A imprensa está abarrotada de explicações sobre o resultado das urnas. Nada mais natural e previsível, claro. Cabe ao analista analisar. O que aborrece um pouco são os vereditos peremptórios, com ares de originalidade e ineditismo. Tratemos da disputa presidencial. Lula subestimou o adversário. O anúncio de proibição das bets foi um erro. As suspeitas de corrupção envolvendo Lulinha complicaram o petista até umas horas.  

Tem mais. Janja atrapalhou. O isolamento político da esquerda restringiu alianças. O cansaço do eleitorado com o PT era evidente. Flávio Bolsonaro encaixou o discurso da mudança. O candidato do PL falou mais sobre as demandas reais do povão. Explorando a imagem do pai, o Zero Um soube encarnar a bandeira do bolsonarismo. 

O que mais se escreve por aí? Sim, a trama novelesca do debate cancelado da Globo foi letal para o candidato à reeleição. A controvérsia com Nossa Senhora Aparecida também desponta com realce nos quilômetros de artigos, reportagens e entrevistas. Essas duas variáveis, é bom lembrar, surgiram em cima da hora, às vésperas da votação. 

Apontar que este ou aquele fator foi “determinante” no placar final dos votos, na maioria dos casos, é enganação com a audiência. (Só para constar, isso também ocorre nas avaliações sobre as disputas estaduais). Em todas essas situações, uma inquietante pergunta de impõe ao jornalismo de norte a sul: por que ninguém explicou antes? 

Em outras palavras, por que nenhum craque da ciência política cravou as razões que levariam um candidato à vitória ou ao fracasso? Antes da votação, todos atiravam para todos os lados, mas sempre com o cuidado de ressalvas para blindar a imagem e o currículo. Antes das urnas: pode ser isso, também aquilo, talvez nem isso nem aquilo.

Depois das urnas, o tom e a ênfase dão um cavalo de pau naquela prudência de autoproteção: foi isso e aquilo, simples assim, ponto final, acabou e tenho dito! Bom, mas agora é fácil. Até eu. Na verdade, tenho como princípio avisar aos leitores quando apelo ao chute e à especulação. Os textos estão aí no arquivo para auditorias.

Há, é claro, opiniões mais comedidas, com a combinação de sobriedade e justeza, que ressaltam aspectos relevantes. São ideias lógicas diante do cipoal de vereditos amalucados, além de oportunistas. Entender a cabeça do eleitor é tarefa para gerações. E esse é apenas um detalhe no mundaréu de dúvidas e hipóteses a perder de vista.

Engenheiro de obra feita, pronta e acabada existe desde a construção das pirâmides.