inversamente contrárias às do presidente Bolsonaro e do mercado financeiro.


A epopeia da construção de Brasília de 1957 a 1960, a nova capital da República.

A nossa tarefa é o esforço diligente de unir as grandes maiorias sociais, as minorias também, independente de preferências partidárias, credo religioso, opções sexuais, combater qualquer forma de racismo.

Mas acima de tudo, unir o povo brasileiro, sem o qual ficaremos patinando nesse presente contínuo pantanoso, à mercê desse, e de novos aventureiros.

Construir um rumo, um estado de espírito democrático, batalhar pela convivência solidária, a tolerância social. Apresentar um projeto nacional de desenvolvimento estratégico, que crie esperanças, factíveis e concretas ao povo brasileiro.

Para isso, sugiro a leitura do Manifesto à Nação, elaborado pelo destacado brasileiro Aldo Rebelo, com contribuições de outras pessoas, subscrito por milhares de cidadãos.

O País se encontra em uma profunda crise multilateral, agravada por uma terrível pandemia sanitária. Uma verdadeira encruzilhada Histórica. Mas não é hora de desespero, nem desencanto. O Brasil, hoje com mais de 210 milhões de habitantes, é inevitável, o seu povo, jovem, é combativo, destemido e criativo.

E, assim, mostra a História, quando unido em torno de um propósito comum e altruísta, ele se agiganta e realiza coisas formidáveis. Portanto, como disse um dos grandes poetas da nossa língua portuguesa: É Hora!. É tempo de reconstruir economicamente, socialmente, politicamente, espiritualmente, a grande nação brasileira. Vamos dar os primeiros passos nessa caminhada.

Dois Brasis

  • Eduardo Bomfim
  • 20/05/2020 21:47
  • Blog do Eduardo Bomfim


O Brasil mergulhou, desde o início da pandemia do coronavírus 19, em uma falsa dicotomia entre o isolamento social e a permanência, sem interrupções, das atividades econômicas e do trabalho.

Essa pandemia global impôs a todas as nações do planeta os mesmos desafios: como salvar vidas, evitar, ao máximo, o número de cidadãos infectados, ao mesmo tempo traçar rumos para manter as atividades essenciais e procurar elaborar estratégias para a retomada da grande roda da economia produtiva.

A premissa defendida pelo governo do presidente Jair Bolsonaro tem sido errada por dois motivos: em primeiro lugar, por razões humanitárias. A ideia da “imunidade de rebanho”, ou darwinismo social, acarreta um morticínio bem maior que o atual, absurdo, brutal, que tem sido minimizado pelas atitudes dos governadores e prefeitos, já que eles se negaram, corretamente, a pagar essa conta macabra.

Um Brasil extremamente desigual e polarizado

Já dizia o grande, e imortal, escritor Machado de Assis que existem dois Brasis: o Brasil oficial e o Brasil real. Que pode ser traduzido atualmente da seguinte maneira: um País das grandes maiorias sociais, mais de 180 milhões de habitantes, e aquele composto pelas elites econômicas, financeiras e a classe média tradicional, onde residem as grandes faixas de consumo mais rentáveis e sofisticadas, onde a grande mídia derrama suas mensagens publicitárias, ideológicas etc.

Toda, repetindo, toda a polarização ideológica e política, que se assiste hoje, e nas últimas décadas, encontra-se no Brasil oficial. O Brasil real, só participa efetivamente na hora do voto e nas pesquisas de opinião pública, muito especialmente nas pesquisas eleitorais.

Às vezes, surgem políticas “compensatórias”, o nome usado, inclusive, pela mídia é esse mesmo, para amenizar as chagas sociais profundas e históricas. A única válvula de ascensão social realmente existente aos filhos do Brasil real é através dos esportes, particularmente o futebol, mesmo assim, bastante peneirada.

O Brasil real é um País estrangeiro, ou será o Brasil oficial? Não se sabe dos seus anseios, angústias, esperanças, fantasias etc.

Em certos setores das elites “esclarecidas” há dois tipos de comportamentos: o paternalista de “esquerda”, e o neoliberalismo de “direita”. Um resolve achar ou falar em nome do País real, com as suas agendas ideológicas, que muitas vezes servem aos seus anseios existenciais ou pragmáticos. O outro, sempre se bate pela ausência do papel do Estado, ou por reduzi-lo ao mínimo, como é o caso, atual, do ministro Paulo Guedes.

Sejamos óbvios, o Estado Nacional só adquire relevância em casos de pandemia, como a atual, porque ela atinge a todos indistintamente. Mas, todas as mortes nos atingem terrivelmente.

A fundamental e incontornável política, a democracia no Brasil só estará definitivamente assentada, com suas óbvias imperfeições, quando incorporar as grandes maiorias sociais do Brasil real. E, para tanto, é fundamental um projeto de desenvolvimento estratégico, que incorpore, literalmente, toda uma nação excluída da sua própria nação.

Essa é mãe de todas as injustiças, a excelência de todos os preconceitos, o racismo de todos os racismos, nesse povo mestiço e original, como afirmou o antropólogo Darcy Ribeiro.

Porque o Brasil atual, mesmo modernizado tecnologicamente, sofisticado em vários aspectos, digitalizado, globalizado em todas as vertentes, a oitava economia mundial, ainda continua a ser o País da Geografia da Fome, de Josué de Castro, de meados do século XX. E do genial Machado de Assis, falecido em 1908.

O demais, é poesia parnasiana, ou tese acadêmica de Sociologia, com a devida vênia dos sociólogos e dos poetas parnasianos.

O Brasil não é para iniciantes

  • Eduardo bomfim
  • 15/05/2020 19:56
  • Blog do Eduardo Bomfim
Presidente Jânio Quadros tomou posse em janeiro de 1961 e renunciou após 7 meses de governo.

O mundo encontra-se mergulhado em uma profunda crise que tem como ponto central a brutal acumulação do capital financeiro rentista, enquanto os povos e as nações patinam em uma depressão econômica sem precedentes na História recente do capitalismo.

A pandemia provocada pelo corona vírus agravou sobremaneira essa catástrofe financeira global, cujas origens residem na doutrina do neoliberalismo e o seu toque de finados a que assistimos ao vivo e em cores cinzentas.

Nesse sentido, não foi essa pandemia que provocou a debacle das economias das nações, simplesmente ela foi o elemento catalizador que a desestabilizou e a conduziu à paralisia quase que absoluta.

Nesse período, a globalização do capital especulativo é que tem mandado no mundo atual, que promoveu também as sua próprias ideologias, e que sempre tiveram dois objetivos centrais: a exaltação das suas próprias ambições de acumulação desenfreada, absolutamente desvinculadas dos investimentos na produção de riquezas dos povos e das nações.

O outro objetivo, também central, foi, e tem sido, a fragmentação, em grande escala, do sentimento de solidariedade entre as sociedades, de tal forma que imobilizasse o espírito de pertencimento das pessoas a uma comunidade nacional.

Assim é que até às vésperas da pandemia sanitária em que estamos mergulhados e confinados, não existia qualquer discussão relevante sobre um projeto estratégico para a nação brasileira.

Porque a hegemonia ideológica do rentismo especulativo reside exclusivamente nas prioridades do Mercado financeiro, nos lucros estratosféricos dos Bancos, nas políticas econômicas ultraliberais que abatem o protagonismo do Estado nacional e aprofunda de maneira acelerada os imensos abismos sociais.

De tal forma cristalizou-se essa hegemonia, que nas últimas décadas todas as instituições da República foram, de uma forma ou de outra, tragadas pelas ideologias do capital financeiro, e as organizações partidárias de todos os espectros também foram gravemente contaminadas por uma espécie de irrelevâncias programáticas.

O resultado disso tudo é que a vida política se apequenou, e perante os olhos da opinião pública, transformou-se no contrário do que realmente é, da sua verdadeira essência: a maneira pela qual o povo exerce a sua vontade soberana nos destinos democráticos da nação e de cada um de nós.

Daí, a sociedade migrou paulatinamente para as redes sociais, seja para tratar das suas vidas diárias, seja para se dedicar a um ativismo político, em paralelo à vida política real.

Mas a verdade que também nas redes sociais o capital financeiro exerce a sua hegemonia ideológica, assim como os agentes políticos atuam forte e profundamente, comprovando que não há vida fora da política.

O governo Bolsonaro

O desorientado governo do presidente Jair Bolsonaro não é fruto do acaso, ele é resultado desse contexto de falta de rumos para o Brasil, de um Projeto Nacional de Desenvolvimento em todos os níveis, na economia, da vida social, na cultura etc., que em 500 dias de mandato mergulhou, ou aprofundou, melhor dizendo, a desorientação generalizada em que se encontra a nação.

Sem uma união nacional em torno de um propósito comum de País, parece que o cidadão foi envolvido em uma falsa premissa: a pessoa só é ocasionalmente brasileira, se o seu grupo político, ao qual é alinhado ideologicamente, ou por interesses concretos, encontra-se no poder. Isto é o ápice da fragmentação da sociedade nacional.

Jair Bolsonaro é resultado de uma crise espiritual nacional e social, com essas características já destacadas, cujo sinais, mais externos, apareceram nas manifestações de 2013 e daí foram num crescendo, passando pelo impedimento da ex-presidente Dilma.

Nas manifestações contra a realização da Copa do Mundo de futebol, que uniu setores de esquerda e de direita com objetivos distintos, no governo Temer, na imensa judicialização da vida política, a melhor expressão e testemunha que as grandes corporações do Estado nacional tomaram conta dos destinos nacionais, substituindo, nada mais nada menos, que as grandes maiorias sociais, o povo brasileiro.

Incapazes de achar um rumo nacional, as organizações partidárias foram, assim, destruídas e ao mesmo tempo se destruindo, abrindo uma vácuo de poder que possibilitou o surgimento do governo Bolsonaro.

Que se guia por uma ideologia fanática, uma total falta de discernimento político, conceitos estapafúrdios e fora da realidade, como o terraplanismo, a intolerância generalizada e medieval, que se avulta na visão de uma falsa dicotomia sobre a atual pandemia sanitária, entre o óbvio e cientificamente comprovado isolamento social e a imprescindível questão da economia.

O presidente Jair Bolsonaro não é, na prática, presidente de todos os brasileiros, mas de um grupo de ativistas envolvidos, por enquanto, com a sua visão estreita do Brasil e do mundo, prejudicando enormemente os interesses nacionais através da orientação delirante da nossa política externa, nessa louvação sem nexo à dependência aos Estados Unidos e Israel, sem observar os múltiplos interesses geopolíticos e comerciais do Estado brasileiro. Uma enorme prejuízo.

Nesse sentido, é imprescindível que as diversas forças políticas nacionais contribuam, e não fiquem simplesmente marcando posição, para encontrar uma solução democrática e constitucional para o Brasil em meio a uma tríplice crise: sanitária, econômica e institucional. Porque estamos marchando, sem dúvida, para uma encruzilhada institucional gravíssima.

Mas a verdade é que se não construirmos um projeto de nação que recupere a confiança das amplas maiorias sociais, do povo brasileiro, em si próprio e nos destinos do País, estaremos condenados a patinar inevitavelmente nesse presente contínuo em que estamos mergulhados há algumas décadas.

Porque o Brasil é inevitável, mas falta-nos um rumo, um estado de espírito, um destino factível e perfeitamente realizável nos marcos democráticos. Mas, enfim, como disse o grande maestro Tom Jobim: o Brasil não é para iniciantes.

Darcy Ribeiro e a invenção do povo brasileiro

  • Rafaela Souza
  • 09/05/2020 11:08
  • Blog do Eduardo Bomfim

Nós, brasileiros (…) somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi um crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na ninguendade. Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros. Um povo, até hoje, em ser, na dura busca de seu destino. Olhando-os, ouvindo-os, é fácil perceber que são, de fato, uma nova romanidade, uma romanidade tardia mas melhor, porque lavada em sangue índio e sangue negro.

         “(…) Nenhum povo vive sem uma teoria de si mesmo”. Com esta frase, o antropólogo, professor, político e um dos maiores pensadores da identidade nacional brasileira, Darcy Ribeiro, exprime a razão de ser de seu último livro publicado – O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil – no qual trabalhou por mais de 30 anos. Em 1995, não obstante as recomendações médicas, deu-se alta da Unidade de Terapia Intensiva e refugiou-se em Maricá a fim de garantir uma versão final para a obra em que investira uma vida de pesquisas documentais e etnográficas. Sobre ombros de gigantes como Capistrano de Abreu, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro teorizou acerca da formação do que designou macroetnia brasileira. Um “povo novo”, uma vez que surge como uma etnia nacional diferenciada culturalmente das suas matrizes originárias. Um povo que é produto da fusão e transfiguração de culturas milenares num contexto socioeconômico marcado por acentuadas desigualdades sociais.

A mestiçagem é um ponto essencial da teoria de Darcy Ribeiro – “o produto verdadeiro da obra colonial de Portugal”, que plasmou um povo-nação que “se multiplica prodigiosamente como uma morena humanidade em flor, à espera do seu destino”. Cumpre apontar, no entanto, que Darcy não compreende a miscigenação como um processo de pacificação da sociedade ou harmonização das classes sociais. Pelo contrário, o autor evidencia a violência direta, sexual e estrutural do processo de miscigenação conduzido por meio da subjugação da massa de indivíduos constrangidos, depreciados e desumanizados.

A desindianização dos indígenas, desafricanização dos negros e deseuropeização dos portugueses, cada vez mais evidente nos processos de transfiguração que deram origem a povo novo, foi acompanhada por um modo social de concentração de terras e regime de trabalho escravo inseridos em uma economia recorrentemente desenhada para servir aos mercados externos como fornecedora de produtos primários em um constante déficit comercial que favorecia o patronato e o patriciado local enquanto reforçava as condições miseráveis da maioria da população.

A obra está organizada em cinco capítulos que, à medida em que se desdobram, tornam a nossa história mais inteligível. Os capítulos são desenvolvidos em torno de três eixos elementares relacionados: a análise da gestação étnica do Brasil que deu origem aos núcleos originais, que, multiplicados, deram origem ao povo brasileiro; o estudo das linhas de diversificação que plasmaram as particularidades culturais regionais; e a crítica ao sistema institucional – notadamente a propriedade privada e o regime de trabalho – no âmbito do qual o povo se desenvolveu, passando por diversos processos de transfiguração.

O ponto de partida do autor é, naturalmente, uma reflexão acerca da defrontação de culturas radicalmente distintas – a lusitana e a indígena. A expansão marítima portuguesa – primazia viabilizada por fatores como a centralização do poder no contexto de formação dos Estados modernos europeus e o desenvolvimento de tecnologias de navegação que remontam aos conhecimentos herdados dos árabes e dos judeus – culminou com a chegada destes à “Ilha Brasil”, território cuja costa era habitada por índios da matriz Tupi há pelo menos um século.

O conflito deu-se em diferentes âmbitos: o biótico – guerra bacteriológica consequente das doenças trazidas pelos brancos para as quais os índios não tinham imunidade, acarretando uma verdadeira dizimação; o ecológico – evidenciado pelas disputas territoriais; o econômico e social – a partir da escravização do índio e mercantilização das relações de produção que articularam a América ao Velho Mundo como provedora de gêneros exóticos, cativos e ouro; e no cultural – na confrontação de uma sociedade classista, cristã, baseada em um sistema produtivo voltado para a acumulação com uma sociedade silvícola, organizada de forma horizontal, a partir de valores como intercâmbio e solidariedade e cujas relações interpessoais se estabeleciam por meio da prática do cunhadismo.

A dominação portuguesa se deu por meio da guerra genocida e etnocida protagonizada pela empresa colonial e pelas missões jesuíticas. Cumpre apontar que tais instituições tinham projetos diferentes para os povos nativos – enquanto os jesuítas confinavam os indígenas a fim de convertê-los ao cristianismo enquanto utilizavam sua mão de obra compulsória para manutenção das missões e produção de gêneros alimentícios variados, a empresa colonial apresava os índios e submetia-os a um sistema de escravidão caracterizado pelo uso da força de trabalho até a exaustão.

Apesar de a Coroa manifestar-se contrária à escravização dos indígenas (endossando o caráter ibérico salvacionista de evangelização universal presente nos Tratados de Francisco de Vitória, Padre Nóbrega e, posteriormente, Padre Antônio Vieira), a guerra contra tribos “hostis” era legítima e comum. Regularmente, as reduções das missões acabavam servindo como fonte facilitada de mão de obra indígena para a empresa colonial. Cumpre apontar que os povoadores dispunham de relativa autonomia, tendo em vista as limitações da vigilância reinol. Invasores europeus, como os franceses e os holandeses, assim como os portugueses, se aproveitaram da instituição do cunhadismo – nesse caso caracterizado pela poligamia do homem branco com as índias – para se integrarem aos índios, explorarem sua mão de obra e suas destrezas guerreiras no projeto de ocupação dos territórios. Por vezes, os índios se uniam aos europeus a fim de opor-se a tribos e colonizadores inimigos – como foi o caso da aliança entre os franceses e os Tamoios durante a Confederação dos Tamoios (1563-1567).

O cunhadismo foi fundamental para a colonização – tendo em vista que os portugueses eram uma minoria gritante. Foi também fundamental para o processo de mestiçagem do primeiro núcleo de brasileiros – os mamelucos. Filhos de homens europeus com mulheres indígenas, os mamelucos cresciam sob um processo de desenvolvimento cultural diferente das matrizes originais. Não se reconheciam indígenas e não eram reconhecidos como portugueses – eram algo novo. O protobrasileiro – primeiro brasileiro consciente de si – em busca de uma identidade própria. Falava língua de matriz tupi, rezava orações cristãs.

A fim de preservar interesses ameaçados pelo cunhadismo generalizado, defender o território das empreitadas estrangeiras e transformar o Brasil em uma colônia produtiva, em 1532 a Coroa portuguesa pôs em execução o regime das donatarias, dentre as quais Pernambuco e São Vicente foram as mais bem-sucedidas.

Investido de poderes feudais, o donatário dispunha de poder político para fundar vilas, conceder sesmarias, licenciar artesãos e comerciantes, e de poder econômico para explorar a terra, diretamente ou por meio de intermediários.

Dando continuidade à consolidação do poder da Coroa, em 1549 Tomé de Souza implantou o governo geral, na Bahia, com apoio essencial dos mamelucos de Diogo Álvares Correia – o Caramuru. A utilização da prática do cunhadismo como forma de recrutamento de mão de obra e incorporação do indígena ao sistema mercantil de produção foi progressivamente substituída pela guerra de apresamento para escravização conforme o aumento da necessidade de mão de obra. Os mamelucos, empobrecidos e em busca de um destino para si, lançariam as bandeiras para apresamento de indígenas a fim de utilizá-los como mão de obra ou vendê-los para exploração em outras atividades coloniais. As bandeiras, ainda que empreendimentos fundamentalmente privados, também tinham como objetivo a prospecção de minerais preciosos. No final do século XVII, os mamelucos paulistas descobririam ouro na região das Minas Gerais, o que conformaria um novo processo de transfiguração cultural.

A implantação dos engenhos de açúcar, sobretudo no Nordeste, fomentou a introdução de um novo componente étnico à comunidade formada majoritariamente por mamelucos – ou brasilíndios –, as mulheres e homens negros escravizados traficados da África. Surge, assim, a área cultural crioula centrada na Casa Grande e na Senzala. Os negros traficados principalmente da costa ocidental da África, eram oriundos de três principais grupos culturais – as culturas Yorubá de Gâmbia, Serra Leoa, Costa da Malagueta e Costa do Marfim; as culturas islamizadas do norte da Nigéria (malês/alufá); e as tribos Bantu de Angola, Congo e Moçambique. A diversidade linguística e cultural dos contingentes negros introduzidos no Brasil, somadas às hostilidades recíprocas que traziam da África e à política de evitar a concentração de escravos oriundos de uma mesma etnia nas mesmas propriedades e até mesmo nos mesmos navios negreiros, impediu a formação de núcleos solidários que retivessem o patrimônio cultural africano.

A mestiçagem do homem branco com mulheres negras – marcada pela violência sexual dos senhores de engenho e capatazes – deu origem a uma população mulata. Esse núcleo crioulo, apesar de trazer consigo a ancestralidade africana, desenvolvia uma nova cultura que se fundia e se transfigurava no contexto local. No âmbito econômico, a expansão da produção açucareira vinculou os antigos núcleos extrativistas ao mercado mundial na condição de proletário externo estruturado como uma colônia mercantil escravista.

Darcy Ribeiro pontua que a brasilianidade – essa nova identidade étnico-cultural – só se fixou quando a sociedade local (luso-tupi) se enriqueceu com contribuições maciças de descendentes dos contingentes africanos já totalmente desafricanizados pela mó aculturativa da escravidão. Nas palavras do antropólogo, “esses mulatos ou eram brasileiros ou não eram nada”. Nascidos no Brasil, aprendendo português desde pequenos, não eram como os “negros boçais” recém traficados, tampouco como europeus, indígenas ou mamelucos. A necessidade de sair da ninguendade os tornara protobrasileiros por carência. Aqui reinventaram, em condições extremamente hostis e desumanas, a cosmovisão africana, seus rituais, musicalidade e culinária. O culto à Iemanjá, transfigurado pelos afro-brasileiros no Rio de Janeiro – que transferiram a data do ritual para 31 de dezembro -, é um perfeito exemplo da brasilianidade, transformando e resignificando rituais essencialmente cristãos. Apesar das atrocidades do tráfico negreiro e da senzala, os orixás vieram brilhar, singularmente, no novo mundo.  A preservação da cultura espiritual associada às crenças indígenas emprestaria à cultura brasileira, no plano ideológico, uma singular fisionomia cultural – “um catolicismo popular muito mais discrepante que qualquer das heresias cristãs tão perseguidas em Portugal”.

 Os negros foram responsáveis pela propagação da língua portuguesa junto aos mamelucos que falavam nheengatu – a língua geral de matriz tupi aprendida pelos jesuítas que se tornara a língua falada no Brasil até meados do século XVIII. Induzidos pela necessidade de compreender os capatazes e se comunicarem com outros escravizados oriundos de partes diferentes da África, difundiram o português. Não apenas difundiram, mas também enriqueceram a língua com uma infinidade de vocábulos africanos que, “aportuguesados”, caracterizariam profundamente o “português do Brasil”. Quando da descoberta de minerais preciosos no centro do País, pelos bandeirantes paulistas, o envio de massas de escravizados para a região das minas propagou a língua portuguesa entre os mamelucos.

A transfiguração étnica e cultural, oriunda do encontro conflitivo de portugueses, indígenas e africanos, deu origem aos primeiros núcleos de protobrasileiros: mamelucos e mulatos. Posteriormente, a chegada de imigrantes europeus – italianos, alemães, ingleses, japoneses, sírio-libaneses -, ainda que em menor grau, transfiguraria novamente os núcleos preexistentes, sobretudo na região sul do País. Dada a dimensão territorial do Brasil, as diferentes condições ecológicas e orientações da produção, esses núcleos originais deram origem a grupos regionais que, apesar da homogeneidade cultural básica, desenvolveriam características próprias das diferentes regiões. Darcy Ribeiro distingue as variantes de culturas tradicionais brasileiras em crioula, caipira, sertaneja, cabocla e gaúcha.

A cultura crioula

A cultura crioula se desenvolveu nas faixas de terras férteis do Nordeste, fundamentalmente em torno do engenho açucareiro, como exposto previamente. O sistema de fazendas – autocrático e orientado pela monocultura para exportação – caracterizava a ordenação da vida socioeconômica entre a Casa Grande e a Senzala, que coexistiam conflitivamente, enquanto se abrasileiravam. A ordem açucarocrática se implantou pela combinação de interesses pecuniários dos comerciantes que financiavam o empreendimento, dos empresários que se incumbiam diretamente da produção e da Coroa que garantia a dominação e reservava a si o monopólio da comercialização.

Marcada pelo colonialismo escravista, a cultura crioula é a expressão na conduta e nos costumes dos imperativos da economia monocultora para exportação. Tal conduta, como esperado, encontrou efetiva resistência dos negros escravizados que lutaram por sua liberdade, não apenas contra os senhores de engenho, mas contra toda a sociedade colonial unida na defesa desse sistema. A resistência assumiu diversas formas, desde a resistência no cotidiano do engenho, até as fugas para territórios ermos, onde constituíam quilombos. Palmares, o mais célebre deles, sobreviveu por quase um século, até sua destruição pela bandeira “de contrato” do mameluco paulista Domingos Jorge Velho, a serviço dos latifundiários escravocratas.

A cultura caipira

A compreensão da cultura caipira demanda um breve retorno à história dos núcleos mamelucos. Darcy Ribeiro debruça-se substancialmente na tarefa de compreender a realidade dos mamelucos paulistas e seu papel fundamental na apropriação física do Brasil por meio das expedições conhecidas como bandeiras. Inicialmente, esta empreitada consistia em uma iniciativa de violência privada que objetivava adentrar em terras desconhecidas para aprisionar indígenas. Marginalizados no processo econômico da colônia, em que quase todos estavam voltados para as lucrativas tarefas dos engenhos e dos currais de gado, os mamelucos acabaram por se especializar como homens de guerra.

Cumpre apontar que os escravizados africanos estavam concentrados nos engenhos de açúcar e consistiam em um fator de produção muito caro. A mão de obra indígena era, portanto, uma opção mais barata e acessível. Quando os bandeirantes encontraram ouro e diamante, passaram de agentes privados a agentes da Coroa. Essa, progressivamente, se tornou mais presente na região mineradora, estabelecendo formas de exação cada vez mais escorchantes. A expansão dos núcleos para o interior do Brasil, sobretudo a partir da descoberta de minérios preciosos, foi fundamental para a expansão da ocupação do território e a integração dos arquipélagos econômicos brasileiros. Nas palavras de Darcy Ribeiro, “Minas foi o nó que atou o Brasil e fez dele uma coisa só”. A criação de uma rede de intercâmbio comercial seria fundamental para consolidação de uma base econômica de unidade nacional.

O autor infere que nas zonas de mineração, a sociedade adquiriu feições peculiares como um desdobramento do tronco paulista por influência de brasileiros vindos de outras áreas – sobretudo senhores de engenhos do nordeste acompanhados pelos negros escravizados – e portugueses. A riqueza oriunda da atividade mineradora criou um núcleo cultural e intelectual relevante, cujas maiores representatividades estão na variante brasileira da cultura barroca e na articulação ideológica da Inconfidência Mineira.

Com a decadência da mineração, toda região submergiu a uma economia de pobreza, acompanhada de regressão cultural. A economia voltou-se substancialmente para um modelo autárquico de subsistência, após a fracassada empreitada de industrialização, inviabilizada pela Coroa. Mineradores e negociantes transformaram-se em fazendeiros e empregados livres fizeram-se posseiros. Citadinos ruralizados espalharam-se pela região, ocupando terras para moradia e cultivo, fazendo-se roceiros de lavouras de subsistência, criadores de gados e porcos. Era a Minas Gerais da decadência, marcada por um forte conservadorismo. Da mesma maneira, a região centro-sul entra em estagnação, mergulhando numa cultura de pobreza que retoma as formas de vida arcaicas dos bandeirantes paulistas, marcada por uma população dispersa, desarticulada e voltada para a subsistência. A região, outrora marcada pelo apogeu da mineração, cristaliza-se na área cultural caipira, caracterizada por um novo modo de vida rural, mais autárquica do que mercantil, organizada em bairros em que prevalece a ajuda mútua entre as famílias – cuja socialização e formas de entretenimento estão centradas nas atividades religiosas – e uma organização do trabalho que permite a intercalação com longas horas de lazer. Darcy pontua que apenas nessas ocasiões de recessão econômica, a população branca e mestiça pobre e os mulatos livres têm acesso à terra.

A liberdade incidental da existência autárquica, no entanto, dura pouco, sendo suprimida por uma nova economia de exportação e pela Lei de Terras de 1850. A penetração do Estado, marcada pelos interesses da classe oligárquica proprietária de terras, impõe a reorganização da vida caipira, submetendo as famílias ao amparo de um senhorio que impõe um novo regime de trabalho e a imprescindibilidade da lealdade política para a sobrevivência em meio ao arbítrio. A nova condição de assalariado rural implica um trabalho com horário marcado por toque e dirigido por um capataz, sendo, portanto, rejeitado pelos caipiras, uma vez que associado às humilhações do trabalho escravo.

A nova situação significa o desenraizamento do posseiro caipira com ajuda do aparato legal administrativo e político do governo. Esse processo de reordenação social foi fortemente acelerado pelo rápido crescimento da cultura agroexportadora de café que impulsionou a migração de parte dessa população para terras cada vez mais remotas, acarretando a necessidade de transposição de mão de obra de escravizados e posterior importação de mão de obra europeia, adaptada ao regime assalariado. Darcy pontua que a figura icônica do personagem Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, reflete o profundo traumatismo cultural do caipira, “marginalizado pelo despojo de suas terras, resistente ao engajamento no colonato e ao abandono compulsório do seu modo tradicional de vida (…) e produto residual e cultural do latifúndio agroexportador”.

A cultura sertaneja

A empresa açucareira prescindia de economias auxiliares à produção, entre elas, a pecuária, cuja expansão para o sertão deu origem ao núcleo cultural sertanejo. Aos poucos, a criação de gado foi se afastando dos engenhos e os pastos foram ocupando os sertões do nordeste, constituindo uma economia cada vez mais importante, que atraía mestiços e brancos pobres para o trabalho de vaqueiro nas fazendas, tendo em vista as melhores condições em comparação com ao trabalho nos engenhos – o fenômeno explica a predominância do “fenótipo brancóide de base indígena” no sertão nordestino.

O regime de trabalho no pastoreio não se funda, portanto, na escravidão, mas num sistema peculiar em que o soldo se pagava em fornecimento de gêneros de manutenção. É nesse contexto que se constitui a cultura sertaneja, “marcada por sua especialização ao pastoreio, por sua dispersão espacial e por traços característicos identificáveis no modo de vida, na organização da família, na estruturação do poder, na vestimenta típica, nos folguedos estacionais, na dieta, na culinária, na visão de mundo e numa religiosidade propensa ao messianismo”.

As terras, que pertenciam à Coroa portuguesa, eram concedidas em sesmarias, inicialmente aos próprios senhores de engenho que foram se tornando sesmeiros na orla do sertão, criando o gado que consumiam. Posteriormente essa atividade se tornou especialização de criadores que vieram a ser “os maiores detentores de latifúndio no Brasil”. A relação entre o senhor e o vaqueiro era extremamente hierarquizada e o grande fluxo de brancos e mestiços para os sertões dispensava a transposição de mão de obra escrava. Ao contrário do engenho, a atividade pastoril não requisitava uma grande quantidade de mão de obra, o que acarretou, posteriormente, o crescente fluxo migratório para outras regiões.

Os sertões se fizeram um vasto reservatório de força de trabalho barata. A pequena capacidade de absorção de mão de obra, condição de miserabilidade e a dificuldade de acesso a terras num contexto profundamente marcado pelo latifúndio pastoril também acarretou o desenvolvimento do banditismo, representado na figura do cangaceiro – que é fruto do próprio sistema senhorial do latifúndio pastoril, uma vez que se espelha na figura dos jagunços a serviço dos coronéis.

Os núcleos humanos dos sertões ficavam muito dispersos uns dos outros, mas havia constante cooperação entre os vaqueiros, mormente para a atividade de apartar o gado. Essa cooperação deu origem às vaquejadas, originalmente prélios de habilidades entre vaqueiros que se transformaram em festas regionais. O culto aos santos padroeiros e as festividades do calendário religioso proporcionavam ocasiões regulares de convívio entre as famílias de vaqueiros.

A religiosidade sertaneja tem a característica de um messianismo fanático que reflete sua predisposição ao sacrifício e à violência, além de valorizar o culto à honra pessoal, ao brio e a fidelidade às suas chefaturas. Esses traços peculiares ensejaram, por vezes, o desenvolvimento de formas anômicas de conduta que envolveram multidões, criando problemas sociais de enorme gravidade, cujas principais formas de expressão são o cangaço e o fanatismo religioso. Ambos são resultados da miséria, mas conformados pela singularidade do mundo cultural. Darcy pontua que o fanatismo religioso e o cangaço têm muitas raízes em comum. Ambos são expressões da penúria e do atraso que, incapazes de se manifestar em formas mais altas de consciência e de luta, conduziram massas desesperadas ao descaminho da violência e do misticismo militante. Os episódios de Pedra Bonita e Canudos são as maiores expressões desse messianismo e manifestam a esperança no surgimento de um salvador da pobreza.

A memória de Canudos, perpetuada nas tradições orais das populações sertanejas, inundou a memória coletiva com episódios de resistência e luta e a possibilidade de transformação da ordem social, sem fazendeiros e autoridades. Diante das transformações da organização política nacional e do enfraquecimento relativo da força do coronelato, o sertanejo foi adquirindo, gradativamente, consciência social e transformando suas estratégias de resistência.

A cultura cabocla

Na Amazônia brasileira constituiu-se o núcleo cultural regional caboclo, organizado em torno da empresa extrativista florestal, cujo ciclo econômico vigorou enquanto se manteve o monopólio da produção mundial da borracha. Os protagonistas deste empreendimento foram alguns lusitanos e muitos neobrasileiros mestiços oriundos das primeiras “células-Brasil”. As primeiras fortificações da Amazônia foram construídas por portugueses para expulsar invasores franceses, que acabaram migrando para o que hoje é a cidade de Caiena. Quando os portugueses compreenderam o valor das drogas da mata,capazes de substituir as especiarias trazidas das Índias, iniciaram um esforço para racionalizar um novo negócio que tinha como principal fator de produção a mão de obra indígena escravizada. Considerando que as drogas estavam espalhadas pela mata, a estratégia para escravização consistiu na subjugação de aldeias inteiras e aprisionamento de mulheres e crianças para garantir que os homens indígenas retornariam com os produtos. Os homens brancos esposavam e violentavam mulheres indígenas capturadas e confinadas na região, determinando o caráter étnico da nova população. Inevitavelmente, a estratégia perversa desencadeou diversas guerras entre os indígenas e os colonizadores. Um posterior acordo entre missionários e colonizadores facilitou o apresamento e recrutamento de mão de obra compulsória, por meio do estabelecimento de diversas reduções jesuíticas onde os indígenas eram confinados.

A escravização e confinamento nas reduções jesuíticas ensejou o convívio entre indígenas de matrizes culturais diferentes resultando na homogeneização linguística e no enquadramento cultural compulsório do indígena no corpo de crenças e no modo de vida de seus cativadores.

A língua geral – de tronco tupi – foi, consequentemente, difundida entre as populações aborígenes da Amazônia, que falavam línguas diferentes. No campo cultural religioso, o contexto das reduções deixou o legado de uma religiosidade folclórica e pouco ortodoxa que resultou em uma crença popular de colcha de retalhos, “fundada no sincretismo da pajelança indígena com um vago culto de santos e datas do calendário católico”. Enquanto população nova que se transfigurava, carregava consigo fortes traços do modo de vida indígena, tanto no que concerne aos conhecimentos acerca da sobrevivência na floresta, como nos seus modos de dormir, se alimentar, lavrar a terra e compreender os fenômenos cotidianos. Algumas famílias dos Açores também foram enviadas para região a fim de compelir a ocupação estrangeira. Esses fundaram estabelecimentos agrícolas de gado que enriqueceram a economia regional.

A expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal fortaleceu a camada oligárquica da sociedade cabocla que se apropriou de suas fazendas, rebanhos e lavouras. Nesse período, a Coroa portuguesa, empenhada na ocupação da Amazônia, fez grandes investimentos na área, custeados pelo ouro de Minas Gerais, construindo uma rede de cidades urbanizadas e dotadas de serviços públicos. O decaimento da atividade extrativista implicou o início de uma economia agrícola de gêneros tropicais que vicejou durante a crise no abastecimento mundial de arroz e algodão, diante das guerras de independência das treze colônias norte-americanas e das guerras napoleônicas. O crescimento dessas produções acarretou a transposição de mão de obra de negros escravizados para a região.

A ordem repressiva e a situação de miséria desencadearam dois movimentos insurrecionais, no século XIX, que convulsionaram toda a Amazônia. A Cabanagem do Pará e da Amazônia (1834-1840) sublevou as camadas rurais e urbanas, adotando o caráter de uma revolução republicana e separatista fundamentada em questões classistas, mas também étnicas – uma vez que reunia os cabanos (caboclos que não eram índios, nem lusitanos e tinham um modo de vida distinto) contra as camadas oligárquicas predominantemente brancas. A outra insurreição das populações do norte foi a Balaiada (1838-1841). Os balaios eram rebeldes da massa negra concentrada no Maranhão para produzir algodão, os quais, deculturados e desafricanizados, lutavam, assim como faziam os quilombos, por uma ruptura da ordem social.

A chegada de contingentes de diversas outras partes do Brasil e do mundo, diante da valorização da borracha no mercado mundial, acarretou a substituição do nheengatu pelo português. No entanto, os caboclos mantiveram a consciência de sua identidade diferenciada e seu modo de vida de povo da floresta. O processo histórico resultou em três conjuntos de populações na Amazônia:  os índios tribais refugiados nas altas cabeceiras, lutando contra os invasores; a população urbanizada, bastante heterogênea, falando predominantemente a língua portuguesa e operando como base de sustentação da ordem colonial; e os índios genéricos, oriundos das missões, destribalizados, empobrecidos, só comparáveis aos mamelucos paulistas.

O Brasil Sulino

Por fim, Darcy Ribeiro nos apresenta ao Brasil Sulino dos gaúchos, matutos e gringos. A expansão dos antigos paulistas acarretou a ocupação da região sulina de prévia dominação espanhola, o que, posteriormente, permitiu sua incorporação ao Brasil.

Ao contrário das outras áreas conformadas pelos paulistas, na região sulina surgiram modos de vida bastante diferenciados. A região é marcada pela heterogeneidade cultural que abarca os matutos, de origem açoriana que ocupam a faixa litorânea do paraná para o sul e dedicam-se à lavoura; os representantes atuais dos antigos gaúchos da zona de campo da fronteira rio-platense e dos bolsões pastoris de Santa Catarina e Paraná, cujo sistema produtivo é o pastoreio; e os gringos-brasileiros descendentes de imigrantes europeus que formam uma ilha na zona central, avançando sobre as duas outras áreas e dedicam-se à produção em pequenas propriedades. A coexistência e interação acabou difundindo os traços das diferentes culturas num sentido homogeneizador e este processo ainda está em andamento, especialmente no que se refere às colônias alemãs, italianas e polonesas.

A presença portuguesa inicia-se com a expansão dos mamelucos paulistas para a região sul do País por meio das bandeias de apresamento de indígenas. A ampla presença de jesuítas espanhóis e seus projetos missionários atraía os mamelucos pela facilidade de captura desses indígenas destribalizados e condicionados para o trabalho disciplinado. A presença extensiva do gado, levado pelos espanhóis, acabou direcionando a principal atividade econômica a que se destinariam esses primeiros gaúchos da região. Ao contrário dos sertanejos que, desde o princípio vivenciaram uma cultura marcada pela lógica latifundiária, os gaúchos estavam inseridos em uma dinâmica diferente. A posterior expulsão da Companhia de Jesus acarretou a apropriação desses vastos campos por fazendeiros. Esses primeiros gaúchos, oriundos do processo deculturativo das missões, passaram a servir de mão de obra para exploração mercantil das vacarias.

 Apesar da relevância da expansão das bandeiras para ocupação do território, o motor essencial da formação do Brasil sulino foi a empresa colonial portuguesa conduzida, desde muito cedo, com o propósito explícito de levar sua hegemonia até o Rio da Prata. Esse propósito corporificou-se com a instalação da Colônia do Sacramento no Rio da Prata, em 1680. A atividade mineradora foi fundamental para atrair esses gaúchos para a órbita lusitana como fornecedores de gado para a região das minas, promovendo a integração aos demais arquipélagos econômicos do país.

O declínio da mineração, por sua vez, levou os gaúchos a se especializarem na fabricação de charque, que não apenas valorizou os rebanhos gaúchos como também os vinculou ao mercado nordestino, amazonense e antilhano. É importante pontuar que, além da integração aos ciclos mercantis, a coroa portuguesa empenhou-se em diversas negociações diplomáticas, ao longo de décadas, para fixação de suas fronteiras no Prata, além do envolvimento em guerras de disputa hegemônicas com a Espanha. No período pós-colonial, o poder central também teve de fazer frente e submeter pelas armas movimentos aspirantes à autonomia da região. O messianismo religioso também foi o fio condutor de insurreições locais, como o caso da Guerra do Contestado, na qual uma massa miserável reivindicava a possessão das terras que ocupavam. A histórica presença militar no Rio Grande do Sul deu à região maior poderio no conjunto da nação do que correspondia sua importância econômica, o que tornou inevitável a imposição de candidatos gaúchos ao poder central, sobretudo quando as vias institucionais foram insuficientes.

Notas Finais

Indubitavelmente a obra de Darcy Ribeiro é muito mais rica do que esta resenha seria capaz de informá-los. A leitura é fundamental para compreender características tão complexas da nossa sociedade que muitas vezes são estereotipadas e desprezadas pela mesma elite de mentalidade senhorial que, ao que parece, continua enxergando a grande massa de trabalhadores de forma desumanizada, como uma matéria prima barata, como carvão para queimar.

Darcy desnuda a desigualdade e a brutalidade que se impõem no Brasil desde sua formação e gestão de sua gente, em seu caráter de classe, raça e gênero. Para o autor, as diferenças sociais são as mais difíceis de transpor, muito embora estejam evidentemente informadas pela cor – “as classes mais baixas são escurecidas”. O racismo no Brasil é orientado pelo olhar classista e diluído numa ideologia assimilassionista, racista por natureza.

Conquanto as cicatrizes de uma sociedade marcada pelo escravagismo e pelo latifúndio extrativista sejam elementos fundamentais na compreensão do Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro dá relevo inédito às qualidades singulares oriundas desse povo novo, híbrido, forjado e enriquecido pela confluência de matrizes diversas que se converteram em uma identidade brasileira, especialmente no que concerne a seu potencial emancipatório.

A capacidade de um povo de interpretar sua própria história é uma ferramenta simbólica fundamental para direcionar sua atuação histórica, a partir da organização de valores e interesses comuns. Em que pese o potencial dos estratos dominantes para normatização e organização da sociedade, a criatividade oriunda da massa de brasileiros subjugados e conscientes da sua formação histórica é um elemento transgressor da estratificação da ordem social vigente. Por fim, cumpre ressaltar que Darcy não se atém ao modelo de modernidade constituído “de fora para dentro”, mas explora as condições de possibilidade de emancipação a partir da singularidade das experiências locais.

Todo potencial da brasilianidade, exaltado na obra de Darcy, deve subjazer o direcionamento que queremos dar ao País em mais um momento de transitividade. É nossa percepção e atuação enquanto Povo Brasileiro que ditará nossa emancipação e realização ou o retorno à condição de proletário externo a serviço do capital estrangeiro.