O recente alerta epidemiológico para meningite C em Maceió, nos bairros Benedito Bentes, Jacarecica e Serraria, reacendeu a atenção para uma doença grave, de evolução rápida e que pode ser fatal em poucas horas. Segundo dados do Ministério da Saúde, Alagoas hoje lidera o ranking de incidência da doença meningocócica no Nordeste e ocupa a segunda posição no país. O avanço estaria diretamente relacionado à queda progressiva da cobertura vacinal nos últimos anos, comprometendo a proteção coletiva.

De acordo com a médica infectologista Mardjane Lemos, da Unimed Maceió, essas bactérias possuem alta afinidade e capacidade de invadir o sistema nervoso central (SNC), sendo o cérebro o principal órgão e centro de comando dessa importante estrutura. “Crianças e adolescentes costumam ser mais vulneráveis porque apresentam maior permeabilidade do SNC”, explica.

Em termos epidemiológicos, a confirmação de três casos de meningite C — forma da doença com vacina disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS) — em um intervalo inferior a 90 dias, de outubro a dezembro de 2025, em áreas próximas, acendeu um alerta relevante no município, que acionou protocolos de vigilância. “É uma doença extremamente aguda. Em casos graves, a meningite bacteriana pode evoluir para óbito em 24 a 48 horas após o início dos sintomas, o que torna o diagnóstico e a prevenção ainda mais decisivos”, alerta a infectologista.

 

Ela explica que, entre os principais sintomas, estão febre alta, dor de cabeça intensa, rigidez na nuca, vômitos e mal-estar geral. Diante desses sinais, a orientação é buscar atendimento médico imediato.

A meningite é uma inflamação das meninges — membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal — e pode ser causada por vírus, bactérias, fungos ou pelo bacilo da tuberculose, conforme explica o Ministério da Saúde (MS). No entanto, são as meningites bacterianas que mais preocupam as autoridades de saúde municipal e estadual no momento, por serem transmissíveis de pessoa para pessoa e imunopreveníveis.

Bloqueio vacinal

A capital alagoana adotou estratégia de bloqueio vacinal contra a doença meningocócica pelo sorogrupo C nos bairros da Serraria, Jacarecica (Conjunto Aprígio Vilela), Benedito Bentes, Barro Duro, Canaã, Gruta de Lourdes, Jardim Petrópolis, Ouro Preto e Antares, ou seja, foi usada uma metodologia de Microplanejamento, que considera os raios de até 1 km² a partir dos casos confirmados. A medida busca interromper a cadeia de transmissão, vacinando pessoas geograficamente próximas aos casos diagnosticados, independentemente da idade, com o objetivo de eliminar portadores assintomáticos do território.

Segundo Mardjane Lemos, esse tipo de ação não seria necessário caso os índices de vacinação estivessem mais adequados. Em 2025, Maceió registrou cobertura de 84,85% da primeira dose da vacina meningocócica C, já em 2024 o número foi de 85,82%. Ambos abaixo do ideal. “Para que a vacina tenha efetividade coletiva, a cobertura precisa ultrapassar 95%. Em 2023, o índice foi um pouco maior: 90,41%, mas ainda insuficiente. Os reflexos de uma baixa adesão repercutem anos depois, especialmente quando essas crianças chegam à idade escolar, período de maior convivência e risco de transmissão”, explica.

A infectologista da Unimed reforça que não é possível eliminar a bactéria do ambiente, e que a forma mais eficaz de prevenção é a vacinação, incluindo as vacinas que protegem contra os sorogrupos ACWY, fundamentais para ampliar a proteção da população.

“Vacinar não protege apenas quem recebe a dose, mas toda a coletividade. Em doenças como a meningite, a baixa cobertura vacinal cria brechas que permitem a circulação da bactéria e o surgimento de surtos”, conclui.

Entendendo os indicadores -

O gráfico do Ministério da Saúde (MS), de coeficiente de incidência da doença meningocócica em Maceió, por sorogrupo, mostra, de forma bastante clara, o impacto da vacinação na prevenção da meningite. A linha verde representa os casos de meningite do tipo C. Ao longo do período analisado, é possível observar dois picos distintos de incidência: o primeiro em meados de 2013 e o segundo mais recente, que está ocorrendo desde o final de 2025.

A vacina meningocócica C foi incorporada ao calendário básico de vacinação infantil em 2011. Assim, o aumento dos casos observado em 2012 e 2013 ocorre justamente no início da vacinação sistemática das crianças, quando a cobertura ainda estava em expansão e não havia, naquele momento, proteção coletiva suficiente para conter a circulação da bactéria. Após 2013, a curva de incidência da meningite do tipo C praticamente desaparece, evidenciando o efeito direto da imunização direcionada ao público correto.

Na época da incorporação daquele imunizante ao calendário básico, a cobertura vacinal chegou a 93%, segundo dados do Datasus — índice muito próximo da meta estabelecida pelo Ministério da Saúde. “Esse patamar elevado foi determinante para a queda abrupta dos casos observada após 2013”, explica Mardjane.

No entanto, ao longo dos anos seguintes, a cobertura começou a apresentar redução progressiva, atingindo índices inferiores a 80%, como ocorreu em 2017 (77,67%). Posteriormente, os percentuais permaneceram muito abaixo do ideal, como ocorreu também em 2020, 2021 e 2022: 77,95%, 70,95% e 74,80%, respectivamente.

Parte dessa queda pode ser contextualizada pelos impactos da pandemia da Covid-19 sobre os serviços de imunização. Segundo dados oficiais publicados em julho de 2021 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 23 milhões de crianças deixaram de receber vacinas básicas por meio dos serviços de rotina em 2020 — o pior índice desde 2009. Os dados, que foram os primeiros a refletir as interrupções globais causadas pela pandemia, mostraram que a maioria dos países registrou queda nas taxas de vacinação infantil naquele ano.

Embora tenha havido recuperação em 2023, a cobertura não voltou a atingir a meta preconizada. E o efeito epidemiológico dessa redução prolongada na proteção coletiva tende a se manifestar alguns anos depois — o que ajuda a compreender por que o surto ocorre justamente agora.

Para a médica infectologista da Unimed Maceió, Mardjane Lemos, o comportamento do gráfico reforça uma lógica clara da saúde pública. “A matemática da vacinação é simples: quando a cobertura cai, em algum momento a doença volta”, afirma.

Outro gráfico do MS revela um dado preocupante: Alagoas apresenta o maior coeficiente da doença meningocócica do Nordeste e o segundo maior do país.

No ranking nacional, o Pará aparece com o maior índice. No entanto, especialistas apontam que o estado possui características territoriais e logísticas específicas que impactam historicamente as estratégias de vacinação: trata-se de um território de grande extensão, com áreas de floresta, longas distâncias entre municípios e dificuldades de acesso em determinadas regiões — fatores que impõem desafios adicionais às campanhas de imunização e à manutenção de coberturas homogêneas.

“Alagoas, por sua vez, não enfrenta esse mesmo cenário geográfico. Isso torna o dado ainda mais relevante do ponto de vista epidemiológico”, alerta a infectologista.

Se a incidência já acende um alerta, os indicadores de letalidade do Ministério da Saúde tornam o cenário ainda mais preocupante: o gráfico nacional (esquerda) mostra que, no Brasil, o pico recente de letalidade da doença meningocócica ocorreu em 2023, quando o índice atingiu 25,6%. Isso significa que, naquele ano, aproximadamente um em cada quatro casos evoluiu para óbito.

 

No mesmo período, Alagoas (gráfico da direita) registrou um dado significativamente mais grave: 60% de letalidade. Ou seja, mais que o dobro da média nacional naquele ano. A comparação evidencia maior gravidade na evolução da doença no estado.

A infectologista da Unimed Maceió diz que “a leitura combinada dos três indicadores — incidência, cobertura vacinal e letalidade — aponta para a mesma direção: a necessidade urgente de reforçar as estratégias de imunização e ampliar a conscientização da população sobre os sinais de alerta da doença”.

Segundo ela, em casos suspeitos de doença meningocócica, tempo é determinante para salvar vidas. A recomendação é que o antibiótico seja iniciado na primeira hora de atendimento, mesmo diante de suspeita clínica, antes mesmo da confirmação laboratorial. “Em meningite meningocócica, tempo é ouro”, conclui.

 

*Com Assessoria