Existe uma imagem do Brasil que frequentemente domina o debate público. É a imagem de um país pobre, dependente do Estado e permanentemente à espera de programas assistenciais para sobreviver.
Os números da própria economia brasileira contam uma história mais complexa.
O Brasil possui cerca de 16 milhões de
MEI-Microempreendedores Individuais formalizados. São vendedores, eletricistas, mecânicos, cabeleireiras, costureiras, motoristas, técnicos, programadores, pequenos comerciantes, produtores rurais e prestadores de serviços espalhados por cada cidade do país.
Mas esse número é apenas a parte visível do fenômeno.
Levantamentos frequentemente citados pelo Sebrae e por estudos baseados em dados do IBGE indicam que o universo dos trabalhadores por conta própria e empreendedores informais ultrapassa 22 milhões de brasileiros. São pessoas que vendem, produzem, transportam, consertam, cozinham, cultivam, negociam e sobrevivem sem vínculo formal, mas movidas pela mesma lógica empreendedora.
Somados, os empreendedores formalizados e informais aproximam-se de 40 milhões de brasileiros. De todos os CNPJ existentes no Brasil 98% vem de MEI-micro empreendedor individual; ME-micro empresas e EPP- empresas de pequeno porte.
E a história não termina aí.
O país abriga ainda milhões de pequenas empresas formalizadas, além de milhares de médias empresas que formam a espinha dorsal da atividade econômica nacional. São padarias, oficinas, supermercados, farmácias, clínicas, transportadoras, lojas, fábricas familiares, escritórios de serviços e negócios que sustentam bairros, municípios e economias regionais inteiras.
Quando se observa esse conjunto, uma conclusão parece inevitável.
Talvez o maior patrimônio econômico brasileiro não esteja apenas nas reservas minerais, no agronegócio, no petróleo ou na energia.
Talvez esteja na extraordinária disposição do brasileiro de tentar.
Empreender não é uma atividade confortável.
O empreendedor acorda sem garantia de salário no final do mês. Assume riscos. Procura clientes. Negocia preços. Administra custos. Enfrenta concorrência. Aprende com erros. Recomeça quando necessário.
É uma atividade que exige coragem.
Por isso, os números do empreendedorismo brasileiro merecem atenção especial.
Eles revelam uma característica frequentemente ignorada nas discussões nacionais. A maior parte dos brasileiros não sonha em viver de benefícios públicos.
Sonha em prosperar.
Sonha em abrir um negócio.
Sonha em ampliar uma oficina.
Sonha em comprar uma máquina nova.
Sonha em transformar um carrinho de lanches em restaurante.
Sonha em transformar uma pequena loja virtual em empresa.
Sonha em contratar funcionários.
Sonha em crescer.
Programas sociais possuem importância inegável para combater a pobreza extrema e proteger famílias em situação de vulnerabilidade. Nenhuma sociedade civilizada abandona aqueles que não conseguem se sustentar.
Mas existe uma diferença fundamental entre assistência e desenvolvimento.
A assistência protege.
O desenvolvimento transforma.
E quando observamos dezenas de milhões de brasileiros tentando construir renda por iniciativa própria, fica evidente que boa parte da energia econômica nacional está concentrada justamente nesse universo empreendedor.
O problema surge quando esses brasileiros encontram os obstáculos do sistema.
O crédito é caro.
A burocracia é excessiva.
A legislação tributária é complexa.
O acesso à tecnologia é limitado.
A capacitação empresarial raramente chega aos pequenos negócios.
A consultoria profissional costuma custar mais do que muitos podem pagar.
O resultado é previsível.
Milhões de empreendedores possuem iniciativa, mas não possuem instrumentos adequados para transformar esforço em produtividade.
Imagine o impacto econômico de uma política nacional focada em financiamento produtivo, assistência gerencial, capacitação tecnológica e consultoria empresarial.
Imagine milhões de pequenos negócios aprendendo gestão financeira.
Imagine acesso simplificado a crédito para aquisição de equipamentos.
Imagine programas permanentes de marketing digital.
Imagine treinamento em vendas, produtividade e inovação.
Imagine linhas de financiamento desenhadas para quem produz e não apenas para quem consome.
Os efeitos seriam profundos.
Uma pequena empresa que cresce compra mais insumos.
Os fornecedores vendem mais.
Novos trabalhadores são contratados.
A renda aumenta.
O consumo cresce.
A arrecadação acompanha o crescimento.
Toda a economia se beneficia.
A riqueza não nasce da circulação de benefícios.
Ela nasce da produção de bens, serviços, conhecimento e valor econômico.
E poucos países possuem uma base empreendedora tão extensa quanto o Brasil.
Os cerca de 40 milhões de empreendedores formais e informais, somados aos milhões de proprietários de micro, pequenas e médias empresas, revelam uma realidade raramente destacada.
O Brasil não é apenas um país de trabalhadores.
É um país de empreendedores.
Um país onde milhões de pessoas recusam a pobreza como destino definitivo.
Um país onde milhões tentam diariamente construir uma vida melhor por meio do próprio esforço.
Talvez, portanto, o grande desafio nacional não seja descobrir como ampliar indefinidamente programas de assistência.
Talvez seja descobrir como transformar milhões de pequenos empreendedores em milhões de empresas sustentáveis.
Não é uma mudança de compaixão.
É uma mudança de foco.
Quem está em situação de miséria precisa de proteção.
Mas quem já decidiu empreender precisa de oportunidade.
Precisa de crédito.
Precisa de orientação.
Precisa de capacitação.
Precisa de acesso à tecnologia.
Precisa de um ambiente que premie o trabalho, o risco e a inovação.
Porque quem abre um negócio sem garantia de sucesso não está pedindo tutela.
Está pedindo uma chance.
E talvez a maior riqueza do Brasil esteja justamente nesses milhões de brasileiros que continuam tentando, produzindo e acreditando que o futuro pode ser melhor do que o presente.
—Newsletter Rui Guerra
A arquitetura dos fatos.
