Nos dias atuais, vivemos em uma sociedade marcada por níveis elevados de estresse e ansiedade, reflexo direto do ritmo acelerado da vida contemporânea. Esse cenário impacta não apenas o emocional, mas também o corpo, que muitas vezes responde com sinais físicos: pálpebras tremendo, músculos do rosto contraídos, gastrites e outros sintomas.

Entre essas manifestações está a distonia psicogênica, uma condição em que fatores emocionais desencadeiam alterações motoras significativas. A fisioterapeuta Márcia Macedo e a psicóloga Simone Bezerra explicam o distúrbio e destacam a importância de uma abordagem multidisciplinar.

Apesar de se apresentar com sintomas físicos evidentes — como contrações involuntárias, rigidez muscular e até paralisias —, os exames neurológicos não apontam lesões. O que está em jogo, segundo as especialistas, é a íntima relação entre corpo e mente.

A fisioterapeuta Márcia Macedo explica que a identificação da distonia psicogênica acontece “através de uma avaliação clínica detalhada, observa-se que os exames neurológicos não são compatíveis com o quadro físico apresentado pelo paciente, especialmente a eletroneuromiografia. Também é comum a presença de um histórico emocional relevante, como sobrecarga acima do habitual, ansiedade, entre outros fatores”.

Fisioterapeuta Márcia Macedo. Foto: cortesia. 

Segundo ela, “o que existe é uma falha funcional no controle motor, como se o cérebro permanecesse constantemente em estado de alerta, gerando ativação muscular involuntária. Nesse caso não existe lesão, mas sim uma hiperexcitabilidade do Sistema Nervoso Central.”

Márcia alerta que o paciente deve procurar ajuda profissional “quando apresentar contrações, rigidez muscular, tremores ou dificuldade de movimento, especialmente quando o problema persiste mesmo em repouso”.

O tratamento fisioterapêutico, explica, “baseia-se em reeducação do movimento, reeducação postural, terapia manual, estimulação sensorial e técnicas de relaxamento muscular”.

Mas o quadro pode se repetir. “Sim, é possível que o quadro ocorra novamente, principalmente quando a causa emocional não é tratada adequadamente. Por isso, é fundamental uma abordagem multidisciplinar, envolvendo neurologista, fisioterapeuta, psicólogo e psiquiatra, a fim de tratar não apenas os sintomas físicos, mas também os fatores emocionais associados.”

Os desafios do dia a dia são grandes: “A condição pode atingir diversos grupos musculares, como face, membros superiores, tronco e membros inferiores. Em alguns casos, vários segmentos podem ser acometidos simultaneamente, gerando dificuldades para falar, escrever, andar e, consequentemente, levando ao isolamento social. A distonia psicogênica é real e tratável.”

A psicóloga Simone Bezerra lembra que fatores ambientais e emocionais podem ser gatilhos para a disfunção motora. “Podemos lembrar aqui que, quando Freud trouxe a ‘neurose’, um dos conceitos centrais da psicanálise, mostrava que os sintomas orgânicos apresentados em suas pacientes, como paralisias, não tinham uma causa orgânica explicável. Causas subjetivas, traumas sofridos poderiam colocar o corpo nesse lugar de adoecimento. Hoje, o estresse é uma resposta emocional do organismo diante de situações que levam à exaustão. A forma como lidamos com nossas experiências, sejam elas de luto, de traumas infantis, doenças familiares e tantas outras experiências significativas, pode nos levar a um lugar de alerta. E o corpo é sábio para nos fazer prestar atenção à nossa necessidade que emerge no momento.”

Pscóloga Simone Bezerra. Foto: cortesia. 

O tratamento psicológico, segundo Simone, começa com acolhimento: “É muito importante o acolhimento, uma anamnese, uma escuta ativa diante do que está sendo dito. Levar esta pessoa a entrar em contato com o sintoma, descrevendo-o. Trabalhar a subjetividade, respeitando o tempo e a história de vida. Atividades de relaxamento, meditação, também podem auxiliar, pois é o oposto do que o estresse faz.”

Ela defende uma abordagem holística: “Dentro de uma perspectiva mais holística, acredito que a abordagem precisa estar a favor de quem procura o acompanhamento, de acordo com a disponibilidade e a sua necessidade. Hoje, trabalho com a Gestalt-terapia, utilizando as técnicas que a abordagem me oferece. Tenho presenciado mudanças de comportamento e consequente de vida das pessoas que me permitem cuidar delas, dentro dos mais variados sintomas trazidos ao ‘setting’ terapêutico.”

Sobre a possibilidade de cura, Simone é otimista: “A psicoterapia é um instrumento valioso na mudança do comportamento. Na medida em que o cliente se disponibiliza a cuidar de si mesmo, prestar atenção aos seus sofrimentos, entrar em contato com suas dores e potencialidades, ampliando a consciência, ele poderá sim diminuir os sintomas, podendo até chegar à cura.”

Ela ressalta ainda os sinais que indicam a necessidade de tratamento psicológico aliado a outras especialidades: “É importante observar as mudanças que estão acontecendo. A psicoterapia, em alguns momentos, precisa estar aliada a outras terapias. Se a pessoa não tem uma qualidade de sono favorável, se os sintomas da ansiedade estão mais frequentes ou se o paciente já tem um diagnóstico de transtorno mental, é importante direcionar aos profissionais específicos que somarão no tratamento.”

As falas de Márcia Macedo e Simone Bezerra mostram que a distonia psicogênica é um exemplo claro de como corpo e mente não podem ser dissociados. Enquanto a fisioterapia atua na reeducação funcional e no alívio dos sintomas físicos, a psicologia ajuda o paciente a compreender suas experiências emocionais e a ressignificar traumas.

 

*Colaborador