A recente decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas produziu um efeito político que vai muito além da segurança pública. Ela abriu uma nova frente de disputa narrativa para a campanha de 2026.

 

Desde então, parte da imprensa alinhada ao governo, setores da esquerda e integrantes da comunicação oficial passaram a concentrar seus argumentos na defesa da soberania nacional. A tese é conhecida: cabe ao Brasil decidir como tratar suas organizações criminosas, sem interferência estrangeira.

 

Mas existe um outro lado dessa discussão.

 

Um lado que não costuma aparecer com a mesma intensidade nos debates políticos.

 

É o que pensa uma parcela significativa da população de direita, especialmente empresários, profissionais liberais, investidores, produtores rurais e trabalhadores que associam prosperidade econômica à liberdade de mercado.

 

Para esse grupo, a pergunta central não é se os Estados Unidos interferiram ou não.

 

A pergunta é outra.

 

Quem representa maior risco ao patrimônio, à liberdade econômica e à segurança jurídica do cidadão comum?

 

Na visão desse segmento, os Estados Unidos podem pressionar, exigir, fiscalizar ou até impor alinhamento e condicionantes diplomáticas. Mas continuam sendo vistos como o principal símbolo mundial de proteção à propriedade privada, liberdade de empreendimento e respeito aos contratos.

 

Não se trata de amor aos Estados Unidos.

 

Trata-se de confiança nas regras.

 

Para essa parcela da sociedade, o investidor americano não pergunta em quem o empresário vota antes de fazer um investimento. O banco não exige filiação partidária para liberar crédito. O mercado não costuma distinguir pessoas por ideologia.

 

O que interessa é o cumprimento dos contratos.

 

Por isso, quando a esquerda brasileira passa a defender aumento de impostos, ampliação do papel do Estado, revisão de reformas econômicas ou maior controle sobre setores produtivos, parte da direita reage com desconfiança.

 

Nem sempre porque acredita que perderá seus bens.

 

Mas porque teme a erosão gradual dos mecanismos que protegem a formação de patrimônio.

 

Essa percepção é importante porque ajuda a entender algo que muitas vezes surpreende observadores políticos.

 

Uma parcela da direita brasileira não vê os Estados Unidos como uma ameaça.

 

Vê como uma referência.

 

Enquanto setores da esquerda costumam enxergar Washington como um centro de poder interessado em influenciar outros países, muitos conservadores enxergam exatamente o contrário: um modelo institucional que gostariam de ver reproduzido no Brasil.

 

É nesse contexto que surge uma frase repetida nos bastidores empresariais, nos grupos de investidores e em muitas rodas de conversa conservadoras:

 

“Prefiro lidar com as exigências de uma economia de mercado do que viver sob a ameaça permanente de governos que enxergam o patrimônio privado como um problema.”

 

Essa frase não representa todo o Brasil.

 

Mas representa uma parte importante dele.

 

E talvez represente mais gente do que muitos imaginam.

 

Afinal, a memória econômica brasileira é marcada por décadas de inflação, congelamento de preços, confiscos, mudanças repentinas de regras, insegurança jurídica e sucessivas crises fiscais.

 

Quem viveu esses períodos costuma desenvolver uma sensibilidade especial para qualquer sinal de expansão excessiva do poder estatal.

 

Por isso, quando ouvem o discurso da soberania associado à defesa de posições governamentais, muitos conservadores fazem uma pergunta simples:

 

Soberania para quê?

 

Para proteger o cidadão?

 

Ou para proteger o governo?

 

Essa dúvida ajuda a explicar por que a decisão americana produziu desconforto em determinados setores políticos e nenhum na população de direita.

 

A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas desloca o debate.

 

A partir de agora, parte da campanha poderá ser ocupada por perguntas desconfortáveis sobre crime organizado, narcotráfico, segurança pública e eventuais conexões políticas que venham a ser investigadas no futuro.

 

Independentemente de existirem provas ou não, a simples permanência do assunto na agenda já produz desgaste.

 

E a política conhece bem essa lógica.

 

Muitas vezes o problema não é a resposta.

 

É a pergunta que não desaparece.

 

Na percepção de boa parte da direita, o episódio cria um contraste poderoso.

 

De um lado, os Estados Unidos apresentando uma postura dura contra organizações criminosas.

 

Do outro, setores do governo brasileiro reagindo prioritariamente em defesa da soberania.

 

Ainda que a intenção seja legítima, a imagem produzida por esse contraste pode ser politicamente complicada.

 

Porque a população tende a interpretar símbolos antes de interpretar explicações técnicas.

 

E símbolos eleitorais costumam ter vida longa.

 

No final, talvez a questão não seja diplomática.

 

Talvez seja psicológica.

 

Uma parte expressiva da direita brasileira acredita que seu patrimônio, sua liberdade econômica e seu futuro estão mais seguros em um ambiente de livre mercado, mesmo sob forte influência americana, do que em um ambiente onde o Estado cresce continuamente e passa a ocupar espaços cada vez maiores da vida econômica.

 

Concorde-se ou não com essa visão, ela existe.

 

E ignorá-la seria um erro de análise.

 

Porque eleições não são decididas apenas pelos fatos.

 

São decididas também pelas percepções.

 

E, neste momento, a percepção que cresce em parte do eleitorado conservador é simples:

 

entre a supervisão de quem defende o mercado e as incertezas de quem promete ampliar o poder do Estado, muitos já fizeram sua escolha.

 

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