Na Semana Santa, prefeitos, vereadores e deputados distribuem quilos de peixe para a população. Nas festas de Natal e Ano Novo, as mesmas lideranças distribuem cestas com produtos da época. No Dia dos Pais e no Dia das Mães, os políticos fazem sorteio de eletrodomésticos – de sofá a geladeira, de liquidificador a ventiladores. Em festas usadas como palanques, aqui mesmo em Alagoas, até motos já foram sorteadas.

Portanto, primeiro vamos deixar claro que a tradição de distribuir brindes aos eleitores atravessa as décadas no Brasil – e Alagoas segue à risca o que é tradicional. Se bobear, daqui a pouco haverá alguma autoridade propondo que esse ato de doação seja considerado patrimônio imaterial da cultura brasileira. Tem tudo a ver.

Agora, ao que parece, o governador Paulo Dantas (do grande MDB) resolveu provar que Alagoas está na vanguarda também nessa categoria. Por que sortear objetos, ainda que custem uma boa grana, se a gente pode fazer a transferência imediata do dinheiro vivo? Chega de meio-termo e de etapas intermediárias! Que se faça um pix diretamente.

E foi com esse raciocínio que, no último domingo do Dia das Mães, o município de Rio Largo assistiu a algo aparentemente inédito por essas bandas alagoenses. “Vocês vão ganhar também um presente do senador Renan e do governador Paulo Dantas. Quem gosta de pix aí, levanta a mão”. As palavras foram do próprio governador.

E assim foram sorteadas 50 pessoas que acompanhavam a festa das mamães. Cada uma recebeu 200 reais na hora, num total de 10 mil reais. A iniciativa foi tratada no palco como demonstração de respeito à população alagoana e de Rio Largo, claro.

Falei, no começo do texto, de festas com presente até de motos. No evento de Rio Largo, teve uma motoca também. Nesse caso, a prefeitura foi a responsável pelo sorteio, que incluiu no total 170 prêmios. Ou seja, o dinheiro público bancou tudo isso. Já o pix do governador, segundo ele, saiu de seu próprio bolso, e não do erário.

Diante da repercussão na imprensa nacional, a Secretaria de Comunicação informou o seguinte: “Não houve utilização de recursos públicos, servidores ou qualquer estrutura vinculada ao Tesouro Estadual. O governador Paulo Dantas exerceu um direito individual, utilizando recursos próprios, dentro dos limites estabelecidos pela legislação vigente”.

Não importa o que diga o governo, o estrago está feito. Em plena pré-campanha eleitoral, a distribuição de dinheiro diretamente na conta do povo foi uma ideia infernal. E vejam que a fala do governador arrasta o senador Renan Calheiros para o centro da Operação Pix. Alguém aí falou em “compra de voto”? Se não foi, a suspeita está no ar.