Uma imagem destruiu a reputação do técnico da seleção brasileira de futebol, Dorival Junior. Logo após o empate de zero a zero com o Uruguai pelas quartas de final da Copa América, os jogadores aparecem numa roda, como que acertando detalhes sobre a cobrança de pênaltis. Era um momento tido como crucial na decisão por uma vaga na semifinal da competição. O que há de errado nisso? Deu uma confusão e tanto.

O que chamou atenção do mundo foi a posição de Dorival Junior, afastado dos atletas, coçando a cabeça, como se estivesse excluído daquele instante. No Brasil, assim que o jogo acabou, esse flagrante dominou os debates nas mesas redondas que analisam o desempenho da seleção. Como se sabe, fomos eliminados após duas cobranças desperdiçadas por jogadores brasileiros. Nova lambança numa coleção de fiascos.

A tradução da imagem foi mais ou menos esta: um treinador desorientado, sem liderança diante do time que em tese é comandado por ele. Estamos perdidos. O Brasil fez mais uma partida ridícula, sem mostrar nada que possa ser chamado de esquema tático. E para completar, um técnico que não tem moral diante de seus supostos comandados, posto pra fora no momento em que deveria ser ouvido. Mas foi tudo isso mesmo?

Na Globo, sempre governista com a seleção, Roger Flores disse que “a imagem é muito cruel para Dorival Junior”. Segundo o comentarista, aquele registro está “fora de contexto”. Ainda segundo o ex-jogador, o treinador já havia passado aos jogadores suas orientações para os pênaltis. E finalmente, defende o global, a foto mostra “o momento dos caras” numa oração antes das cobraças das penalidades. Nada de outro mundo.

É uma tese que poucos seguiram no jornalismo esportivo. Até onde vi, a maioria classifica a coisa entre vexatória e reveladora da falta de liderança do treinador. Dorival divulgou uma nota na qual deu mais ou menos a mesma versão que o comentarista da Globo expôs. Mas o estrago parece irreparável. O que fica para a história é o desenho capturado pelas lentes de uma câmera naquele segundo mortal.

As variáveis se combinam e alimentam o enredo infernal. Internet, redes sociais, mundo virtual, velocidade máxima, narrativas. É a misturada perfeita. Tudo no liquidificador da comunicação digital, e Dorival Junior não tem escapatória. Não adianta o que venha a explicar, já perdeu. Uma simples fotografia potencializada ao infinito, abrindo a caixa de significados que trituram um cara desatento. Futebol é assim. Imprevisível