Foi uma surpresa geral. No discurso após a vitória, o novo presidente da Câmara dos Deputados fez uma defesa enfática da democracia. O paraibano Hugo Motta, filiado ao Republicanos, venceu a eleição com 444 votos. Marcel Van Haten e Pastor Henrique Vieira ficaram bem para trás. Assim como ocorreu no Senado com a vitória de Davi Alcolumbre, Motta obteve um triunfo que o eleva de patamar. Adeus ao baixo clero.

Para bolsonaristas, certamente foi desagradável ouvir o trecho do discurso sobre Estado Democrático. Motta citou várias vezes o deputado Ulysses Guimarães – e reproduziu as palavras históricas do parlamentar no ato da promulgação da Constituição, em 1988: “Ditadura nunca mais. Temos ódio da ditadura. Ódio e nojo. Viva a democracia”. Nenhuma palavra sobre o projeto de anistia para os golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Esse foi o lado, digamos, saudável do discurso do novo comandante da Câmara. Com a mesma ênfase, porém, ele sinalizou para a defesa incondicional do modelo das emendas parlamentares. Exigir transparência sobre o destino das verbas não é ameaça à soberania do Legislativo, como insinua a turma da Câmara. É preciso também um controle sobre os valores e os critérios para distribuição. Está aí o impasse a resolver. 

Não por acaso, e na mesma linha do colega Alcolumbre, Motta ressaltou que a harmonia entre os três poderes é essencial – e “nenhuma interferência” será tolerada. O presidente falou em “parlamento forte” para barrar “qualquer tipo de arbitrariedade”. Somente com a abertura do ano legislativo pra valer é que veremos como tudo isso se dará no dia a dia. Como todo discurso, boa parte está mais para arroubos e afetações inservíveis.

Para saber se o governo Lula pode mesmo comemorar o resultado das eleições no Congresso, temos de ver na prática. Porque, pensando bem, se Lulistas e bolsonaristas festejam o mesmo acontecimento, um dos lados, cedo ou tarde, vai se decepcionar. Aí, como é que ficarão as coisas? O presidente deve se reunir nos próximos dias com os novos chefes do parlamento. Será um primeiro lance na relação que se inicia agora. 

Nota lateral. Arthur Lira aproveitou cada segundo possível para se vender como o maior responsável pela vitória de Hugo Motta. Cometeu até a deselegância de anunciar o vencedor ainda antes da votação. Repare que isso não ocorreu na eleição do Senado. E, na verdade, Motta não era o preferido de Lira. O alagoano teve de se dobrar aos blocos na Câmara – ou poderia sofrer uma derrota e tanto. O desfecho é obra coletiva.