Talvez por não ter mais tempo para mudanças radicais nos meus gostos e paixões, o mês de junho para mim sempre será da música nordestina clássica, sem essa mistura que vem do centro do Brasil - que não me toca a alma. Cá para nós, estarei por esses dias - como sempre faço - em busca de uma noite pelo interior do Nordeste, provavelmente em Pernambuco, em que eu possa ouvir e até dançar os ritmos de que tanto gosto.
E falar em MPN (Música Popular Nordestina), claro, é lembrar o Luiz que virou Lua, e que brilha sempre no meu céu particular. O respeito e admiração que trago por ele não perderam seu vigor, mesmo nesses tempos de esquecimento geral, em que o sucesso tem a duração da vida de uma mosca. Convém lembrar do sujeito simples e genial como alguém que nunca vai virar passado - como a maioria das gentes, eu, inclusive.
Cá para nós, tempos atrás, quase abandonei a leitura de “Chega de Saudade”, de Ruy Castro (a ótima história da bossa nova), por conta de uma expressão do autor, carregada de preconceitos: “A sanfona cafona de Luiz Gonzaga”. Cafona é a mãe! Dias depois, voltei ao livro e me dei conta de que valeu a pena a retomada.
O Rei do Baião, na verdade, é muito maior do que o excelente pesquisador e escritor. Foi ele, e nenhum outro grande artista brasileiro, que levou a música nordestina a todos os recantos do país. Foi ele, de novo, quem introduziu na MPB o trio formado por sanfona, zabumba e triângulo, dando uma graça especial ao repertório imortalizado pelo próprio Gonzaga. Só isso já seria suficiente para explicar por que o Lua há de brilhar até quando houver uma alma sensível e um coração pleno de Brasil.
Não foi fácil a vida do sanfoneiro que, aos dezessete anos de idade, fugiu da sua Exu(PE), em 1930, depois de levar uma tremenda sova de Mãe Santana. O jovem Luiz havia se apaixonado por Nazinha, filha de gente de posses nas redondezas. Chateado pelo comentário do pai da moça, Raimundo Saraiva de Olinda – de que ele era “um sanfoneirozinho” -, partiu para a desforra. Faca em punho, disse muitas e más ao coronel. Na hora, o homem até fraquejou, mas depois contou à mãe do valente o que havia acontecido. Sofreu o couro do futuro rei.
Gonzaga foi parar no Ceará e, de imediato, no 23º Batalhão de Caçadores – em plena Revolução de 1930. Ficou na farda durante dez anos; pediu baixa, já no Rio de Janeiro, e passou a tocar no Mangue, zona do baixo meretrício carioca. Valsas, tangos e boleros formavam o seu repertório.
É até triste confirmar, mas parece verdadeira a informação preciosa de Gildson Oliveira, autor de “O Matuto que Conquistou o Mundo". Disse ele que foi Armando – “nada a declarar” – Falcão quem provocou Gonzaga a tocar “as coisas do Nordeste”. Era o ano de 1940, e os dois moravam juntos numa pensão, no Rio de Janeiro. Ali nasceu “Pé de Serra”, que viria a se tornar um clássico ao ganhar, anos depois, a letra de Humberto Teixeira.
A voz encorpada, cheia de vitalidade, não era ainda admitida no rádio, grande veículo de comunicação daquelas décadas. Mas quando o público descobriu a beleza do canto de Gonzaga, o Brasil ganhou um dos maiores ídolos da sua história musical, e o Nordeste, o seu hino: “Asa Branca”. Ele virou “Lua” graças ao alagoano Paulo Gracindo, que viu no rosto do Rei do Baião o formato da preferida dos amantes.
Bem antes de morrer, em agosto de 1989, Luiz Gonzaga já havia escolhido seu herdeiro: Dominguinhos, de quem ele dizia que “urbanizou o forró”. Já conhecia o autor de “Eu só Quero um Xodó” desde Garanhuns – este, bem menino, ainda, e já esbanjando talento.
Em 1956, no Rio, os dois gravaram pela primeira vez juntos, mas só onze anos depois, Gonzaga convidou-o para viajar com ele – como motorista. O jovem sanfoneiro chegou até a abrir os shows do Rei do Baião, em cima de algum caminhão, pelos sertões adentro.
Dominguinhos contou-me, certa feita, que nessas viagens pôde ver o quanto Gonzaga era amado pela gente mais simples. Ao chegar a algum restaurante de beira de estrada, ele abria o vozeirão anunciando sua chegada:
- É seu Luís Gonzaga?
- Sou eu mesmo.
- Mas como tá véio!
- Véia é a sua mãe, e você não acha!
A alegria se instalava e todos cercavam o ídolo, definido por Câmara Cascudo como “fonte, cabeceira e nascente de suas canções. O Sertão é ele”. E como ele cantou o Sertão!
Gonzaga não era um instrumentista sofisticado como é Dominguinhos – nem precisou sê-lo. Mas era zeloso da sua obra autoral, mesmo se as harmonias que ele criava não fossem tão ricas quanto as do seu conterrâneo. Quando os dois gravavam juntos e Dominguinhos aparecia com um acorde mais ousado, o velho Lua chamava-lhe a atenção:
- A música é minha e tem de ser tocada do meu jeito. Na sua, você faz como quiser.
Não era exatamente um puxão de orelha, até porque, narrou Dominguinhos, de vez em quando ele aceitava as suas inovações.
Ah, doença maldita, esse tal de câncer! Levou-nos o Rei, em 1989, deixando, felizmente, uma obra perene. E como a música morava em suas veias, em pleno tormento e dor, provocados pelo terrível mal, Luiz Gonzaga do Nascimento sofria cantando.
Seu aboio era ouvido nos corredores do hospital onde estava internado, para deleite dos demais pacientes - até que a Velha Senhora lhe trouxesse o silêncio.
