Uma panela virou caso de polícia na Ponta Verde. Na noite de 16 de outubro, em Maceió, um porteiro foi detido durante uma manifestação de apoio a um candidato progressista, segundo reportagem do UOL.
Vejo na hostilidade relatada um sinal grave da intolerância que venho denunciando na extrema-direita. Quando uma manifestação política provoca ameaças, a convivência democrática já está ferida. Cabe às instituições proteger o cidadão e apurar possíveis abusos com imparcialidade.
A Constituição assegura a liberdade de manifestação do pensamento. Expressar uma preferência política é um direito, e a aplicação da lei deve respeitar essa garantia, independentemente das convicções de quem protesta ou de quem exerce a autoridade.
Lembrei-me de Manuel Alegre, poeta e político português. Em Trova do Vento que Passa, escreveu: “Vi minha pátria pregada nos braços em cruz do povo”. A imagem da crucificação traduz o sofrimento de uma nação na vida de sua gente.
Uma pátria também é ferida quando seus cidadãos aprendem a ter medo de dizer o que pensam. O silêncio imposto a um trabalhador alcança todos aqueles que amanhã poderão precisar da mesma liberdade.
Há uma lição para todas as gerações: a irreverência, tão presente na juventude, depende da liberdade que os regimes de força procuram sufocar. A intimidação pode começar na rua, na escola, no trabalho ou na portaria de um edifício.
O perigo da ditadura cresce quando a sociedade se acostuma com o abuso. Aos poucos, o medo passa a orientar comportamentos, a divergência torna-se suspeita e a obediência é apresentada como virtude obrigatória. O cidadão aprende a baixar a cabeça para evitar problemas.
A hipocrisia dos falsos moralistas aparece quando se exige submissão dos mais frágeis e se oferece indulgência aos mais influentes. A moralidade pública precisa alcançar tanto a portaria quanto os salões do poder.
O Brasil não pode aceitar que a intimidação se transforme em método de convivência política. Defender a liberdade de um porteiro é preservar o espaço em que todos podemos falar, discordar e participar da vida pública.
Por isso, volto aos versos de Manuel Alegre, tão apropriados ao tempo que vivemos: “há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.”
