No cenário empresarial alagoano, a trajetória de muitas mulheres empreendedoras é marcada por desafios, superações e histórias inspiradoras. Uma delas é a de Viviane Lívia, de 38 anos, uma professora por formação, pós-graduada em educação sexual, que encontrou no empreendedorismo um novo caminho de realização e sucesso.

Filha de comerciante, Viviane cresceu dentro do comércio, mas inicialmente não pensava em seguir essa carreira. "Eu era graduada e sempre atuei com palestras voltadas para o desenvolvimento da vida sexual das mulheres", conta ela. Foi aos 24 anos, que ela abriu sua primeira loja de roupas femininas, mas precisou fechar aos 26 por questões pessoais.

A vida deu outra oportunidade aos 33 anos, quando Viviane decidiu criar a PontoV, uma loja de lingerie que começou como uma renda extra enquanto ela ainda lecionava. "Iniciei minha loja com apenas 300 reais e uma sacola nas costas, sem saber nada sobre o ramo de moda íntima. Foi desafiador empreender na pandemia.", relembra.

 

Crescimento em tempos de pandemia

Créditos: Arquivo Pessoal

 

A pandemia trouxe desafios únicos, mas também oportunidades. Viviane se dedicou ao e-commerce e viu seu negócio crescer, tornando-se uma referência no ramo. "Conseguimos ir fazendo nome na cidade em que eu vivia e me tornei referência no ramo. Viralizamos no TikTok [rede social de vídeos curtos] onde eu embalava as mercadorias e postava", comentou.

A PontoV se expandiu para plataformas de venda online, como a Shopee, onde hoje conta com mais de 400 compradores. Viviane também abandonou o ensino para se dedicar totalmente ao empreendedorismo feminino, uma decisão que considera a melhor de sua vida. "Foi a melhor escolha da minha vida, e daí eu passei a estudar a fundo o meu mercado e ramo têxtil da moda íntima", afirma.

Além dos altos e baixos do negócio, ela enfrentou problemas sérios como assaltos e tentativas de sequestros durante viagens, e mercadorias roubadas. "Hoje temos condições de ter nosso espaço físico que pretendemos abrir, mas por enquanto optamos em continuar apenas com o online pois nosso e-commerce demanda tempo", explica.

No primeiro ano de loja, foram vendidas mais de 1000 peças pela Shopee, e a qualidade e preço baixo das peças conquistaram clientes fiéis. "Nossas peças sempre foram famosas pela qualidade e preço baixo, costumo brincar que é loja de capital com preço de interior", diz a empreendedora.

 

O papel do apoio e da comunidade

Créditos: Arquivo Pessoal

 

Ela destaca que, inicialmente, não teve apoio de ninguém. A prefeitura da cidade onde morava, Rio Largo, não tinha projetos de incentivo ao comércio local. Só mais tarde ela começou a participar da associação de mulheres empreendedoras da cidade, onde houve palestras do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e outras iniciativas. Ela também enxerga desafios na falta de colaboração entre as próprias empreendedoras. 

"As próprias empreendedoras não se ajudam, poucas delas contribuem umas com as outras. O espaço existe sim e é vasto, só não existe colaboração e participação da maioria que não apoia pequenos empreendimentos", critica.

Além disso, ela também relata situações que passou enquanto empreendedora de um nicho tão específico,  como conviver com homens que passam cantadas nas redes sociais por conta das fotos das modelos. Ainda assim, Viviane ainda vê Alagoas como um bom lugar para empreender. "Se você for bom no que faz, você vende areia no deserto", afirma.

Ela também acredita na importância de os empreendedores se ajudarem. "Um empreendedor entende o outro e sabe os desafios que se enfrenta. Muitas nem indicam os serviços de outras. No final, todo mundo acaba perdendo", acrescenta.

 

30,04% dos empreendimentos em Alagoas têm mulheres à frente, revela Juceal

Conforme um estudo divulgado pela Junta Comercial do Estado de Alagoas (Juceal), atualmente existem 83.442 negócios com registro ativo que possuem mulheres como empreendedoras. 

Esse mapeamento, que traça o perfil de empresárias, sócias, diretoras e representantes, revela a significativa participação feminina no setor econômico de Alagoas, embora ainda haja um longo caminho a percorrer para alcançar a paridade.

Ainda segundo os dados divulgados pela Juceal, as mulheres estão inseridas nas atividades empresariais em várias posições: 62.938 são empresárias, 24.849 são sócias, 17.697 são gerentes de negócios, 677 são representantes e 228 são diretoras.

Entretanto, mesmo com uma população feminina de 52,1%, conforme o Censo 2022, os negócios liderados por mulheres representam apenas 30,04% do total de empresas ativas. 

Essas mulheres trabalham em muitas áreas diferentes, mas a maioria está envolvida em comércio e serviços de alojamento e alimentação. Esses setores juntos representam mais da metade, cerca de 56,1% do total. No comércio, são 36.779 empresas, enquanto em alojamento e alimentação são 10.018.

 

Construindo o caminho do sucesso em Alagoas e Brasil

Um estudo recente do Sebrae revela que as mulheres em Alagoas estão liderando o caminho do empreendedorismo. De acordo com a pesquisa, 91% das mulheres empreendedoras no estado estão tocando seus próprios negócios, enquanto 67% dos empreendimentos liderados por elas empregam entre um e cinco funcionários.

Esse cenário não é exclusivo de Alagoas — em todo o Brasil, as mulheres estão marcando presença no mundo dos negócios. O país registrou um recorde de 10,3 milhões de mulheres donas de negócios em 2022, representando 34,4% do total de empreendedoras.

Além disso, o estudo destaca um papel significativo que as mulheres estão desempenhando como chefes de domicílio. Mais da metade das empreendedoras brasileiras (51%) estão liderando seus lares. Em estados como Acre, Amazonas e Tocantins, essa proporção supera a média nacional, alcançando 59%.

 

Benedito Bentes lidera o ranking de negócios tocados por mulheres em Maceió

De acordo com os dados do Banco da Mulher Empreendedora, mais de 5.800 mulheres maceioenses se inscreveram no projeto a fim de receber ajuda financeira para iniciar, manter ou expandir seus empreendimentos na capital. Do total de negócios inscritos, 832 foram aprovados e a maior parte deles estão localizados no Benedito Bentes.

Com um total de 122 negócios, o Benedito Bentes lidera o ranking entre os bairros com o maior número de mulheres empreendedoras da capital. De acordo com o levantamento, o local concentra cerca de 14,7% do investimento feito pelo projeto, com o valor total de R$146.400 investidos.

Entre os segmentos de atividades que mais aparecem na capital estão: Beleza, Estética e Saúde (285); Produtos Alimentícios e Bebidas (181); e Vestuário, Calçados e Acessórios (137).

Quanto à faixa etária, o grupo, que engloba mulheres com idades entre 18 e 31 anos, é o que detém a maior quantidade de negócios, com cerca de 423 empreendimentos.

 

“Estimular o empreendedorismo feminino”

Ao CadaMinuto, a advogada e secretária da Secretaria Municipal da Mulher, Pessoas com Deficiência, Pessoa Idosa e Cidadania (Semuc), Ana Paula Mendes, explica como surgiu o Banco da Mulher Empreendedora (BME) e como o projeto tem contribuído para promover o empoderamento econômico das mulheres na capital alagoana.

Segundo Ana, o BME é um programa de auxílio financeiro destinado a mulheres empreendedoras de Maceió, com o objetivo de apoiar o desenvolvimento e expansão de negócios liderados por mulheres na cidade. 

“Além do suporte financeiro, o programa também oferece capacitação empresarial e mentoria, a Trilha da Mulher Empreendedora. Essa etapa ajuda as empreendedoras a aprimorarem suas habilidades de gestão e a superarem desafios, promovendo o crescimento sustentável de suas empresas”, informa a secretaria.

Ela afirma que o projeto surgiu da necessidade de estimular o empreendedorismo feminino em Maceió. “A ideia é criar um ambiente mais favorável para que as mulheres possam empreender, contribuindo para também para o desenvolvimento econômico local”.

De acordo com a secretária, um ponto fundamental a ser destacado é que os valores recebidos pelas empreendedoras não precisam ser devolvidos à Prefeitura de Maceió, pois não constituem um financiamento tradicional. “A ausência da obrigação de reembolso elimina a pressão, permitindo que as empreendedoras se concentrem em estratégias de crescimento para o seu negócio”.

Ana Paula reforça que o programa foi idealizado para ser acessível a mulheres de diferentes origens e contextos sociais, promovendo a diversidade e a igualdade de oportunidades. Um exemplo disso, de acordo com a secretaria, é a inclusão de mulheres trans nos critérios de participação.

“Com isso, combatemos preconceitos e estereótipos de gênero no mundo dos negócios. Essa abordagem inclusiva não só amplia o impacto do programa, mas também envia uma mensagem poderosa sobre a importância da diversidade e da igualdade”, pontua.

 

Critérios para participar

A secretária esclarece que os critérios para que as mulheres possam se cadastrar e participar do projeto são essenciais para garantir que os recursos e o suporte oferecidos sejam direcionados de maneira eficaz. 

Embora os critérios específicos possam variar conforme o edital, aqui estão alguns: 

- Ser mulher;

- As candidatas devem ser residentes de Maceió;

- Ter acima de 18 anos;

- Ter seu empreendimento localizado em Maceió;

- As candidatas também devem ser empreendedoras ou aspirantes a empreendedoras, se ainda não tem um empreendimento, precisa nos apresentar uma projeto de criação;

- Obrigatoriedade de passar pela Trilha da Mulher Empreendedora. 

Conforme Ana Paula, as candidatas devem preencher o formulário de inscrição e Plano de Negócio, disponível no site oficial do Banco da Mulher Empreendedora. As inscrições e documentações são analisadas para verificar a viabilidade dos negócios propostos.

 

Tipos de apoio 

O Banco da Mulher Empreendedora oferece uma variedade de apoios para ajudar mulheres empreendedoras a iniciar, expandir e fortalecer seus negócios. Segundo a secretária Ana Paula, os principais tipos de apoio oferecidos são:

- Cursos de capacitação;

- Mentorias e consultorias técnicas;

- Oportunidade de Network;

- Participação em Feiras para Mulheres Empreendedoras;

- Grupo de apoio.

Além do suporte financeiro, o programa oferece a etapa de capacitação em áreas essenciais como gestão financeira, marketing e planejamento de negócios. “Consideramos essa etapa a mais importante do Banco da Mulher Empreendedora”, salienta a secretária.

 

“Ficamos muito orgulhosas dos resultados que colhemos com o projeto”

Quando questionada sobre os impactos positivos que o programa traz para a vida das empreendedoras maceioenses, a chefe da pasta afirma que as participantes relatam que o apoio financeiro e as capacitações foram essenciais para o desenvolvimento e a expansão de seus negócios.

“Muitas delas realizaram o sonho de iniciar sua jornada empreendedora, outras conseguiram aumentar seus estoques de produtos, para algumas a conexão com outras empreendedoras trouxe novas possibilidades. Todos os relatos reforçam a importância e o impacto positivo deste programa”, ressalta.

Ela evidencia que, além do crescimento dos negócios, muitas integrantes do projeto destacam como benefícios o aumento de suas habilidades e confiança, além da criação de uma rede de suporte sólida e colaborativa. “Ficamos muito orgulhosas dos resultados que colhemos com o Programa Banco da Mulher Empreendedora”.

 

*Estagiárias sob supervisão da editoria