Blog do Eduardo Bomfim

Intérpretes do Brasil – Milton Santos

  • 14/06/2021 18:06
  • Blog do Eduardo Bomfim

Felipe Maruf Quintas

 

Milton Almeida dos Santos (Brotas de Macaúbas-BA, 1926 – São Paulo-SP, 2001), mais conhecido como Milton Santos, foi um dos mais eminentes geógrafos brasileiros, homenageado com o Prêmio Vautrin Lud, a mais importante condecoração no ramo da Geografia.

Milton Santos destacou-se na formulação de um pensamento nacional acerca da territorialidade brasileira. Em sua concepção, o território não significa apenas recurso político-econômico, mas, sobretudo, abrigo, onde a sociedade estabelece seus modos de vida e de convivência.

O território, como categoria política, não pode ser compreendido sem referência à dinâmica histórico-social que o perpassa e o vivifica. O território, em si mesmo, é uma abstração. O “território utilizado”, permeado pelo trabalho e pela política, em uma relação interdependente entre os elementos fixos, imóveis, e os fluxos, móveis, é o que viabiliza, em sentido físico-político, a existência coletiva da Nação.

O espaço, enquanto território, isto é, espaço nacional, possui, então, uma historicidade, em razão dos processos sociais nele assentados. O Brasil, “com uma grande variedade de sistemas naturais sobre os quais a história foi se fazendo de um modo também diferenciado” (Santos e Silveira, 2001, p. 249), teria conhecido diferentes modos de utilização do espaço conforme os ciclos econômicos.

Os “quatro Brasis” a que ele se refere – a “Região Concentrada” formada por Sudeste e Sul, o Nordeste, o Centro-Oeste e a Amazônia – teriam sido integrados, em meados do século XX, pelo signo do industrialismo. A partir de então, poder-se-ia considerar o território brasileiro completamente apropriado, em função da expansão politicamente induzida da fronteira econômica, tendo como marcos a Marcha para Oeste, de Getúlio Vargas, a construção de Brasília e os programas de colonização e expansão agrícola-industrial do regime militar.

Milton Santos via no retorno a ideia de Nação e na solidariedade nacional a solução para os grandes desafios enfrentados pelo Brasil.

A industrialização, eixo da integração físico-demográfica do território brasileiro nesse período, é entendida pelo autor não apenas como a criação de atividades fabris em si, mas como “processo social complexo, que tanto inclui a formação de um mercado nacional, quanto os esforços de equipamento do território para torná-lo integrado, como a expansão do consumo em formas diversas, o que impulsiona a vida de relações (leia-se terciarização) e ativa o próprio processo de urbanização” (Santos, 2005 [1993], p. 30).

A urbanização, como fenômeno correlato do industrialismo, alastrou-se pelo Brasil no período de 1940 a 1980, quando a taxa de urbanização salta de 26,35% para 68,86%, em um período em que triplica a população total brasileira e, assim, a população urbana se multiplica sete vezes e meia.

O urbanismo brasileiro, contudo, arrastou consigo a pobreza, que passa a se localizar, sobretudo, na grande cidade. A acelerada metropolização, manifestação da rápida modernização do tecido socioeconômico nacional, refletiu não apenas o planejamento governamental e empresarial, mas, igualmente, as tensões e contradições derivadas desse processo.

Essas questões agudizam-se à medida em que, ao final do século XX e início do XXI, ocorre, segundo o autor, uma “involução metropolitana”, com o polo dinâmico da produção de valor deslocando-se das cidades para as regiões agrícolas e seus respectivos polos urbanos regionais.

Isso decorreria, principalmente, da desconcentração industrial e da criação de novas frentes de expansão agro-técnico-científico-industriais ocorridas a partir da década de 1970, em função de políticas estatais orientadas para o desenvolvimento e o povoamento da hinterlândia brasileira.

Haveria, então, uma concomitância da tendência centrífuga das cadeias produtivas com uma tendência centrípeta, no coração financeiro da capital paulistana, dos comandos financeiro-administrativos da produção, ressignificando a metrópole como “locus” de gestão para minorias gerenciais, em vez de arena de oportunidades para as maiorias populares.

Santos, todavia, não vê a cidade brasileira pelo prisma da negatividade. Em sua concepção, “A cidade, onde tantas necessidades emergentes não podem ter resposta, está desse modo fadada a ser tanto o teatro de conflitos crescentes como o lugar geográfico e político da possibilidade de soluções” (Santos, 2005 [1993], p. 30).  A cidade, portanto, torna-se espaço não apenas de escassez e de competição, mas também de soluções.  

A cidade, tomada em abstrata, seria, contudo, incapaz de proporcionar as bases para o encaminhamento de soluções alternativas ao status quo da dominação financeira, pois a sua abstração como elemento disperso na aldeia global seria, ela mesma, expressão dessa dominação.

Em suas reflexões ao final da vida, Santos considera que, no contexto mundial da globalização, a solução para os desafios da época encontra-se na Questão Nacional. Em suas palavras, “Para encontrar um começo de resposta, o primeiro passo é regressar às noções de nação, solidariedade nacional, Estado nacional” (Santos, 2000, p. 95).

A globalização, para ele, não implicaria a inevitabilidade da perda de soberania. A tirania do dinheiro e a tirania da informação, operadas pelas corporações transnacionais à revelia do interesse social e em detrimento da coesão territorial da Nação, seriam viabilizadas pelas normas, regulamentações e infraestruturas instituídas pelos Estados. A privatização das realidades sociais e dos usos do território em favor da acumulação financeira transnacional constituiria, pois, o resultado planejado de opções governamentais acerca do modo de inserção do País na globalização.

Justamente por isso, a “política do mercado”, em sua lógica particularista, acumuladora e excludente, não seria inelutável, mas apenas um caminho entre tantos outros. Face à globalização, seria possível – e, mais ainda, necessário – estabelecer um projeto nacional capaz de orientar soberanamente as nações num mundo progressivamente interconectado. Os exemplos contemporâneos de países tão distintos como China, Rússia, Índia, Coreia do Sul, Vietnã e Noruega, casos de sucesso na globalização a partir da liderança de Estados fortes imbuídos de projetos nacionais, atestam a validade histórica da tese defendida pelo autor.

A viabilidade de um projeto nacional estaria intrinsecamente relacionada, para Santos à centralidade da Política propriamente dita, com P maiúsculo. Ela, por definição, significa a primazia do bem comum e da proteção e promoção do que é nacional, isto é, do que é comum a todos que compartilham um status de cidadania em dado território e sob uma determinada jurisdição estatal. Em suas palavras:

“A política, por definição, é sempre ampla e supõe uma visão de conjunto. Ela apenas se realiza quando existe a consideração de todos e de tudo. Quem não tem visão de conjunto não chega a ser político. E não há política apenas para os pobres, como não há apenas para os ricos. A eliminação da pobreza é um problema estrutural. Fora daí o que se pretende é encontrar formas de proteção a certos pobres e a certos ricos, escolhidos segundo os interesses dos doadores. Mas a política tem de cuidar do conjunto de realidades e do conjunto de relações.” (Santos, 2000, p. 67).

Santos critica, pois, a redução da política a um “acúmulo de normatizações particularistas, conduzidas por atores privados que ignoram o interesse social”, que funciona de maneira a “conformar segundo um novo ethos as relações sociais e interpessoais, influenciando o caráter das pessoas (Santos, 2000, p. 36-37).

Ao restituir o caráter nacional e coletivo da Política, Santos posiciona-se contrariamente à tendência contemporânea de substituir a política social pela filantropia oficial, ditada por instituições como o Banco Mundial, e de corrosão do tecido social pela multiplicação de falsas identidades, desenraizadas, arbitrárias e aleatórias, cujos portadores, transformados em vetores semiconscientes de estereótipos criados pelo marketing e pelo show business, tornam-se incapazes de vislumbrarem realidades maiores que a sua própria e de aglutinarem-se com os demais grupos e setores sociais em defesa de um projeto comum de redenção nacional.

Não por menos, quando questionado sobre o Dia da Consciência Negra, ele, sem negar a importância simbólica da data, afirmou que o fundamental seria haver a tomada de consciência nacional, pois, apenas nos marcos da nacionalidade, junto aos demais brasileiros, os negros encontrariam a solução para as questões que os afetam.

A profícua obra de Milton Santos, cuja amplitude resiste a ser sistematizada em poucos parágrafos, constitui elaboração do mais alto nível acerca do Brasil em suas dimensões geográficas, isto é, da interdependência entre sociedade, política e espaço. Pensar, viver e fazer a Nação a partir do seu território, que, portanto, deve ser valorizado e defendido, eis o fio condutor do legado intelectual do autor.

REFERÊNCIAS:

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.

SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: Território e Sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.

SANTOS, Milton. A Urbanização Brasileira. 5ª ed. São Paulo: Edusp, 2005 [1993].

Paulo Guedes e o caminho de Santiago

  • 06/06/2021 15:07
  • Blog do Eduardo Bomfim

Desde antes de assumir o Ministério da Economia, Paulo Guedes tem se mostrado um fervoroso pregador do modelo econômico neoliberal aplicado no Chile pelo regime de Augusto Pinochet (1973-1990), mantido no essencial pelos seus sucessores. Tendo trabalhado no país por um breve período, em sua empolgação delirante, chegava a compará-lo à Suíça. E, ao ser guindado ao posto de “superministro” por Jair Bolsonaro, as suas menções ao “modelo chileno”, em especial, de Previdência Social, tornaram-se quase reverenciais, passando a tomar quase como ataques pessoais quaisquer críticas ao mesmo, cujas deficiências foram escancaradas nos últimos anos.

No final de 2019, diante das históricas manifestações que levaram literalmente milhões de chilenos às ruas para protestar contra as crescentes desigualdades geradas pelo modelo decantado por Guedes (deflagradas por um aumento de 3% na tarifa do metrô de Santiago), a sua resposta foi sintomática de um estado de negação: “Como negar 30 anos de acerto no Chile porque houve uma manifestação?” – disse, em um evento promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo (Valor Econômico, 30/10/2019)”. Para ele, a interpretação de que as manifestações eram uma resposta à piora da qualidade de vida da população não passava de “uma narrativa política”. E insistia na adoção da mesma “receita” para o Brasil: “Vamos privatizar e abrir o investimento para o setor privado.”

Entretanto, enquanto Guedes se obstinava em apontar para o Brasil o caminho de Santiago do Chile, com promessas feitas com um fervor quase religioso de que esta seria a trilha da redenção nacional, os chilenos se obstinavam em contrariar os “30 anos de acerto” do modelo da “Suíça sul-americana”, tendo os protestos resultado na convocação de uma nova assembleia exclusiva para a elaboração de uma nova Constituição, que acaba de ser eleita.

Um oportuno retrato da realidade socioeconômica do país andino foi proporcionado por uma reportagem de Janaína Figueiredo, no jornal O Globo de 24 de maio, com o sugestivo título: “Revolta anunciada: insatisfação da classe média precarizada derrubou modelo chileno.”

Profunda conhecedora do cenário sul-americano, tendo sido correspondente do jornal em Buenos Aires, a jornalista sintetiza as causas do que uma de suas entrevistadas, Rossana Castiglioni, decana da Faculdade de Ciências Sociais e História da Universidade Diego Portales, chama de “tempestade perfeita”:

Muitos elementos explicam essa tempestade e o basta dado por amplos setores da sociedade chilena a um modelo que rendeu altas taxas de crescimento (sobretudo na década de 1990), reduziu a pobreza de 68% para 8,6% entre 1990 e 2020, garantiu estabilidade macroeconômica e política a todos os governos pós-redemocratização, mas é excludente e desigual.

Citando um estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), ela afirma que “33% da renda gerada por uma economia essencialmente primária e exportadora de commodities ficam em mãos de 1% dos chilenos mais ricos”.

Em suas palavras, “a macroeconomia chilena elogiada por Guedes está sob controle, mas abaixo dela milhões de pessoas até agora ignoradas pelo poder político e econômico – de direita, centro e esquerda – vivem endividadas e insatisfeitas”.

Castiglioni explica:

Hoje, 43% da população chilena pertencem a uma classe média baixa, que ganha apenas entre uma e meia e três vezes mais que os que vivem abaixo da linha da pobreza. Isso num país que tem um PIB [Produto Interno Bruto] per capita de US$ 22 mil, muito acima da média regional [para comparação, a do Brasil era de US$ 8.717 em 2019 – n.e.]. São milhões de chilenos que se cansaram de ouvir falar de um milagre econômico que favoreceu apenas as elites.

Segundo ela, trata-se de uma classe média bastante vulnerável, bastando uma doença grave para colocar uma família inteira abaixo da linha da pobreza: O Chile é o terceiro país da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) onde as pessoas mais gastam em despesas médicas não cobertas pelos planos públicos e particulares. Isso explica, em parte, por que 66% das famílias estão endividadas e 33% são inadimplentes.

Ou seja, diz Janaína Figueiredo, “o suposto milagre chileno não significou acesso igualitário a saúde, educação, habitação e qualidade de vida”.

Para Sergio Toro, professor da Universidade de Concepción, o modelo deixado pela ditadura de Pinochet não formou cidadãos, mas consumidores, hoje, asfixiados por dívidas que não podem pagar e frustrados por terem sido excluídos de um projeto político e econômico pensado para poucos.

O Chile, diz a jornalista, é um exemplo claro de uma revolução social “promovida por setores médios precários, cansados de não serem representados nem protegidos pelos que estão no poder”.

Uma recente pesquisa do Centro de Estudos Públicos de Santiago mostrou que apenas 8% dos chilenos confiam no Congresso Nacional, e 2% nos partidos políticos.

O professor da Universidade Católica de Santiago, David Altman, afirma que a configuração da atual Assembleia Constituinte “é um espelho mais nítido da sociedade chilena. O espelho de um país fragmentado”.

Seu colega Juan Pablo Luna observa que a economia pujante que beneficiou poucos perdeu sustentabilidade política e as manifestações de 2019 foram a consequência e o golpe final no modelo, após várias revoltas sociais anteriores: “Do modelo neoliberal que viveu seu auge na década de 1990 só deverá restar a autonomia do Banco Central. A ideia de que o Estado só entra em campo quando o mercado falha está desaparecendo.

Crescemos, sim, mas distribuímos muito mal.” E Castigliani aponta para um fator crucial na revolta: “Na classe média baixa precarizada, temos um número enorme de mulheres chefes de família, todas com menos de nove anos de educação. Era uma revolta anunciada.”

Do outro lado da Cordilheira dos Andes, condições semelhantes para uma tempestade perfeita também parecem estar se formando no Brasil, onde o caminho de Santiago, até há pouco, era roteiro destacado nas litanias ministeriais: inflação em alta (principalmente, nos alimentos e combustíveis), desemprego, subemprego e desalento, idem, e uma virtual estagnação produtiva, setor agropecuário à parte.

No Chile, os sacerdotes do fundamentalismo de mercado foram excomungados; vejamos o que acontecerá no Brasil.

 

Fonte: Bonifacio.net.br

 

Importância e atualidade de Ortega y Gasset

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  • 26/05/2021 21:22
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A resenha de Francisco Affonso Pereira Torres para o Portal Bonifácio sobre o livro A Rebelião das Massas de Ortega y Gasset.

Em tempos de pós-verdades, resgatar as ideias e o pensamento de Ortega y Gasset impõe-se como imperativo. Nos dias de hoje, como nos dias que antecederam o surgimento do fascismo e do totalitarismo na Europa, os fatos objetivos parecem ter menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais. O fascismo e o totalitarismo europeu utilizaram-se amplamente dos novos meios de comunicação em massa de sua época (sobretudo o rádio) para difundir as suas ideias e pós-verdades. Hitler e Mussolini provavelmente não teriam chegado ao poder não fosse a potência e o alcance inédito que o rádio e as transmissões por radiodifusão haviam atingido, durante aquela época. Nos dias de hoje, são as novas mídias da internet (WhatsApp, Facebook, Instagram, YouTube, etc.) os principais canais difusores de ideologias e pós-verdades. Compreender o impacto dessa nova e inexorável realidade em nossas vidas, em nossa democracia e nas sociedades em que vivemos constitui tarefa primordial dos tempos atuais. Em 1929, o filósofo espanhol Ortega y Gasset descreveu em seu livro “Rebelião das Massas”, com exatidão ímpar, o impacto que os novos meios de comunicação viriam a ter em nossas sociedades. Alertou-nos para seus efeitos deletérios. Ortega y Gasset previu o cataclismo que se abalaria sobre a Europa e sobre o mundo. Suas palavras e, sobretudo, seu alerta são mais atuais hoje do que nunca.

O filósofo espanhol Ortega y Gasset antecipou o risco da manipulação das massas.

Em 1936, dezenas de milhares de cartazes apareceram, em praticamente todas as cidades alemãs. Em seu texto, publicado sobre uma foto de um gigantesco aparelho de rádio no meio de uma multidão, lia-se: “Ganz Deutschland hört den Führer” (“Toda a Alemanha escuta o Líder”). O cartaz anunciava uma invenção que iria transformar a Europa, o WhatsApp de outrora. O chamado “Rádio do Povo”, ou “Volksempfänger”, era um aparelho de rádio, desenvolvido pelo engenheiro Otto Griessing, a pedido de Joseph Goebbels, o ministro de Propaganda do regime nazista. Apresentado ao público alemão pela primeira vez em 1933, durante a 10º Grande Feira Internacional do Rádio de Berlin (“10º Große Deutsche Funkausstellung”), o novo equipamento permitia, a um custo extremamente acessível, de 35 marcos (o equivalente a um quarto do salário mínimo da época), pagos em suaves prestações, a recepção de estações de rádio selecionadas, todas alemãs. O objetivo estratégico da produção e distribuição em massa do “Rádio do Povo” era evidente: permitir ao regime nazista controlar, com punhos de ferro, a máquina mais poderosa, e mortal, de comunicação em massas já criada até então.

Estima-se que, ao final da Segunda Guerra Mundial, 80 milhões de pessoas escutassem diariamente transmissões de rádios nazistas, por meio de equipamentos do tipo “Rádio do Povo”.

Para efeitos de comparação, a população total da Alemanha atualmente é de 83 milhões de pessoas.

As “lives” do nazismo, realizadas em tom dramático pelo ”Führer”, chegavam às salas de praticamente todos os cidadãos, além de serem escutadas, ao vivo, em alto-falantes instalados, de modo estratégico, em ruas, estações de trem e de metro, rodoviárias, terminais portuários, escolas, hospitais, ginásios, e demais prédios públicos. Joseph Goebbels considerava, não sem razão, o sucesso do programa industrial de fabricação e distribuição de aparelhos de rádio essencial para seu infame programa de “propaganda”.

Durante o julgamento dos crimes nazistas, nos famosos Processos de Guerra de Nuremberg, Albert Speer, o então ministro de Armas e arquiteto do Reich, declarou, com sinceridade espantadora: “a ditadura de Hitler diferia em um aspecto fundamental de todas as suas precursoras na história. Foi a primeira ditadura durante o período moderno de desenvolvimento tecnológico, uma ditadura que se utilizou plenamente de todos os meios de dominação em seu país. Por intermédio de aparelhos tecnológicos, como o rádio e os alto-falantes, 80 milhões de pessoas foram privadas de qualquer pensamento independente. Era, assim, possível subjugá-las aos desígnios de um só homem (Hitler).”

Hitler construiu o nazismo manipulando as frustrações do povo alemão.

Como todo visionário e grande intelectual, Ortega y Gasset havia previsto o que poderia ocorrer e acabou ocorrendo. Para ele, não existem verdades eternas nem absolutas. O que há, sempre, são perspectivas, visões sobre a realidade. Segundo Ortega y Gasset, a vida humana e suas circunstâncias inexoráveis são a fonte do conhecimento e da verdade. ”Yo soy yo y mi circunstancia y si no la salvo a ella no me salvo yo”, afirmava. O perspectivismo do pensador espanhol nos leva à conclusão de que a verdade é produto de uma soma de perspectivas. Produto, portanto, de uma subjetividade. Há a verdade científica, a verdade acadêmica, a verdade da mídia, a verdade do sertanejo, a verdade de João, a verdade de Maria, a verdade do libertador, a verdade do revolucionário. E há a verdade do fascista, a verdade do opressor, a verdade do tirano, a verdade do déspota. Ou seja: as ideologias, sejam elas libertárias ou opressoras, criam suas próprias verdades. É o que chamamos de guerras de narrativas.

Para Ortega y Gasset a tarefa primordial é compor uma narrativa que corresponda aos anseios moralmente mais nobres da humanidade, uma narrativa que nos liberte ao invés de uma narrativa que nos destrua. O filósofo espanhol havia presenciado os horrores da primeira guerra mundial, a barbárie que se abatera sobre a Europa. E presenciaria também, estupefato, o surgimento do fascismo, que levaria a Europa novamente à destruição completa.

Sendo a verdade um produto humano, derivado da inexorabilidade de nossas circunstâncias, como teria sido possível que as massas da Europa, milhões e milhões de “cidadãos de bem”, tivessem permitido e viabilizado a ascensão do fascismo e toda a destruição que representava, questionava Ortega y Gasset. Se a humanidade tem a prerrogativa de escolher entre a vida e a morte, entre a liberdade e a destruição, entre o amor e o ódio, como teria sido possível que a morte, a destruição e o ódio tivessem prevalecido?

O nazismo fez do rádio o grande instrumento de manipulação e propaganda de sua era.

A resposta visionária de Ortega y Gasset: foi o “Rádio do Povo”, foi o WhatsApp da época, foram os novos meios de comunicação em massa. Os fascistas souberam utilizar esses novos meios para criar sua narrativa, para difundir suas pós-verdades. Os humanistas, os libertários, por outro lado, não souberam se utilizar de todo o seu potencial, com o mesmo sucesso. Permaneceram presos ao passado, escrevendo livros e panfletos que ninguém mais lia, em tempos do rádio e das comunicações em massa, muito mais atraentes e dinâmicas. Desse modo, a narrativa fascista tornou-se preponderante em alguns importantes países como a Alemanha, a Itália, e a Espanha. Conquistou, nesses países, os corações e as mentes de grande parte dos cidadãos, o “homem-massa”, aquela multidão de idiotas-úteis que levaram o fascismo ao poder, por omissão ou por conveniência.

A lição de Ortega y Gasset parece clara: não basta que alguém considere suas ideias superiores. É necessário convencer as pessoas sobre tal superioridade. É imperativo vencer a guerra de narrativas, conquistar as mentes e os corações do “homem-massa”. Somente dessa maneira uma ideia pode triunfar. Somente desse modo os ideais de liberdade, justiça social, soberania, tolerância e democracia podem prevalecer. Caso contrário, prevalecerão os ideais de submissão, privilégios, exclusão social, intolerância e ditadura. Como, de fato, prevaleceram, na Europa que Ortega y Gasset viu desmoronar, pela segunda vez.

No Brasil, as eleições presidenciais de 2018 devem servir como lição e como alerta. As “fake news”, os disparos em massa de mensagens em grupos de WhatsApp e páginas de facebook (pagos por quem?), as narrativas de ódio, os discursos negacionistas, as teorias conspiratórias, o fanatismo religioso, as doutrinas autoritárias acabaram tendo alcance muito maior que outros discursos, de teor humanista, moderado, secular, democrático, libertário. Em 2018, o ódio venceu a esperança. O ódio logrou propagar-se, com muito mais vigor, pelas searas ainda pouco compreendidas dos novos meios de comunicação em massa do século XXI.

Para que a esperança possa triunfar novamente sobre o ódio, será necessário aprender a lição de Ortega y Gasset. Não basta ter uma verdade moralmente superior. Faz-se imperativo ganhar a guerra de narrativas e convencer o “homem-massa” da superioridade moral da visão humanista e democrática. Pois os novos meios de comunicação em massa de hoje vieram para ficar, como o rádio, na década de 1930. Hoje, como outrora, os fatos objetivos parecem ter menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais.

O fascismo acabou sendo derrotado. Em parte pelo enorme sucesso de um outro meio de comunicação em massa que viria a se revelar ainda mais poderoso que o rádio: o cinema. Assim como o nazismo havia criado a “Rádio do Povo”, Hollywood foi além: criou o cinema para as massas, as megaproduções cinematográficas, glamorosas e atraentes, que combatiam o nazismo e o totalitarismo fascista.

Distribuindo fake news pelo WhatsApp, os manipuladores contemporâneos constroem suas pós-verdades.

Ortega y Gasset nos ensinou que a verdade é, sempre, produto de perspectivas, de visões sobre a realidade, das nossas circunstâncias. Nos ensinou, ademais, que o “homem-massa”, em sua soberba simplória e totalitária, é suscetível a qualquer discurso, inclusive o discurso de ódio, o discurso fascista. Cabe aos humanistas, aos democratas e aos patriotas de hoje aprender a lição eterna do grande mestre espanhol: a guerra pela democracia, a guerra pela justiça social, a guerra pela tolerância e pela soberania nacional somente será ganha se ganharmos também a guerra das narrativas, utilizando, para tal finalidade, todo o potencial dos novos meios de comunicação em massa. Hoje, mais do que nunca, o alerta de Ortega y Gasset é essencial: “El pasado no nos dirá lo que debemos hacer, pero sí lo que deberíamos evitar”.

Lara Resende assusta os neoliberais de plantão

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  • 07/05/2021 19:38
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O Desesperado, pintura de Gustave Courbet (França,1819-1877).

Solidariedade Ibero-Americana – abril de 2021.

Novamente, as críticas rigorosas do economista André Lara Resende contra a ortodoxia econômica prevalecente no País, baseada no equilíbrio fiscal a qualquer custo, o uso da taxa de juros no controle inflacionário e na livre flutuação do câmbio (o celebrado “tripé macroeconômico”), têm provocado reações dos seus pares alinhados com a visão dos mercados financeiros, que, evidentemente, defendem ferreamente esse viés pró-rentista.

A edição de 1° de abril da revista EU- &Fim de Semana do jornal Valor Econômico publicou um novo artigo de Lara Resende (“A quem interessa a alta dos juros?”), no qual critica a elevação de 0,75% da taxa Selic, decidida na última reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC). Nele, faz a pergunta crucial: “Faz sentido falar na volta da inflação num contexto de recessão com desemprego altíssimo?”

Para ele: “Se existe um consenso hoje, é que o país precisa investir. Não há crescimento sem investimento, e o Brasil, depois de crescer abaixo da média mundial desde os anos 1980, viu o seu produto per capita cair na última década. Sabe-se que juros altos desestimulam a demanda, reduzem o consumo e o investimento.

Como então justificar a decisão do Banco Central de reverter a queda dos juros, quando o país precisa investir, tanto para superar a crise sanitária, quanto para voltar a crescer? A resposta do governo e dos analistas financeiros que têm acesso à mídia é a baseada na tese da ‘austeridade fiscal expansionista’.”

Adiante, desmistifica a surrada base teórica que tem justificado a ortodoxia monetária e financeira: “A defesa da austeridade retoma a velha e anacrônica crença de que a inflação é resultado do excesso de emissão monetária e que o déficit fiscal é a principal fonte de emissão de moeda. O fantasma da Teoria Quantitativa [que vincula a inflação ao excesso de moeda em circulação – n.e.], silenciosamente aposentada a partir do final do século XX, continua a cumprir o seu papel histórico de assustar com a ameaça da inflação para atar as mãos do Estado e pressionar pela redução dos gastos públicos (grifos nossos).”

E dispara: “Assim como é impossível encontrar uma justificativa fundamentada para negar recursos para a crise sanitária e cortar investimentos indispensáveis para a recuperação da economia, é também impossível encontrar lógica na defesa da alta dos juros. Elevar os juros desestimula o investimento, aumenta o custo da dívida e obriga a mais cortes de gastos essenciais, na tentativa de equilibrar o orçamento.”

                       A crítica de André Lara Resende incomodou os neoliberais.

De fato, como sabe qualquer observador minimamente atento, o repique inflacionário dos últimos meses não decorre de qualquer pressão de demanda – por si bastante deprimida pelos efeitos socioeconômicos da pandemia de Covid-19 –, mas da desvalorização do real frente ao dólar e a alta dos preços internacionais de commodities alimentícias, além de tarifas de serviços públicos com reajuste contratual automático e da inexistência de uma política de estoques reguladores, algo que nenhum governo sério deveria desprezar.

A propósito, nesse quadro inflacionário, vale destacar a pretensão da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), ao propor ao governo um reajuste extraordinário para os pedágios rodoviários, com o propósito de cobrir as perdas de arrecadação das concessionárias, em decorrência da pandemia. Escusado dizer que os diretores da agência não dão a mínima para o impacto inflacionário de um aumento dos pedágios, com reflexos imediatos sobre os custos dos fretes e os preços dos alimentos e de outros produtos transportados por via rodoviária. Pode-se afirmar com certeza que a alta da Selic não terá qualquer efeito sobre tal mecanismo inflacionário.

O artigo de Lara Resende foi rebatido pelo economista José Júlio Senna, ex-diretor do BC e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) (“Os beneficiários da alta dos juros”, EU&Fim de Semana, 16/04/2021). No texto, depois de 17 parágrafos de jargão financista, ele admite que a ação do BC não oferece qualquer garantia de sucesso contra a alta inflacionária: “É difícil saber se o BC terá ou não sucesso em controlar as expectativas e a própria inflação. Na certa, à medida que façamos verdadeiro progresso em vacinar a população, o desvio de demanda a que acima nos referimos começará a ser revertido, aliviando as atuais pressões sobre os gargalos da produção. Isso poderá ser uma boa ajuda.”

Para completar o argumento, ele afirmou que, “na medida em que o objetivo seja atingido (sic), o grande beneficiário da alta dos juros será a sociedade como um todo (duplo sic), cujo sistema econômico funciona melhor com inflação baixa”.

E, sem a menor cerimônia, conclui dizendo: “Neste caso, especialmente beneficiados serão os integrantes das classes mais baixas de renda, por serem os mais vulneráveis aos efeitos da alta de preços.”

Lara Resende respondeu na edição seguinte (“Ainda sobre a alta de juros”, EU&Fim de Semana, 23/04/2021), demolindo a falaciosa hipótese das “expectativas racionais” usada por Senna e seus pares pró-rentistas: “A hipótese de ‘expectativas racionais’, hoje praticamente hegemônica na macroeconomia, é exatamente isso: a realidade pouco importa, supõe-se que as expectativas são um mero espelho da formação de preços no modelo teórico utilizado. Resolve-se assim o problema de nada ter a dizer sobre a formação das expectativas, desconsidera-se a realidade e as circunstâncias e, de quebra, tem-se uma solução formalmente elegante… O que ele fica devendo é explicar como a alta de juros irá reverter esse ambiente fiscal e político. (…)

“(…) Quando o comércio, a indústria, os restaurantes, os hotéis e todas as atividades ligadas ao turismo estão praticamente paralisados pela pandemia, passam por sérias dificuldades e são obrigados a se endividar para sobreviver, elevar o custo do crédito não é exatamente um elixir para a paz política e social.”

E vai ao cerne da questão, o “Sistema da Dívida”, que desde a década de 1990 converteu a dívida pública no negócio legal mais rentável do País e para cuja preservação a todo custo têm sido orientadas as políticas econômicas de todos os governos do período. Diz ele: “A dívida pública hoje é uma dívida interna, expressa em moeda nacional e carregada essencialmente por brasileiros.

É um passivo do Estado e um ativo do setor privado brasileiro. O aumento dos juros é uma transferência direta do Estado para os detentores da dívida, para aqueles a quem a fortuna, vamos dizerassim, deu renda superior às suas necessidades e lhes permitiu acumular riqueza em títulos públicos. (…)

“A recém-aprovada lei que deu autonomia ao BC acrescentou entre os seus objetivos a suavização dos ciclos econômicos e o estímulo ao pleno emprego. Ninguém em sã consciência irá afirmar que, nas atuais circunstâncias, a alta dos juros atende a esses objetivos.”

Usando uma linguagem pouco comum entre os egressos dos mercados financeiros, Lara Resende critica a “ideologia de que o mercado está sempre certo e que toda intervenção de políticas públicas cria distorções em relação ao melhor dos mundos”. No entanto, observa, quando o mercado provoca grandes crises como a de 2008, “o BC e o Tesouro são chamados a intervir” para “salvar o sistema financeiro de seus excessos”. Em tais casos, cobra, “o BC e o Tesouro podem emitir e gastar, mas nunca para enfrentar a pandemia e o desemprego”.

E encerra com uma defesa contundente da ação do Estado: “A ideologia do fiscalismo, a obsessão em atar as mãos do Estado, inclusive para investir em áreas essenciais, como infraestrutura, saúde, educação, segurança, pesquisa e desenvolvimento, paralisa o país há pelo menos três décadas… A teoria econômica convencional, uma ideologia que se pretende ciência, é hoje o principal empecilho ao entendimento correto do papel do Estado.”

Os argumentos de Lara Resende vão de encontro ao que temos reiterado neste jornal, desde antes da pandemia: o Brasil não poderá superar a estagnação socioeconômica em que se encontra desde 2015, sem maciços investimentos públicos em atividades multiplicadoras de valores, em especial, infraestrutura, além de outros setores citados pelo economista, bastante afetados pelas consequências da pandemia. E é relevante que venham de alguém com a sua trajetória na vida pública e a vivência nos mercados financeiros.

A despeito da seriedade dos argumentos de Lara Resende, a grande mídia nacional e boa parte das redes sociais de várias inclinações ideológicas têm se esquivado da discussão, certamente, para evitar que um debate de interesse nacional ganhe espaço ao imbróglio institucional em curso, que está servindo como biombo protetor para o desmanche do que resta das estruturas econômicas do Estado, pelas mãos de Paulo Guedes.

Tiradentes

  • Blog do Eduardo Bomfim
  • 20/04/2021 21:48
  • Blog do Eduardo Bomfim
Tiradentes

A Seção Brasiliana do Portal Bonifácio celebra a figura heroica de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, na data de seu sacrifício. Nascido em 1746 no sítio Pombal, na época São João Del Rei e hoje Tiradentes, na capitania de Minas Gerais, liderou o movimento que ficou conhecido como Conjuração Mineira, já que Inconfidência foi o nome dado pelos colonizadores.

Tiradentes era alferes do Exército colonial e conspirou pela independência, sendo o único condenado à morte.

Tiradentes foi enforcado em 21 de abril de 1792, decapitado e esquartejado, tendo sua cabeça encravada em uma estaca e exposta em praça pública. É o Patrono da Nação Brasileira.

O fracasso econômico sobe à cabeça de Paulo Guedes

  • Bonifácio
  • 15/03/2021 12:53
  • Blog do Eduardo Bomfim
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Ministro Paulo Guedes

Os dados não deixam margem a dúvidas. Com a queda de 4,1% no Produto Interno Bruto (PIB) registrada em 2020, o Brasil encerrou a década 2011-2020 com o pior desempenho econômico desde o início do século XX. A média anual foi de pífios 0,3%, bem inferior à da célebre “década perdida” de 1980, com 1,6% ao ano, basicamente decorrente da crise da dívida externa, num período em que o País ainda era um grande importador de petróleo e alimentos, ao contrário da atualidade.

Apesar de a pandemia de Covid-19 ter sido largamente responsável pela queda recordista do PIB em 2020, salta aos olhos que mesmo sem ela a economia não estaria fora do pântano de estagnação em que se encontra desde 2015, ao contrário das bravatas do ministro da Economia Paulo Guedes e suas quimeras sobre os investimentos privados que choveriam sobre o País, bastando para isto desregulamentar ainda mais a economia e privatizar o restante do patrimônio do Estado.

Desafortunadamente, para o “superministro” e para os brasileiros em geral, não há a menor possibilidade de que tal receita simplista e enganosa produza os resultados prometidos por ele e seus corifeus no mercado financeiro e na mídia especializada, pela razão elementar de que não há registro histórico do seu funcionamento em nenhuma das cerca de 40 economias avançadas do planeta. Por isso, resulta ridículo pretender apresentar o fracasso assegurado como único caminho de saída para a crise.

Parafraseando Albert Einstein, o estado mental que criou e alimenta a depressão não tem condições de superá-la. Insistir na receita neoliberal é uma prova literal de que o fracasso subiu às cabeças de Guedes e do parasitário sistema pró-rentista representado por ele.

Apesar do desastre, o “Posto Ipiranga” costuma agredir a inteligência alheia, insistindo na falácia de que a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro constituiria um respaldo ao seu programa econômico ultraliberal, recordando-se que o então candidato presidencial se esquivou de qualquer debate sobre o tema, antes mesmo do ataque físico que o afastou de boa parte da campanha. Neste particular, pode-se dizer que Guedes esconde a sua inclinação pró-rentista por trás da confessada ignorância econômica do presidente.

A História ensina: nenhum país do mundo atingiu níveis elevados de desenvolvimento socioeconômico dando rédeas soltas aos “mercados”, particularmente, os financeiros, hegemônicos no Brasil desde a década de 1990. Ao contrário, com nuances locais, todos seguiram um roteiro inaugurado pelos EUA recém-independentes, no final do século XVIII, sob a batuta do secretário do Tesouro Alexander Hamilton, com a geração de uma eficiente sinergia entre o governo nacional e as forças produtivas do país. Em linhas gerais: a criação de uma estrutura financeira para o fomento às atividades produtivas, combinando recursos públicos e privados; grandes investimentos públicos em infraestrutura e pesquisa científica (hoje, acrescentando a inovação); e incentivos às indústrias nacionais, com um protecionismo moderado, dosado e seletivo e favorecimento nas compras do governo. Roteiro posteriormente conhecido como Sistema Americano ou Sistema Nacional de Economia Política, incorporado ao cânone econômico por Friedrich List, Henry C. Carey, Erasmus Peshine-Smith e outros economistas práticos, concentrados no desenvolvimento econômico real e críticos das ilusões vendidas pelos arautos do “livre comércio” colonial, os “globalizadores” da época.

Foi com o Sistema Americano, e não com o “livre comércio” ou a “globalização” financeira, que os EUA se tornaram a maior economia do mundo, e é com uma variante própria que a China caminha a passos largos para assumir o posto, inspirada emexemplos próximos como o Japão e a Coreia do Sul, que se converteram em economias modernas em menos de meio século, seguindo os fundamentos do Sistema Americano.

Com a hegemonia da “financeirização” da economia mundial, a partir da década de 1970, o Sistema Americano e quaisquer orientações contrárias ao cânone liberal foram virtualmente banidos dos currículos universitários. Mas não é casual que, diante da emergência global gerada pela pandemia, o nome de Hamilton venha sendo citado como exemplo de estadismo e visão estratégica na gestão da economia, como ocorre na Europa (MSIa Informa, 19/06/2020 e 12/08/2020). Além disto, nos EUA, há um renascimento do interesse popular pela sua figura histórica, com o musical Hamilton de Lin-Manuel Miranda e uma nova edição da sua biografia escrita por Ron Chernow, na qual se baseou a peça (Alexander Hamilton, recém-publicada no Brasil pela editora Intrínseca).

Um “case” emblemático do Sistema Americano foi a superação da Grande Depressão da década de 1930, com o New Deal do presidente Franklin Roosevelt e a mobilização industrial-militar da II Guerra Mundial. Da mesma forma, a sua antítese é a“Reaganomics” da década de 1980, versão local da razia neoliberal-privatizante da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, cujo principal resultado foi uma grave crise social e uma devastação da indústria e dos serviços públicos, da qual o Reino Unido ainda não se recuperou.

Como afirmou recentemente o economista Antônio Correa de Lacerda, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP): “Não há evidências, tampouco precedentes históricos de países que tenham se desenvolvido apenas apostando no mercado. Não há respaldo para isso nas boas teorias econômicas, nem evidências empíricas (Carta Capital, 07/03/2021).”

A propósito, é relevante que até mesmo o tradicional “Estadão” tenha dedicado dois editoriais consecutivos, em 7 e 8 de março (“É hora de reindustrializar” e “Falta destravar o país”), para ressaltar a necessidade de um planejamento adequado para a reconstrução econômica, encabeçado pela reindustrialização e pelo aumento dos investimentos produtivos, em especial, em infraestrutura e educação. Talvez, só mesmo o atavismo ideológico dos editorialistas do decano midiático do liberalismo nacional os tenha impedido de admitir a necessidade de primazia do Estado em tais investimentos. E este é outro ensinamento histórico: não há precedente de alguma economia moderna que tenha superado uma estagnação prolongada sem fortes investimentos públicos em atividades multiplicadoras de valores.

No caso brasileiro, o período de maior desenvolvimento do País ocorreu no meio século posterior a 1930, quando, mesmo com nuances distintas, havia uma ideia de um projeto nacional impulsionado por uma considerável sinergia entre Estado e iniciativa privada, tanto nacional como estrangeira, sem o parasitismo da hegemonia pró-rentista prevalecente em toda a chamada “Nova República”.

Em síntese, não será com as charlatanices ideológicas e falácias de Paulo Guedes que o Brasil poderá superar o presente impasse que coloca em risco o seu futuro imediato como uma Nação capaz de definir soberanamente o seu rumo e inserção na cambiante ordem de poder mundial em curso.

A crise da pandemia, da democracia, e o capital rentista

  • 21/02/2021 16:15
  • Blog do Eduardo Bomfim

Por acaso, ou nem tanto, a pandemia global do corona vírus aconteceu no auge das desregulamentações dos parques produtivos das nações, através do conceito da divisão excessiva da produção internacional dos bens industriais em todas as áreas, incluindo também a dos fármacos.

Durante décadas, agravado imensamente no segundo milênio, os Países foram sucateando as suas capacidades industriais próprias e aumentando a sua dependência produtiva, através da escala da divisão internacional dos bens fabricados em diversas partes do mundo.

Essa divisão global da produção, em todos os níveis, gerou a inevitável dependência, a perda de autonomia, da grande maioria dos Países do mundo.

Os mais pobres, continuaram bem mais pobres, exportando matéria prima, apesar da falsa sensação de inseridos nesse mundo interconectado pela revolução digital, com seus celulares de última geração, da internet.

Mas, a grande perda de oferta de trabalho deu-se exatamente nos Países mais “ricos”.

Neles, veio crescendo, há um bom tempo, entre os diversos tipos de assalariados industriais, o sentimento de revolta associado ao desemprego estrutural, agravado, agora, enormemente com as consequências da pandemia sanitária mundial.

A queda vertiginosa da economia industrial, com os efeitos do corona vírus, tem sido um novo pretexto para o falso argumento de uma nova reestruturação dos parques produtivos em escala mundial. Perdem as nações, mas especialmente os trabalhadores, que vão conviver com uma nova onda de desemprego em escala colossal.

E os Países vão se defrontar com uma etapa de dependência produtiva superior à anterior.

A perda relativa da “importância” das democracias

Com essa desregulamentação global das cadeias produtivas, surgiu outro fenômeno igualmente grave, através da hegemonia absoluta do grande capital financeiro internacional, especialmente o rentismo especulativo, que cresce na medida em que os Países afundam, inclusive na pandemia sanitária global. Nesse cenário, o gigantismo do capital financeiro assomou o protagonismo dos rumos na política entre as nações.

De tal sorte que propagam a ineficiência, ou inutilidade, das coisas da vida política e institucional, uma falsa premissa. Assim quem se candidata a um cargo eletivo, em todas as instâncias, com raras exceções, na verdade, faz um concurso de cartas marcadas para um emprego de grandes privilégios e altas remunerações, gestor de má influência nas coisas do Estado.

A grande mídia hegemônica mundial ajudou a propagar semelhante visão errática, nociva e, aliás, extremamente perigosa, e na verdade contra a democracia. Ela serve ao discurso da financeirização global. Um poder tão gigantesco que alguns chamam de “Governança Mundial” do capital financeiro.

A pandemia expôs as fraturas expostas desse sistema

No inicio da pandemia do corona vírus, faltaram respiradores, seringas e outros produtos fundamentais para minimizar a demanda de doentes para os hospitais. Atualmente, faltam vacinas para atender a população mundial, enquanto alguns poucos compraram imunizantes que dão para vacinar quatro vezes as suas populações, alerta o presidente da OMS.

De outro lado, na ausência de projetos coletivos que digam respeito ao presente e futuro econômico e social das sociedades, incluindo os direitos individuais, introduziram-se as agendas que visam unicamente a fratura das sociedades, por mais que algumas delas sejam auto justificáveis, como a luta contra o racismo, direito das minorias, a luta pelos direitos das mulheres, a ambiental etc.

Mas como diz o ditado popular: é no detalhe que mora o Diabo. Porque semelhantes agendas transformaram-se no alfa e o ômega de todas as questões essenciais de boa parte da humanidade. Ao tempo que insuflaram a polarização de forças reacionárias extremamente contrárias a essa agenda de gênero, raça etc., constituindo assim a “pauta das pautas” no cotidiano das sociedades.

Enquanto isso, as nações estão vivendo a maior tragédia dos últimos cem anos com a pandemia sanitária, agravada por uma crise crônica e estrutural na economia, do desemprego, quase um Amargedon social.

Com a desindustrialização programada dos Países, que já vem há décadas, agravada pela crise sanitária global, e o fim de um falso presente contínuo do consumo, como um ideal, uma profusão de teses unicamente individualistas, sem correlação com a solidariedade coletiva, eclodiu uma crise de insatisfação generalizada nas sociedades, de caráter desorientador, psicológico, mental, e acima de tudo a sensação de um futuro sombrio, sem luzes à vista.

Essa é a explicação do surgimento do fenômeno Trump, Bolsonaro, e outros em menor evidência. A quebradeira geral do setor de serviços, que mais sofreu com a pandemia, pôs abaixo a máxima de que o mundo entrara na era dos serviços em substituição aos processos industriais, que iria realocar a massa salarial expulsa pela desindustrialização.

Os países que não aceitaram destruir as suas cadeias produtivas, estão à frente na economia e nessa pandemia, exportando produtos essenciais e insumos para vacinas, não importa a forma de governo: China, Rússia, a Índia, na área da biotecnologia etc.

O caos e a regressão científica e tecnológica, industrial, é de tal monta que ressurgiram teses da Idade Média, como o terraplanismo, as campanhas contra as vacinas que salvaram centenas de milhões de pessoas e livraram a humanidade de pandemias terríveis.

O Brasil é um exemplo dramático de tantos desatinos, erros, polarizações dissociadas das questões centrais da nossa realidade etc. Se fossemos fazer uma analogia literária do governo Bolsonaro, poderíamos lembrar o nosso grande Machado de Assis em seu formidável conto: O alienista. A sua responsabilidade para com o desastre atual no Brasil é trágica. Enquanto o senhor Paulo Guedes insiste em uma política econômica que afunda a humanidade, e que imobiliza, destrói, a economia da nação.

No entanto, a desorientação política, de rumos e projetos para o Brasil, é generalizada e acolhe quase todos os quadrantes ideológicos no País, inclusive em setores da chamada “nova esquerda”. A batalha de “ideias” é travada em “bolhas” de redes sociais, mediada pela grande mídia hegemônica, associada ao capital financeiro, e à sua Governança Mundial, como afirmam muitos.

O sistema montado pelo capital financeiro global é absolutamente insustentável, e o rentismo financeiro predador pode ser comparável às sete pragas do Egito, como narra a Bíblia.

Estamos em um período, portanto, em que o neoliberalismo financeiro se encontra completamente esgotado como sistema. O certo é que vamos no caminho de uma transição ao multilateralismo econômico, financeiro, social, político e soberano, reconstruindo cadeias produtivas econômicas destroçadas, inclusive no Brasil. Mas será um período de tempestades geopolíticas, sociais, nacionais, e viragens políticas imprevisíveis.

O Brasil, em algum momento, precisa encontrar o seu próprio rumo nessa época turbulenta. Para isso, o País detém um dos maiores ativos territoriais, populacionais, ambientais, de imensas riquezas em geral, como poucas nações do planeta. Falta-nos o rumo, o projeto, a causa. E lideranças, hoje, escassas.

O relatório Guterres

  • 21/12/2020 08:56
  • Blog do Eduardo Bomfim
Foto: Agência O Globo
Leitos de Covid-19

O secretário-geral das Nações Unidas (ONU) António Guterres, apresentou um relatório alertando que o mundo pós pandemia do corona vírus vai estar sob a maior recessão econômica desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Com as inevitáveis consequências, nos planos das economias, sociais, financeiros e políticos dos Países. A pandemia sanitária global se revelou, na verdade, como um reagente químico e biológico, de uma realidade financeira que já se apresentava extremamente grave desde a crise econômica de 2008.

Uma crise sanitária global que, se não poderia ser evitada, ao menos tinha condições de ser minimizada em suas consequências, na saúde e na economia.

Mas a financeirização dos fluxos de capitais a nível mundial, não tem, ou a ela não interessa, vocação para o planejamento sobre os constantes e intensos movimentos de pessoas que existem hoje no planeta, relativos aos perigos de uma pandemia viral já prevista e anunciada. Não é da sua natureza prevenir semelhantes acontecimentos.

Quanto à capacidade de remediação de tragédias, que hoje vivemos, a globalização financeira já está buscando extrair ao máximo os lucros, tanto que os bancos estão obtendo lucros estratosféricos em plena pandemia, especialmente os especuladores financeiros, apesar da debacle da economia internacional.

Recente relatório sobre a economia europeia, feito pelos órgãos de Bruxelas, apontam que em meados dos anos oitenta, a Europa respondia por quase 25% da riqueza produzida no mundo. Hoje, essa riqueza produzida equivale a 12% do total global. Boa parte das economias das nações do velho continente vive de uma grande fatia do turismo.

A indústria, o setor de serviços, especialmente, se espatifaram nessa crise sanitária mundial. O setor aéreo desmoronou quase que completamente. A sua recuperação vai se dar através da concentração ainda maior de empresas e do desemprego massivo. Ou seja, mais do pior veneno possível.

Muitas empresas, de médio e pequeno porte, que mais empregam pessoas, jamais reabrirão as suas portas, em todo o mundo.

A guerra fria, que perdurou, praticamente, durante grande parte do século XX, foi substituída pelo multilateralismo geopolítico e econômico global. Novos atores entraram em cena, e outros lutam para se incorporar a esse novo cenário.

Mas a grande verdade é que sairemos dessa tragédia sanitária com uma concentração das riquezas ainda mais acentuada e uma taxa de desemprego global, praticamente, insuportável. Além da precarização da força de trabalho em escala gigantesca. E as disparidades regionais bem mais agravadas

.Esse não é um saldo da pandemia do corona vírus, mas o que a pandemia sanitária fez agravar, como um reagente químico, na política da governança hegemônica global, do capital financeiro especulativo.

De tal maneira tem sido a concentração, a centralização do capital especulativo em escala mundial, que ele passou a ditar as orientações políticas e ideológicas que circulam em larga escala, especialmente no chamado mundo ocidental.

A mídia ocidental de grande abrangência, transformou-se, como seria inevitável, em propulsora das ideologias difundidas por esse mesmo oligopólio dos megaespeculadores das finanças mundiais, que são, na verdade, um clube privado de reduzido número de sócios internacionais, onde se destacam figuras conhecidas como George Soros, por exemplo.

Como seria de esperar, nesse contexto de supremacia política do governo das finanças global, não se apresentam, às sociedades, as alternativas para as atuais disparidades que não param de crescer, ainda mais com a pandemia sanitária, já que ela se apresenta como uma grande oportunidade de se operar uma maior concentração do capital especulativo.

A Europa, por exemplo, vive uma situação inusitada. Com o declínio gradual, mas persistente, na produção das suas riquezas, como vimos acima, os governos e as cidades mais importantes do velho continente, resolveram investir em grandes infraestruturas para acolher e incentivar o turismo mundial.

Além disso, em virtude do crescente declínio demográfico, onde se destaca uma população geriátrica e uma taxa de natalidade cada vez mais reduzida, os Países europeus passaram a investir em uma força de trabalho imigrante, especialmente no setor de serviços e na agricultura, em menor grau na indústria, escassa.

Agora, as cidades turísticas europeias convivem com duas espécies de movimentos que se confrontam em pichações nas ruas: um que se diz à direita, em campanha aberta contra os imigrantes, e o outro, que se diz à esquerda, contra a presença massiva de turistas, porque afirmam que poluem o meio ambiente, na defesa de cidades sustentáveis.

Ora, com as populações cada vez mais envelhecidas, onde proliferam asilos de idosos, sem a renovação demográfica, porque escasseiam os nascimentos, e o declínio industrial, conforme os próprios relatórios dos órgãos oficiais europeus, o velho continente encontra-se em um paradoxo de narrativas políticas, culturais e ideológicas, sem solução.

Nesse caldo de cultura, não prosperam alternativas econômicas e sociais racionais, mas a xenofobia política, a intolerância e o sectarismo, facilitando o surgimento de organizações políticas extremadas que se digladiam e vão polarizando as sociedades rumo ao impasse em algum momento no futuro. Já assistimos a esse filme antes, na época que antecedeu a Segunda Guerra Mundial.

Nos Estados Unidos, assistimos às recentes eleições presidenciais onde se confrontaram adeptos das teorias das conspirações, terraplanistas, inimigos da ciência, supremacistas brancos, combatentes contra o racismo, a intolerância sexual, ambientalistas, saudosistas do “passado glorioso” etc. etc.

Não prosperou nenhuma discussão relevante sobre como os EUA poderiam recompor a sua imensa capacidade industrial, sustar a crescente chaga social, a retomada da industrialização sob novas bases, com a atual multipolaridade geopolítica e econômica mundial.É como se o grande País do Norte se negasse a enfrentar a nova realidade. 

Prevaleceu, assim, uma batalha de “narrativas culturais” distante das soluções fundamentais para o seu destino e o seu povo.No Brasil, não tem sido diferente. 

As últimas eleições presidenciais resultaram em uma guerra “cultural” onde se confrontaram forças muito semelhantes às dos Estados Unidos, vencendo o presidente Bolsonaro.

Postado em uma linha cultural do medo contra as mudanças comportamentais, de gênero, misturando a negação contra a ciência, como a vacina, uma guerra ideológica do século passado, requentada, e que já não mais existe, além de um alinhamento aos EUA, e ao presidente Trump, como se os Estados Unidos fossem os Guardiões do Templo do mundo ocidental. Com a eleição de Biden, o governo federal se isolou do próprio Estados Unidos. 

Somos hoje uma nação sem boas relações geopolíticas e comerciais. É o isolacionismo como diplomacia de Estado.Tudo isso resultou em um seguidismo unilateral à grande nação do norte, um descaso aos interesses brasileiros, um confronto frente os nossos principais parceiros comerciais.

Um nonsense absoluto. A diplomacia brasileira, respeitada em todo o mundo, desde a época do Império, regrediu a patamares jamais existentes em época alguma.

O que não existe mesmo é uma discussão sobre um projeto de nação, sobre a retomada do crescimento econômico com bases em nossas imensas possibilidades e riquezas, na galvanização da sociedade com vistas à solução dos nossos desafios, investimentos pesados na infraestrutura, educação, ciência e tecnologia, superação das nossas trágicas desigualdades sociais. Já diz o ditado popular: em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão.O Brasil vai sair dessa atual pandemia com indicadores econômicos e sociais bem mais trágicos, com uma desorientação institucional imensa, isolado na diplomacia internacional, sem rumos e à deriva. 

É o relatório Gutierres à brasileira.O que temos aqui é uma mistura de neoliberalismo extremado, um falso nacionalismo, associado a um liberalismo autoritário. Uma sociedade desconfiada, inquieta, desarmoniosa, indecisa. E acima de tudo, com um clima social imprevisível, em um futuro imediato, frente à tragédia do desemprego em massa, que ora já vivemos.Enfim, como afirmou o cientista político e historiador camaronês Achille Mbembe: outro longo e mortal jogo começou. O principal choque na primeira metade do século XXI não será entre religiões e civilizações. Será entre a democracia e o neoliberalismo da especulação financeira. Entre o governo das finanças e o governo do povo. Entre o humanismo e o niilismo. E seria importante acrescentar: entre a soberania dos povos e das nações, contra a nova forma de expansionismo neocolonial, sob a égide do capital especulativo financeiro global.

Política Externa dos Estados Unidos no governo Biden: é possível um retorno ao passado?

  • Luís Antônio Paulino
  • 07/12/2020 19:20
  • Blog do Eduardo Bomfim

O mesmo erro que Trump cometeu ao prometer aos norte-americanos uma volta ao passado, fazendo retornar aos Estados Unidos empresas e empregos que foram exterminados pela globalização e pela chamada 4ª Revolução Industrial, Biden pode cometer se quiser que os Estados Unidos voltem a ocupar no mundo a mesma posição que ocupavam até o final do século passado.

O mundo unipolar com os Estados Unidos como única potência hegemônica foi um subproduto passageiro do fim da Guerra Fria que definitivamente ficou no passado. A política isolacionista de Trump certamente contribui para acelerar a perda de relevância mundial dos Estados Unidos, mas não foi a causa principal. Muito antes de Trump assumir a presidência, em 2016, a posição dos Estados Unidos no mundo já era contestada, dentro e fora do país. Dentro pelos efeitos desiguais da globalização e o custo das intervenções externas e fora pela contestação das potências emergentes à dominância americana no período pós-guerra.

A ascensão da China à condição de grande potência, o retorno da Rússia ao cenário geopolítico global e o crescente distanciamento entre Europa e Estados Unidos são fenômenos que remontam pelo menos ao início deste século.

Biden já anunciou mudanças importantes na política externa americana como o retorno dos Estados Unidos ao Tratado de Paris sobre mudanças climáticas e à Organização Mundial da Saúde (OMS). É possível também que os Estados Unidos abandonem a política exclusivista com relação às vacinas da Covid-19 e adira ao consórcio Covax liderado pela OMS cujo objetivo é tornar as vacinas acessíveis a todos os países, inclusive os mais pobres. O retorno dos Estados Unidos ao Acordo Nuclear com o Irã, costurado no governo Obama, também é uma possibilidade. Não se descarta que Biden volte a indicar os juízes americanos para o órgão de apelação da Organização Mundial de Comércio (OMC), permitindo assim que o órgão volte a funcionar. Tudo isso são boas notícias. Afinal, o mundo, cada vez mais globalizado, enfrenta desafios comuns, como as mudanças climáticas, as pandemias, os fluxos migratórios, a fome mundial, a proliferação de armas nucleares, o protecionismo no comércio global, entre outros, que não têm como ser resolvidos sem a mais ampla cooperação internacional.

O retorno dos Estados Unidos a essas iniciativas e até mesmo sua liderança são notícias alvissareiras. Entretanto, outras iniciativas   consideradas têm um potencial tão desestabilizador quanto as próprias políticas do governo Trump, uma vez que estão em desacordo com a ordem mundial multipolar emergente. Uma delas é a ideia de construir uma ampla  coalizão de países “democráticos” para enfrentar a “ameaça chinesa”.

Em artigo publicado no número de março/abril de 2020 da revista americana Foreign Affairs, intitulado “Porque a América deve liderar de novo”, Biden afirmou que os Estados Unidos precisam ser duros com a China, pois se deixada à vontade ela continuará roubando a tecnologia e a propriedade intelectual dos Estados Unidos e das empresas americanas, continuará a oferecer subsídios para dar vantagens injustas para suas empresas estatais para dominar as tecnologias e indústrias do futuro.

Segundo o agora presidente eleito dos Estados Unidos, a forma mais efetiva para enfrentar esse desafio é construir uma frente unida dos aliados dos Estados Unidos para confrontar os comportamentos abusivos da China e as violações dos diretos humanos, mesmo que os Estados Unidos procurem cooperar com Pequim em questões nos quais seus interesses convirjam, como as mudanças climáticas, a não proliferação de armas nucleares e a segurança sanitária global.

Segundo Biden, os Estados Unidos representam sozinhos um quarto do PIB global e, somado às democracias aliadas, pode dobrar essa força e isso dar-lhes-ia alavancagem para definir as regras do jogo em tudo, do meio-ambiente, ao trabalho, comércio, tecnologia e transparência, de forma que elas reflitam os interesses e valores democráticos. Desse modo, segundo ele, a China não poderá ignorar mais da metade da economia mundial,

A leitura que o partido Democrata faz sobre a questão chinesa, portanto, é que o erro de Trump não foi ter identificado a China como um “competidor estratégico”, mas o fato de querer enfrentá-la sozinho, ao mesmo tempo em que atacava seus aliados tradicionais, nomeadamente a União Europeia, o Japão e a Coréia do Sul. De acordo com essa leitura, o governo Biden deveria construir uma ampla coalizão internacional em torno dos Estados Unidos para forçar a China a mudar sua política interna e externa.

Caso Biden caminhe nessa direção, dificilmente terá sucesso. Primeiro porque nem todos os governantes que antagonizam a China são necessariamente democráticos e nem todos que são democráticos antagonizam a China. Segundo porque o que move a todos, com exceção de alguns fósseis da guerra fria, são interesses puramente econômicos.  Nesse caso, essa coalizão anti-China seria apenas um simulacro para disfarçar o desejo americano de manter-se indefinidamente como potência hegemônica global. Isso não pode dar certo.

Os Europeus têm lá suas desconfianças em relação à China, mas tampouco desejam que a Europa retorne à condição de protetorado americano que marcou a relação transatlântica no pós-guerra. A Alemanha tem seus próprios interesses e vê a China como importante parceiro comercial. O mesmo ocorre com outros países europeus que aderiram à Iniciativa Cinturão e Rota (BRI na sigla em inglês), como Itália, Grécia, Espanha e Portugal.

O ultimatum dado pelos Estados Unidos a Portugal, por conta do projeto de renovação do porto de Sines, em parceria com os chineses, dentro do portfólio de projetos da Iniciativa Cinturão e Rota irritou o governo português e é um bom exemplo de como as coisas poderão não andar como pretendem os Estados Unidos.

Na escolha do parceiro de Portugal no estratégico porto de Sines, os Estados Unidos foram preteridos pela China, forte sinal das dificuldades norte-americanas mesmo diante de tradicionais aliados europeus.

O porto de Sines, localizado a 100 quilômetros ao sul de Lisboa sempre foi cobiçado pelas potências estrangeiras por sua importância geoestratégica. Romanos, Visigodos e Mouros estabeleceram povoamentos ao longo de seu porto de águas profundas. Foi dali que Vasco da Gama partiu para construir  o império marítimo de Portugal, no século 15, criando as colônias portuguesas em Goa, na Índia, e em Formosa e Macau, na China, tendo devolvido esta última aos chineses apenas em 1999.

Sines é o porto da Europa continental mais próximo das bacias de xisto dos Estados Unidos na costa leste e está na mesma direção do Canal do Panamá. As empresas americanas querem expandir o terminal de gás natural líquido do porto para aumentar suas exportações de gás para o continente, o que reduziria a dependência da Europa em relação à Rússia. O embaixador dos Estados Unidos em Portugal, George Glass, afirmou que o investimento proposto pelos Estados Unidos iria converter Sines na “Singapura do Ocidente”. Mas os portugueses optaram pela parceria com a China. Os chineses vão ali construir um megaporto de contêineres. Trata-se de um projeto de €640 milhões que terá um papel chave na Iniciativa Cinturão e Rota, da qual Portugal faz parte desde 2018.

O embaixador americano “alertou” as autoridades portuguesas que o porto chinês de contêineres iria afetar a “visão” dos Estados Unidos sobre o desenvolvimento do porto e que os portugueses precisariam escolher entre seu “aliado” histórico, os Estados Unidos, e os parceiros econômicos chineses. Os comentários pesados do embaixador americano não foram bem recebidos pelo governo e pela imprensa portuguesa.  O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa respondeu que era “uma óbvia questão de princípio que em Portugal, aqueles que decidem o seu destino são os representantes eleitos pelos portugueses e só eles.” O episódio português é apenas um exemplo dos muitos conflitos que poderão surgir caso o futuro governo Biden insista na política de dividir o mundo entre amigos e inimigos dos Estados Unidos e da China.

A assinatura, neste mês de novembro, do mega acordo comercial da Ásia, o   Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP), envolvendo a China e outros 14 países asiáticos, entre eles os países da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático) mais Japão, Coréia do Sul, Nova Zelândia e Austrália, foi outro duro golpe nas pretensões norte-americanas de isolar a China no leste e sudeste da Ásia.

Esse bloco de 15 países, articulados pela China, cobre 30% da população mundial, 29,3% do PIB global e 27,4% do comércio mundial. Responde por 70% do comércio mundial de circuitos integrados.  A Índia foi o único grande país da região a ficar fora do bloco, por receio de ter sua indústria local afetada negativamente.

Em um momento em que se fala em desacoplamento dos Estados Unidos da China e de reorganização das cadeias globais de suprimento, a formação desse bloco pode afetar seriamente os interesses dos Estados Unidos na região. As cadeias globais de suprimento tendem a se estabelecer em áreas de livre comércio. Quanto maior a integração comercial entre os países da Ásia, mais as cadeias globais de suprimentos centradas na China, Japão e Coreia do Sul tenderão a se regionalizar, em prejuízo de fornecedores de fora da área, cujas exportações podem estar sujeitas a tarifas de importação mais elevadas.

No caso específico do RCEP, serão eliminadas nos próximos anos tarifas sobre 91% das mercadorias comercializadas entre os membros.  No caso do Japão, por exemplo, o número de produtos não tarifados enviados para a Coreia do Sul aumentará de 19% para 92% e para a China de 8% para 86%. A indústria automobilista japonesa deverá ter grandes ganhos uma vez que o acordo eliminará as tarifas sobre quase US$ 50 bilhões em peças automotivas enviadas para a China.

O problema é que os Estados Unidos estão acostumados há décadas a definir o espaço que a China poderia ocupar no mundo. Isso vem desde a IIª Guerra, quando o General MacArthur tentou negociar um acordo entre Mao Tsé-Tung e Chiang Kai-shek para encerrar a guerra civil que levou os comunistas ao poder e passou pela Guerra da Coréia, pela questão de Taiwan, das ilhas Diaoyu (Senkaku para os japoneses) até a admissão da China na OMC.  A questão é que a China se emancipou e não precisa mais pedir licença para os Estados Unidos para projetar globalmente seus interesses.

Os Estados Unidos estão frente a um dilema: o que fazer com a China? Sua primeira reação tem sido contê-la, tal como fizeram com a antiga URSS, mas isso não é possível. Diferentemente da antiga URSS, a China está ligada por mil laços à economia americana e mundial. A disputa dos Estados Unidos com a China não é ideológica, mas essencialmente econômica.

A política dos Estados Unidos, de contenção da antiga União Soviética não tem produzido os mesmos resultados diante da ascensão econômica, comercial, financeira e tecnológica da China.

A única solução possível para não precipitar o mundo em um novo conflito global é aceitar a presença da China como um novo polo de poder global, tal como a Rússia, o Japão e a União Europeia e estabelecer uma política de cooperação competitiva, como propôs Fu Ying, ex-embaixador e vice-ministro das relações exteriores da China, em artigo recente no jornal New York Times (24/11/2020). Segundo o ex-diplomata chinês, “Ambos os governos têm agendas domésticas pesadas para atender, e mesmo se a competição entre a China e os Estados Unidos for inevitável, precisa ser bem administrada, cooperativamente. É possível que os dois países desenvolvam uma relação de “coopetição” (cooperação + competição) abordando as preocupações uns dos outros”.

Brasil precisa retomar um projeto de desenvolvimento

  • Revista Resenha Estratégica
  • 04/12/2020 12:46
  • Blog do Eduardo Bomfim
Foto: Bonifácio
Brasil precisa retomar um projeto de desenvolvimento

Em uma única linha, a frase que dá título a esta nota sintetiza a mensagem dos debatedores da webinar “Como financiar o desenvolvimento brasileiro: a urgência de um projeto nacional de infraestrutura”, no último dia 17 de novembro. Promovido pelo Movimento Anti-Reset e o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), o evento teve a participação do presidente do CIEE, Humberto Casagrande, o ex-ministro e ex-deputado federal Aldo Rebelo e o jornalista Lorenzo Carrasco, presidente do Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa) e do conselho editorial desta Resenha.

No debate, mediado pelo jornalista Adalberto Piotto, os palestrantes demonstraram uma concordância quanto à necessidade de o País colocar em prática novas ideias e políticas efetivas para superar a crise atual, agravada pela pandemia do coronavírus. Como afirmou Carrasco, não é possível continuar a “fazer mais do mesmo, que é o que está nos levando à ruína”.

Em sua apresentação, Casagrande afirmou que o Brasil representa uma grande tragédia para os jovens, já que o atual governo não tem qualquer projeto eles. “O CIEE tem 4,6 milhões de jovens inscritos e não temos vagas para atendê-los”, disse. “Existem 17,5 milhões de jovens em busca de emprego, o índice de desemprego dos jovens aferido pela PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – IBGE) é de 29,5%, o dobro dos adultos”, aduziu.

As consequências desse descaso são trágicas, observa: Temos no Brasil hoje 48,3 milhões de estudantes e, a despeito disto, não há nenhuma política pública que possa incentivar diretamente esses jovens. No CIEE, temos assistido um aumento muito grande da desesperança. Pesquisas recentes mostram que 28% desses jovens consideram não voltar a estudar depois da pandemia. Temos assistido um aumento muito grande de automutilação e suicídio entre os jovens. (…)

Nesse contexto, Casagrande afirmou que o Brasil precisa recuperar a capacidade de investimento, principalmente, em infraestrutura. Para tanto, propôs formalmente ao governo federal a criação de “coronabonds” para promover tais investimentos sem um aumento intolerável da dívida pública (ver Resenha Estratégica, 12/08/2020). Em sua proposta, “uma adaptação dos bônus de guerra”, poderiam ser emitidos títulos em montante entre R$ 500-600 bilhões, com prazos de 20-25 anos e rendimentos da ordem de 2% acima do IPCA, os quais, em sua avaliação, seriam bastante atraentes para os investidores. Do ponto de vista macroeconômico, observou, a operação seria perfeitamente viável, até porque os volumes de títulos emitidos representariam menos de 10% do total da dívida pública existente e da carteira dos fundos de investimento que operam no País.

Por sua vez, Aldo Rebelo destacou que a infraestrutura é uma pré-condição para o desenvolvimento. “Quando falamos de infraestrutura, é porque o País não consegue propor nenhum projeto de desenvolvimento sem esses pré-requisitos”, enfatizou.

O ex-ministro fez duras críticas à submissão brasileira às pressões do aparato ambientalista-indigenista, cujas ONGs, ressaltou, não estão submetidas a qualquer tipo de fiscalização, ao contrário dos órgãos do Estado e outras entidades públicas.

Muitas ONGs, disse, “têm interesses geopolíticos e comerciais”. Elas agem “bloqueando a infraestrutura, bloqueando o desenvolvimento em todos os seus aspectos. Até hoje, temos um estado da federação que não está ligado à rede nacional de energia elétrica, Roraima.

Como se pode submeter o país a esse tipo de bloqueios por interesses que não são os nacionais?”

Ele criticou, também, a draconiana legislação ambiental: “Não se tem uma lei que institui uma via rápida para projetos de infraestrutura, tudo leva décadas para ser feito. Leva-se mais tempo para fazer uma segunda pista do aeroporto de Brasília do que para fazer Brasília inteira, dada a legislação que empoderou os órgãos de controle e deu maioria às ONGs nesses conselhos e nessas instituições.”

Por isso, enfatizou, “a batalha pela infraestrutura não é apenas econômica e política, mas acima de tudo uma batalha de ideias. No Brasil, temos um aparato de corporações públicas e privadas que são contra o Estado e a iniciativa privada. Qualquer projeto de desenvolvimento virou uma ameaça para esse aparato, que tem que ser barrada”.

“Obras de infraestrutura de interesse nacional têm que ter uma via rápida, não podem ser bloqueadas por um procurador no interior do Ceará ou um juiz de primeira instância no Rio Grande do Sul. O Ministério Público é o braço jurídico das ONGs no Brasil. A batalha mais decisiva para o futuro do Brasil é a da infraestrutura, é essa que deve mover as energias espirituais, intelectuais, políticas, econômicas, sociais do país, para abrir caminho e remover os obstáculos colocados no caminho do desenvolvimento, que têm um custo muito elevado para qualquer obra e são fatores inibidores para quaisquer investimentos” – concluiu Aldo.

Em sua intervenção, Carrasco citou o general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, segundo quem o País está à deriva e sem sentido de projeto. Por isso, afirmou, “necessitamos de um estado de mudança mental, de mudança de ideias. Como dizia Einstein, o estado mental que cria um problema não tem condições de resolver esse problema. Ou seja, frente a essa crise que vivemos, não adianta fazer mais do mesmo, que é o que está nos levando à ruína”.

“Como se chegou a este momento? O Brasil teve um projeto industrial, que o levou à condição de sétima economia do mundo e, hoje, caiu para décima-segunda e continua caindo. Porque o País não está cuidando de proteger a indústria e desenvolver a infraestrutura. Então, não adianta ficar se preocupando só com a parte fiscal”, disse ele.

“O Brasil teve um projeto industrial de 1930 até 1975, que começou na época de Franklin Roosevelt nos EUA. Aliás, Roosevelt dizia que o New Deal era uma criação dele e do presidente Getúlio Vargas, que havia começado o processo de transformação antes mesmo do New Deal”, enfatizou.

Carrasco fez uma síntese histórica da transformação da economia mundial, desde os “30 Gloriosos” do pós-guerra, o período de maior desenvolvimento econômico da História, à crise de 2008, passando pela sucessão de bolhas financeiras geradas pela ruptura dos acordos de Bretton Woods pelo governo de Richard Nixon, em 1971, e as crises subsequentes, como a do petróleo e a da dívida, que cobraram um alto preço dos países em desenvolvimento, como o México, Brasil e outros.

Para ele, a pandemia de Covid-19 não criou a crise atual, mas potencializou uma crise que estava latente, com uma dramática situação de endividamento global de governos e empresas, agravada pelas emissões forçadas pela pandemia. “Chegamos a um momento de insolvência global, o sistema está quebrado. O FMI (Fundo Monetário Internacional) teme um calote das dívidas soberanas e corporativas, é uma ameaça real”, observou.

Em sua avaliação, o coronavírus demonstrou que a globalização fracassou: “A própria dinâmica da pandemia mostra que o Estado precisa ser mobilizado para combater a pandemia, e aí vemos os problemas da ‘outsourcing’, com a fabricação de elementos de saúde primários, que deveriam ser estratégicos para cada país, transferida para outros países, a China, no caso dos respiradores e a Índia, no caso de medicamentos, buscando barateamento da mão-de-obra.”

“É preciso saber que, na história econômica, nunca um processo de livre comércio como o da globalização deu certo. Nenhuma nação chegou a um estágio desenvolvido por meio do livre comércio – Inglaterra, França, Alemanha, Coreia, Japão, muito menos os EUA” – enfatizou.

Sobre o “Grande Reset”, tema do momento, foi igualmente enfático: Quanto ao chamado “Grande Reset”, anunciado pelo Fórum Econômico Mundial, é apenas mais do mesmo. Quando propusemos o tema do “Anti-Reset”, é porque precisamos pensar a economia de uma maneira diferente. Precisamos pensar a economia a partir das pessoas, do que elas precisam. A própria ajuda emergencial mostrou um caminho surpreendente: a atividade econômica se recuperou rapidamente, porque o dinheiro chegou na ponta. O que está acontecendo com o sistema financeiro é que ele funciona como uma grande represa de recursos. Há recursos abundantes na economia global, mas o sistema financeiro se encarrega de demonstrar que há uma escassez, para que os governos e as pessoas se acostumem com essa mentalidade de escassez que induz o pessimismo, e isto é que é o “Reset”. Então, é preciso criar uma mentalidade otimista, na qual o homem seja o centro, em que o dinheiro chegue às pessoas comuns, nos municípios, gerando aqueles empregos nas pequenas e médias empresas ou os empregos que irão receber os milhões de pessoas que têm que estar envolvidas em projetos de infraestrutura. Essa foi uma lição do New Deal, em que Roosevelt mobilizou milhões de pessoas, inclusive, em reflorestamento. Já que estão falando na Amazônia, em desmatamento, um programa de reflorestamento maciço pode gerar milhares de empregos emergenciais.

O vídeo completo do debate pode ser visto no sítio do Movimento Anti-Reset.

“Maradona foi o mais humano dos deuses”, escreveu Eduardo Galeano

  • 26/11/2020 11:00
  • Blog do Eduardo Bomfim
Brasil 247
“Maradona foi o mais humano dos deuses”, escreveu Eduardo Galeano

Um texto do escritor uruguaio Eduardo Galeano sobre Diego Maradona tem repercutido intensamente nesta quarta-feira (25), data em que o ídolo mundial do futebol morreu, aos 60 anos, vítima de uma parada cardiorespiratória. O trecho consta do livro “Espelhos: uma história quase universal”, publicado em 2008, no Brasil pela L&PM Editores. Leia abaixo:

MARADONA

(Eduardo Galeano, “Espelhos: uma história quase universal”)

Nenhum jogador consagrado tinha denunciado sem papas na língua os amos do negócio do futebol. Foi o esportista mais famoso e popular de todos os tempos quem rompeu barreiras na defesa dos jogadores que não eram famosos nem populares.

Esse ídolo generoso e solidário tinha sido capaz de cometer, em apenas cinco munutos os dois gols mais contraditórios de toda a história do futebol. Seus devotos o veneravam pelos dois: não apenas era digno de admiração o gol do artista, bordado pelas diabruras de suas pernas, como também, e talvez mais, o gol do ladrão, que sua mão roubou. Diego Armando Maradona foi adorado não apenas por causa de seus prodigiosos malabarismos, mas também porque era um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses. Qualquer um podia reconhecer nele uma síntese ambulante das fraquezas humanas: mulherengo, beberrão, comilão, malandro, mentiroso, fanfarrão, irresponsável.

Mas os deuses não se aposentam, por mais humanos que sejam.

Ele jamais conseguiu voltar para a anônima multidão de onde vinha.

A fama, que o havia salvo da miséria, tornou-o prisioneiro.

Maradona foi condenado a se achar Maradona e obrigado a ser a estrela de cada festa, o bebê de cada batismo, o morto de cada velório.

Mais devastadora que a cocaína foi a sucessoína. As análises, de urina ou de sangue, não detectam essa droga.

Texto de Eduardo Galeano

Patrice Lumumba: 59 anos da morte de um dos maiores líderes pela independência nacional na África

  • 21/11/2020 11:50
  • Blog do Eduardo Bomfim

Não há imperialismo bom e imperialismo mau, há o imperialismo.

Não há especulador financeiro bonzinho e especulador financeiro mau, há o rentismo predador.

Admirado e homenageado em todo o mundo pelos que lutam pela liberdade e soberania de seus povos e de sua pátria, o congolês Patrice Lumumba preso, torturado e assassinado há quase 60 anos, em 17 de janeiro de 1961, aos 35 anos, foi uma das principais lideranças pela libertação de suas nações do colonialismo na África e um dos primeiros chefes de estado pós-independência. Herói ao lado de Kwame Nkrumah, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Samora Machel.

Desde muito jovem participou ativamente das lutas anti-colonialistas de sua terra, o Congo Belga. Depois de haver sido eleito presidente do Sindicato Independente dos Trabalhadores Congoleses, em 1958 fundou o Movimento Nacional Congolês (MNC), o maior partido nacionalista congolês e o único constituído em bases não tribais.

Em dezembro do mesmo ano, ao se pronunciar na primeira Conferência dos Povos Africanos, em Accra, capital da recém-independente Gana, como membro da delegação do MNC, destacou-se pela clareza com que defendeu as ideias pan-africanas de unidade contra o colonizador, juntando-se a outros líderes africanos que se destacavam na torrente com que o conjunto dos movimentos nacionais avançava para romper o jugo a que os países europeus haviam submetido o continente africano. Ao lado de Lumumba, Kwame Nkruma, da recém-liberta Gana, Tom Mboia, líder do Kenia; Sekou Touré, da Guiné; Julius Nyerere, da Tanzania.

Logo após seu retorno ao Congo, acelerou-se a luta pela independência, conquistada dois anos depois. Desde os primeiros passos em seu combate, o dirigente congolês visualizou a questão fundamental para a garantia da libertação nacional do colonialismo: a unidade da nação em formação, acima das disputas tribais. A concepção clara da dignidade nacional, da necessidade de cimentá-la acima das divisões étnicas e tribais, lhe valeu o ódio dos colonialistas e da casta dominante do imperialismo americano, que desejava substituí-lo.

A expressão que adquiriu com rapidez, o estímulo com que conduziu os demais na luta pela independência fez com que, nas negociações em Bruxelas, a delegação congolesa exigisse a sua presença. Lumumba se encontrava preso – acusado de incitar “a desobediência civil” durante as manifestações de massa pela independência em outubro de 1959 - e os belgas tiveram que tirá-lo da cadeia diretamente para o avião de onde ele iria dirigir o processo de libertação na sua fase final: as negociações em Bruxelas até a assinatura dos protocolos que especificavam a data para a entrega do poder a um governo congolês, que viria a ter Lumumba no comando, no posto de primeiro-ministro.

O seu discurso no dia da independência, 30 de junho de 1960, permanecerá nos anais da diplomacia mundial como uma peça oratória magnífica, em que o jovem dirigente africano, na presença do rei Balduíno, da Bélgica, e de outros dignitários estrangeiros, denunciou abertamente os crimes hediondos do colonialismo belga sobre o povo congolês e traçou as perspectivas do futuro Congo, liberto da dominação estrangeira.

Como primeiro-ministro foi um líder de grande estatura. Em seu discurso na abertura da Conferência Pan-africana realizada na capital de seu país, Leopoldville, em 25 de agosto de 1960, Lumumba defendeu a unidade e solidariedade dos países africanos em sua luta pela independência e sua consolidação como nações soberanas.

Em setembro desse mesmo ano Lumumba foi afastado pelo presidente Kasavubu, apoiado pelos Estados Unidos e por militares golpistas comandados por um certo coronel Mobutu. Em novembro é preso e, a 17 de janeiro de 1961, depois de meses de detenção ilegal, é barbaramente torturado e assassinado.

O próprio Senado dos Estados Unidos, que investigou as atividades dos serviços de “inteligência” norte-americanos, descobriu que a CIA organizou em agosto de 1960 - o Congo era independente há apenas dois meses! - uma conspiração com o “objetivo urgente e prioritário” de assassinar o primeiro-ministro congolês. Para Allen Dulles, o então diretor dos serviços secretos norte-americanos, Patrice Lumumba era “um perigo grave” a ser eliminado.

O afastamento de Lumumba da chefia do governo, sua prisão e seu assassinato foram o resultado conjugado dos interesses do colonialismo belga - que, apesar da independência do Congo, pretendia continuar a explorar a seu bel-prazer as riquezas do país - e da intervenção do imperialismo norte-americano, através da CIA - o jovem primeiro-ministro era considerado por Washington um “esquerdista”, simpatizante da União Soviética -, coniventes com setores da burguesia congolesa que não hesitaram em trair o seu povo e aliar-se à dominação estrangeira.
 

Já preso, poucos dias antes de seu assassinato, Lumumba escreveu uma carta de despedida à sua mulher Pauline, em que reafirma a sua confiança no futuro. São belas e comoventes, mas cheias de esperança, essas breves palavras, publicadas mais tarde pela revista “Jeune Afrique”:

“(…) Não estamos sós. A África, a Ásia e os povos livres e libertados de todos os cantos do mundo estarão sempre ao lado dos milhões de congoleses que não abandonarão a luta senão no dia em que não houver mais colonizadores e seus mercenários no nosso país. Aos meus filhos, a quem talvez não verei mais, quero dizer-lhes que o futuro do Congo é belo e que o país espera deles, como eu espero de cada congolês, que cumpram o objetivo sagrado da reconstrução da nossa independência e da nossa soberania, porque sem justiça não há dignidade e sem independência não há homens livres.

Nem as brutalidades, nem as sevícias, nem as torturas me obrigaram alguma vez a pedir clemência, porque prefiro morrer de cabeça erguida, com fé inquebrantável e confiança profunda no destino do meu país, do que viver na submissão e no desprezo pelos princípios sagrados. A História dirá um dia a sua palavra; não a história que é ensinada nas Nações Unidas, em Washington, Paris ou Bruxelas, mas a que será ensinada nos países libertados do colonialismo e dos seus fantoches. A África escreverá a sua própria história e ela será, no Norte e no Sul do Sahara, uma história de glória e dignidade.

Não chores por mim, minha companheira, eu sei que o meu país, que sofre tanto, saberá defender a sua independência e a sua liberdade.

Viva o Congo! Viva a África!”.

Para os revolucionários do século XXI na África e em todo o mundo, que hoje continuam a lutar em condições diferenciadas contra a dominação imperialista e a exploração capitalista, Patrice Lumumba continua bem presente com o seu exemplo de patriota e combatente pela liberdade. E são de uma enorme atualidade as ideias que defendeu generosamente e pelas quais deu a vida - a urgência da independência nacional e da genuína soberania para todos os países, a unidade africana, a luta intransigente contra o colonialismo e o neocolonialismo, o combate pela emancipação social dos povos.

Rumos e Estadismo

  • 11/11/2020 13:02
  • Blog do Eduardo Bomfim
Foto: Reprodução
Rumos e Estadismo

O compositor Gilberto Gil lembrou a frase de dona Canô, mãe de Caetano Veloso, falecida aos 105 anos: quem não morre, envelhece. De fato, não é, como parece, uma dedução simples, mas cheia de lições em tão longa existência.

Numa das polêmicas crônicas que Nelson Rodrigues escreveu à época do “poder jovem” na década de 60 - e o que vinha da rebeldia comportamental juvenil tinha-se como verdade absoluta – “meu conselho aos jovens é, envelheçam por favor”.

O Politicamente Correto, vindo dos laboratórios das finanças globais, arvora-se em sucedâneo das ideias surgidas na França dos anos 60.

A questão não é a ousadia da juventude essencial às grandes transformações, mas quem ainda não possui a experiência acumulada para discernir os caminhos viáveis das armadilhas inevitáveis.

Com o passar dos anos é possível enxergar, mais ou menos, uma coisa e outra, evitar equívocos repetidos ao longo dos tempos.

Existem povos, pela herança adquirida em milhares de anos, que possuem cultura acumulada, capacidade de julgamento aos desafios que a História lhes impõe. Onde é possível juntar a rebeldia dos jovens com a experiência adquirida em milênios.

É o caso do Vietnã, e seu líder histórico Ho Chi Minh, que derrotou três potências, França, Japão e Estados Unidos em apenas um século, conquistando a independência às custas de sacrifícios inenarráveis.

Quando em 2003 tive a oportunidade de conversar com o embaixador do Vietnã, líder guerrilheiro à época da libertação, falei que a minha geração tinha muita admiração pela nação vietnamita.

Ao que ele respondeu: nós é que admiramos os brasileiros que ao longo desses mesmos anos não precisaram travar tantas guerras brutais para libertar a sua pátria, ao custo de milhões de mortos. Não soube o que responder frente à desconcertante sabedoria.

O premiado escritor angolano José Eduardo Agualusa falou em entrevista que a crise no Brasil lembra Angola na guerra civil, logo depois da libertação colonial, quando a sociedade ficou totalmente dividida.

Mas Angola conquistou a independência em 1974 em plena Guerra Fria, já o Brasil em 1822. Um País industrializado com mais de 215 milhões de habitantes, uma sociedade bem mais complexa.

No Brasil de hoje, da pandemia do corona vírus e de Jair Bolsonaro, e em várias outras latitudes políticas e ideológicas, o que existe é desorientação generalizada, onde reinam os ditames do capital financeiro, tanto nos planos ideológico como econômico.

Aqui, estamos mesmo é sob uma Guerra Híbrida cujo objetivo é a fratura do nosso tecido social. E o que faz falta são rumos, visão de estadista e um projeto de nação soberana, economicamente desenvolvida e socialmente mais justa.

Vai passar

  • 08/10/2020 11:34
  • Blog do Eduardo Bomfim
Foto: Internet
Vai passar

Nós vivemos uma época ancorada em um pântano onde o que mais viceja é o sectarismo mais infantil, a intolerância mais irreconciliável, o ódio mais descontrolado.

A pós-verdade dispensa o contínuo Histórico, despreza a cultura, erudita ou popular, e o tal do “novo”, tão apregoado pelos aproveitadores de sempre, transformou-se em relativismo absoluto.

Cada semana surge uma nova interpretação de tudo e qualquer coisa, logo substituída por outras novas interpretações, e assim sucessivamente. De tal maneira que, como disse o escritor, “tudo o que é sólido se desmancha no ar”.

Os pensadores atuais são atores e atrizes da grande mídia, personagens do show business, e os filósofos atuais encontram-se quase que diariamente em programas de TV a cabo a deitar “teses” que são mais de autoajuda que propriamente tentativas de interpretações sobre as contradições profundas do mundo contemporâneo.

No vácuo, proposital, da incontornável vida política, que vive sob contínua chibatada dos seus inimigos, cuja fixação é mesmo o seu assassinato, artistas e cantores transformaram-se em líderes e teóricos dos rumos a serem seguidos por extratos médios.

Sem referências do passado, ausência de reflexões razoavelmente bem sustentadas sobre o presente, vive-se um presente contínuo, como em uma roda gigante dos parques de diversão, subindo e descendo sobre o mesmo eixo, passando sempre pelo caminho inicial.

O ativismo político é substituído, quase sempre, pela histeria política, especialmente nas redes sociais, que faz uma ponte com as notícias da grande mídia hegemônica, e se retroalimentam continuamente.

Ser cristão ou ateu, deixou de se caracterizar como uma opção de fé teológica, ou reflexão sobre a condição humana e sua finitude, transformou-se em uma cruzada radical, coletiva, de uns contra os outros. Cada um carregando a sua fé, ou ausência dela, como se fossem medalhas no peito, conquistadas em batalhas sangrentas contra inimigos mortais.

Pensa-se em tudo, menos nos rumos do Brasil, seus dramas, imensas possibilidades, e superações urgentes.

A pandemia do corona vírus mais parece uma catarse de um mundo em crise, onde as soluções de saúde, médicas, contra o vírus, transformaram-se em uma batalha ideológica, como se houvesse vacinas ou antivirais de esquerda, centro ou direita. O que existe são remédios, eficazes ou não.

Como sabem, não sou, nunca fui, nem serei bolsonarista, mas o problema do Brasil é maior que os descaminhos do governo federal, em quase todos os níveis de governabilidade.

Trata-se da doença “espiritual” de vocação autoritária em quase todos os extratos ideológicos, inclusive em parte da sociedade mais esclarecida, enquanto as grandes maiorias sociais, alheias a tudo isso, perambulam pelas ruas na busca da dura sobrevivência, em meio a uma crise sanitária, econômica, social, carregando, ainda por cima, os males estruturais, históricos do Brasil.

Apesar disso, contornam-se as buscas das soluções concretas, através de uma tempestade de falsos ideologismos, incessantes, discute-se uma realidade paralela. Ou como me escreveu o amigo jornalista Ênio Lins: a pós-verdade é pseudoverdade, talvez sem exceções.

No mesmo rumo, lembro a frase do velho amigo Plínio Lins: a boa mídia, a boa imprensa, é o único respiradouro, ao lado da arte, como forma eficaz de juntar inteligência e beleza. Lutemos por elas portanto.

As soluções para as crises, pequenas ou grandes, como a atual, sempre surgiram através da via política, na concertações de consensos, de amplas unidades.

Até nas guerras, porque como afirmou o grande teórico dessa matéria extrema: a guerra é a continuação da política, por outras vias.

Nesse caldeirão sectário que estamos vivendo, creio fundamental a primazia da vida democrática para a solução dos trágicos problemas nacionais. E nessa vida democrática, as eleições, como a que estamos exercendo na excepcionalidade dessa pandemia sanitária.

Porque sem democracia e eleições quem vai decidir os nossos destinos são os caudilhos, os ditadores, ou os loucos predestinados pela fixação do poder.

O que me lembra dos tristes déspotas latino-americanos, que narrou Gabriel Garcia Márquez, como o paraguaio que cismou de combater uma epidemia de sarampo que assolava o País irmão, cobrindo os postes de rua com papel celofane vermelho.

Ou o caudilho de El Salvador, que após uma sangrenta batalha pelo poder, da qual saiu vitorioso, promoveu uma magnífica e babilônica festa de três dias e três noites, para enterrar a sua própria perna, perdida em combate.

A pandemia do corona vírus vai passar, como tantas outras que viveu a humanidade, assim também esses tempos desorientados, como outros que já se foram.

E a democracia, as eleições, são bem melhores que a insanidade dos ditadores. Portanto, vamos pelejar por elas, para o nosso próprio bem e do País. E quem puder, mantenha o isolamento social, até a vacina, porque o bicho é brabo.

O dilema das eleições dos EUA

  • 06/10/2020 15:03
  • Blog do Eduardo Bomfim
Reprodução
Donald Trump e Joe Biden

Por Lorenzo Carrasco, publicado na revista Resenha Estratégica

 

As próximas eleições nos Estados Unidos não têm paralelo na história daquela nação e, devido à sua singular importância estratégica, também representam um dilema para a situação mundial. Não é a democracia que está em perigo, devido ao embate interno que muitos analistas veem como indício de uma nova guerra civil com características raciais ou identitárias. Não se trata do velho conflito entre conservadores e liberais (termo que, nos EUA, remete aos grupos considerados mais "à esquerda"), embora o Establishment esteja profundamente dividido. Poderá haver confrontos mais sérios, que remetam o processo eleitoral às instâncias judiciárias de uma forma extremada, mas eles não refletem os aspectos internos que constituem a característica fundamental do atual pleito eleitoral, por mais dramática que possa parecer a situação interna do país.

 

A realidade é que, no futuro imediato, o mundo experimentará transformações extraordinárias na história humana, de uma forma ou de outra. A pandemia de Covid-19, que paralisou o mundo neste fatídico ano de 2020, evidenciou e agravou sobremaneira os problemas de desigualdade econômica e social que levaram grande parte da população humana a níveis de pobreza extrema, enquanto os grandes interesses econômicos e financeiros acentuaram o inusitado acúmulo de riquezas de que têm desfrutado nas últimas décadas, promovendo um aumento da desigualdade e das injustiças sociais que clama aos céus.

 

Nos EUA, um momento que poderia ser relativamente comparado  ao atual é o do assassinato do presidente Jonh F. Kennedy, em 22 de novembro de 1963, um autêntico golpe de estado "American style". Este trágico acontecimento assinalou  a consolidação do domínio hegemônico na política estadunidense do chamado "complexo industrial-militar", assim batizado pelo antecessor de Kennedy, Dwight D. Eisenhower, com uma agenda que estendeu a Guerra Fria por quase três décadas a mais e pavimentou o caminho para a hegemonia financeira de Wall Street, com a destruição do sistema Breton Woods em 1971, pelas mãos do presidente Richard Nixon.

 

Esses eventos criaram as condições para a criação de uma série de bolhas financeiras impostas não só à própria economia estadunidense, mas a virtualmente todo o planeta, processo que culminou na atual "globalização financeira". Esta, por sua vez, vive claramente os seus estertores, devido à impossibilidade de sustentação dos colossais volumes de dívidas nacionais e privadas, seja pela capacidade física das economias nacionais ou por mirabolantes manobras financeiras de injeções de dinheiro "criado do nada" no sistema financeiro (as famigeradas "facilitações qualitativas"), como as realizadas em 2008 para evitar o colapso do sistema financeiro "globalizado". Mecanismos que funcionam como injeções de drogas para sustentar a "adicção" crescente do sistema financeiro com as transações especulativas desconectadas da economia real, artifícios possibilitados apenas pela posição privilegiada do dólar estadunidense como moeda de referência mundial.

 

Sob outras condições, o enorme poder militar hegemônico dos Estados Unidos - na verdade, a garantia última do dólar - poderia impor um sistema compulsório de aceitação de uma ordem semelhante à da Alemanha de Weimar, na década de 1920, fruto da imposição das potências vitoriosas da Primeira Guerra Mundial, sob Taís condições de austeridade que levaram aquela nação ao nazismo e à Segunda Guerra Mundial.

 

Nós círculos mais altos do poder hegemônico global, esse tipo de alucinação radical pode estar sendo considerada,  mas é aqui que entram em cena as peculiaridades do atual momento histórico. Nos próximos anos, os Estados Unidos tendem a perder para a China a condição de maior economia do mundo. E, em termos estratégicos e tecnológicos também já não têm condições de impor uma supremacia militar a potências como a Rússia e a China.

 

Isso significa que os dias da hegemonia estadunidense estão contados, sem que isto signifique o surgimento de um novo poder hegemônico global, em termos econômicos ou militares. E é aí que reside a característica fundamental do embate eleitoral de novembro próximo: de que forma os Estados Unidos enfrentarão essa realidade? De que forma essa, sem dúvida, grande nação se inserirá no contexto de uma nova ordem mundial cooperativa, na qual a igualdade do direito das nações ao pleno desenvolvimento econômico e social deve ser o imperativo da coexistência global?

 

Quanto aos dois lados da disputa pela Casa Branca, o presidente Donald Trump, apesar de crítico da descaracterização econômica estadunidense e do envolvimento permanente do país em conflitos externos, não deixa de ser um representante do "excepcionalismo" estadunidense, que está na raiz dos seus embates  crescentes com a China, a Rússia e o Irã.

 

Por sua vez, o ex-vice-presidente Joe Biden e a senadora Kamala Harris, a despeito da "torcida" despertada entre setores ditos progressistas internos e externos, que não conseguem enxergar além das agendas identitárias, estão alinhados com a visão neomalthusiana da "Grande Retomada" proposta pelas elites econômicas globais reunidas no Fórum Econômico Mundial, sem que haja, ademais, qualquer indicação de que se disponham a contrariar a orientação belicista favorecida pelo Establishment. Ou seja, as diferenças com Trump são menos de estilo do que de conteúdo.

 

E devemos ter claro que essa característica do momento histórico é válida globalmente e abre uma questão adicional: como pode ser aplicada à  situação atual a chamada "armadilha de Tucídides"? O conceito, como se sabe, foi formulado em 2015 pelo cientista político estadunidense Graham Allisson, para explicar a dinâmica histórica de confronto entre uma potência hegemônica em declínio e uma potência ascendente, tomando como exemplo o embate entre Atenas e Esparta na Guerra do Peloponeso, descrito pelo historiador grego.

 

É evidente que, devido aos arsenais nucleares, um confronto dessa natureza só poderia levar à destruição da civilização. Por isso, é melhor pensar que a "armadilha de Tucídides" não se aplica mais à história humana - pelo menos, se humanos estiverem conduzindo o processo.

Aleijadinho - Bonifácio

  • 03/09/2020 13:48
  • Blog do Eduardo Bomfim

A Seção Brasilidades do Portal Bonifácio comemora, neste 29 de agosto, o aniversário de 290 anos do nascimento de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730), nascido em Vila Rica, atual Ouro Preto, Minas Gerais. Mulato, o mais célebre escultor brasileiro, o Michelângelo do Barroco, era filho natural do arquiteto português Manuel Francisco Lisboa e de sua escrava africana Isabel. 

Suas obras mais célebres são os 12 profetas, esculturas em pedra-sabão localizadas no santuário do Bom Jesus de Matozinhos no município mineiro de Congonhas. Por ocasião da comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil suas obras foram expostas em Paris, quando receberam mais de 300 mil visitantes.

A privatização branca das estatais

  • 24/08/2020 20:41
  • Blog do Eduardo Bomfim
Reprodução

Os privatistas ideológicos, desde a primeira onda de privatizações da Era FHC, tinham a meta de vender as estatais como empresas integradas e parte de um Plano econômico mais amplo, o Plano Real. As operações foram executadas pelo BNDES com modelagens estruturadas por consultorias especializadas e avaliações por especialistas internacionais.

 A venda das empresas integradas e como empresas permitiu ao Governo capturar o VALOR DO CONTROLE que é muito maior que a simples soma dos ativos.

O maior valor da PETROBRAS é o mercado que ela controla, o 3º do mundo em combustíveis, vendendo só ativos perde-se o VALOR DE MERCADO, muito maior que o valor dos ativos físicos vendidos separadamente porque aí não se cobra o valor do mercado que os ativos suprem, como no caso das refinarias em cada região.

Hoje os privatistas descobriram um método muito mais fácil e lucrativo para o mercado do que vender estatais como empresas: É VENDER OS ATIVOS DAS ESTATAIS SEM AS DÍVIDAS.

OS ATIVOS ESTÃO SUBAVALIADOS

Veja-se o caso das refinarias da PETROBRAS. Quando foram construídas nos anos 50, 60 e 70 os terrenos onde foram erguidas eram de pouco valor, áreas longe dos centros, caso das refinarias mais antigas como Cubatão, Duque de Caxias e Paulínia. As refinarias como estruturas produtivas não são obsoletas, ELAS ESTÃO SENDO DEIXADAS OBSOLETAS, DE PROPÓSITO  enquanto os governos não investiram na modernização das estruturas produtivas, preferindo importar combustível refinado dos EUA, a alto preço e gastando divisas.

Os terrenos onde elas foram erguidas hoje são valiosos para empreendimentos imobiliários, enquanto as estruturas produtivas DE PROPÓSITO não foram modernizadas, como ocorre nos EUA, Canadá e Europa, onde as grandes refinarias são MAIS ANTIGAS do que as 11 pioneiras da PETROBRAS, mas nunca foram abandonadas de propósito como se fez no Brasil desde a Era FHC com Presidentes da PETROBRAS que não entendiam nada de petróleo, eram todos do mercado financeiro, como Henri Reichstul e Francisco Gros.  A trajetória continuou com Pedro Parente e agora um Castelo Branco do mercado financeiro.

 
PETRÓLEO é um setor MUNDIALMENTE dirigido por engenheiros de petróleo, tanto nas grandes companhias privadas como Exxon, Chevron, Royal Dutch Shell, Total, como nas 13 estatais que dominam o  setor mundialmente,  das 20 maiores petroleiras mundiais, 13 são estatais, dirigidas por executivos do setor de petróleo. Só o Brasil desde 1995 usa executivos do mercado financeiro para atuar em um setor ultra especializado, sensível, que exige conhecimentos técnicos profundos. Ao colocar executivos do mercado financeiro na estatal petrolífera, o único alvo desses executivos é PRIVATIZAR porque eles não entendem nada do setor, mas entendem de vender ativos, então eles se concentram nisso.

VENDA DE ATIVO NÃO CARREGA DÍVIDAS

Ao comprar uma empresa estatal o comprador leva consigo os ATIVOS e as DÍVIDAS, ele fica com o patrimônio, mas precisa pagar as dívidas dessa empresa. MAS quando ele compra só ativos, como as refinarias da PETROBRAS, ele se livra das dívidas, fica só com o patrimônio limpo, as DÍVIDAS ficam na estatal e ao fim ficarão com o ESTADO, portanto será muito melhor para esse comprador a fórmula de comprar só ATIVOS, que é o método do atual Governo, VENDER OS ATIVOS, AS DÍVIDAS FICAM COM A UNIÃO, quer dizer, com o povo brasileiro.

Ao fim a privatização branca é ainda melhor que a privatização da estatal inteira com ativos e passivos e isso foi PERMITIDO PELO STF em decisão absurda, fruto do desconhecimento do que estavam fazendo ao permitir essa venda de ativos SEM LICITAÇÃO, quer dizer, a direção da estatal pode vender a quem quiser, pelo preço que quiser, nas condições que quiser, sem transparência e sem explicações, BASTA CRIAR UMA SUBSIDIÁRIA, COLOCAR OS ATIVOS NELA, SEM DÍVIDAS e vendê-la sem precisar dar explicações a ninguém, nem ao Governo, nem ao Judiciário, ao Tribunal de Contas da União e muito menos ao Congresso. Como é que permitiram isso?

Há mais um fator, as refinarias no balanço da PETROBRAS estão com seu valor de balanço muito baixo por causa da DEPRECIAÇÃO contábil que pode levar o preço do ativo a zero após décadas do investimento sem modernização, permitindo uma venda legal a custo baixíssimo por causa do baixo valor contábil desses ativos já depreciados legalmente.

JÁ ESTÃO VENDENDO OS ATIVOS DA PETROBRAS

A atual administração da empresa já tem sua marca de prepotência, ignorância e arrogância. O Presidente NÃO é do setor de petróleo, é colega de mercado financeiro do Ministro da Economia. JÁ  FOI VENDIDO o maior  DUTO de petróleo do Brasil, que vem do Norte ao Sul, a uma multinacional francesa, a famosa ENGIE,  subidiária do antigo Grupo SUEZ, em cuja origem e DNA está a Compagnie Universelle du Canal Maritime de Suez, a companhia do canal de Suez, depois de nacionalizada por Nasser em 1956.  Ela se fundiu com outro símbolo do colonialismo francês, LA BANQUE DE L´INDOCHINE, e dessa fusão nasceu o grupo que depois assumiu a belga TRACTEBEL, também dos tempos coloniais em que implantou os bondes no Cairo e em Alexandria no Egito.

O grupo ENGIE, braço de energia do megagrupo SUEZ é ultra experiente no jogo geopolítico de compra de ativos em qualquer situação e regime. Eles sobreviveram a duas guerras mundiais, a nacionalizações no mundo árabe e asiático e são os harpagões do capitalismo predatório. Sabem tudo e são especialistas em situações como o desmonte das estatais brasileiras, que foram as grandes autoras do desenvolvimento do Brasil nos anos 50 a 80.  Do mesmo grupo, é a grife TRACTEBEL que comprou a subsidiária da Eletrobras, ELETROSUL, com ótimas usinas no Sul do País. Eles são profissionais em escolher bons ativos.

VENDA DE CRÉDITOS DO BANCO DO BRASIL

Foi realizada muito recentemente uma venda de créditos do BANCO DO BRASIL no valor de R$3 bilhões para o banco de negócios BTG PACTUAL por R$300 milhões, quer dizer, por 10% do valor dos créditos. Com que critérios, avaliação, interesse do Banco do Brasil, NINGUÉM SABE, transação esquisita, ABSURDA, sem lógica, porque o BB vendeu e porque o BTG comprou?  QUEM AVALIOU O INTERESSE DO BANCO DO BRASIL NESSA TRANSAÇÃO?   Coincidentemente o presidente do Banco do Brasil logo depois dessa venda PEDE DEMISSÃO, alegando cansaço e porque quer ficar com os netos, explicação inédita no mundo bancário e corporativo, digna dos filmes de Laurel & Hardy, O Gordo e o Magro.

Enquanto o palhaço distrai a plateia o mágico do circo foge com o dinheiro das entradas, estamos vendo coisas que nunca, em nenhum Governo, se viu no Brasil e enquanto isso a Lava Jato distrai a plateia com perseguição a doações de campanha de 5 milhões de Reais ocorridas há 6 anos, com a mídia armando o palco das invasões de domicílios. No combate à mini corrupção, enquanto se vende o País a retalho no presente, com planos para vender tudo o que encontrar comprador, é a meta central do Governo da turma do Leblon.

O Brasil, algoritmos e fanatismos

  • 06/08/2020 14:51
  • Blog do Eduardo Bomfim

 

 



 

 


Por Eduardo Bomfim

Que ninguém se iluda, pensar o Brasil é tarefa exclusiva dos brasileiros, seja nas questões da indústria, da agricultura, da saúde, educação etc., e acima de tudo em relação aos interesses nacionais.

Vivemos uma época especial em todo mundo, onde prevalecem mecanismos sofisticados de interferências desestabilizadoras nas sociedades, da parte do capital financeiro, megaempresas globais, além das grandes potências internacionais, na medida em que a revolução digital, a internet, alcançou o protagonismo irreversível que todos conhecemos.

Mas as facilidades advindas das novas formas de comunicação entre as pessoas, no consumo, provocaram novas maneiras de interferências na vida política das sociedades. E são esses os fenômenos que estamos vivenciando.

A competição industrial, agrícola, comercial, e geopolítica, se intensificou de forma exponencial, e nenhuma megaempresa global, ou potência internacional, está presente no mundo de hoje para esclarecer as coisas, mas para fazer valer os seus interesses, ou para confundir, se assim for necessário, desestabilizar as sociedades.

A racionalidade tornou-se um produto raro, ou em falta, nas atuais relações humanas. Muitas vezes tem prevalecido o delírio, quase esquizofrênico, na interpretação dos fatos, principalmente quando se trata das questões políticas.

Os algoritmos, no mundo digital, têm feito, com a rapidez, quase, instantânea, o trabalho que interessa ao grande capital financeiro, à luta política, às grandes potências, ou na competição dos produtos no mercado, seja ele qual for.

Se você adquire um aplicativo para ouvir música, por exemplo, esses algoritmos vão lhe direcionar para as músicas que consideram afins com o seu gosto inicial, e daí vão lhe conduzir para uma “bolha” digital que consideram o seu gosto. O que vai exigir muita consciência crítica e lucidez para que você não se torne um consumidor passivo de músicas.

As redes sociais, através dos mesmos mecanismos dos algoritmos, também vão lhe conduzir ao mesmo processo de identificação de opiniões idênticas às suas, promovendo as “bolhas” de ativismo social, reduzindo o horizonte de reflexão e discernimento dos indivíduos.

 

 


Assim como facilita a promoção das ações de publicação de notícias falsas, as tais das fake news, alimentando uma cadeia de desinformação sobre a verdade dos fatos, que são instrumentalizadas por grupos políticos, interesses geopolíticos estratégicos, ou mesmo na competição de produtos à venda no mercado.

A grande mídia global tem combatido as fake news, mas ela promove também, à sua maneira, as notícias que considera relevantes ou não. Em sua grande parte, ela se encontra a serviço dos interesses do capital financeiro, e promove as suas agendas cultural, política e ideológica, hoje hegemônicas.

E dita, conduz, as pessoas, para a luta que “deve” ser relevante. E em praticamente vinte quatro horas, em todo o mundo ocidental, grupos de “ativistas” sociais digitais, como as recentes manifestações para destruir estátuas e monumentos Históricos relevantes, saem às ruas movidos por uma fúria emocional.

Sem nenhuma reflexão crítica, mais profunda, sobre o significado das suas ações, com base em uma espécie de um difuso, falso, Internacionalismo militante. Dias depois, essa “causa” arrefece e logo é substituída por outra, igualmente carregada do mesmo conteúdo emocional, quando não sectário.

Na atual luta dos cientistas, na área de saúde, contra o corona vírus, existem algumas vacinas, em pesquisa, em estágio avançado.

Um desses surtos emocionais, ideológicos, foi promovido nas redes sociais, contra a possível vacina chinesa, em convênio com o Instituto Butantã no Brasil, sob a alegação de que essa possível vacina, estaria “infectada” com um nano chip que iria controlar as pessoas, vigiá-las, e aliciá-las ao comunismo internacional. Um delírio, impensável em outras épocas, se não fossem os algoritmos, manipulados por um extremismo sectário.

A atual realidade política brasileira está carregada por frenética Guerra Híbrida, cujo objetivo central tem sido a fratura do tecido social da sociedade nacional, entre grupos com agendas identitárias.

Uns procurando negar o contínuo histórico nacional, as grandes figuras que, em cada época determinada, ergueram o espírito do País, através das ideias e das realizações, que formam a nossa civilização única, mestiça e tropical, como descreveu o grande antropólogo Darcy Ribeiro.

Outros, em um campanha irracional, fundamentalista, inimiga do progresso, pretendem levar o País aos tempos medievais passados.

A continuada polarização dessa “ordem” de coisas não serve aos interesses nacionais, porque é falsa, sem perspectiva estratégica, e conduz a nação à imobilidade, ao atraso, e fratura o nosso tecido social.

Já essa atual guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, eles estão jogando o jogo deles, nós devemos estar é com os nossos interesses. Não podemos estar alinhados em disputas ideológicas de ocasião. Devemos ficar com o que serve ao Brasil e ao povo brasileiro. Promover uma diplomacia ampla, pacífica e de cooperação internacional em todos os níveis.

 

 


Quanto à campanha de cerco que atinge a Amazônia, sob o justo pretexto de evitar e combater as queimadas, ela possui, na verdade, o objetivo estratégico da internacionalização de um ativo ambiental, mineral, biológico, geopolítico, inigualável no planeta.

Tudo isso promovido por ONGs suspeitas e potências estrangeiras. É hora de levantar, com serenidade, altivez, uma campanha em defesa da Amazônia, que é nossa, assegurada com muita luta por aqueles que nos deixaram esse extraordinário legado ambiental e patrimônio territorial.

Quando promovem uma campanha contra a agricultura brasileira, isso nada tem a ver com as, falsas, justificativas sobre agrotóxicos e outras coisas mais. Mas é devido ao protagonismo internacional da nossa produção de grãos, carnes etc., que disputa com alta qualidade, tecnologias e cumprimento de todas as normas sanitárias exigidas pelos acordos mundiais. Aliás, é a agricultura que vem salvando o País nessas ultimas décadas.

A luta de ideias nestes tempos de hoje é vital, no empenho por um programa nacional de desenvolvimento estratégico, pela reestruturação do parque industrial nacional, recompor a nossa cadeia produtiva. Pelo investimento maciço em educação em todos os níveis, ciência e tecnologia, infraestrutura, na promoção de políticas públicas com investimentos sociais.

Se o Brasil atingir essas metas, estaremos alcançando o patamar de uma nação verdadeiramente progressista, rumo ao pleno desenvolvimento econômico, combinado com a alta qualidade de vida do povo brasileiro. Território continental, riquezas naturais, matérias primas, uma população de mais de 200 milhões de habitantes, com engenhosidade, vontade de crescer, nós temos. Falta-nos o projeto, a vontade, e a união do povo em torno dos novos desafios.

Em tempos de algoritmos digitais, fanatismos ideológicos, tempestades de ódios difusos, como disse o poeta: falta-nos cumprir o Brasil. E essa obra não cai do céu, ou por geração espontânea. Precisa ser edificada, construída. Talentos, não nos faltam. É fundamental a iniciativa.


 

A soberania limitada e a Guerra Híbrida

  • Blog do Eduardo Bomfim
  • 28/07/2020 21:49
  • Blog do Eduardo Bomfim
Foto: Reprodução

A globalização financeira prossegue na sua determinação de, na prática, impor aos povos e às nações a soberania limitada, em uma escala crescente que marcha, especialmente entre as cadeias mais frágeis de vários Países, para uma forma de colonialismo do novo milênio.

Esse processo caminhou por vias sinuosas, desde a instituição do padrão dólar-ouro na conferência de Breton Woods, em 1944, demarcando a hegemonia monetária dos Estados Unidos.

Em 1971 os Estados Unidos tomaram a decisão de acabar com a paridade dólar-ouro, ficando o dólar como moeda hegemônica global, respaldado pelo tesouro norte-americano. Essa decisão foi ratificada pelo FMI em 1973.

Na década de 80 as políticas neoliberais assumiram o protagonismo de uma doutrina econômica hegemônica mundial, sob os governos de Margaret Thatcher, a dama de ferro, na Inglaterra, e do presidente Ronald Reagan nos Estados Unidos.

Todo esse processo levou à desregulamentação dos fluxos financeiros domésticos, vinculados à produção de riquezas. Estava inaugurado o caminho para o extraordinário processo de acumulação financeira especulativa global, através do rentismo predador, que, de crise em crise, segue até os dias atuais.

Nesse mesmo período a hegemonia unipolar econômica, financeira, militar dos Estados Unidos, conquistada após a extinção da União Soviética, foi perdendo a liderança desse processo.

Ao tempo em que todas as formas de controle administrativo, das taxas de juros, do crédito e dos movimentos do capital financeiro foram progressivamente abolidas.

A desregulamentação do capital foi, dessa forma, um dos elementos motores da globalização financeira. Estavam abertas as condições para uma espécie de governança mundial do capital financeiro especulativo.

Uma governança informal, invisível, mas que nem por isso deixa de ser efetiva e de caráter multilateral.

Cifras astronômicas de trilhões de dólares circulam, sem regulação alguma, pelo mundo em poder de megaespeculadores internacionais, desligadas da produção de riquezas. Esse é o mundo em que vivemos hoje.

Como é óbvio, as instituições internacionais “oficiais”, criadas no pós Segunda Guerra mundial, para fins de construção de consensos e administração de conflitos regionais, passaram a seguir o rastro do dinheiro em mãos dos especuladores globais, e as suas diretivas.

De tal forma que tratados internacionais, úteis ao processo hegemônico da livre financeirização dos fluxos de capitais, foram sendo oficializados por essas instituições mundiais e transferidos, como normas, aos Países.

A hegemonia do capital especulativo predador chegou igualmente à grande mídia, transformando-a em sua porta voz oficiosa.

Tratava-se, a partir daí, de constituir uma espécie de ideologia hegemônica, que satisfizesse aos interesses da globalização financeira e substituísse as culturas nacionais, sua raízes, características próprias etc.

Formatou-se, entre outras coisas, uma espécie de anarquismo invertido, visto que não serve aos propósitos com que sonhava o teórico anarquista Bakunin, mas ao anarquismo desregulamentador do capital financeiro.

Assim como surge uma espécie de neotrotskismo internacionalista, mas, ao contrário do que sonhava Leon Trotsky, não um trotskismo das classes trabalhadoras, mas um trotskismo internacionalista sob a égide do capital financeiro.

Com a soberania cada vez mais limitada pelas orientações e tratados do capital financeiro, no plano econômico, administrativo, comportamental, os governantes foram perdendo os seus protagonismos de efetivos dirigentes nacionais. Transformaram-se, em grande parte, em gerentes e administradores das orientações e diretivas vindas do capital financeiro

A pandemia da crise e a crise da pandemia

O teórico nipo-americano Francis Fukuyama quando previu, falsamente, o Fim da História em seu famoso livro publicado no fim do século XX, não se referia necessariamente à liderança unipolar dos Estados Unidos, mas à celebração da hegemonia superior do capital financeiro como forma de governança mundial.

No entanto, tamanha acumulação desenfreada do capital parasitário e especulativo, desligado da produção dos povos e nações, começou a provocar uma sucessiva desestabilização da Nova Ordem mundial e atingiu o ápice na crise financeira em 2007 e 2008, que iniciou nos Estados Unidos e rapidamente se espalhou pelo mundo.

A catástrofe financeira, que abalou as economias nacionais, não teve como solução o reordenamento da economia global mas o aprofundamento das estratégias do próprio capital financeiro especulativo.

Essa crise acarretou uma debacle das economias nacionais, além de novas diretivas para a desregulamentação dos fluxos financeiros especulativos, a queda do crescimento das economias nacionais, o empobrecimento das sociedades em, praticamente, quase todo o mundo.

O planejamento econômico foi cada vez mais substituído pela anarquia sem freios que rege a globalização do capital especulativo. O cuidado com as atividades básicas de investimentos em educação, saúde pública, ciência e tecnologia em escala global, cedeu cada vez mais à privatização, e a extrema precarização dessas funções essenciais para os povos.

Pode-se afirmar que antes de estourar a pandemia sanitária que hoje vivenciamos, tivemos a pandemia da extrema desregulamentação dos fluxos financeiros, com as suas dramáticas consequências, com a queda do crescimento econômico dos países, de forma sistemática e contínua, o desemprego e a catastrófica crise social que jamais parou de crescer.

Em resumo, a crise financeira, e suas consequências, antecedeu à crise sanitária do corona vírus 19. E será necessário calcular quanto dessa primeira crise possui relação, de causa e efeito, com a pandemia sanitária que vivemos de forma trágica em todo o mundo.

Em algum momento no futuro próximo deve haver algum balanço sobre a insuficiência das medidas da OMS em relação a essa pandemia. Seja para a ela se antecipar, seja para sugerir medidas rápidas e eficazes para minimizar os seus efeitos. E aqui não se encaixam teorias da conspiração, tão em voga nos dias atuais.

Mas a verdade é que os organismos internacionais institucionais se encontram defasados quanto aos seus propósitos intrínsecos. Na maioria das vezes eles adotam medidas, sugestões paliativas e secundárias, ou de marketing, para fins de justificar as suas existências.

A atual crise sanitária global, entre outras coisas, serviu para mostrar a pouca eficiência desses organismos, assim como a guerra do Iraque, entre outros conflitos regionais, demonstrou a pouca eficácia da ONU como autoridade real em administrar conflitos regionais ou globais de grande porte.

A atual pandemia sanitária não foi a responsável pela catástrofe econômica e social que vivemos, mas levou ao seu aprofundamento em nível brutal, como um catalizador, ou reagente químico.

Assim a crise financeira, econômica e social atingiu uma escala formidável. É inacreditável a tendência que se vende, aos incautos, que a pós pandemia vai possibilitar uma sociedade mundial mais harmoniosa, mais limpa e mais solidária, quando na verdade já estamos em uma crise econômica, social e humanitária, sem precedentes na História contemporânea. Na História, muitas vezes, os mitos são mais importantes que a realidade.

Dois meses após o reconhecimento da pandemia sanitária, as discussões nas mídias e redes sociais, desconectaram-se das questões concretas de como enfrentar melhor o corona vírus e passaram ao campo político. Não se abordam as propostas econômicas, sociais, para enfrentar uma realidade dramática de desemprego massivo e a consequente, trágica, crise social.

Assim, como nas ultimas décadas, cria-se uma falsa perspectiva sobre a verdade dos fatos, elabora-se, mais uma vez, uma realidade paralela e fantasiosa sobre o mundo em que vivemos. E, convenhamos, é necessário muito investimento e capital, além de mídia, para se imporem concepções tão dissociadas da vida concreta dos povos.

Não é à toa que vários segmentos intelectuais e acadêmicos vivem, há um bom tempo, em uma torre de marfim de agendas identitárias, descolados das grandes maiorias sociais e das necessidades concretas dos seus Países.

É um fenômeno, a dissociação de setores esclarecidos das sociedades das necessidades objetivas das grandes maiorias do planeta. E ao mesmo tempo é como se uma parcela de classe média, estivesse vivendo em uma sociedade dividida em castas.

Mas na verdade trata-se do “investimento” da globalização financeira em uma elite que encampe as suas agendas culturais e comportamentais. Uma estratégia de cooptação dos de “cima”, e o abandono à própria sorte dos novos deserdados da terra, a grande maioria das populações das nações. O objetivo é constituir uma vanguarda intelectual, de ativistas nas redes sociais, incorporada às perspectivas, doutrinas e agendas do capital financeiro, na tentativa de enfraquecer as possibilidades dos Estados nacionais quanto à formação de uma massa crítica e pensante, relativa aos programas e projetos de desenvolvimento nacionais.

Assim como os identitaristas fundamentalistas religiosos, reacionários, movidos por uma orientação econômica neoliberal ultraortodoxa, representada no Brasil pelos bolsonaristas hoje no poder central do País. Uma verdadeira Guerra Híbrida em curso.

Assim, a centralidade da questão nacional passa a ser a inimiga principal do capital financeiro, da Nova ordem mundial, e o protagonismo do Estado nação, o adversário a ser aniquilado.

Da soberania limitada ao novo neocolonialismo financeiro, a ausência de uma perspectiva Histórica no “presente contínuo”, a divisão internacional das cadeias produtivas, a substituição do protagonismo político das grandes maiorias pelas agendas das corporações.

Mas, quando alguém, como Francis Fukuyama, decreta o fim da História, essa afirmação encontra-se carregada de um fundamentalismo doutrinário, quase fanático. Porque deseja que a sua visão econômica e filosófica seja hegemonicamente imposta aos demais e às sociedades. Tal enunciado não prospera, como de fato aconteceu.

Em 1938 Hitler anunciou o seu império, o Reich de mil anos, um mundo sem fronteiras. E deu no que deu, a terrível carnificina da Segunda Guerra mundial. Hoje temos, de novo, um mundo em que a racionalidade política é um bem escasso. No caso de um propalado mundo sem fronteiras, há que se perguntar quem será o seu gerente, ou os administradores desse consórcio que fará as tratativas de um mundo sem fronteiras.

Vivemos atualmente um momento semelhante ao período de entre guerras, anterior à Segunda Guerra mundial, onde a polarização fanática tem sido a regra e a busca por consensos uma exceção. Nesse estado de espírito atual, tem prosperado o fundamentalismo, e o fanatismo, a evidente ausência de perspectivas históricas.

A busca por consensos, a procura por amplitudes, soa quase como um sonoro palavrão. A globalização financeira já provocou catástrofes econômicas e agora mostra que a tal da internacionalização das cadeias produtivas se mostrou trágica e a pandemia evidenciou a fragilidade das nações, onde não existiam, na maiorias dos Países, nem a produção de máscaras sanitárias ou de ventiladores. A grande maioria das nações tiveram que importar da China.

Qualquer nação que minimamente preze a própria soberania, e pense no seu futuro, precisa se preparar para constituir um novo ciclo para a reconstituição completa da sua cadeia produtiva, inclusive industrial, é o caso do Brasil, ou vai amargar um novo estágio de recolonização financeira, bem mais radical que a atual soberania limitada que vivenciamos.

No Brasil, sob o argumento de irresponsabilidades cometidas, efetivas e reais, a grande ameaça que vivemos é a ofensiva pela internacionalização da Amazônia, um território superior ao da Europa ocidental, com imensas riquezas minerais, aquíferas, biossegurança, potencial de reservas genéticas a ser pesquisado, patrimônio ambiental único no planeta, além de um estratégico ativo geopolítico inigualável no planeta.

Está correto o embaixador Marcos Azambuja, ao alertar para o fato de que com a crescente guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, o País deve se preparar para navegar em águas oceânicas muito turbulentas.

E que uma diplomacia sectária, ideológica, unilateral, alinhada aos Estados Unidos, como a atual, no governo Bolsonaro, nos é extremamente prejudicial.

Devemos propugnar por uma política externa ampla, sempre pautada pelas soluções de conflitos, e acima de tudo com base nos nossos interesses nacionais geopolíticos, comerciais e econômicos.

Enfim, devemos persistir com firmeza por uma política que construa a união das grandes maiorias sociais do povo brasileiro. A polarização extremada, intolerante, irreconciliável que divide a nação não nos convém.

Cabe-nos propugnar pela constituição de uma projeto nacional de desenvolvimento estratégico, reconstruir as nossas plantas científicas e tecnológicas, investir massivamente em educação em todos os níveis, recuperar sob novas bases a nossa cadeia industrial, fortalecer a nossa agricultura.

Porque o mundo atual, e pós pandemia sanitária, não será harmonioso, limpo, ou de solidariedade global. Mas turbulento. Devemos nos preparar, com as nossas tradições pacíficas, e persistência, para navegar em uma realidade geopolítica tempestuosa e cheia de incertezas.

A Construção da Fronteira Sul – A guerra de 1825

  • Blog do Eduardo Bomfim
  • 27/07/2020 21:53
  • Blog do Eduardo Bomfim
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Bastidores da Guerra da Cisplatina: atentados, sequestro, traições, pirataria e muita política no livro de Sérgio Muniz

A chamada Guerra da Cisplatina foi o episódio central que ratificou a criação do Estado brasileiro unitário com a conformação política e geográfica que hoje constitui a herança da República Federativa do Brasil.

Sem dúvida, uma ideia inesperada, se não nova, para muitos, é a tese central do livro “A Construção da Fronteira Sul – A guerra de 1825”, do historiador Sérgio Paulo Muniz Costa, editado pelo Instituo Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS). Uma obra de luxo, com alto padrão técnico e bom gosto gráfico. O conteúdo é impressionante e desenvolvido com um texto moderno, um convite à leitura. 

Nesse livro o autor mergulha na história da primeira guerra internacional do Brasil depois da Independência (ainda na regência de dom João VI, tropas do então Grão-Pará atacaram e tomaram a Guiana Francesa) e sua influência na consolidação da unidade nacional.

O relato narra o resultado positivo do esforço político e militar desse primeiro grande e dramático teste do consenso de forças heterogêneas que produziram a criação do estado unitário e o esforço para a preservação do território herdado. No caso, a secessão da efêmera Província Cisplatina foi um ponto fora da curva.   O atual Uruguai não fez parte efetiva da colonização pela cultura lusitana.  

O autor é coronel da reserva do Exército. Um historiador super qualificado. Atualmente é assessor de imprensa do Vice-Presidente da República, general de exército da reserva Hamilton Mourão. Doutor em Ciências Militares, com uma participação relevante nas áreas acadêmica (nas principais universidades e escolas superiores militares) e diplomática.

Para ratificar sua carreira no segmento, basta destacar que integrou a Junta Interamericana de Defesa da OEA, em Washington e, como historiador, no tema em pauta, defendeu sua tese numa conferência no XXXIX Congresso Internacional de História Militar, em setembro de 2013, em Turim, na Itália com a palestra intitulada “Estratégia do Brasil na Guerra Cisplatina (1825-1828)”, numa sessão que reuniu historiadores austríacos e italianos.  

Ponto central do livro: a guerra contra os hispânicos constituiu o ato final da independência do Brasil, encerrando o ciclo europeu de um processo histórico que se iniciou nos tempos coloniais. Juntando com sua continuidade regional, que vai de 1766 (invasão de Pedro Ceballos ao Rio Grande) e termina na Guerra do Paraguai, em 1870, conclui o desenvolvimento histórico que se completa com o desenho do atual mapa do Brasil.

Como diz o autor Sérgio Muniz (seu nome de guerra nos meios acadêmicos), esta poderia ser a nossa guerra dos cem anos. Normalmente, ele diz, as guerras têm suas denominações históricas atribuídas a posteriori, como a própria Guerra dos Cem Anos (1337 a 1453 entre França e Inglaterra), só assim chamada pelos historiadores dois séculos depois. Também a nossa Guerra da Cisplatina só ganhou essa denominação no futuro: pelos contemporâneos, no Rio de Janeiro, foi chamada de “Guerra do Sul” e, em Buenos Aires, de “Guerra do Brasil”. No seu tempo, o nome de guerra da Cisplatina era dado à campanha da conquista do Uruguai, entre 1816 e 1821, hoje chamada de Guerra de Artigas.

Guerra dos cem anos

Já a nossa guerra dos cem anos ainda está, na historiografia convencional, subdivida em episódios separados, como se fossem eventos independentes entre si. Este cronista, eu também sigo a mesma formulação do coronel Muniz, pois é o que digo em meu livro sobre esse mesmo tema, intitulado “Cem Anos de Guerra no Continente Americano” (Editora Record), subdivido em dois volumes, abordando duas épocas complementares e consecutivas: “Rios de Sangue”, da invasão espanhola até a Guerra da Cisplatina, e “Cinzas do Sul” até o final da Guerra do Paraguai.

Assim como o grande conflito medieval, na região do Canal da Mancha, entre as famílias Plantageneta (inglesa) e Valois (francesa), na América do Sul, esse processo durou quatro gerações da família Bragança, no lado lusitano, começando no reinado de Dom José I e terminando com seu trineto, Dom Pedro II, passando pelos reinados de Dona Maria I, Dom João VI e, já no Brasil independente, de Dom Pedro I (IV em Portugal) e de seu filho Pedro Segundo. No lado espanhol, o confronto ibero-americano se iniciou com a família Bourbon e foi herdado pelas antigas províncias do Vice-Reinado do Prata. Nenhum outro conflito durou tanto tempo no Hemisfério Ocidental.

Isto porque não estamos botando no mesmo saco a guerra entre Buenos Aires e a Colônia do Sacramento, outra disputa direta pelo Rio da Prata, entre portugueses e espanhóis. Iniciadas ainda nos tempos dos bandeirantes, no século XVI, essas guerras coloniais se estenderam das conquistas dos navegadores até o Tratado de Madrid, em 1750, prolongando-se com a Guerra Guaranítica, entre os índios missioneiros e seus mentores jesuítas contra os governos de Lisboa e Madrid, concluída na Batalha de Caiboaté, travada nos subúrbios da atual cidade gaúcha de São Gabriel. Neste caso, juntando tudo, seriam 300 anos de guerra ininterrupta.

Voltando ao livro do coronel Muniz (no final desta resenha vamos mostrar uma parte maior do currículo do autor, que vale a pena), como ele também fez, apresentando os antecedentes do foco de seu trabalho. As guerras são demarcadoras de acontecimentos históricos, como elementos da ação política de governos no seu tempo e determinantes do destino geográfico de estados e de povos. Não são os únicos eventos relevantes.

Nas Américas, entretanto, nenhum outro ponto de tensão e disputa foi tão duradouro quanto a foz do Rio da Prata. Seu controle determinava o futuro dos países da costa do Oceano Atlântico. E assim foi desde que portugueses e espanhóis botaram o pé no Novo Mundo. Estes são os principais atores, mas também, desde os primeiros momentos, franceses e ingleses estiveram pelos mares sul-americanos, sem êxito para deslocar os ibéricos.

Portanto, como ressalta Sérgio Muniz, a Guerra da Cisplatina é apenas, ou muito, um evento exuberante desse contexto que vem da Colônia do Sacramento, passa pela consolidação dos limites dos Tratados de Madrid e Santo Ildefonso e vem até a delimitação atual dos países da região do Mercosul, finalmente integrados, depois de muita briga e de gastarem muita pólvora e fio de espada.

Mão e contramão   

A Guerra da Cisplatina, nesse aspecto, é o mais relevante de todos os conflitos armados, pois ali se decidiu o destino político que mudou o rumo daquela longeva confrontação legada pelos colonizadores, deixada para os novos países decidirem. A partir desses acontecimentos, a colônia lusitana, originada das possessões portuguesas, de que o estado do Brasil fora apenas uma parte, consolidou-se como país continental e unificado. A parte hispânica, integrada pelo Vice-Reinado do Prata e pelo Chile, fraccionou-se. Como num tráfego de estrada, na mão e contramão.

Nesse processo, o antigo Reino do Brasil (aqui só o atual Sudeste brasileiro) conquistou, a ferro e fogo, mas também com boa política, o restante do território colonial, integrado num império unitário; o vice-reinado espanhol estilhaçou-se em vários países ou em províncias ditas unidas, com maior ou menor autonomia, mas relativamente independentes. Foi na guerra contra o império do Rio de Janeiro que Buenos Aires perdeu sua hegemonia. Iniciou o conflito armado à frente de uma força composta por elementos de todas as províncias. Terminou sozinha, em contraste com um Brasil já unificado administrativamente em função do esforço de guerra.

Resultados contrários

A capital portenha só reconquistou essa parte de seu comando político às vésperas da Guerra do Paraguai, com o governo provincial de Bartolomeu Mitre, sustentado, militarmente, com o concurso do Exército Imperial, estacionado em Concórdia (antiga Índia Muerta) dentro do território argentino, pronto a se deslocar e intervir no quadro interno daquele País, para manter o governo de ideologia liberal, alinhado com os liberais brasileiros de  Zacarias de Góes e os uruguaios Venâncio Flores, de Montevidéu. O inimigo comum, o ditador paraguaio Solano Lopez era o bode expiatório nesse corte da narrativa.  Parece lembrar os tempos recentes da “entente” de Lula da Silva, Néstor Kirchner e Tabaré Vasquez.

Nessa abordagem, o evento histórico da Guerra da Cisplatina foi uma grande vitória para o Rio de Janeiro, que saiu do conflito comandando um grande império, na época o país de maior extensão territorial do mundo. Perdeu Buenos Aires, que nunca mais recuperou suas províncias da Banda Oriental do Uruguai, do Paraguai, do Alto Peru (atual Bolívia) e, ainda, ficou por mais 40 anos com meia soberania sobre sua hinterlândia, reduzidas apenas a um mambembe arranjo de “províncias unidas”, que mais eram dissidências ativas do que um modelo federativo. Tudo isto está claramente bem desenvolvido no livro de Sérgio Muniz.

Guerra secreta

O livro é muito completo. Entretanto, não se pode deixar de mencionar o detalhamento de ações paralelas ao epicentro do conflito, que o qualificam como algo inteiramente novo no panorama bélico da América do Sul daqueles tempos. A situação era de guerra total, com ações marítimas ao longo de toda a costa atlântica do subcontinente. No mar, corsários armados por Buenos Aires que assolaram o litoral brasileiro, realizando pilhagens e ações estratégicas por toda a orla, desde o Pará até o litoral do Rio Grande do Sul. Em contrapartida, a Marinha Imperial realizou operações ofensivas na Patagônia e houve confrontos navais até nas costas da África.

Nem mesmo a Guerra da Independência dos Estados Unidos ou  as campanhas de San Martin, no Chile e Peru, ou de Simon Bolívar nas atuais Venezuela, Colômbia (Nova Granada, na época), Peru e Alto Peru (Bolívia) alcançaram tamanha abrangência geográfica. Além disso, o território brasileiro (sem contar a Cisplatina, então ainda reconhecida internacionalmente com território parte do Brasil), teve três invasões de exércitos inimigos, esta aqui narrada comandada pelo general de Carlos Alvear, que é o tema deste livro, mas as outras duas, uma nas Missões, liderada por Frutuoso Rivera, e outra tentativa argentina na região da Lagoa Mirim.

Sérgio Muniz detalha também a guerra secreta realizada pelos inimigos platinos, que tentam desestabilizar o governo brasileiro e, mais do que isto, criar situações políticas que levassem ao rompimento da frágil unidade nacional construída por José Bonifácio de Andrada, no processo da Independência no início daquela década de 1820.

Além das ações militares, assim chamadas, realizadas pelos exércitos de terra e pelas forças navais dos dois países, os governos de Buenos Aries (principalmente os presidentes Bernardino Rivadavia e Manuel Dorrego) organizaram operações secretas de grande envergadura, até então desconhecidas nos meios sul-americanos.

A mais espetacular seria o sequestro e, eventualmente, o assassinato do imperador Dom Pedro I. Os estrategistas argentinos acreditavam que a unidade nacional brasileira se devia ao imperador e sua legitimidade. O desaparecimento do monarca seria o suficiente para que metade do Brasil se sublevasse. Com isto acabariam com a guerra e concluiriam a re-anexação do Uruguai às Províncias Unidas, como então se chamava a Argentina.

Um segundo objetivo seria impedir que as antigas colônias portuguesas se mantivessem como uma unidade política. Havia a certeza de que um país tão grande territorialmente acabaria por se impor e, inevitavelmente, teria as hegemonias política e econômica da região. Esse lugar seria reservado para os herdeiros do Vice-Reinado do Prata recomposto, que Rivadavia havia conseguido reunir para enfrentar o inimigo externo, mas que se esboroava com o insucesso militar nos campos de batalha. Outra operação secreta fracassada foi o levante dos mercenários no Rio de Janeiro, com o objetivo de conquistar Santa Catarina.

Sequestro do imperador

Tanto uma quanto outra operação só foram conhecidas na década de 1940, graças as pesquisas do diplomata Sérgio Correia da costa, então secretário da embaixada do Brasil em Buenos Aires, em 1944/45.

As três tentativas de atentado contra Dom Pedro I eram inteiramente desconhecidas pelos historiadores, tanto brasileiros quanto argentinos, até então. O jovem secretário de embaixada (depois foi um importante embaixador), historiador e diplomata, encontrou os documentos, que estavam perdidos numa gaveta do Museu Mitre, em Buenos Aires. 

A primeira tentativa de eliminar o soberano brasileiro, ainda no governo Rivadavia, seria realizada pelo corsário francês Carlos Fournier, mas que não chegou à fase final de planejamento porque o navio do pirata foi atacado pela Marinha Imperial e teve de se retirar dos mares, voltando ao Prata. O plano era capturar o imperador, levando-o como prisioneiro ou seu cadáver.

Nas duas outras tentativas, na de Rivadavia ou no governo Dorrego, o executor seria o corsário inglês John Holstead Coe. Na primeira, o navio corsário Congreso deveria aportar em Sepetiba, no litoral fluminense, lançando um comando que deveria sequestrar o imperador e levá-lo vivo ou morto, capturado quando estivesse na fazenda de sua família em Santa Cruz, hoje subúrbio do Rio de Janeiro e sede uma poderosa guarnição da Força Aérea.

Na outra tentativa, com o navio Níger, o pirata Coe desembarcaria um sicário numa praia próxima à capital, que entraria na cidade para matar Dom Pedro quando o imperador estivesse passeando sozinho no Jardim Botânico, um logradouro regular do monarca para se exercitar. Também não chegou a ser levado a cabo.

O terceiro projeto secreto era mais mirabolante. A ideia seria subornar os comandantes das unidades de mercenários alemães e irlandeses do Rio de Janeiro, transportá-los até Santa Catarina, tomar a ilha e declarar a província como país independente, para isolar o Rio Grande do Sul e criar um novo estado alinhado com Buenos Aires.

O projeto não funcionou porque, primeiro, a força tarefa naval que transportaria os rebeldes do Rio para o sul foi destruída pela Marinha Brasileira, quando realizava operações de corso no litoral norte do País. Depois, os rebeldes tentaram ir por terra, mas sequer conseguiram sair da cidade, cercados por tropas nativas leais. No fim, tudo acabou com o fuzilamento do mercenário August Steinheusen, que assumiu a culpa de tudo. O episódio, que envolveu todas as unidades de soldados estrangeiros (2º BC, 10º BC, 28º BC e 5º de Granadeiros), foi registrado oficialmente como um motim disciplinar, e assim ficou até ser desvendado por Sergio Correia da Costa como um projeto de traição, levado a efeito por dois espiões argentinos bem colocados junto à administração pública brasileira, o mineralogista Frederico Bauer, e o comerciante na praça de Montevidéu Antonio Martin Thym. Nenhum dos dois foi descoberto. Seus nomes emergiram dos documentos localizados pelo diplomata do Itamaraty.

Grosso calibre

“A Construção da Fronteira Sul” é um livro de grosso calibre. Seu conteúdo vai a fundo nos processos militares, políticos e diplomáticos que envolveram as duas principais potencias sul-americanas nesses momentos cruciais de formações e definições de suas fronteiras. Estes bastidores são relevantes para demonstrar onde o novo país foi jogado na realidade de sua independência política e tendo que arcar com responsabilidades e consequências.

A situação do nascente Brasil era dramática. Politicamente, o País estava órfão, assim dizendo com certa liberdade de expressão, pois na sua volta a Portugal o rei Dom João VI levou com ele à Europa não só o tesouro nacional, como se diz, para demonstrar a penúria em que deixou seu filho regente, mas também seus gestores, seus juízes, seus chefes militares, toda a superestrutura que um estado independente demanda para se envolver numa guerra externa. Foi um desafio sem tamanho, que não pode ser medido pela régua a que muitos historiadores submetem aqueles momentos. Sérgio Muniz bota os pontos nos íis.

O retorno da Corte para Lisboa em abril de 1821 provocou não apenas um raspa nos cofres públicos brasileiros, como também uma debandada da classe política. Embora a Revolução Americana e os processos de independência e criação das repúblicas hispano-americanas sejam festejados pelos historiadores hemisféricos como fatos políticos e sociais de relevância muito superior em complexidade à independência do Brasil, aquela transição de Reino para Império foi uma transformação mais profunda e muitíssimo mais rápida.

No curto espaço de um ano e pouco o País sofreu uma amputação total de seus membros, e assim mesmo soube caminhar na situação que se criou. Como foi isso? O livro dá uma informação bastante precisa, pois a guerra da Cisplatina foi o fecho desse processo, que consolidou a unidade nacional, firmou no poder as novas elites e deu consistências às Forças Armadas que, dali até hoje, são os garantes da unidade territorial e política do Brasil.

No Hemisfério Norte, a independência dos Estados Unidos foi um processo que levou anos, podendo dizer-se que o ato se completou com a guerra de 1812 contra a Inglaterra e a incorporação definitiva da Louisiana. Quase meio século de lento expansionismo até chegar à base territorial com que se lançou, e só chegou ao país continental, de dois oceanos, no quarto final do Século XIX com a incorporação do extremo oeste.

O Brasil já estreou com mais de oito milhões de quilômetros quadrados, quando a Rússia ainda se batia nos Bálticos para incorporar territórios que hoje constituem repúblicas independentes ou ermos tão distantes quanto os urais, no extremo oriente.

Aqui na América, os hispânicos levaram mais de 20 anos desde o rompimento com a metrópole, para consolidar suas independências e delimitar minimamente os territórios de cada estado. O México chegou a ter um rei europeu (primo-irmão de nossos imperadores), finalmente fuzilado.

Na mesma quadra histórica, ou seja, no bojo da desordem europeia provocada por Napoleão Bonaparte no início do século XIX, o Brasil, em pouco mais de um ano, consolidou sua unidade territorial e, contando tudo, entre o levante da Bahia em 1821 e a eleição e posse da  Constituinte, em 1823, gastou mais um pouco, cerca de dois anos, e, mais cinco, até o reconhecimento da independência e a secessão da Cisplatina, que terminou, finalmente, nas fronteiras inquestionáveis por seus vizinhos e pela comunidade internacional.

É verdade que essas questões se desenvolveram até o início do século XX, num processo comandado basicamente pelo Barão do Rio Branco, mas aí já foram desenvolvimentos diplomáticos e jurídicos. Conquistados a bala foram os movimentos territoriais do entorno da independência, com a anexação, primeiro, do Norte e Nordeste, e, depois, nas revoltas regenciais, a consolidação do Império e da liderança do Rio de Janeiro como capital nacional. Isto foi um feito político que desemboca na guerra da Cisplatina, de efeito contrário no Rio e em Buenos Aires.

O salvador da pátria

“Há males que vêm pra bem”, diz o gaúcho campeiro para explicar o inexplicável. No caso do Brasil, caiu do céu um político que reuniu, rapidamente, todas as condições para liderar o processo de independência e superar as contradições internas, compor os interesses (econômicos e sociais), superar as rivalidades (regionais e políticas), compor forças heterogêneas, articular aliados regionais e internacionais. Este homem foi José Bonifácio de Andrada e Silva, hoje reconhecido como o Patriarca da Independência.

Embora já estivesse afastado do governo quando se deu o conflito platino, fora do Brasil, exilado pelo governo e antagonizado com as forças políticas, José Bonifácio foi o autor do amalgama (metáfora de sua autoria, com inspiração mineralógica) que soldou a unidade nacional permitiu ao um país recém-saído dos cueros enfrentar uma república já musculosa, adolescente, como era a união argentina liderada por Buenos Aires, quando estourou o conflito na Banda Oriental.

José Bonifácio caiu de paraquedas no Reino do Brasil como se fosse um ET desembarcado de um disco voador. Idoso para a época (56 anos), aposentado de uma carreira acadêmica e técnica na Europa, desenvolvida num país agonizante como era Portugal, ocupado por uma potência estrangeira e administrado por um governo militar. Este homem chega ao seu país, para esperar o fim de seus dias, como era seu propósito, e, diante do vazio político e da grande crise provocada pelo retorno da classe dirigente e da rapina econômica, assume o comando da nave que velejava numa neblina espessa. Por ter feito toda sua vida fora do País, não estava comprometido com as forças políticas remanescentes, não tinha passivo a resgatar com as dissenções internas, podendo, com isto, colocar-se livremente no centro dos acontecimentos. Assim José Bonifácio conduziu o país pela figura do príncipe herdeiro, dom Pedro de Alcântara. Com mão de ferro, astúcia e visão na única direção possível: manter a unidade territorial a qualquer custo.

Essa manobra foi possível porque o Patriarca conseguiu unir, na hora do epicentro do furacão, todas as forças antagônicas, abandonando as divisões e concentrando nas convergências. Por exemplo: ele precisou compor com os traficantes escravistas para conseguir o dinheiro vivo para comprar à vista uma marinha de guerra e contratar em moeda sonante tripulações de marinheiros estrangeiros para expulsar as tropas portuguesas que ocupavam duas cidades chave do reino, Salvador e Montevidéu, e conquistar as capitais do norte e o nordeste, onde as elites confusas ameaçavam aderir a projetos divisionistas.

Num ambiente para lá de provinciano, ele logo percebeu a urgência de se articular no âmbito internacional. Ainda antes do Grito do Ipiranga mandou delegação à Argentina, aproximou-se da Inglaterra, conseguiu o reconhecimento dos Estados Unidos e obteve uma certa complacência de Dom João VI ao acenar com a unidade territorial do Reino.  É bom lembrar que as grandes potências da Santa Aliança (Áustria, Prússia e Rússia) não viam com bons olhos a formação de um país gigante na América do Sul.

Ao compor as convergências passando por cima das divergências, José Bonifácio criou uma espécie de protocolo que veio a ser uma escola de política no Brasil. As grandes questões nacionais passaram, desde então, a se resolverem em consensos de forças heterogêneas. Isto ocorreu com os impasses, desde a Maioridade, passando pela Guerra do Paraguai, Abolição, República, 1930, participação na Segunda Guerra Mundial, Redemocratização e bem possivelmente o Brasil encontrará essa mesma solução para sair do mergulho no escuro produzido pela debacle da pandemia do novo coronavirus.

A Guerra da Cisplatina foi um desses momentos. Ao formar um exército com tropas originárias de todas as províncias, dando fôlego a uma Marinha que defendeu o território ao longo de todo o litoral e levou a guerra às ribeiras e costas do inimigo, da foz do Amazonas até as beiradas do Círculo Polar, a força armada e o inimigo externo concluíram a solda aplicada por José Bonifácio, como única saída, por sinal.

Foi essa vitória política que permitiu ao Brasil desorganizado enfrentar uma potência como a Argentina, pois embora ainda muito jovem, já tinha mais de 10 anos de guerra, uma força terrestre respeitada e vitoriosa, o Exército dos Andes, que foi usado para a invasão do Brasil e combateu na Batalha do Passo do Rosário. É uma história vibrante, épica e muito útil para conhecimento do Brasil contemporâneo, para ver o País real, multiétnico e multiterritorial, com uma tradição política positiva para solução de seus problemas.

Foco na guerra

O foco do livro é a guerra em si. O autor é um historiador militar. Ele enfrenta um grande desafio, como diz, na apresentação, o general de exército Jonas Correia Neto, membro ativo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul e do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil: “A Guerra da Cisplatina é muito mais do que um tema. É uma temática – rica, enredada, confusa, provocativa, repleta de gente, transbordante de ações, vibrante nos episódios, desafiadora nos enfoques, nas interpretações, nas conclusões. Pródiga em consequências”. Sérgio Muniz faz jus a esta proposição.

Ao longo da obra, Muniz percorre todo esse processo histórico e detalha as operações e as estratégias que levaram os comandantes a tomarem tal ou qual decisão. Os argentinos tentando tomar o território uruguaio para incorporar a banda oriental ao projeto territorial da nação argentina, enquanto o Brasil realizava uma campanha defensiva, sem atacar o território inimigo. As tropas brasileiras mantiveram o controle político da Cisplatina, controlando a capital Montevidéu e a principal cidade ribeirinha, Colônia.

Os argentinos tinham como objetivo estratégico a cidade de Porto Alegre, capital da província de São Pedro do Rio Grande, e como objetivo secundário, somente revelado nas pesquisas do embaixador Correia da Costa, a cidade de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis. Ou seja: a invasão argentina nunca ameaçou diretamente os centros vitais tanto da Cisplatina como do Rio Grande do Sul (Santa Catarina sequer foi atacada), desenvolvendo-se em marchas, contramarcas, combates e batalhas nos desertos dos pampas, onde se encontravam apenas pequenos povoados, como Bagé, São Gabriel ou Jaguarão.

A ação estratégica do governo brasileiro, que decidiu a guerra, foi no mar. A novel Marinha Imperial conseguiu isolar o tráfego naval no Rio da Prata e sufocar a economia argentina, a ponto de Buenos Aires interromper suas ofensivas terrestres e propor um tratado de paz. Neste sentido, os argentinos foram derrotados, pois não conseguiram alcançar seus objetivos políticos e territoriais.

A proposta portenha era de uma desistência da soberania sobre a banda oriental, retirada brasileira do Uruguai e a incorporação da Cisplatina à federação da Províncias Unidas do Rio da Prata. O projeto Rio de Janeiro era criar um novo estado de demarcação definitiva da fronteira Sul, que consistia no maior problema político do Império naquele momento. Acabou prevalecendo o objetivo estratégico brasileiro (embora houvesse, no Rio, grupos que defendessem manter a Cisplatina integrada ao Brasil).

Quanto ao Exército, conclui-se que cumpriu sua missão de defender a integralidade do território brasileiro. Com todas as suas dificuldades, o Exército do Sul conseguiu forçar o Exército Republicano (nome dado à força argentina) a se retirar do Rio Grande do Sul em todas as suas investidas. Por outro lado, as forças que ocupavam as grandes cidades uruguaias mantiveram-se intactas. Ou seja: o inimigo não ocupou (nem mesmo atacou frontalmente) a capital brasileira, no caso Montevidéu.

Muniz conta como a guerra no Sul teve pouca repercussão no Rio de Janeiro. A classe política brasileira, digamos assim, usando o jargão de hoje, não conseguia entender o que estava ocorrendo naqueles ermos dos pampas gaúchos e nos mares além da Baia da Guanabara. A oposição aproveitava a confusão para bater no governo de Dom Pedro. Diziam que aquele conflito não passava de uma revolução interna, sem dar crédito à guerra internacional em que o País se metia, dando espaço para que os hispânicos organizassem o maior exército que se armou no subcontinente naqueles tempos. Nem mesmo as guerras da rica e desenvolvida Nova Granada contra o Reino de Espanha teve tantos combatentes e tanto poder de fogo como nos momentos decisivos da Guerra da cisplatina, entre 1825 e 1826.

Esta é a conclusão do historiador Sérgio Muniz. Considerando na sua totalidade, o Império teria vencido a guerra, por ter alcançado seus objetivos estratégicos, quando o inimigo foi obrigado a recuar em suas propostas. O resultado final, entretanto, foi a queda dos dois governos, tanto no Rio como em Buenos Aires. Como sequelas da guerra, o imperador Dom Pedro I foi levado a uma crise que terminou com sua abdicação; na Argentina o governo Rivadavia caiu e a precária unidade nacional esfacelou-se.

Entretanto, diante de uma batalha com resultado controvertido, no Passo do Rosário, no rio Santa Maria, próximo à atual cidade de Rosário no Rio Grande do Sul, pois ambas as forças se retiraram do campo de batalha antes da destruição total do inimigo, ambos os lados cantavam vitória. Nessa batalha bateram-se cinco presidentes de república em seus países: Carlos Alvear já havia sido diretor-geral da Argentina, cargo do chefe do Executivo; Manuel Oribe, Fructuoso Rivera, Juan Antonio Lavalleja, foram presidentes do Uruguai; e Bento Gonçalves presidente da efêmera república Rio-Grandense. Recentemente, em função da política de boa vontade com seus vizinhos, o Brasil abriu mão de considerar uma vitória a Batalha do Passo do Rosário. Sergio Muniz rejeita essa concessão nitidamente política de um fato histórico, e defende que o Exército do Sul de fato teve um resultado positivo.

Um autor prolífico

Coronel do Exército Brasileiro, o escritor Sérgio Paulo Muniz da Costa proferiu palestras sobre História Militar nas universidades USP e Unicamp, na Escola de Comando e Estado Maior do Exército e na Associação dos diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), além de sua destacada participação como palestrante no 39º Congresso Internacional de História Militar, em Turim, na Itália, em 2013. É autor dos livros: “Os Pilares da discórdia: fundamentos de uma incerteza” (BIBLIEX), “Diálogos: acontecimentos de história no Brasil contemporâneo” (UFPR), e “Idade Média: mil anos no presente” (PUCRGS). Gerenciou o projeto de recuperação, restauração e valorização de fortes históricos em Salvador-BA, chefiou a Seção de Ensino de Geografia e História Militar da Academia Militar das Agulhas Negras-RJ, e foi Delegado do Brasil na Junta Interamericana de Defesa, em Washington-DC, nos Estados Unidos. Atualmente é assessor de imprensa da Vice-Presidência da República, em Brasília.

Intérpretes do Brasil – José Bonifácio de Andrada e Silva

  • Felipe Maruf Quintas
  • 11/07/2020 21:22
  • Blog do Eduardo Bomfim

Este é o primeiro de uma série de artigos de Felipe Quintas sobre os intérpretes do Brasil. O Instituto Bonifácio promoverá, a partir da série, o curso Intérpretes do Brasil, a ser ministrado pelo próprio Felipe Quintas.

José Bonifácio de Andrada e Silva (Santos, 1763 – Niterói, 1838), o Patriarca da Independência brasileira, foi um caso raro, na História mundial, de um homem ao mesmo tempo de ciência e de ação política.

Conhecido nos principais círculos intelectuais europeus, foi um dos maiores mineralogistas de sua época, responsável pela descoberta de quatro minerais, entre eles a petalita, a partir da qual se extrai o lítio e a andradita, batizada em sua homenagem.  Ocupou a cátedra de Metalurgia na Universidade de Coimbra e também funções de destaque na administração pública portuguesa, onde se empenhou em desenvolver, pela ação do Estado, a mineração e a siderurgia nacionais.

Em 1808, quando da invasão napoleônica a Portugal, comandou batalhões portugueses contra as tropas francesas.

Tendo retornado ao Brasil em 1819, assumiu papel de destaque na Independência, por ele chamada “Revolução Brasílica”. Foi iniciada em reação ao intento das Cortes portuguesas de recolonizar o Brasil e fazê-lo voltar ao estatuto pré-1808, o que Bonifácio foi um dos primeiros a denunciar, ainda que tivesse sido até então um ardente defensor do Império luso-brasileiro sediado no Brasil.

Tendo sido ministro do Reino e dos Negócios Estrangeiros de janeiro de 1822 a julho de 1823, comandou com mão firme a Guerra de Independência contra Portugal e atuou com severidade contra as facções radicais, por ele chamadas de “anarquistas”, e as reacionárias, por ele chamadas de “corcundas” e “pés de chumbo”. Nesse processo, organizou o Exército e a Marinha brasileiros, bem como a diplomacia, tendo contado com a importante colaboração da Imperatriz Maria Leopoldina. Dessa maneira, estabilizou o cenário político na Independência e impediu que o País se fragmentasse. Após ter sido demitido do Ministério, fundou, junto aos seus dois irmãos, o jornal nacionalista O Tamoio. Em seguida, foi eleito, também com os irmãos, deputado constituinte em 1823, incendiando os debates com ousadas propostas nacionalistas e abolicionistas. Quando da dissolução da Assembleia Constituinte, perdeu seu mandato, foi preso e exilado.

Em sua trajetória política, exerceu a função de estadista consoante uma interpretação do Brasil, segundo a qual o nosso País, mais do que uma Nação, seria, pela sua grandeza e fertilidade, um Império e uma Civilização singular, de caráter mestiço e autossuficiente em termos materiais e culturais. Foi o primeiro a elaborar e colocar em prática um projeto nacional de emancipação política, desenvolvimento econômico e justiça social à altura das amplíssimas potencialidades brasileiras.

Para tanto, ele defendia a edificação de um Estado unitário que, por um Poder Executivo enérgico, constituísse “um centro comum de União e de força entre todas as Províncias deste vastíssimo País”, de modo a resguardar e aperfeiçoar “a responsabilidade e harmonia mútua entre os Poderes Civil, Militar e Financeiro” e “desempeçar o caminho para o aumento da civilização e riqueza progressiva do Brasil”, conforme expresso no Manifesto da Independência, redigido por ele e proclamado por Dom Pedro I. Ou seja, um Estado capaz de dirigir e coordenar a Nação, dando-lhe a musculatura institucional necessária para a manutenção da ordem e a condução do progresso.

Sua defesa da monarquia constitucional centralizada não derivava de nenhum apreço ao passado como tal, mas à consideração pragmática e realista de ser essa a forma de governo mais adequada para preservar a unidade nacional de um país de grande extensão territorial como o Brasil. Esse posicionamento encontrava respaldo na observação empírica do sucesso das experiências europeias de centralização territorial pela via monárquica – sendo o caso mais marcante o da Rússia, único país que, à época, superava o Brasil em território -, do malogro do republicanismo na América Hispânica em evitar a balcanização e a conflagração das ex-colônias espanholas e do exotismo da forma institucional federalista adotada nos EUA, país de formação, raízes e tradições muito distintas.

A proposta do Patriarca de transferência da capital para o interior, mais especificamente para o Planalto Central visava promover essa centralização política na base física do País.

O exercício da autoridade estatal em todo o território viabilizaria a integração nacional pelo desenvolvimento produtivo e social. Em sua concepção, o eixo econômico e demográfico brasileiro deveria ser deslocado para o interior, amplificando-se na imensa base continental. Daí a necessidade, segundo ele, de ocupar o interior por meio de empreendimentos estatais de infraestrutura e de fomento à agricultura, à mineração e à indústria, entendidas como complementares entre si.

Para isso, Bonifácio propunha a criação da Direção Geral de Economia Pública, órgão estatal responsável pelo planejamento e execução de tais iniciativas, de maneira também a estimular a criação de um empresariado nacional ainda inexistente. Em muitos aspectos, e com mais de um século de antecedência, a Direção Geral de Economia Pública assemelhava-se ao famoso MITI japonês (Ministério do Comércio Exterior e da Indústria), responsável pela alavancagem econômica do Japão após a II Guerra Mundial.

Suas ideias sobre preservação ambiental eram subsidiárias, não antagônicas, ao desenvolvimento agrícola e industrial, pois a racionalização do uso do solo e das riquezas naturais seria condição indispensável para a manutenção das atividades produtivas e das condições de antropização da continentalidade brasileira.

O Patriarca também defendeu, de maneira incisiva, a abolição gradual da escravidão e do tráfico negreiro, chegando a apresentar um projeto de lei nesse sentido durante o seu mandato de deputado constituinte em 1823, conhecido como Representação sobre a Escravatura. Não lhe interessava apenas abolir a escravidão, mas também, e sobretudo, os seus efeitos funestos em termos de desigualdades sociais e aviltamento humano e produtivo do País.

Então, ele defendeu a execução de uma reforma agrária que coibisse o latifúndio e distribuísse terras aos negros libertos, aos indígenas e aos brancos pobres, bem como fornecesse instrução formal e assistência técnica a esses grupos. Não por menos, advogou pela criação de escolas e universidades em todas as províncias, para “espalhar pelo Povo os conhecimentos, que são indispensáveis para o aumento, riqueza e prosperidade da Nação”. Em sua concepção, os negros e os índios deveriam ser incorporados, de forma pacífica e consistente, ao progresso nacional, cabendo haver, inclusive e na contramão do racismo imperante, o estímulo público à homogeneização étnica e social do Brasil pela miscigenação entre eles e os brancos, com o fito de assegurar a unidade nacional.

O caráter desenvolvimentista e social do projeto nacional de Bonifácio inseria-se no plano maior de avançar a Independência do Brasil em relação aos âmbitos comercial e financeiro relativos à Europa, sobretudo à Inglaterra, não limitando a emancipação nacional à libertação política a Portugal. Sendo o Brasil dotado de inesgotáveis recursos, não dependeria do comércio com os países centrais para prover seu próprio sustento. O Brasil deveria orientar suas atividades para dentro, e não mais para o exterior, rompendo definitivamente com o estatuto colonial.

Ele o seu irmão Martim Francisco, 1º Ministro da Fazenda do Brasil, foram, nas ideias e na prática, ferrenhos opositores do livre-comércio, do endividamento externo e da submissão do País a grupos financeiros. Martim Francisco, com o aval do irmão e contrariamente aos interesses britânicos, elevou as tarifas alfandegárias sobre produtos importados, recorreu a um empréstimo interno para sanear as contas públicas, impedindo a tomada no exterior, e reestruturou o Banco do Brasil, salvando-o momentaneamente da bancarrota no intento de torná-lo, enquanto banco estatal, a agência central de crédito do País. Ambos criticaram veementemente os empréstimos externos, o arrendamento das finanças e os tratados comerciais desfavoráveis ao Brasil, feitos logo após a saída deles do governo.

A autossuficiência do Brasil também foi utilizada por Bonifácio como instrumento dissuasório para obter da Inglaterra o reconhecimento da Independência, em admirável postura soberanista. Na Instrução diplomática endereçada a Felisberto Caldeira Brant Pontes, representante do Brasil na Inglaterra, o Patriarca escreveu: “Este Reino […] está resolvido a fechar seus portos a qualquer Potência que não quiser reconhecer nele o mesmo direito que tem todos os Povos de se constituírem em Estados independentes […]. O Brasil não receia as Potências Europeias, de quem se acha apartado por milhares e léguas, e tampouco precisa delas, por ter no seu próprio solo tudo que lhe é preciso”.

A fim de zelar por essa autossuficiência, caberia ao País constituir sólida defesa nacional para proteger e defender o seu patrimônio físico e humano. Daí o já citado esforço empreendido por Bonifácio de organizar o Exército e a Marinha nacionais, bem como um serviço de inteligência, por ele chamado “alta polícia estrangeira”, para vigiar e espionar outros países – no que ele incluiu nominalmente EUA e Inglaterra -, de maneira a fazer valer os interesses do Brasil no mundo. Como ele afirmou, em passagem citada por Glycon de Paiva, membro da Assessoria Econômica de Getúlio Vargas, em artigo presente no Volume 1 das Obras Científicas, Políticas e Sociais de José Bonifácio de Andrada e Silva: “Pão, pólvora e metais são o que sustenta e defende as nações: sem eles de próprio fundo, são precárias a existência e a liberdade de qualquer Estado”.

Por fim, em seus esforços para assegurar a soberania nacional, Bonifácio, em Instruções diplomáticas a Correa da Câmara e Rivadavia, representantes do Brasil nos Estados do Prata, propôs a seus respectivos governos a formação de uma Confederação entre o Brasil e os países da América Hispânica para juntos se defenderem contra o imperialismo europeu. Bonifácio antecipou-se ao presidente estadunidense James Monroe, idealizador da Doutrina Monroe, ao propor um pacto de defesa continental liderado pelo Brasil.

Significativamente, os EUA não seriam abrangidos, o que sinaliza para possíveis desconfianças que o Patriarca já tinha em relação ao país cujos líderes declaravam pretensões imperialistas, a exemplo do Destino Manifesto e dos Artigos Federalistas, que posteriormente tornar-se-iam a realidade da sua política externa.

Integrando as dimensões política, econômica e militar em um projeto nacional, o Patriarca orientava sua liderança no sentido de romper a subordinação brasileira, em todos os sentidos, às potências europeias e ao comércio atlântico com elas. O intuito era fazer o Brasil emergir como potência mundial, altiva para fora e generosa para dentro. 

Não admira que, na sua vida política no Brasil, Bonifácio tenha colecionado, entre as oligarquias, mais desafetos que aliados, e tenha pagado o preço com a prisão por mais de uma vez, o exílio e o ostracismo ao final da vida, levada por ele de forma pacata em Niterói. Seu projeto nacional ameaçava interesses e preconceitos arraigados, todos voltados para manter o Brasil escravocrata, primário-exportador e subjugado à Inglaterra, mesmo depois da sua Independência.

Todavia, o Patriarca inspirou inúmeros movimentos posteriores de libertação nacional, como o abolicionismo, que o considerava um mentor; o positivismo, que resgatou a sua memória como Pai da Pátria, defensor de um Poder Executivo forte e protetor dos índios; a Revolução de 30, cujos programas educacional e de implementação da mineração e da siderurgia nacionais foram abertamente inspirados nas suas ideias.

Ainda hoje, a sua visão e interpretação de Brasil permanece atual e por ser feita. O desafio de formar o Brasil soberano, desenvolvido e fraterno mantém-se de pé. A memória de José Bonifácio ilumina os fundamentos da Independência brasileira, em sentido formal e substantivo. A importância em fazê-la viva na prática política consiste em que, como ele afirmou: “sem independência não há para as nações nem constituição, nem liberdade, nem pátria”.

Referências para o estudo do pensamento e da obra de José Bonifácio:

– Obras Científicas, Políticas e Sociais de José Bonifácio de Andrada e Silva (3 volumes). Coligidas e Reproduzidas por Edgard de Cerqueira Falcão. Câmara dos Deputados, 2006.  

– José Bonifácio de Andrada e Silva: Projetos para o Brasil. Organizado por Miriam Dohlnikoff. Companhia das Letras, 1998.

– José Bonifácio. Autor: Octávio Tarquínio de Sousa. Biblioteca do Exército, 1974.

– José Bonifácio e a Unidade Nacional. Autora: Therezinha de Castro. Biblioteca do Exército, 1984.

– O Homem que Inventou o Brasil – Um Retrato de José Bonifácio de Andrada e Silva. Autor: Geraldo Lino. Capax Dei, 2019.

– 1822. Autor: Laurentino Gomes. Globo, 2010.

– A Era Vargas (vol.1, cap. 5 – A Revolução de 30 retoma propostas de José Bonifácio). Autor: José Augusto Ribeiro. Casa Jorge, 2001.

Notícias do Brasil

  • Redação
  • 07/07/2020 01:04
  • Blog do Eduardo Bomfim

A grande mídia anuncia o que todos já previam: a crise social no mundo será uma segunda onda, um tsunami decorrente da pandemia do corona vírus 19. O setor de serviços, que mais emprega gente, será o mais afetado no Brasil. Serão milhões de desempregados, isso não contabilizando aqueles que se encontram entre os chamados informais, que representam um número bem maior de pessoas.

Enquanto uma jornalista de economia dessa mesma mídia nos informa, pela TV a cabo, que há trilhões de dólares especulativos voando através das “nuvens” digitais, em busca de “oportunidades” para serem aplicados em algum investimento rentável, em qualquer oportunidade que apareça, como se essa fosse uma grande notícia.

Essa globalização dos fluxos financeiros especulativos, desgarrados de investimentos produtivos, que não geram riquezas, é uma das maiores catástrofes dos tempos contemporâneos, que se consolidou enormemente a partir do novo milênio.

A Bíblia sagrada, não me julgo um dos seus conhecedores, mas que nem por isso deixa de ser um dos maiores livros da humanidade, é, também, em termos literários, uma compilação de grandes narrativas Históricas, em forma de parábolas.

Mas se a Bíblia fosse reescrita nos tempos atuais, a globalização financeira constaria como uma das “sete pragas” da humanidade e excluiria delas a pandemia sanitária do corona vírus, com as suas terríveis consequências, pela razão que as pandemias são recorrentes, de tempos em tempos, na História humana.

No entanto, o ministro Paulo Guedes, em entrevista concedida à Globo News, reafirma os seus postulados neoliberais ortodoxos, anunciando para em breve uma onda de privatizações, com o objetivo de relembrar ao Mercado Financeiro, os compromissos do governo Bolsonaro para com o capital especulativo global.

E ao mesmo tempo demonstra total ausência de preocupação com o caos social e econômico já instalado no País desde antes da pandemia, mas agravado com os efeitos trágicos do corona vírus. Como se sabe, o foco do ministro é para com o capital rentista, e a destruição do patrimônio estatal do Brasil.

Para ele, os investimentos públicos são responsáveis pela corrupção no País e portanto devem ser extirpados, assim como as próprias empresas que são patrimônio do Estado brasileiro. Um argumento delirante, se não fosse um atentado contra os interesses nacionais.

Já o presidente Jair Bolsonaro continua tratando a pandemia sanitária como se fosse mera gripe sazonal, enquanto cálculos aritméticos, razoavelmente primários, indicam que até o fim do ano podemos chegar entre 150 a 200 mil mortos vítimas do corona vírus no Brasil.

E o ex-juiz Sérgio Moro, em entrevista exclusiva na televisão, afirma que a questão estratégica do País é o, óbvio, combate à corrupção.

Não falou, nem foi perguntado, sobre as fartas denúncias do pacto da operação da Lava Jato com o FBI e a NSA, agências de inteligência norte-americanas, para mover ações contra a Petrobrás e outras empresas estratégicas nacionais. Como se isso não caracterizasse graves atentados contra a segurança nacional.

Pacto de colaboração, formal e informal, que, aliás, é vigente desde os governos do Partido dos Trabalhadores. Cujas consequências abriram um vácuo político no País, sendo uma das causas responsáveis pela eleição do atual presidente Bolsonaro.

A pergunta que não quer calar é: qual a nação de grande porte no mundo, como o Brasil, permite, oficialmente, tal ingerência nos seus assuntos internos, venha de onde vier, sem pagar alto preço econômico e em sua soberania?

Enquanto isso, trava-se uma guerra ideológica, do tipo guerra híbrida, entre identitaristas de direita com as suas agendas conservadoras, carregando, para todos os lados, as bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, desautorizada pela sua embaixada no País, e identitaristas ditos “progressistas” com as suas agendas racialistas, contra monumentos e personagens históricos. Uma desorientação generalizada.

Já o Brasil real, onde habitam as grandes maiorias sociais, tem outras prioridades: como conseguir sobreviver à pandemia sanitária, à angústia da trágica depressão econômica, ao crescente e inevitável caos social etc. Essa é a dramática realidade em que vive o povo brasileiro.

O Brasil é inevitável. Mas só através de um programa de emergência econômico, social, para livrar o país da crise atual, e da elaboração de um programa nacional de desenvolvimento estratégico e soberano, a nação pode trilhar novos rumos e iniciar uma nova etapa da sua História.

A serventia

  • Eduardo Bomfim
  • 30/06/2020 19:10
  • Blog do Eduardo Bomfim

Com o Brasil caminhando para o número macabro de 60 mil mortos e milhões de infectados pelo corona vírus 19, e nessa batida podemos chegar, desgraçadamente, a 100 mil mortos, ou mais, e milhões de pessoas atingidas por esse vírus maldito, pergunta-se: qual o rumo para a nação?

Mas, parece que essa pergunta, que é fundamental e de enorme serventia para as grandes maiorias sociais, do Brasil real, não se encontra na ordem do dia em setores das elites, econômicas ou políticas, porque se discute de tudo, menos as grandes interrogações, ou angústias, do povo brasileiro.

Assistimos, diariamente, na grande mídia hegemônica a promoção diária, mais que diária, pode ser medida em termos de horas, de uma guerra identitária entre pautas aparentemente de “esquerda” versus os identitaristas de “direita” que, no momento, se encontram encastelados no governo federal, sob a batuta do presidente Bolsonaro.

Essa guerra ideológica, movida por tempestades de emoções, de ansiedades difusas, insuflada pelos noticiários dessa mídia hegemônica, e dos robôs nas redes sociais, vem alimentando a agenda política nacional, ad nauseam, motivando correntes de ativistas digitais.

Enquanto isso, o presidente Bolsonaro, insiste em ignorar a pandemia, e o seu ministro plenipotenciário, Paulo Guedes, continua com a sua política econômica neoliberal ortodoxa, que já não é aplicada em canto nenhum do mundo, uma relíquia chilena macabra do governo ditatorial de Pinochet, e, nessa catástrofe pandêmica, aí é que é impossível mesmo de ser aplicada.

Os segmentos lúcidos de oposição deveriam, com urgência, abordar as grandes questões que precisam de respostas para ontem; como o País vai lidar com esse terremoto provocado pela atual pandemia sanitária.

Como enfrentar a catástrofe social dela decorrente, associada aos indicadores sociais que já vinham se acumulando em anos anteriores.

Como recuperar a economia que afeta milhões de pequenos e médios empresários, os segmentos na área de serviços, restaurantes e bares.

Qual a estratégia econômica para enfrentar o tsunami dos dezenas de milhões de desempregados pela pandemia, que se acumulam com os milhões de desempregados anteriores a ela. Além de dezenas de milhões de informais, também desesperados.

Como soerguer o parque industrial, já bastante debilitado e defasado, mesmo antes da crise sanitária.

Mesmo que o governo Bolsonaro não esteja interessado nessas e outras graves questões, cabe, minimamente, à oposição abordar os problemas candentes que se não forem tratados, vão levar o País ao caos absoluto, total.

Seria entre, outras coisas, uma proposta, uma plataforma, mínima, para tirar o Brasil, e acima de tudo o povo brasileiro, dessa tragédia que vai se acumulando rapidamente como uma bola de neve. Nessa frente ampla, todos entrariam, a nação a abraçaria com vigor e entusiasmo.

É a tarefa maior dos amplos setores oposicionistas ao governo Bolsonaro. Se não for uma estratégia, uma tática, um projeto, um programa, uma plataforma política de emergência, que seja, pelo menos, por razões humanitárias.

Porque mesmo não sendo, hoje, governo, as oposições têm imensas responsabilidades para com o destino do País, em um horizonte próximo. Mais próximo do que se possa imaginar.

Os Estados Unidos e a guerra híbrida

  • Eduardo Bomfim
  • 24/06/2020 19:47
  • Blog do Eduardo Bomfim


“O espírito é como um paraquedas. Só funciona bem quando está aberto”

Após o final da Segunda Guerra mundial, emergiu o protagonismo dos Estados Unidos como potência global.

Paradoxalmente, a Grã-Bretanha que enfrentou sozinha, com a Europa ocupada, a fúria das armas nazistas, suas cidades bombardeadas diuturnamente pelos aviões alemães, acarretando a morte de dezenas de milhares de civis soterrados nos escombros dos edifícios, essa mesma Grã-Bretanha, que saiu vitoriosa do conflito mundial, perdeu as extensões territoriais do seu vasto império colonial, em decorrência das lutas pela independência anticoloniais que varreram o planeta.

A União Soviética foi outra potência mundial que saiu vitoriosa do terrível confronto da Segunda grande guerra mundial, com um saldo terrível de 25 milhões de mortos, o maior entre as demais nações em beligerância.

Mas a URSS não só venceu a batalha contra o nazifascismo, como manteve e ampliou o seu espaço territorial, expandindo-o aos limites da Europa ocidental com a divisão da Alemanha nazista derrotada.

Estava inaugurada a época da chamada Guerra Fria, que perdurou de 1945 até o início dos anos 90 com a extinção da União Soviética. Mas o protagonismo global da Rússia, centro geopolítico da ex-URSS, depois de um breve período de debacle, ressurgiu a partir da liderança de Putin com a recomposição do seu espaço histórico de séculos e séculos.

Essa bipolarização mundial, entre os Estados Unidos e a URSS, determinou a configuração global em todos os níveis: militar, geopolítico, cultural e ideológico. E as suas consequências deixaram rastros até os dias atuais.

Por muito tempo, as lutas políticas no planeta estiveram carregadas de conteúdos ideológicos que opunham essas duas grandes potências, que praticamente dividiam o mundo em duas partes.

Muitos golpes de Estado deram-se com a justificativa da “ameaça soviética”, e muitas lutas de libertação colonial tiveram o apoio geopolítico, quando não militar, da URSS.

Tratava-se, em última instância, de reforçar o protagonismo global, comercial, econômico, geopolítico, cultural, ideológico, de cada uma das duas gigantes super potências.

Quem melhor definiu o que foi essa época, que ocupou a metade do século XX, foi o presidente francês Charles De Gaulle, herói da luta contra o nazismo, ao afirmar: quem desejar saber exatamente o que é a Guerra Fria, precisa olhar com muita atenção quais são os interesses geopolíticos dos Estados Unidos e da URSS.

De Gaulle foi um dissidente da divisão do mundo em dois grandes campos. Sempre defendeu o protagonismo independente da França, em meio a uma época turbulenta e perigosa.

Renasce o Império do Meio

“Quando a China despertar, o mundo irá tremer” (frase atribuída a Napoleão)

Na geopolítica atual, os Estados Unidos foram o grande beneficiário. Produziu uma formidável indústria militar, cultural, ideológica, midiática, e de diversões, que propagou o estilo norte-americano de vida aos quatro ventos do mundo, como se ele fosse o único, ou mesmo universal.

A extinta União Soviética que em 1917 promoveu uma revolução social contra um sistema opressor, herdou e não se desfez do antigo espaço do velho império czarista de muitos séculos.

Ao contrário, manteve e o ampliou. Falta à Rússia, hoje sob a liderança de Putin, reaver um único território que sempre foi a sua área “natural” de influência: a Ucrânia.

Mas, em 1949 ressurge, sob novas condições Históricas, o milenar Império do Meio chinês, depois de altos e baixos, ascensões e declínios, e uma época de profundas humilhações colonialistas.

A China é um ator de primeira grandeza no cenário geopolítico desde, quase, sempre. Mesmo quando não o quis ser, e voltou-se para si mesma, em uma das suas dinastias.

E hoje, é considerada a segunda maior economia do planeta, em franca ascensão. O seu traço principal é a expansão comercial, através de múltiplas parcerias e trocas comerciais. O Brasil é, hoje, um dos seus principais exportadores agrícolas e de matérias primas, e importador de produtos industrializados chineses.

A tentativa europeia

Já a Europa, séculos atrás o centro do mundo ocidental, perdeu a liderança para a exuberância imperial norte-americana, apesar da sua extraordinária cultura, tesouros arquitetônicos, e busca, através da União Europeia, reconquistar o seu papel na arena internacional.

Mas, o velho continente, composto por antigos e ex-impérios, debate-se internamente em rivalidades mútuas e históricas, além do protagonismo industrial, econômico e financeiro da Alemanha, que se soergueu da derrota na Segunda Guerra mundial e almeja a liderança do continente nessa atual união federativa europeia.

Os Estados Unidos fraturados

“O mundo moderno... tem como principal objetivo simplificar o que quer que seja, destruindo quase tudo”. (G. K. Chesterton, escritor britânico)

Com o extraordinário crescimento econômico da China, que em algumas décadas deixou de ser uma grande nação de quase miseráveis, toda uma população de uniformes azuis, dirigindo bicicletas, e passou a ser a segunda potência global, a caminho acelerado para o pódio superior, a hegemonia unipolar dos EUA, após a debacle da URSS em 1990, desaparece.

Some-se a esse fato, o reaparecimento da Rússia, o grande urso, como sempre foi chamada, com seu enorme espaço de influência recuperado, e poderio atômico-militar, herdado da ex-União Soviética.

Assim, a liderança mundial dos Estados Unidos se encontra abalada. E internamente estão divididos, praticamente ao meio.

De um lado, há o projeto de uma parte das suas elites que aposta na estratégia do isolacionismo, e no “excepcionalismo” de uma nação voltada para guiar a humanidade tal e qual a sua imagem e semelhança.

E frente à crise financeira global, defendem a reagrupação da sua indústria em seu próprio território, como diz o slogan “América First’, primeiro a América. Essas lideranças estão, basicamente, ligadas ao presidente Trump, ao partido Republicano no poder.

De outro lado, encontram-se as elites no partido Democrata, que insistem em reassegurar a hegemonia dos Estados Unidos pelos caminhos da própria globalização financeira e, com ela, definir estratégias para reassegurar o protagonismo norte-americano como nação líder do planeta.

Tanto os Republicanos como os Democratas disputam essa batalha entre os corações, as mentes e os votos nas eleições presidenciais e proporcionais, em novembro próximo.

Nesse confronto político radicalizam-se as linhas ideológicas. Daí é que surgiram as agendas identitárias que se auto intitulam de “direita” e de “esquerda”, em negação radical uma da outra, como se isso fosse possível na construção histórica dos EUA.

Os Democratas perderam as eleições passadas porque teriam abandonado as grandes linhas de administração e de políticas que falavam para o conjunto da nação e assumiram a orientação multiculturalista de parcelas da sociedade que passaram a condenar as grandes maiorias sociais por injustiças às chamadas minorias.

Abandonaram a visão central da nação, do sentimento de solidariedade, do espírito de oportunidade para todos e o dever público, perdendo o sentido do que compartilham como cidadãos e do que os une como nação.

Nos anos 60, a política pelos Direitos Civis significava a batalha das grandes maiorias sociais, ombreadas e junto às lutas das mulheres pelos seus direitos, contra o racismo, pelos direitos das minorias sexuais etc.

Mas a partir dos anos 80, essa política cedeu lugar a uma pseudopolítica de autoestima e autodefinição, cada vez mais autocentrada, estreita e autoexcludente e, por óbvio, condenando as grandes maiorias sociais que não pertencem às especificidades “classificadas” como responsáveis pelas injustiças históricas.

Assim as agendas identitárias passaram a ser vistas como uma doutrina professada basicamente pelas elites urbanas “esclarecidas” sem contato com todo o resto da população. As agendas identitárias reduziriam o espírito nacional ao grupo, ao indivíduo.

Já os identitaristas de “direita” espalham mentiras, promovem teorias da conspiração, consideram que há “uma onda comunista” em qualquer lugar, contexto, filme, livro, peça de teatro, no mundo da política etc. etc. Um verdadeiro caldo tóxico que termina promovendo todos os tipos de delírios e alucinações possíveis e inimagináveis, que se estendeu também ao bolsonarismo no Brasil.

Esses parágrafos acima foram extraídos do livro “O progressista de ontem e o do amanhã”, do cientista político norte-americano Mark Lilla, escrito logo após as últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos.

Perto das próximas eleições presidenciais americanas, as agendas identitárias não apenas continuam, como recrudesceram e adquiriram novas formas mais radicalizadas.

As agendas identitárias se propõem, no momento, destruir toda a História existente até o presente, e reescrevê-la como uma espécie de tábua rasa, em uma folha de papel em branco.

Para tanto, iniciaram pela destruição de monumentos e estátuas que indicam personalidades, como Thomas Jefferson nos EUA e Winston Churchill que, ao lado de Stalin e do presidente Roosevelt, liderou a Grã-Bretanha, absolutamente sozinha na Europa, frente às hordas nazistas de Hitler, poderosamente militarizadas. Em Portugal, o identitarismo atingiu alvos como a estátua do padre Antônio Vieira, e no Brasil, do padre José de Anchieta. Por enquanto.

Essas manifestações identitárias se espalharam pelo mundo ocidental a partir do assassinato, racista, covarde e brutal, de George Floyd, nos Estados Unidos, e chegaram a várias capitais no Ocidente. Em plena pandemia do corona vírus que já ceifou a vida de centenas de milhares de pessoas no mundo e no Brasil, e infectou milhões de pessoas. A cinco meses das eleições nos EUA.

Elas indicam que vivemos uma Guerra Híbrida, uma nova “revolução colorida”, diversionista, como a que atingiu os povos árabes anos atrás, com objetivos econômicos e geopolíticos específicos: fazer assegurar aos Estados Unidos a hegemonia cultural, ideológica, junto ao mundo ocidental, na atual, estratégica disputa comercial e política sino-americana.

Tudo isso em meio ao caos sanitário, à onda gigantesca de desemprego pelo mundo, à queda brutal do PIB em escala global, que assumirá forma dramática.

Mas, revela, igualmente, que os Estados Unidos ainda são uma nação poderosa, com um forte aparato midiático hegemônico, com capacidade de ditar as pautas ideológicas e culturais, pelo menos em grande parte do mundo ocidental.

Está correto o embaixador Marcos Azambuja quando alerta para a atual e errática política externa do governo Bolsonaro: somos um País destinado a encontrar convergências com muitos, e não com poucos. Éramos naturalmente criadores de amplos consensos - e não parte de alianças sectárias. Usávamos a nosso favor as muitas dimensões da nossa identidade. Parecemos esquecidos de tudo isso.

Temo que o agravamento das tensões e disputas entre os Estados Unidos e a China crie condições que devem nos obrigar a navegar com cuidado em águas que ficarão perigosamente agitadas. Temos que cuidar dos nossos imensos interesses em jogo e agir com racionalidade e lucidez.

O falso detetive Charlie Chan famoso em filmes nas décadas de 1930-1940, dizia sempre o seguinte: o espírito é como um paraquedas. Só funciona bem quando está aberto.

Em meio a essa tormenta sanitária, social, ideológica, comercial, geopolítica, o Brasil precisa encontrar os seus objetivos com base na centralidade da questão nacional, em nossos interesses estratégicos fundamentais.

Não podemos ficar à mercê ou alinhados a essa disputa ideológica, de uma guerra híbrida, e sectária, das correntes identitárias de “esquerda” e de “direita”. Uma, desejando vandalizar estátuas e monumentos, “reescrever” a História a partir do zero, e negar as grandes figuras emblemáticas, que são referências da nossa formação como povo, de uma sociedade singular e mestiça que somos.

A outra, querendo nos alinhar a um falso, também sectário, excepcionalismo do “ destino manifesto” ,“divino”, da missão norte-americana no mundo, que não corresponde à verdade, e à própria História.

Ambas as vertentes em confronto não nos servem, não refletem a nossa realidade, interesses, formação histórica, a possibilidade de caminhos ao nosso protagonismo como nação, que construímos até agora, com virtudes e deformações, porque não existe no planeta, nações unicamente virtuosas.

Esse é o rumo a que precisamos dar sequência, honrando o nosso legado de um País continental e promissor, com imensas possibilidades ao seu futuro.