Blog do Celio Gomes
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Futebol alagoano é palco permanente para o crime de homofobia

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Torcida do CRB em jogo contra o ASA
Torcida do CRB em jogo contra o ASA / Foto: Paula Góes

Em janeiro deste ano, a Federação Mexicana de Futebol tomou uma decisão de repercussão mundial. Manifestações homofóbicas nas arquibancadas mexicanas vão resultar no banimento dos estádios. Se comprovada a prática de homofobia, torcedores ficarão proibidos de frequentar os jogos durante pelo menos cinco anos. 

A medida é uma reação a um “grito de guerra” adotado pelas torcidas há coisa de vinte anos. Quando o goleiro vai repor a bola em jogo (o famoso tiro de meta), a galera do time rival dispara a cantoria: “Êêêêêêê, puto!”. No México, a expressão é um jeito agressivo, vulgar e discriminatório de se referir a gays.

O comportamento da torcida passou a incomodar mais depois que chegou à Copa de 2014, realizada no Brasil. Em 2018, na Rússia, novas demonstrações de homofobia no canto que o México inventou. Por causa dessa presepada, a Fifa já multou a federação mexicana várias vezes. E avisou que, se a coisa continuar, algo mais sério terá de ser feito. A seleção de futebol poderia ser suspensa dos gramados.

Corta pra nós, aqui no Brasil, em Alagoas. Assim como o racismo, a homofobia corre solta nos gramados de todo o país e na plateia de todos os jogos. Parece que esse esporte já nasceu com tal comportamento. Porque, vamos combinar, se há um ambiente que sintetiza atraso mental, reacionarismo e truculência, é o ambiente do futebol. Ofensas e brutalidade marcam o Brasil da bola.

Depois de muitos e demorados invernos longe dos estádios, fui ao Trapichão ver CRB e ASA, nas finais do campeonato estadual. Tem menos de duas semanas. Nas grandes arquibancadas, fiquei no meio da muvuca, involuntariamente dividindo espaço com parte da “torcida organizada”, a tal Comando Vermelho. E lá estava a deplorável manifestação de homofobia.

Antes, durante e depois do jogo, com uma frequência obsessiva, ecoa a gritaria que termina assim: “A Mancha é gay, é gay, é gay”. Repare que o jogo era contra o ASA, mas a turba solta o grito que foi criado pra atacar a Mancha Azul, torcida organizada do CSA. Ou seja, a fixação no inimigo é coisa pra divã de analista. Aqui os rivais estão no mesmo nível.

É como se fosse um refrão de ódio e desprezo pelo outro. Histriônicos, os caras só faltam espumar ao expressar o criminoso comportamento. Ao mesmo tempo, há muito de patético na ênfase com que marmanjos, alguns marombados, se esgoelam nesse teatrinho de machões que não entenderam nada de coisa nenhuma. 

O mundo mudou, vai mudando, mas certas coisas parecem imunes aos ventos de qualquer renovação. Homofobia é crime e tem de ser combatido e punido na forma da lei. Até quando vamos tolerar essa bandalheira a céu aberto, num estádio de futebol, com milhares de pessoas? 

Clubes e federação deveriam tomar alguma iniciativa, mas isso, sabemos todos, não vai acontecer. A estupidez da macharada homofóbica tem tudo a ver com a mentalidade de cartolas e dirigentes dos maiores times do futebol alagoano. Assim fica difícil...

SOBRE O AUTOR

Sou formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Tenho quase trinta anos de jornalismo. Comecei, com estágios e trabalhos temporários, a partir de 1990. Em 1991 entrei na TV Gazeta de Alagoas. Na empresa exerci os postos de editor, produtor, chefe de redação e diretor de jornalismo. Depois fui editor de política em O Jornal. Adiante, trabalhei como editor de política e editor-chefe no jornal Gazeta de Alagoas. Tive também uma passagem pela TV Pajuçara como editor de telejornais. Exerci ainda o cargo de coordenador editorial na Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Durante essa trajetória, nos diferentes veículos, escrevi reportagens e tive um blog com textos diários

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