Antes da divulgação dos resultados, eu já havia lido dezenas de análises de colegas jornalistas sobre as pesquisas eleitorais daquela semana. Quando Flávio aparecia à frente, a vantagem era mínima. Nenhum instituto quis cravar a virada. Talvez essa cautela diga tanto sobre os limites das pesquisas quanto sobre a complexidade de uma eleição.

O resultado não se explica por um único episódio, um erro de campanha ou uma estratégia isolada. Mas alguns movimentos ajudam a entender como uma disputa tão apertada terminou dessa forma.

Começo pelo comparecimento. A abstenção caiu drasticamente e atingiu o menor patamar em 20 anos. Houve uma mobilização expressiva para levar idosos e pessoas doentes às urnas, enquanto os votos brancos e nulos também chegaram ao menor patamar do século, passando de 5,98 milhões, no primeiro turno, para 4,15 milhões, no segundo. Foram 1,83 milhão de votos a menos nessa categoria.

Não é pouca coisa. Em uma eleição acirrada, cada eleitor que deixa de ficar em casa e cada voto que deixa de ser branco ou nulo podem fazer diferença. Mais do que conquistar novos eleitores, era preciso convencer quem ainda estava indeciso e mobilizar quem poderia simplesmente não comparecer. As campanhas parecem ter compreendido isso de maneira diferente. 

Lula investiu nos indecisos e na estratégia do vira voto, reforçada pela mobilização digital do “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones para ampliar a circulação de conteúdos favoráveis ao petista. 

Flávio, por sua vez, pareceu mais confortável falando para a própria base. A confiança na vitória era tamanha que o senador já discutia a composição de seus ministérios e defendia mudanças na Constituição antes mesmo de as urnas serem abertas novamente. 

Nas redes sociais, a estratégia de sua campanha também levanta uma questão importante: há um risco em confundir barulho com alcance, engajamento com voto e popularidade no Instagram com capacidade de conquistar novos eleitores.

O vídeo de Nikolas Ferreira gravado no Nordeste se tornou um exemplo emblemático dessa discussão. Em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, município escolhido pelo deputado para a gravação, Lula aumentou em 22,6% o número de votos recebidos entre o primeiro e o segundo turno. Flávio cresceu apenas 3,1%.

Os números, sozinhos, não provam que o vídeo provocou uma reação contrária à pretendida. Seria simplista atribuir o comportamento de todo um eleitorado a uma publicação. Ainda assim, o resultado chama a atenção e oferece um contraponto à estratégia. Afinal, nem sempre a mensagem que uma campanha acredita estar transmitindo é a mesma que chega às pessoas.

Os últimos dias também foram marcados por declarações de Flávio que podem ter contribuído para o desgaste de sua candidatura. O uso da expressão “nove dedos” contra Lula e a fala sobre o caso de Ana Clara, quando confundiu o nome da mãe, Cristiane, com o da criança assassinada e questionou a autoria do crime diante dela, foram episódios que chamaram a atenção.

Em uma eleição apertada, a postura também se comunica. Empatia não é enfeite de campanha. A forma como um candidato reage a situações delicadas pode reforçar dúvidas que parte do eleitorado já tinha ou até criar novas resistências. 

A reação de Flávio à derrota também merece atenção. Em seu primeiro discurso após o resultado, o senador declarou ser “impossível reconhecer o resultado” e anunciou que pediria a anulação das eleições, sem agradecer aos seus eleitores, à família ou a Deus.

A justificativa apresentada foi a prorrogação do horário de votação, decidida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, que atendeu a um pedido de ambas as candidaturas, inclusive da campanha de Flávio.

Após uma reunião com aliados na tarde desta segunda-feira (26), o candidato derrotado abandonou o discurso do dia anterior, mas como diz o ditado popular “a primeira impressão é a que fica”.

São momentos difíceis para qualquer candidato, mas que também revelam a maneira como cada um compreende a política e o próprio papel na democracia. Afinal, é na derrota que separamos os homens dos meninos.

Depois que as urnas falam, é tentador procurar um único culpado ou o instante exato em que tudo mudou. Um vídeo, uma declaração, um debate. Mas a política raramente oferece explicações tão simples.

As pesquisas registram um cenário, não uma sentença. As campanhas podem errar ao interpretar seus números, superestimar a própria força ou subestimar a capacidade de reação do adversário. E o eleitor, por mais que as estatísticas tendem a antecipá-lo, continua sendo uma variável que escapa às certezas.

*Estudante de jornalismo