Blog do Celio Gomes
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A biblioteca fake da elite semianalfabeta

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Desembargador segura "estante com livros". Só que não
Desembargador segura "estante com livros". Só que não / Foto: reprodução

Nas aulas de Teoria do Comunismo, da Universidade Federal de Alagoas, aprendemos que a burguesia é geralmente semianalfabeta. Pelo menos era o que diziam textos e professores do curso de Jornalismo, ao longo dos anos 80 do século passado. Aqui vai uma prova do veredito inapelável contra o burguês: gente muito rica, mas sem familiaridade com o lado subjetivo da vida, digamos assim, tinha em suas mansões bibliotecas de fachada. As estantes cheias de livros que forravam paredes, corredores e salões eram ilusão de ótica.

Porque os muito ricos também querem parecer cultos, letrados, de gostos refinados. E o livro serve para tal encenação, tem essa aura de certo requinte, sinal de inteligência etc. A imagem de “leitor voraz” indica que estamos diante de alguém até erudito, com cancha de intelectual, quem sabe? Mas a leitura não é nada atraente para essa gentalha. Dá trabalho. É cansativo. E quem precisa ler? É mais fácil (e rápido) posar com o fundo bonito e elegante de uma biblioteca. Ainda que seja uma biblioteca fake. 

Quando ouvi isso pela primeira vez, décadas atrás, achei que era uma lenda globalista, já naquela época, na guerra cultural em que a esquerda dominou os currículos universitários. Mas era verdade. Hoje, mais de trinta anos depois, um desembargador do Amazonas atualiza o mito, ressignifica a presepada. Yedo Simões, do Tribunal de Justiça amazonense, não deve saber a dimensão do que acaba de protagonizar. É histórico.

Durante uma sessão virtual do TJ, o que seria parte da biblioteca na casa do desembargador desaba atrás de sua cadeira. Ele olha meio desajeitado, mas, na maior naturalidade, se mexe para botar de pé novamente toda a estante. Os “livros” não saem do lugar, como que colados na madeira. Mas é pintura mesmo. Um fundo falso. Livro fake. Um inquietante hábito no topo da pirâmide que os séculos não arrefeceram.

Vaidade. Enganação. Futilidade. Elites ignorantes, atrasadas, desonestas. Não é que eu seja panfletário, mas o desembargador que veio do Norte é definitivo. O andar de cima, como diz Elio Gaspari, é pura fraude. Finge até que lê. Tem coisa que não muda mesmo. É por isso que os cursos de Comunismo continuam firmes nos bancos universitários.

SOBRE O AUTOR

Sou formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Tenho quase trinta anos de jornalismo. Comecei, com estágios e trabalhos temporários, a partir de 1990. Em 1991 entrei na TV Gazeta de Alagoas. Na empresa exerci os postos de editor, produtor, chefe de redação e diretor de jornalismo. Depois fui editor de política em O Jornal. Adiante, trabalhei como editor de política e editor-chefe no jornal Gazeta de Alagoas. Tive também uma passagem pela TV Pajuçara como editor de telejornais. Exerci ainda o cargo de coordenador editorial na Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Durante essa trajetória, nos diferentes veículos, escrevi reportagens e tive um blog com textos diários

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