Jornalista no meio de controvérsias existe desde que a imprensa foi inventada. Uma opinião, uma réplica e uma tréplica estão aí ao longo da história para provar tal estado de coisas. Em determinados contextos, o debate periga sair da caneta e dos teclados, a troca de argumentos dissonantes vira bate-boca – e, nos episódios mais graves, a diferença de ideias é “resolvida” no braço, na pancada e até na bala, no cano do revólver.

Que eu tenha visto, não foi notícia na grande imprensa, mas deveria. Como um fato engole o outro na velocidade da urgência por novidades, a maioria nem lembra do que houve entre os jornalistas Augusto Nunes e Glenn Greenwald. Pois a dupla protagonizou um embate que tem tudo a ver com o que ocorre no Brasil nos últimos anos.

O fato de agora é a entrevista que Nunes fez com Greenwald nos canais da revista Oeste – farol da direita. É algo impensável segundo o senso comum. Porque anos atrás os dois profissionais saíram no tapa, literalmente, ao vivo, na Rádio Jovem Pan. O jornalista norte-americano foi o principal responsável pela bomba chamada de Vaza Jato.

Na manhã de 7 de novembro de 2019, Greenwald, fundador do site Intercept Brasil, foi à Jovem Pan para ser entrevistado. Não sabia que Nunes seria o principal dos seus entrevistadores. Idolatrado pela esquerda naquela época – por causa da Vaza Jato –, o repórter e escritor era alvo de críticas de seu “colega” brasileiro.

A entrevista na Pan mal começara e o clima já estava pesado. O entrevistado reclamou que sua família foi exposta por comentários de Nunes. A parada saiu de controle quando Augusto Nunes foi chamado de “covarde” pelo desafeto. A então estrela da Pan – dominada ali por um culto à ultradireita – agrediu o interlocutor fisicamente.

Mas agora Glenn Greenwald bate todo santo dia no STF, especialmente no ministro Alexandre de Moraes. Não entro no mérito das críticas, mas o fato é que, ao virar sua metralhadora para o Supremo, o jornalista voltou a ser admirado por seu agressor. E, quase sete anos depois da bagaceira, eles se reencontram numa entrevista.

No começo da conversa, Nunes diz que não teve intenção de ofender o jornalista lá em 2019. E pede desculpas pelo acontecido. Um clássico. “Estávamos na hora errada, no lugar errado, tudo errado”. Ambos não falaram da briga especificamente.

O que houve com a dupla de profissionais da imprensa tem tudo a ver com a insanidade das brigas políticas e pelo poder. A ascensão do bolsonarismo inaugurou de fato um tempo sombrio. Merece uma tese. Enquanto isso, os dois jornalistas selaram a paz.

Fiquemos com a melhor “narrativa”: foi bom para eles e para o país.