Carla Zambelli aponta o revólver para o homem no meio da rua. Roberto Jefferson atira contra agentes da Polícia Federal. Na pregação de Bolsonaro durante seu governo, o “povo armado” é o suprassumo da democracia. A ascensão do bolsonarismo liberou uma fúria que tem ligação direta com os dois episódios citados. Há uma celebração da força bruta, expressa no apoio explícito à existência de milícias e grupos de “justiceiros”.
O culto às armas. A macheza. A boçalidade. Essa misturada explica o caso do policial do Rio de Janeiro que ameaçou a jornalista Natuza Nery. A investida do agressor ocorreu num supermercado de São Paulo em 30 de dezembro. Ele desferiu xingamentos e afirmou que pessoas como a jornalista deveriam ser “aniquiladas”. É um militante das ideias da ultradireita, com a estranha queda pela truculência como argumento.
O portal Metrópoles mostrou que o agente civil fez várias publicações atacando as urnas, defendendo golpe militar e espalhando números falsos sobre o resultado das eleições de 2022. É alguém que sai por aí à procura de um molde para sua realidade pré-fabricada. Foi o que fizeram Zambelli e Jefferson, que abrem este texto. Em algum momento, eles vão atropelar qualquer limite a seus propósitos, até os limites da legalidade.
O policial que intimidou a jornalista da Globonews será investigado pela corregedoria da corporação. No Boletim de Ocorrência, o valente chegou a ensaiar mais um pouco de valentia, mas desistiu. Não fala à polícia, apenas diante de um juiz. Não importa. É mais um exemplo do quanto o racha político chegou a níveis de calcificação – como especulam cientistas sociais. O temor é que venham aí situações mais graves.
Bem, não há como negar que essa atmosfera de faroeste tenha se instalado no pacote que a direita promete “entregar” (nesse caso, o verbo combina). É bancada da bala em tudo o que é biboca, não apenas no parlamento federal. Os conservadores chefes de família não pensam em outra coisa. Alagoas está nessa vanguarda do reacionarismo.
O que faz um servidor estadual se sentir no direito de agredir uma pessoa, num ambiente público, como se isso fosse aceitável em alguma hipótese? Não é. Mas ele vai pra cima – no shopping, no aeroporto, no restaurante etc. Esse tipo de conduta começou a ser vista reiteradamente no auge da Lava-Jato. Como se vê, vandalismo jurídico acaba assim.
2024 foi um dos anos mais violentos na política brasileira, com disputas eleitorais que acabaram em morte. A violência contra jornalistas também está nas alturas. Aquela história de cultura do ódio não era moda passageira. Tem muito estrago a produzir.
