l

 

Sou esse reflexivo que nunca para de ter dúvidas.

 

Não sendo médico nem biólogo, várias vezes por ano retorno ao mesmo lugar como quem visita uma antiga paisagem para ver se a evolução científica encontrou um detalhe novo.

 

Volto a perguntar como nasce a vida.

 

Volto ao encontro de duas células.

 

Volto ao espermatozoide.

 

Volto ao óvulo.

 

Volto às mitocôndrias, aos cromossomos, ao zigoto, às divisões celulares em razão geométrica, ao embrião, ao feto e ao nascimento.

 

E toda vez acontece algo curioso.

 

Renovo o entendimento do processo.

 

Mas não renovo o entendimento da motivação.

 

Entendo melhor o mecanismo.

 

Continuo sem compreender completamente o impulso.

 

Talvez porque ciência e mistério não sejam inimigos.

 

Talvez sejam apenas perguntas que caminham em velocidades diferentes.

 

A ciência me conta uma história extraordinária.

 

Duas células se encontram.

 

Cada uma traz metade da informação genética.

 

Fundem seus núcleos.

 

Nasce uma terceira célula.

 

O zigoto.

 

E ali começa uma das coisas mais impressionantes da existência.

 

Uma célula se divide em duas.

 

Duas em quatro.

 

Quatro em oito.

 

Depois dezesseis.

 

Depois milhares.

 

Depois milhões.

 

Depois trilhões.

 

Mas não é apenas multiplicação.

 

Porque em algum momento acontece algo ainda mais desconcertante.

 

As células começam a se especializar.

 

Algumas se tornam pele.

 

Outras coração.

 

Outras pulmão.

 

Outras neurônios.

 

Nenhuma recebeu uma reunião de planejamento.

 

Nenhuma recebeu uma planta de engenharia.

 

Nenhuma possui consciência.

 

E ainda assim cada uma parece encontrar o seu lugar.

 

Como?

 

A biologia responde.

 

Genes.

 

Proteínas.

 

Sinais químicos.

 

Ativação e desligamento de regiões do DNA.

 

Comunicação celular.

 

Tudo isso é verdadeiro.

 

Tudo isso explica muito.

 

Mas não encerra meu espanto.

 

Porque continuo perguntando:

 

como uma célula sabe virar coração e não fígado?

 

Como bilhões de decisões microscópicas convergem para um organismo inteiro?

 

E aqui chego à resposta mais elegante que encontrei até agora.

 

Nada parece capaz de controlar célula por célula.

 

Nada parece coordenar animal por animal.

 

Nada parece conduzir planta por planta.

 

Não parece existir um centro de comando emitindo bilhões de ordens racionais  individualmente:

 

— agora divida;

— agora migre;

— agora forme um olho;

— agora construa um pulmão.

 

O que parece existir é algo ainda mais extraordinário.

 

Regras simples.

 

Leis locais.

 

Cada célula responde ao ambiente imediato.

 

Escuta sinais químicos.

 

Interage com as vizinhas.

 

Liga e desliga partes do seu programa biológico.

 

E sem que nenhuma conheça o projeto inteiro, surge o organismo.

 

Como um formigueiro.

 

Nenhuma formiga conhece a cidade.

 

Mas a cidade aparece.

 

Como um cardume.

 

Nenhum peixe conhece o desenho.

 

Mas o conjunto desenha movimentos.

 

Como uma floresta.

 

Nenhuma árvore planeja o ecossistema.

 

Mas o ecossistema emerge.

 

Entendo essa explicação.

 

Ela é poderosa.

 

Ela é elegante.

 

Mas ela desloca minha dúvida em vez de eliminá-la.

 

Porque passo a perguntar outra coisa.

 

Quem ensinou a matéria a obedecer regras capazes de gerar vida?

 

Por que o universo possui leis que produzem ordem em vez de apenas dispersão?

 

E existe uma segunda pergunta que retorna.

 

Se toda essa lógica parece construída para continuidade, por que envelhecemos?

 

Por que a mesma natureza que produz reparo celular aceita depois o desgaste e o fim?

 

Por que constrói com tanta sofisticação e conserva com tanta limitação?

 

A biologia responde novamente.

 

Porque o objetivo não é eternizar indivíduos.

 

A seleção natural preserva continuidade, não permanência.

 

O corpo seria o veículo.

 

A informação seria a viajante.

 

Depois da reprodução, erros se acumulam.

 

Mitocôndrias perdem eficiência.

 

Proteínas falham.

 

Células envelhecem.

 

O organismo termina.

 

A espécie continua.

 

É uma resposta coerente.

 

Mas novamente sobra uma pergunta.

 

Se bastava continuar, por que produzir consciência?

 

Por que criar seres capazes de sofrer por saber que envelhecem?

 

Por que criar seres capazes de perguntar?

 

Talvez porque exista uma fronteira delicada.

 

A ciência explica o funcionamento.

 

Mas não promete explicar o significado.

 

Ela responde ao “como”.

 

Nós insistimos em perguntar “por quê”.

 

Talvez seja por isso que volto tantas vezes ao mesmo tema.

 

Não para negar a ciência.

 

Ao contrário.

 

Volto porque quanto mais compreendo o mecanismo, mais me impressiona o fenômeno.

 

No fim, continuo retornando aos átomos.

 

Porque ainda me parece extraordinário pensar que carbono, água, minerais, energia e tempo — matéria sem intenção aparente — um dia se organizaram de tal forma que passaram a perguntar sobre si mesmos.

 

E talvez esta continue sendo minha maior dúvida.

 

Não como a vida acontece.

 

Mas por que a matéria, em algum instante do universo, decidiu começar a perguntar quem ela é.

 

—Newsletter Rui Guerra

  A arquitetura dos fatos