Um áudio interceptado pela Polícia Civil de Alagoas durante as investigações da Operação Morro do Alemão expõe a relação entre o influenciador digital Patrick Almeida, conhecido como PTK, e uma das principais lideranças do Comando Vermelho (CV) no estado. 

Na conversa, apresentada pela Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP) durante coletiva nesta terça-feira (3), o criminoso conhecido como Nem Catenga pede apoio ao influenciador para um projeto político ligado à facção.

Segundo a investigação, o diálogo reforça a suspeita de que o Comando Vermelho buscava ampliar sua influência para além do domínio territorial, investindo também na ocupação de espaços políticos por meio de pessoas com visibilidade nas comunidades.

No áudio, Nem Catenga afirma que precisava conversar pessoalmente com PTK sobre as eleições e adianta que o assunto envolvia interesses da organização. “É sobre a eleição. Vou precisar conversar com você porque a comunidade e o missionário vão precisar do seu apoio mais uma vez”, diz o líder criminoso.

Em seguida, ele afirma que o grupo precisava fortalecer sua representação política e pede comprometimento do influenciador. “Queria saber se podemos contar com você 100%, irmão. Contar com seu apoio para termos uma voz mais ativa e trazer os benefícios que a comunidade almeja, com pessoas nossas, que realmente nos representem”, afirma.

O trecho considerado mais relevante pelos investigadores aparece quando Nem Catenga fala sobre a necessidade de manter um representante ligado ao grupo após a saída de uma pessoa identificada apenas como “missionário”. 

“Depois dessa eleição, o missionário não quer mais saber de política. Então vamos precisar ter um representante nosso para dar continuidade ao trabalho e manter nossa voz ativa, independentemente de A ou B”, declara.

A resposta de PTK também integra o material analisado pela polícia. Embora afirme estar passando por problemas pessoais, o influenciador demonstra disposição para continuar a conversa e descarta apoiar outros grupos políticos.

De acordo com a SSP, as investigações apontam que PTK teria sido escolhido pela facção para disputar uma vaga eletiva e atuar como representante dos interesses do grupo. A polícia informou ainda que, após a troca de mensagens, o influenciador teria viajado ao Rio de Janeiro para se encontrar pessoalmente com Nem Catenga.

Preso durante a Operação Morro do Alemão, PTK foi alvo de mandados cumpridos pela Polícia Civil. Durante a ação, foram apreendidos R$ 20 mil em espécie e aparelhos celulares. A investigação faz parte de uma ofensiva voltada a desarticular a estrutura do Comando Vermelho em Alagoas e apurar a tentativa da organização criminosa de ampliar sua influência política no estado.

OUÇA O ÁUDIO

 

 

Veja abaixo a transcrição completa do diálogo interceptado pela PC

Nem Catenga

“É o seguinte, mano. Vou precisar falar com você pessoalmente, entendeu? Não sei qual dia você vai estar disponível para conversar comigo. Vê aí uma data e me avisa, que eu peço para comprar a passagem.

É sobre a eleição, entendeu?

Vou precisar conversar com você porque a comunidade e o missionário vão precisar do seu apoio mais uma vez. Já estou adiantando o assunto para você não ficar cheio de interrogações. Os detalhes eu explico pessoalmente.

Queria saber se podemos contar com você 100%, irmão. Contar com seu apoio para termos uma voz mais ativa e trazer os benefícios que a comunidade almeja, com pessoas nossas, que realmente nos representem, como você sabe.

O restante eu explico pessoalmente, para você entender melhor. Porque, depois dessa eleição, o missionário não quer mais saber de política.

Então vamos precisar ter um representante nosso para dar continuidade ao trabalho e manter nossa voz ativa, independentemente de A ou B. Já estou conversando com todo mundo da comunidade. Pessoalmente você vai entender melhor a situação.

Valeu?”

Patrick Almeida (PTK)

“Beleza, pô. Deixa eu passar por esse bloco aí primeiro, tá ligado? Estou com a cabeça muito perturbada. O bloco já é agora, neste domingo. A eleição ainda está longe.

Quero passar um pouco por essas coisas, melhorar um pouquinho. Mas, independentemente disso, vou estar aberto para conversar.

Até porque não tenho outro político para apoiar, tá ligado? Pode ficar tranquilo. Não vou apoiar ninguém. Se eu tiver que apoiar alguém, e se eu estiver melhor nessa época, serão vocês.

Não vou apoiar ninguém, não. Nenhum político nunca me ajudou.

Agora que estou na mídia, todo mundo me procura. Então vou continuar pela favela. Minha intenção é essa.”