Em 2010, ou seja faz 16 anos, que esta ativista, Arísia Barros escreveu esse texto sobre o Haiti, que correu o mundo todinho, para além do Oiapoque ao Chuí, e enche de satisfação a alma escrevente desta blogueira.. Vai lendo…
'O Haiti é uma ilhazinha d@s pretos. D@s pret@s mais pobres da América. A ilhazinha é símbolo da resistência de um povo que ousou cultuar sua fé, a cultura.
Em 1804 a ilhazinha d@s pret@s tornou-se a primeira República Negra e o primeiro país da América Latina a conquistar sua independência e até hoje paga um preço altíssimo.
Os pretos não se renderam à França, mas a metrópole europeia buscou derrotá-l@s pela força do capital.
A França, cujo lema é Liberté, Égalité, Fraternité, ou seja, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, cobrou, durante 100 anos, uma indenização pelas terras e “escravos” perdidos com a independência.
20 bilhões de dólares foi o valor da quota d@s pret@s pago à metrópole europeia para ter direito a “Carta de Alforria” e o mundo não interviu...
Na ilhazinha d@s pret@s o que mais se tem é pret@.
Na ilhazinha a língua falada é o Kreyòl.
No último censo em julho de 2007, eram 95% de negr@s e só 5% mulat@s e branc@s.
Território quase 100% africano, uma África por excelência, e, é interessante como a condição étnica da população da ilhazinha dos pretos é invisibilizada nas inúmeras reportagens pós-terremoto em que o Haiti, agora, é protagonista.
O terremoto no Haiti acontece faz tempo. A AIDS no Haiti é um tsunami. Já matou 24.000 pessoas. A hepatite e a malária também matam. Com a violência das catástrofes.
Na verdade a ilhazinha d@s pre@os vive no olho do furacão: 52,9% da população é analfabeta, outra maioria vive abaixo da linha da pobreza, os índices de mortalidade infantil e maternal são extremamente altos e segundo a ONU 70% dos quase dez milhões de haitianos estão desempregados.
Na época da revolução haitiana, negr@s era constantemente assassinad@s e açoitad@s.
Na ilhazinha atual, pret@s morrem cotidianamente submetidos à fome, às doenças, às tragédias ambientais, às invasões, à ditadura.
A Metrópole Européia isolou a ilhazinha d@s pret@s do continente americano para forçar a desgraça humana.
A Metrópole Européia isolou a ilhazinha @os pret@s para sucatear sua identidade soberanamente africana. Ancestral!
A escravidão de pret@s é tratada com naturalidade, porque é “natural” para “um” mundo racista que pret@s sejam explorad@s e oprimid@s, que o digam os pret@s que cotidianamente são feridos em sua dignidade pela condição étnica..
A condição étnica do Haiti cria condições favoráveis para que queiram aboli-lo do planeta.
O Haiti é preto e pobre, entretanto o cônsul do Haiti no Brasil é branco.
Quanto mais pobre for o Haiti, mais fácil é derrotar a ilhazinha d@s pret@s.
Foi lá que aconteceu a primeira revolução anti-escravagista e anti-colonialista da humanidade. Identidade e resistência.
Lá também aconteceu uma invasão americana.
Á margem de uma extrema pobreza o “farol da liberdade do povo negro no mundo”, vive só em sua busca de liberdade. No mercado de trabalho, segundo a UNESCO, a mão de obra do Haiti é a mais barata do mundo.
Mão de obra escrava!
Mas, não foi só o terremoto que implodiu a ilhazinha d@s pret@s, o racismo metódico e cotidiano dá corpo ao genocídio sistematizado e previsível.
O terremoto em Porto Príncipe não é pior crise humanitária em décadas, como arvoram as autoridades’.
A pior crise é o escombro moral provocado pela política utilitária de ocupação da ilhazinha d@s pret@s.
Há séculos..
Se a infraestrutura do Haiti não fosse tão precária, mais vidas poderiam ser salvas...
A democracia do Haiti é ferida constantemente, mesmo sem os desmontes da natureza.
A ilhazinha possui belas praias, curte jazz e Hip-Hop
Localizada na entrada das Américas, mesmo combalida, quase exterminada, buscará caminhos para manter a soberania e a dignidade de seu povo.
É urgente que a missão humanitária internacional, inclusive o Brasil, de forma organizada e racional ajude o Haiti, hoje, a sair do caos e lenta mais persistente na construção do projeto de identidade nacional da ilhazinha dos pretos: a liberdade como condição de cidadania!
A Gigantesca ilhazinha d@s pret@s têm um lema em kréyol na língua dos “escravos” em contraponto ao Liberté, Égalité, Fraternité que diz: “bite n´bite nous pas tombe”, ou “seja tropeçamos, mas não caímos”.
A ilhazinha d@s pret@s renascerá!"
