A pobreza de Alagoas não é uma fatalidade nem decorre da incapacidade de seu povo. A meu ver, a concentração familiar da máquina pública, o medo, a violência contra dissidentes e as redes fechadas de influência estão entre seus principais obstáculos ao desenvolvimento.

O professor Cicero Péricles de Carvalho (In Mudanças na Economia e na Sociedade, p.257, 2026), mesmo com seu otimismo, demonstra a nossa falta de estrutura para alavancar o crescimento de Alagoas. A obra é profunda e vale a leitura. Apesar de indicar avanços pontuais, não deixa de apresentar uma visão crítica da nossa realidade.

A força política da maçonaria precisa entrar nessa discussão, sem imunidade à crítica e sem atribuir a uma única organização a responsabilidade por todos os problemas.

O centro da questão é a transformação do poder público em patrimônio de grupos. Mudam os ocupantes dos cargos, mas permanecem famílias, intermediários e relações de dependência. A alternância de nomes pode esconder a continuidade do comando.

O parentesco não torna ninguém incapaz ou desonesto. O desvio começa quando substitui o mérito, orienta nomeações e assegura proteção. Nepotismo, indicações cruzadas e acesso privilegiado convertem a administração em extensão de interesses particulares.

A concentração histórica da terra e da riqueza ajuda a compreender essa permanência. O poder econômico alcança instituições e reproduz dependências. Modernizar empresas não significa democratizar oportunidades: uma economia pode enriquecer poucos e conservar a pobreza de muitos.

O medo sustenta essa estrutura. Quem depende de emprego, indicação ou favor calcula o custo de falar. Quando uma denúncia pode ameaçar o sustento familiar, o silêncio não significa concordância.

Não se deve confundir essa vulnerabilidade com falta de coragem. Uma sociedade livre precisa proteger quem denuncia, não exigir heroísmo de quem apenas reclama de uma injustiça.

A violência institucional aparece quando instrumentos de proteção dos direitos servem para constranger dissidentes. Fiscalizações seletivas, restrições arbitrárias e procedimentos utilizados como ameaça transmitem a mesma mensagem: contestar pode custar caro.

O silêncio de quem procura sobreviver é diferente do segredo de quem preserva privilégios. Quando acordos ocultos interferem em recursos e decisões públicas, o controle democrático fica comprometido.

É nesse ponto que a influência maçônica merece exame. Nenhuma fraternidade pode se sobrepor à imparcialidade exigida de uma autoridade. O sigilo associativo não comprova corrupção, mas tampouco autoriza esconder conflitos de interesses.

Não se trata de perseguir filiações. Trata-se de verificar se vínculos reservados interferem em nomeações, contratos e fiscalização. A expressão “família maçônica” aponta aqui um risco: transformar solidariedade interna em preferência pública.

Esse risco aumenta quando relações associativas se sobrepõem aos vínculos familiares de grupos já instalados na máquina pública.

Conluios oligárquicos encontram terreno favorável na ausência de transparência. Indicações e proteções podem circular entre grupos, mantendo privilégios sem que exista uma direção secreta única comandando tudo.

Quando o cidadão acredita que as decisões pertencem sempre aos mesmos círculos, perde a confiança na participação. A resignação beneficia quem controla o poder.

Há um paralelo com regimes dinásticos de partes do Oriente Médio, onde famílias governantes restringem a renovação do comando. A comparação diz respeito à reprodução do poder, não a povos ou religiões supostamente incapazes de mudar.

Alagoas vive numa democracia constitucional. Ainda assim, eleições perdem força transformadora quando convivem com dependência econômica e intimidação. A mentalidade dinástica transforma o cargo em herança, o cidadão em dependente e a divergência em afronta.

Esse ambiente favorece a extrema-direita: a crítica vira desordem, a obediência vira virtude e a submissão é apresentada como segurança. Enfrentar o autoritarismo exige reduzir a vulnerabilidade de quem teme se manifestar.

Desenvolver Alagoas significa distribuir oportunidades, limitar privilégios e garantir direitos sem padrinhos. Significa permitir que qualquer pessoa denuncie abusos sem colocar sua sobrevivência em risco.

O primeiro passo é exigir critérios públicos para nomeações e contratos, fiscalização independente e proteção aos denunciantes. Transparência precisa revelar quem decide, quem ganha e quais interesses estão envolvidos.

Alagoas não pertence a famílias, fraternidades ou grupos empresariais. Pertence à população. Enquanto falar representar um risco e prestar contas parecer uma concessão, o poder continuará se apresentando como eterno - e o desenvolvimento, como promessa adiada.

 

* Promotor de Justiça e Ex-Procurador-Geral de Justiça de Alagoas