Pedro Chagas Freitas é um autor portuguêss de Portugal, mais lidos na terrinha e com mais 1.5 milhões de livros vendidos, no mundo todinho.

Pedro, escreve e o blog, republica:

"Escrevo-vos por inveja. Tenho inveja da vossa liberdade, da vossa coragem. Nunca foi fácil ser uma mulher que não baixa a voz, que não segue o guião. Acho que está pior, acho que está cada vez pior.

Há uma espécie de solidão em quem não se encolhe. Quem não se encolhe paga em comentários, em rótulos: se dizem o que pensam, são arrogantes; se não pedem licença, são prepotentes; se levantam a voz, são histéricas; se não aceitam o papel de figurantes, são problemáticas; se não são perfeitas, são uma vergonha. A mulher bem aceite continua a ser a que é suave, manejável, agradecida: contida. Quando não é, dizem que é complicada, dizem que com ela é tudo um drama. É a tentativa desesperada de domesticar quem não quer ceder. Muitas vezes, quem quer domesticar estas mulheres são outras mulheres. É uma herança: décadas de treino para agradar não se desinstalam facilmente.

Escrevo-vos por inveja, já disse. A vossa coragem tem custos. Quando a autenticidade aumenta, a aprovação da maioria tende a diminuir. Eu acredito que só é livre quem não não passa a vida a pedir autorização para o ser. Uma mulher que não se encolhe obriga o resto a ajustar-se. A tradição odeia ajustes que não controla.

Não vos escrevo numa defesa cega. Vocês erram. Podem exagerar, podem falhar. Não acertam sempre, não estão sempre correctas no que fazem, no que dizem. Não deixam de ser aquilo que são. Não se diminuem. Tenho a certeza de que cada mulher que vê outra não se apequenar percebe que também podia: se tentasse, se quisesse, se arriscasse, se fosse. Nem todas vão querer pagar o preço. Saber que é possível já muda qualquer coisa.

Escrevo-vos, enfim, com um pedido simples: continuem. Esta porra toda não precisa de mulheres exemplares; precisa de mulheres que não desaparecem para permitir a paz podre do conforto alheio. Por favor, não desapareçam."

Fonte: