Ciro Gomes prova que de fato abraçou os métodos do bolsonarismo. Derrotado na eleição para o governo do Ceará, ele acaba de anunciar que não reconhece a vitória do petista Elmano de Freitas, reeleito para o cargo. Numa “carta ao povo cearense”, o mau perdedor diz que vai judicializar o resultado das urnas. O texto divulgado em suas redes sociais é uma coleção de baboseiras – tudo o que ele já dizia durante a campanha.

Já escrevi sobre o fracasso de Ciro na disputa estadual. Volto ao tema porque, afinal, ele é umas das figuras de relevo na vida pública brasileira há quatro décadas. Conta com uma parcela de admiradores espalhada por todo o país. Seria uma alternativa ao eterno FLA-FLU entre esquerda e direita. É o que dizem seus aliados e seguidores.

Na carta lamurienta em que desfia todo aquele trololó virulento, Ciro afirma que seu adversário não ganhou no voto. “A eleição foi roubada”, garante o ex-governador e ex-ministro. Ele não esclarece como teria sido a suposta fraude. Para o vexame não ficar ainda maior, Ciro evita o ridículo de apontar as urnas eletrônicas como “culpadas”.

Pensei que não haveria como o ex-governador cearense, de volta ao que sobrou do ninho tucano, se afundar mais um pouco. Mas ele conseguiu. Poderia ter partido para Paris, como fez em 2018 após sair perdedor em mais uma eleição. Sujar a própria biografia é o caminho que muitos escolhem, numa estranha tática a desafiar a lógica e a razão. 

Entre outras extravagâncias em seu comportamento, Ciro resume um paradoxo evidente. Apresenta-se como um político “moderno”, um estudioso da economia global, com passagem até por Harvard. Competência, sobriedade e respeito absoluto à democracia estão entre suas qualidades declaradas. Será que é tudo isso mesmo?

Não precisa ir longe para testar esse conjunto de atributos. A campanha de agora basta para, no mínimo, levantar sérias suspeitas sobre essa autopropaganda. Nos gestos, nas palavras e nas ideias, Ciro replica o messianismo mais pedestre – velho conhecido da política brasileira e mesmo mundo afora. Ou me elegem ou é o fim dos tempos.

Para fechar, um último aspecto de bizarrice na carta de Ciro. Ele diz que vai à Justiça denunciar fraude na eleição, mas sabe que não terá êxito na causa infame. É apenas para deixar “documentado”. Assim, repete o Aécio Neves de 2014 ao perder a disputa para Dilma Rousseff. A “denúncia”, disse o tucano, era apenas para bagunçar o coreto.

Agora é aguardar pelo próximo passo de Ciro em direção ao lixo da História.