Yes, we have ideologia!

1347197388lessaecollor1286471443308300x230

Por Rodrigo Leite

Muita gente diz que o mal de nossa política é que “falta ideologia aos candidatos”. Políticos mudariam de partido com a mesma facilidade que o atacante Túlio trocaria de time de futebol. Há certo exagero. Em sua carreira, Túlio vestiu 32 camisas diferentes. Cícero Almeida, por exemplo, não atingiu ¼ desse número... mas a vida é longa. É bem verdade que a política brasileira – basta olhar para Alagoas – por vezes parece um caleidoscópio: as mesmas peças a cada movimento ocupando posições distintas. Há uma variação mínima de atores, alternando alianças e ódios desconcertantes para qualquer analista político. Falta de ideologia, diriam. Discordo. A ideologia está justamente aí.

É comum, tomando como padrão a doutrina clássica da democracia, que atores políticos se identifiquem num partido político. Esse partido possui um eixo básico de propostas. Não se imagina, por exemplo, um membro do Partido Conservador inglês defendendo o aborto. Mas a elite política brasileira é livre desses pudores.

Na cultura política brasileira os partidos políticos não traduzem ideologias. Descontando anões partidários que só administram grêmios estudantis, direita e esquerda, conservadorismo e progressismo não são bússolas confiáveis. A ideologia é manifestada diretamente na busca pelo poder. O partido político funciona, em geral, como uma burocracia intermediária entre os líderes políticos e o Estado. Lembrando Max Weber, um partido político serve para: 1) conquistar o poder; 2) manter o poder; 3) dividir o poder entre o séquito de apoiadores; 4) realizar, se possível, o programa do partido.

Quando da fundação do PSD, Kassab foi duramente criticado ao dizer que seu partido não era “nem de esquerda, nem de direita e nem de centro”. Injustiça com a franqueza de Kassab. Esse lema é uma genuína representação da ideologia que não escapam outras siglas partidárias bem mais badaladas; “Feio é perder” seria seu leitmotiv. Antônio Carlos Magalhães, numa frase que causaria brotoejas de inspiração em Renan Calheiros, dizia que se houvesse uma revolução comunista por aqui, seria ele, o maior líder de esquerda que já houve no Brasil.

Na época em que Severino Cavalcanti (aquele do mensalinho) então do Partido Progressista – PP, foi Presidente da Câmara dos Deputados, houve muito frisson em torno da lei de bioética, o uso medicinal de células-tronco era o cerne da discussão. A despeito da maioria da opinião pública, a bancada religiosa era contra o uso medicinal das células. Cavalcanti, pernambucano ligado aos setores mais obscurantistas do catolicismo nordestino, era declaradamente contrário ao uso das células-tronco. Mas na hora da votação mudou de lado. Simples assim, de uma hora para outra decidiu apoiar o uso de células-tronco. Perguntado por que mudou de lado, respondeu: Quem tem ideia fixa é doido.

A História quis que Severino fosse o protagonista do causo de 2005, mas caberia no seu papel diletante a maioria dos líderes de nossa democracia. O Serra que ataca o PT é o mesmo Serra que em 2010 se disse continuador da obra de Lula. Os petistas que demonizaram as privatizações são os mesmos petistas que privatizam, ou concedem, se assim soar mais vermelho. Muda-se de discurso, de sigla, de companhia, de número, mas não de ideia, de ideologia. A ideia de Túlio é o gol 1000. A ideologia de nossa elite política é amolda-se ao poder. Essa sim é a sua ideia fixa.


@_RodrigoLeite_ é cientista político.


 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Esquecer as raças


Dia desses enfrentei um debate público quando disse que “as raças deveriam ser esquecidas”. Fui interpelado. Não saberia eu que “morrem mais negros que brancos” ou que “negros são mais pobres que brancos”?

Bom, na verdade, há muito que se contestar nessas análises estatísticas. Em primeiro lugar, porque elas usam o critério absurdo de considerar pardos como se fossem negros. Trabalham sistematicamente na ocultação da mestiçagem no Brasil. Ademais, também desconsideram que brancos pobres têm os mesmos índices sociais que os negros e pardos pobres...

Mas não é disso que quero falar agora. Quero falar sobre esse argumento do “esquecimento” das raças. Eu me lembro vagamente da primeira vez que ouvi uma piada racista. A piada comparava negros a macacos. Eu devia ter uns 7 anos e me lembro claramente de não ter compreendido a piada. Qual seria a relação entre negros e macacos? Assim, a piada não teve em mim o sentido esperado, simplesmente porque eu não conhecia essa distinção.

E eu não a conhecia porque nunca tinha sido ensinado sobre ela. Minha família e o lugar onde vivi não me ensinaram sobre isso. É isso mesmo, amigos. Ao falarmos o tempo todo de raças e das diferenças de etnia, estamos ensinando o racismo às pessoas. Depois que se ensina a separar e a dividir, não dá para garantir que esse conhecimento das diferenças será usado “para o bem”, como querem os defensores das ações afirmativas.

Vamos a outro exemplo. Meu menino um dia se questionou sobre a cor da pele dele. Eu, que trato tudo com a maior naturalidade, expliquei que as pessoas têm cores diferentes, como têm olhos, tamanhos, estilos e gostos diferentes. Ele é como eu, assim, marronzinho (não uso a denominação oficial “pardo”), mas há pessoas mais escuras e mais claras e isso não tem nenhuma importância.

Porém... Como não vivemos num mundo controlado pelos pais, meu menino aprendeu direitinho o que é o racismo assistindo a uma das séries mais idiotas que alguém pôde produzir, chamada “Everybody hates Chris” ou, em português “Todo mundo odeia o Chris”. Reprisada constantemente na Record, a série é até bem humorada e conta a história de Chris Rock, ator e comediante americano que, por ser negro, vivenciou o preconceito nos EUA de forma aguda e hoje ironiza essa realidade mostrando sua infância na televisão.

O problema é que a série, o tempo todo, enfatiza a divisão. Apesar de o melhor amigo de Chris ser branco, tudo na sua vida dá errado por causa de sua cor e ela é o tempo todo levada em consideração. Não estou pregando censura. Estou apenas dizendo que a série, se não enfatizasse tanto esse aspecto ressentido da vida do personagem, seria mais divertida e menos danosa.

Foi nessa série que meu filho aprendeu o que é racismo e me perguntou por que somente os negros são ladrões. “Onde você viu isso, menino?”. “Vi no Chris”. A vontade foi dizer um palavrão contra esses racialistas... Mas tentei, como sempre, tratar a coisa com naturalidade. Expliquei que se tratava de uma ironia (agora explique a uma criança de 6 anos o que é uma ironia), e que aquilo não era verdade. Retomei meu discurso universalista sobre a naturalidade das diferenças de cor, mostrei nossa cor escura e remediei o mal que o discurso racialista faz.

Eu sei que meu menino uma hora iria aprender o que é o racismo, só não imaginava que seria num programa que supostamente é contra o racismo! A depender de mim, o conceito de raça nunca será determinante em sua formação.

Deixo para o final um vídeo em que Morgan Freeman, ator americano, critica o Black History Month, ou “Mês da História Negra”. Segundo ele mesmo diz, “História Negra é História Americana”. O entrevistador pergunta: “Como vamos nos livrar do racismo?” Resposta: “Parando de falar sobre isso”. Perfeito.

http://www.youtube.com/watch?list=PL9240794F9AAC6D06&v=BOvQnvwbJXw&feature=player_detailpage
 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Eleições em Recife: Eduardo dá lição de como vencer o PT

As eleições municipais em Recife podem se tornar um elemento importante da possível mudança no cenário político nacional de polarização entre PT e PSDB. Após oito anos de PSDB e mais 12 de PT na Presidência da República, a polarização perdeu força por vários motivos.

Creio que um desses motivos foi a ausência de um discurso claro da oposição. Nas três eleições que perdeu, o PSDB não soube identificar seu eleitorado. Ficou com medo de ser considerado liberal ou de direita (palavrão) e não falou ao seu eleitor o que pretende para o Brasil. Nesse tempo todo, o PT fez muita lambança. Manteve alguns avanços, mas cometeu muitos erros e alguns retrocessos, especialmente no campo político. Foram 44 milhões de votos para Serra que ficaram órfãos.

O PSDB nunca foi capaz de construir um discurso político concreto depois que perdeu a Presidência da República. Ficou sempre naquela de esperar a economia abalar a popularidade do presidente. Achou que o mensalão faria Lula perder as eleições... Povo esquece rápido. A oposição hoje, raquítica em número, também sofre com a falta de qualidade. Falo qualidade no sentido de densidade e profundidade no discurso. Quais valores a oposição defende? Ninguém sabe...

Enquanto isso, são os aliados que, tentando ocupar seus espaços, vão dando trabalho ao PT. PMDB retaliando a falta de espaço de um lado e o PSB articulando caminhos mais ousados do outro. O PSB, por sinal, nas atuais eleições municipais, está dando um drible histórico no PT e em Lula. No Recife, Eduardo Campos rompeu com o PT e lançou candidato próprio, desconhecido do grande público. Pois esse candidato, a despeito do apoio de Lula ao Senador Humberto Costa (candidato do PT), vem crescendo nas pesquisas e já está em primeiro.

Eduardo Campos, para esculhambar mais ainda a alma esquerdista, usa o discurso de “gestão eficiente”! Dizem que esse é um típico discurso da direita liberal... Pois bem. Até isso o PSDB perdeu por falta de coragem e de unidade. Lembram do “choque de gestão”?

Se realmente vencer em Recife (dizem que Geraldo Júlio, candidato de Eduardo Campos, vencerá no primeiro turno), o atual governador de Pernambuco estará credenciado para pleitear uma candidatura presidencial em 2014? Não sei. Só sei que o sujeito teve coragem de peitar Lula em sua própria terra natal, onde ele se dizia imbatível.

Aliás, está muito engraçada a campanha em Recife. Petistas não podem se dizer de continuidade, pois o atual prefeito foi barrado pelo PT nacional e não pôde concorrer à reeleição. Tem baixo índice de aprovação. Por outro lado, também não pode se dizer de oposição, pois, afinal, está na prefeitura faz 12 anos! Enquanto isso, Eduardo Campos vai fazendo barba, cabelo e bigode...

Agora, derrotado o mito Lula, será que a oposição toma coragem?
 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

O que é mais produtivo? Um cartório ou uma padaria?

Recentemente, no Facebook de vários colegas, vi uma notícia que me chamou a atenção.

Era a seguinte: Produtividade do setor público avança mais que a do privado. Vejam um trecho:

“A produtividade no setor público brasileiro evoluiu mais que a produtividade no setor privado entre 1995 e 2006. A conclusão está no Comunicado da Presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgado na manhã desta quarta-feira, dia 19, em Brasília. O estudo, intitulado Produtividade na Administração Pública Brasileira: Trajetória Recente, mostra que, naquele período, a produtividade na administração pública aumentou 14,7%, enquanto no setor privado a evolução foi de 13,5%”.

Pensei, alguma coisa está errada. Não sou economista, mas achei aquilo tudo muito estranho. Afinal, como se me de a produtividade do setor público? Perguntei, em tom jocoso: como comparar a produtividade de um cartório com a de uma padaria?

Não querendo apelar para a desqualificação desse presidente do IPEA (dizem que, para ele, antes da ciência vem a ideologia), fui consultar a turma do Não Quebre a Janela e eles me mandaram um link que explica tudo. O problema está justamente em comparar produtividade entre setor público e privado. São realidades que não podem ser comparadas.

No texto indicado, Miriam Leitão explica com clareza:

“No setor industrial, você mede quantos carros a mais se faz com o mesmo número de funcionários. Mas e no setor público, o que é produção? É uma atividade não mercantil. No setor público, o que seria o valor adicionado?

Pela regra internacional da ONU e que o IBGE segue corretamente nas contas nacionais, a produtividade está relacionada a certas despesas, como salário. Quando o governo aumenta muito o salário dos funcionários, ele aumenta a produtividade.

Quando carta da presidência do Ipea compara o crescimento da produtividade de 1995 a 2004 da administração pública estado por estado aparecem umas coisas esquisitas, como Roraima com aumento de 136%, estado que mais cresceu a produtividade no Brasil. Alagoas foi o terceiro maior com 53%.

E quem está na lanterninha? Rio de Janeiro e Espírito Santo. O Espírito Santo teve queda de produtividade porque fez um ajuste fiscal e reduziu o número de funcionários, melhorou a qualidade do serviço. Isso reduziu as despesas do setor público. Por essa maneira de fazer a conta, houve queda de produtividade.

São Paulo teve aumento de 1,7% de produtividade nesse período, enquanto Roraima teve um aumento de 136%. A carta é tecnicamente equivocada segundo os dois economistas. Eles disseram até que não entendem porque o presidente do Ipea cometeu esse erro muito elementar: não se compara produtividade do setor público com o do setor privado. É algo que se aprende logo no começo de um curso de economia”.

Bom, você entendeu direito. Quanto mais o estado contrata funcionários, mas produtivo ele é, segundo o critério do estudo feito pelo IPEA. Ok, parece ser o único critério possível. Porém, trata-se de um critério obviamente imprestável para a comparação com o setor privado! Aí é complicado, né não? Não precisa ser um economista experiente para ver que esse estudo, por ser inócuo, está incorreto!

Como danado o cara pode comparar a produtividade de um setor que não produz nada de valor com a de um setor que produz? Mas o pior é ver que muitos esquerdistas saíram “comemorando” o estudo, que provaria a superioridade do estado sobre o terrível mercado! Quanta besteira! Entendam de uma ver por todas, só existe “setor público” por causa dos nossos impostos. Impostos de indivíduos privados.

Bom, amigos, está aí. Julguem vocês. O que é mais produtivo? Um cartório ou uma padaria?
 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

A greve continua: a elite cobra a fatura e Dilma se mantém incoerente (quem está errado?)

Wether santan - Agencia Estado 1344936470pfgrevewerthersantanae288

 

FHC é odiado pela grande maioria dos funcionários públicos não sem razão. Quando se olha para as vantagens absurdas a que nós tínhamos direito tempos atrás, hoje podemos dizer que perdemos muito. Falo na segunda pessoa do plural, pois não deixo de me incluir entre essa elite que forma o funcionalismo público de alto nível no Brasil.

Só para dar um exemplo. Antes, os funcionários que ocupavam cargos em comissão durante um certo tempo, incorporavam ao salário base aquele valor a mais que recebiam. Assim, se o salário fosse R$4000,00 e ele ganhasse mais R$2000,00 por uma determinada função, passados cinco anos nessa função, seu salário iria para R$6.000,00. Portanto, ao ocupar a mesma função, ganharia imediatamente R$8.000,00. Hoje não é mais assim, mas ainda há muitos funcionários que recebem valores incorporados, integrados que estão ao seus direitos adquiridos.

Ao acabar com essa mamata e com muitas outras, FHC ainda hoje é odiado pela maioria dos funcionários públicos. FHC também deu um arrocho e, como forma de conter várias crises e estabilizar a economia, não chegou a manter um estado enxuto, mas evitou grandes aumentos salariais e contratações.

Lula, por outro lado, aproveitou a bonança econômica e gastou. Aumentou as contratações e os salários. Ganhou a simpatia daqueles que estão já no serviço público e daqueles que formam a classe dos concurseiros, que querem estar lá. Esse pessoal, todavia, não percebeu algumas coisas importantes. Lula deu aumentos maiores a carreiras específicas. Criou uma elite dentro da outra. Ademais, investiu pesado nos cargos em comissão o que, obviamente, desprestigia os concursos e concurseiros.

Mesmo assim, votaram todos em Dilma, na vã esperança de que a farra de aumentos e contratações iria continuar. Era o que Dilma prometia! O que cobram os funcionários públicos em greve? Coerência! Por falta de coerência hoje estamos vendo tantas greves envolvendo carreiras com ótima remuneração. Tirando os professores, que formam a base da elite, temos gente protestando por ter um salário de R$ 6.000,00. Outros protestam porque recebem o absurdo vencimento de R$ 10.000,00.

É complicado defender esses pleitos perante uma população que não chega nem perto de receber esses salários! E são eles, justamente os mais pobres, que pagam essa conta com altos impostos!

Funcionários públicos estão acostumados com o paraíso estatista e elitista promovido por Lula, que desprestigiou a base do funcionalismo público e proporcionou uma verdadeira farra de aumentos para determinadas carreiras. Agora que a realidade aparece, está feita a confusão. IFES estão há três meses em greve. Várias categorias do Executivo embarcam nas paralisações e, para piorar, os servidores do Judiciário também parados.

Como todos sabem, sou contra greves no serviço público. Acho que a maioria dos pleitos salariais é completamente sem sentido. Nós, funcionários públicos, ganhamos, em média, mais que o setor privado e ainda temos várias garantias, entre elas, a de termos estabilidade! Só isso já seria suficiente para justificar um salário menor.

Ocorre que esta elite votou no PT esperando aumentos. Não querem saber de crise. Dilma, que fez demagogia antiliberal, hoje, em desespero, usa eufemismos para esconder sua privatização e fecha a porta da negociação com os servidores.

Quem está certo nesta briga? Ninguém! Todos estão errados, mas quem paga é o cidadão, que não pode entrar em greve contra os impostos.

No Brasil de hoje, ser funcionários público é mais vantajoso que ser empreendedor. Queremos um país assim? 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Não Quebre a Janela!

Amigos, minha correria está grande, mas não me esqueci de vocês. Hoje vou recomendar um espaço bem interessante de divulgação de ideias liberais. Trata-se do movimento Não Quebre a Janela.

O grupo é formado por estudantes da UFAL que não concordam com a hegemonia de esquerda que toma conta da Universidade e da representação estudantil. Pelo que entendi, a turma não se contenta em ter que ouvir tantos preconceitos antiliberais como se fossem dogmas para uma vida perfeita. Estão interessados em discutir política e economia, mas também em revolver problemas concretos dos estudantes.

Vejam a descrição por eles mesmos:

“O Não quebre a janela é um grupo apartidário de estudos políticos e econômicos e embaixada do movimento Estudantes Pela Liberdade (EPL) em Alagoas. O nosso único princípio político é a liberdade e o nosso alicerce é a razão, além disso, valorizamos o mérito, a excelência acadêmica, a igualdade de todos perante a lei e o direito a cada individuo de escolher o seu próprio destino. Somos estudantes que se preocupam com o real papel dos estudantes, que é estudar, refletir e crescer em conhecimento e ferramentas para a sua carreira profissional”.

Muito interessante!

Recomendo uma entrevista que dei para o grupo. Abaixo, destaco alguns trechos. Boa leitura!

Entrevista – Adrualdo Lima Catão

“A Universidade pública precisa entender que não pode ficar engessada nessa burocracia e que precisa, para ser autônoma, ter independência do estado. Para isso, é preciso estar voltada para as reais necessidades das pessoas e aprender a fazer conhecimento útil.”

Para a primeira entrevista do Não Quebre a Janela, escolhemos um profissional que está ligado com nossos dois principais objetivos: A excelência acadêmica e a defesa da liberdade. O advogado Adrualdo Catão, é mestre e doutor em Direito pela a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e atual coordenador do mestrado em Direito da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Catão falou ao Não Quebre a Janela sobre sua trajetória profissional, seu contato com liberalismo e suas opiniões sobre a greve das universidades federais e o atual estado da UFAL.

3. É público e notório a força das ideias da esquerda no ambiente acadêmico. Diante deste cenário, como o senhor chegou ao liberalismo?
Eu sempre fui muito desligado da política. Até quando comecei a estudar Teoria do Direito mais profundamente, minhas leituras de filosofia política eram muito superficiais. Com o passar dos anos e dos recentes acontecimentos políticos, comecei a entender o quando era importante prestar mais atenção aos problemas políticos. Sempre conheci e admirei o ideário liberal. Sempre achei que ele forma a base de qualquer sociedade minimamente digna. Após a chegada do PT ao poder, porém, percebi com mais clareza como é fácil desconstruir o valor liberdade sob o pretexto de um estado de bem-estar. Eu, que por tão desinteressado, acreditei no Lula “paz e amor” e até votei nele! Alternância de poder era o meu argumento. Com o passar dos anos, eu, que nunca fui militante petista, percebi o que um estado grande pode fazer e me dediquei mais às leituras e às questões que envolvem o liberalismo. A ética liberal passou a ser objeto de alguns trabalhos e eu passei a ser principalmente um militante da liberdade. Acho que há como desconstruir algumas falácias sobre o liberalismo e mostrar do que o estado grande pode ser capaz. Vejam o que tantos anos de governo petista pôde fazer no país. O inchaço da máquina e o arrocho por meio dos tributos. O desestímulo à cultura do empreendedorismo e o sufocamento do indivíduo. Hoje não me considero um estudioso do liberalismo, sobretudo no âmbito econômico. O que sei é que o modelo de estado liberal é a base da civilização e, portanto, toda ameaça ou relativização a esses princípios deve ser vista com reservas. No direito, isso é muito constante. Tentativas de relativizar princípios liberais são recorrentes e acho que uma visão liberal pode, hoje, ser muito útil ao apontar esses perigos. Mesm0 que haja discrepância entre os próprios liberais, a questão de base que os une hoje, no Brasil, é a luta contra o agigantamento do estado em todos os aspectos.

4. O Brasil experimentou governos recentes com características populistas e/ou de esquerda que defendiam a bandeira da educação pública de qualidade. Como o senhor analisa o estado atual da Universidade Federal de Alagoas?
As universidades federais são insustentáveis. São gigantes burocráticos caros e pouco eficientes. As reformas iniciadas na década de 90 e que continuaram até mesmo sob governo petista foram muito tímidas. Precisamos de mais cobrança de resultados. Professores sem nenhuma produção ganham o mesmo que aqueles que tanto produzem. Cursos com alta demanda de alunos e grande penetração no mercado são desprestigiados em favor de cursos “ideologicamente alinhados”. Devemos avançar no contato da universidade com as empresas e com a sociedade. Muito do conhecimento que é produzido aqui não serve ao mercado por puro preconceito antiliberal. Perdemos grandes investimentos e deixamos de ganhar com nossa produção simplesmente porque não temos meios de gerar renda com nossas descobertas científicas. A Universidade pública precisa entender que não pode ficar engessada nessa burocracia e que precisa, para ser autônoma, ter independência do estado. Para isso, é preciso estar voltada para as reais necessidades das pessoas e aprender a fazer conhecimento útil. A UFAL, nesse quadro, precisa estar voltada para nossos problemas reais e ajudar, com suas pesquisas, a dar soluções concretas.

5. Qual sua opinião sobre a greve e as demandas salariais dos professores? O senhor concorda com a ideia do grupo Não Quebre a Janela de que os professores de fato devem receber mais, porém a remuneração deveria ser variável? Ou seja, professores que produzem, cumprem metas e buscam uma melhor qualificação devem receber salários mais altos do que os que não o fazem?
Acho que já respondi acima. Professores devem ser remunerados por produção. Digo sempre que o salário atual do professor da UFAL com DE é alto para aqueles que nada produzem e ainda faltam as suas aulas. Esses ganham R$8.000,00 sem contribuir em nada para a UFAL. Já aqueles que têm grupos de pesquisa, orientam vários alunos, dão aulas de mestrado e doutorado e têm projetos de extensão, esses são muito mal remunerados com esse salário. É hora de atrelar o salário ao resultado.

Leia mais aqui.
 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Como educar para a separação?

Amigos, dessa vez quero deixar com vocês um belo texto sobre algo que vivencio o tempo todo. Todas as vezes que digo que meu filho vive com pais separados sinto um olhar de frustração.

Procurei, desde sempre, mostrar ao meu menino que a vida dele em duas casas é a coisa mais normal do mundo. Hoje, aliás, isso é a mais pura verdade. Seus colegas de escola quase todos vivem com pais separados. Casar, descasar e casar de novo. Tudo isso é normal!

Tento fazer desse tema uma coisa simples, sem traumas ou complexidades desnecessárias. Nem todo mundo fica casado para sempre. As pessoas se separaram e isso não é nenhum impedimento para a conjunta criação dos filhos e para o desenvolvimento de uma relação normal e saudável com eles e com o ex-parceiro.

Pois bem. Apesar de meu esforço, sinto que muita gente ainda resiste. Faz cara de pena quando digo que vou deixar meu filho com a mãe, ou que ele passa metade das férias com cada um dos genitores. Acho que há realmente a necessidade de se educar para a separação. Acabar com esse romantismo idiota de que o amor deve durar para sempre.

Por isso me identifiquei com o texto abaixo.

Boa leitura!

Educação para o divórcio

Por Martha Medeiros

Estou lendo O quebra-cabeça da sexualidade, do professor espanhol José Antonio Marina. No livro, o autor diz que considera preocupante que os jovens estejam recebendo dos pais a experiência do fracasso amoroso. Ao ver a quantidade de casais que se separam, a garotada vai perdendo a expectativa de ter, no futuro, uma relação saudável e sem conflito.

Desencantam-se.

Creio que esteja acontecendo mesmo. Hoje o casamento já não é a ambição número 1 de muitos adolescentes, e um pouco disso se deve à descrença de que o matrimônio seja uma via para a felicidade. Se fosse, por que tanta gente se separaria?

O casamento tem sofrido uma propaganda negativa de tamanho grau que é preciso uma reação da sociedade: está na hora de passarmos a ideia, para nossos filhos, de que uma relação não traz apenas privações, tédio e brigas, mas traz também muita realização, estabilidade, parceria, intimidade, gratificações. Casar é muito bom. Como fazê-los acreditar nisso, se as estatísticas apontam um crescimento incessante no número de divórcios?

A saída talvez seja educarmos os filhos desde cedo para que a ideia de separação seja acatada como algo que faz parte do casamento. Ou seja, quando os pirralhinhos perguntarem: “Mamãe, você ficará casada com o papai para sempre?”, a resposta pode ser: “Enquanto a gente se amar, continuaremos juntos – senão vamos virar amigos, o que também é muito bom”.

Isso pode parecer chocante para quem jurou na frente do padre que iria ficar casado até o fim dos dias, mas há que se rever certas fórmulas, a começar por esse juramento que mais parece uma punição do que um ideal romântico. Está na hora de um pouco de realismo: hoje vivemos bem mais do que antigamente, com mais informação e mais oportunidades. Deve ser bastante confortável e satisfatório ficar casado com a mesma pessoa por quarenta ou cinquenta anos, é um bonito projeto de vida, mas, se a relação durar apenas dez ou quinze, é bom que a gurizada saiba: não é um fiasco. É normal.

A normalidade das coisas se adapta aos costumes. Vagarosamente, mas se adapta. Se continuarmos insistindo na ideia de que o verdadeiro amor não acaba, as crianças vão achar que o mundo adulto é habitado por incompetentes que não sabem procurar sua alma gêmea e que sofrem em demasia. Vão querer isso para elas? Fora de cogitação.

Para evitar essa fuga em massa do casamento, a saída é, como sempre, a honestidade. Seguir educando para o “eterno” é uma incongruência. Ninguém fica no mesmo emprego para sempre, ninguém mora na mesma rua para sempre, ninguém pode prometer uma estabilidade vitalícia em relação a nada, e se a maioria das mudanças é considerada uma evolução, um aperfeiçoamento, por que o casamento não pode ser visto dessa mesma forma descomplicada e sem stress?

A frustração sempre é gerada por expectativas que não se realizam. Se nossos filhos ainda são criados com a ideia de que pai e mãe viverão juntos para sempre, uma separação sempre será mais traumática e eles também temerão “fracassar” quando chegar a vez deles. Se, ao contrário, souberem desde cedo que adultos podem (não é obrigatório) viver duas ou três relações estáveis durante uma vida, essa nova ética dos relacionamentos será absorvida de forma mais tranquila e eles seguirão entusiasmados pelo amor, que é o que precisa ser mantido, em benefício da saúde emocional de todos nós.

26 de outubro de 2008
 

Trata-se de um trecho do livro de crônicas "Feliz por Nada". Clique aqui e leia mais.

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Revolução ou reforma?

Recentemente postei uma frase no Twitter que foi mal recebida por muitos. Disse algo mais ou menos assim: “É engraçado esse negócio de idealismo. Sabe quem foi um grande idealista? Hitler”.

Isso gerou uma celeuma danada... Bom, na verdade, o Twitter às vezes proporciona isso, pois só permite frases curtas, impedindo uma explicação mais detalhada do que se quis dizer. Não quis dizer que não devemos ter ideais ou coisa do tipo. Quis apenas dizer que sou cético quanto ao idealismo moral em si. O que me incomoda é pensar que o simples fato de ser um idealista legitima qualquer ideia ou qualquer princípio.

Normalmente, o idealismo é apresentado como o oposto do pragmatismo. Assim, alguém é idealista se coloca seus princípios e suas ideias acima de contextos ou de necessidades pragmáticas mais imediatas. No extremo, um idealista não cede seus princípios em favor de uma composição ou acordo. Isso normalmente é visto como algo virtuoso. De certa forma, é mesmo. O problema é quando certos aspectos dessa questão não são considerados.

Vejam que não estou usando o idealismo num sentido platônico ou epistemológico. Estou usando a expressão “idealismo” do ponto de vista moral.

Há dois problemas com essa visão. A primeira é muito simples. Ser um idealista, por si só, não quer dizer ter bons propósitos. Foi isso que eu quis dizer quando escrevi a frase acima. Se Jesus era um idealista, Hitler também era. (Parafraseando João Maurício Adeodato, em sua obra Ética e Retórica). Assim, canalhas da pior espécie também podem ter ideais. Podem sonhar com suas sociedades perfeitas...

Isso significa que o importante não é ser ou não idealista. O importante é qual ideia você defende. Todas as utopias já escritas representam esse idealismo moral que quero denunciar. Quer viver numa República platônica? Quer viver na utopia de Thomas Morus? Quer morar na Cidade do Sol de Campanella? Vá sozinho... Por isso as utopias são todas totalitárias. Não deixam espaço para o indivíduo e suas idiossincrasias. Sendo assim, para o idealista, não há espaço para a discordância.

E esse é outro problema com o idealismo. Podemos concordar sobre os princípios, mas discordar sobre os meios de alcançá-lo. Sendo assim, eis a questão. Podemos, para promover avanços na direção da realização de nossos princípios, fazer acordo com quem discorda de nós? Como mudar um paradigma se, enquanto tentamos muda-lo, ainda estamos nele? Revolução ou reforma?

O rompimento é sempre melhor do que o acordo? Num mundo tão complexo, podemos nos negar a rever nossos valores ou mesmo a abrir mão de certas exigências para conseguir um avanço? Percebam, amigos, que meu ceticismo se refere a discursos abstratos e que defendem uma suposta superioridade do essencialista diante daquele de quem discorda.

Nunca esqueçam que os maiores crimes da humanidade foram cometidos por idealistas. Gente que não abria mão de suas crenças, nem quando tivesse que matar para conseguir a sociedade dos seus sonhos. Essa é a razão da minha desconfiança com o idealismo moral. 

Evidentemente, ser coerente com seus princípios é realmente algo bem interessante. Ocorre que princípios também precisam ser interpretados. Princípios também precisam ser exequíveis e, mais que tudo, princípios precisam ser compartilhados!

Quando o idealista começa a tratar sua interpretação dos princípios como a única possível ou quando ele passa a tratar toda discordância como falsidade ou mentira, aí estamos diante de um problema: a intolerância. É o outro lado da mesma moeda. 

Grandes avanços sociais foram conseguidos por meio da revolução e da violência radical? Sim, foram. Porém, muito se conseguiu sem violência. Foi quando renunciou à violência que Mandela conseguiu unir a África do Sul. Foi quando renunciou à violência que o movimento pelos direitos civis conseguiu a igualdade racial nos EUA. 

Nem sempre a revolução é necessária. Às vezes a reforma é o caminho mais pragmático para levar aos nossos melhores ideais.

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

"Rapidinhas": quando o tempo é pouco e o assunto é muito

Trânsito em Maceió
 

O pessoal resolveu mudar o trânsito de uma região central da cidade sem combinar com os russos... Nem houve aviso à população, que se viu surpreendida com as repentinas mudanças no trânsito do Poço, nem a CASAL foi avisada, pois está fazendo uma obra justamente no trecho mais importante da mudança, a Avenida Comendador Leão. Esse é o amadorismo com que nossas autoridades tratam o trânsito maceioense. Investimento real em transporte público? Incentivo ao uso de bicicletas? Nada. Maceió está entregue ao caos.
 

Ainda o trânsito
 

Já perceberam como a volta às aulas é um inferno para o trânsito? Principalmente nas imediações das escolas. Pais que estão levando seus filhos para serem educados praticam a deseducação ao deixá-los na escola. Param em fila dupla, estacionam em local proibido e ainda exigem que você espere! É uma piada! Enquanto eu paro a uns 500 metros de distância para estacionar o carro, os espertos param na frente da escola atrapalhando a vida de todo mundo. Depois quer que o filho tenha bons modos...
 

A jogada de Dudu
 

Eduardo Campos vem tomando conta dos bastidores políticos em várias capitais do Brasil. No Recife, Fortaleza e Belo Horizonte, rompeu com o PT e bancou candidato do PSB. Vai firma para se tornar uma força importante para 2014. Uma espécie de “centrão” com PMDB, PSB e PSD pode configurar uma força política capaz de tirar o PT do poder nacional. Será? É impressionante como até nisso o PSDB está alheio aos anseios do país. Uma oposição raquítica que não consegue sequer se posicionar sobre os grandes temas nacionais. Estamos entregues a populistas e gastadores de dinheiro público.
 

Eleições da OAB
 

Entra candidato, sai candidato, as propostas vão aparecendo devagar. Até agora, porém, o único candidato que tem uma linha definida nas eleições da Ordem é Thiago Bomfim. A ideia de uma gestão participativa e seu compromisso com a não reeleição esquentaram os debates essa semana. As reações às ideias de Thiago estão movimentando o jogo político com troca de candidatos e acenos para reconciliação. Muita água ainda vai rolar.

 

A entrevista de Rosane
 

Muito se falou sobre a tal entrevista de Rosane Collor, com informações requentadas sobre as preferências religiosas do ex-presidente. Fazia tempo que eu não via um espetáculo tão grotesco de preconceito religioso. Essa pantomima, por incrível que pareça, serviu mais para Collor parecer vítima do que para agredi-lo. Mais uma piada deste Brasil.

Atualização em 20/7/2012

Amigos, quando falei que "o único candidato que tem uma linha definida nas eleições da Ordem é Thiago Bomfim," quis dizer que era o único com uma linha definida em termos de propostas e, principalmente valores. Não apresenta simplesmente um conjunto de propostas soltas, mas sim um eixo comum a todas elas, que é a democracia participativa na OAB. Não estou negando a legitimidade, a viabilidade ou a real existência de nenhuma outra candidatura. Só para ficar claro.

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Lula e Maluf se merecem

Amigos, vários leitores estão me cobrando uma posição sobre o abraço de Lula e Maluf. Minha opinião é a de que Maluf já teve mais decoro. Juntar-se com Lula mancha demais sua biografia.

Não estou sendo irônico! Escandalizar-se com o fato como se o “puro” Lula estivesse, só agora, sendo cooptado pelos corruptos não é só ingênuo, como também mentiroso.

Há muito, Lula não representa ética. Pelo contrário, depois do mensalão, o que vimos foi uma completa subversão do discurso ético. O PT seria o partido puro que, no poder, precisou se adaptar para fazer o bem! E como se adaptou, hein?

Esse é o espírito do ótimo texto de Guilherme Fiúza que reproduzo abaixo. Lula e Maluf se merecem.

Lula e Maluf: por que não?


Por Guilherme Fiúza (ÉPOCA – edição 737)
O Brasil ético está escandalizado com o aperto de mão entre Lula e Paulo Maluf. O ex-presidente teria ido longe demais com esse gesto. É uma concessão muito grave para tentar eleger um prefeito, dizem os homens de bem. E o assunto não sai de pauta, com a corrente de indignação se espalhando pela imprensa, pelas escolas e esquinas desse Brasil ultrajado. Todo cientista político teve sua chance de dizer que aquela foto é um divisor de águas no processo ideológico brasileiro, um retrocesso no campo progressista, um monumento ao vale tudo. Mas nunca é tarde para avisar a esta nação escandalizada: o aperto de mão entre Lula e Maluf não tem a menor importância.

Um comentarista bradava no rádio um dia desses: “Maluf apoiou a ditadura!” Não, essa não é a grande credencial do ex-governador de São Paulo. Vamos a ela: Maluf é procurado pela Interpol. Independentemente dos resultados dos vários processos de que já foi réu por corrupção, Maluf é símbolo de cinismo e trampolinagem. Mesmo assim, não pode fazer mal nenhum a Lula.

O ex-operário que governou o Brasil por oito anos escolheu como um de seus principais aliados José Sarney. Para quem não está ligando o nome à pessoa, Sarney é o protagonista do caso Agaciel Maia – aquele que revelou a transformação do Senado Federal em balcão de favores particulares. Em telefonemas divulgados pela TV em horário nobre, Sarney aparecia usando a presidência do Senado para reger o tráfico de influência na cúpula do Poder Legislativo. Mostrando influenciar também o Judiciário, o parceiro de Lula conseguiu, através do filho Fernando, instituir a censura prévia ao jornal “O Estado de S. Paulo”, até hoje proibido de mencionar a investigação dos atos secretos operados por Agaciel.

O que fez Lula diante desse escândalo? Disse que Sarney não podia ser julgado como uma pessoa comum. Segurou-o bravamente na presidência do Senado. Até que a tempestade passasse, deu-lhe a mão e não soltou mais. Qual o problema então de dar a mão a Maluf, só um pouquinho, para eleger o príncipe do Enem?

O aperto de mão com Sarney incluiu outras manobras típicas da ditadura que Maluf apoiou. Lula mandou sua ministra Dilma Rousseff intervir na Receita Federal para resolver pendências fiscais da família Sarney. Essa denúncia foi feita por Lina Vieira, ex-secretária da Receita, que contou detalhes do abuso de poder da então chefe da Casa Civil. Lina aceitou uma acareação com Dilma, que fugiu (e depois virou presidente).

Quando sua sucessora saiu em campanha, Lula nomeou como ministra-chefe da Casa Civil a inesquecível Erenice Guerra. Braço direito de Dilma, com quem confeccionou o dossiê Ruth Cardoso (contrabando de informações de Estado para chantagem política), Erenice montou um bazar com parentes e amigos no palácio. Apesar de ter afundado crivada de evidências de tráfico de influência, Erenice recentemente foi puxada pela mesma mão que apertou a de Maluf: desinibido, o padrinho já tenta publicamente ressuscitá-la.

As aventuras de Dilma e Erenice só foram possíveis com queda do antecessor, José Dirceu – o que mostra uma verdadeira linhagem criada por Lula na Casa Civil. E Dirceu só caiu porque o suicida Roberto Jefferson resolveu atrapalhar um esquema que estava funcionando perfeitamente. Pois bem: no momento em que a Justiça se prepara para julgar o mensalão, maior escândalo de corrupção já visto na República, protagonizado por todos os homens do presidente Lula, o Brasil resolve se escandalizar porque o chefe supremo dos mensaleiros tirou uma foto com Paulo Maluf.

É sempre triste deixar a inocência para trás, mas vamos lá. Coragem. Em todo o seu vasto e conhecido currículo, Maluf jamais chegou perto de engendrar um golpe dessa dimensão: o uso do poder central para fazer uma ligação direta dos cofres públicos com a tesouraria do partido do presidente. O malufismo nunca sonhou com um valerioduto.

Como se vê, o Brasil, esse distraído, precisa atualizar a legenda do famoso encontro: se quiser continuar dizendo que ali está a esquerda sujando as mãos com a direita, vai ter que inverter a foto.

E para concluir o jogo dos sete erros: qual dos dois usou crachá de coitado para vampirizar o Estado? Roubar a boa fé dá quantos anos de cadeia?
 

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.
Comercial (82) 3313.6040 (82) 99812.2189 comercial@cadaminuto.com.br
Redação (82) 3313.2162 (82) 99664.2221 cadaminutoalagoas@hotmail.com