Blog do Celio Gomes
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A briga entre o secretário e a cadeira gigante: é o “turismo instagramável” de Maceió!

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Turistas e a cadeira gigante na Ponta Verde
Turistas e a cadeira gigante na Ponta Verde / Foto: Paula Góes

Pelo que vi de longe, uma multidão se divertiu nas redes sociais com essa briga feia entre o ex-deputado Maurício Quintella e uma cadeira gigante. (Isso mesmo, você não leu errado e nem eu estou delirando, ainda). A escultura – vamos chamar assim numa licença poética – foi instalada na orla de Ponta Verde, em nossa indefesa Maceió. Quintella, que é secretário de Estado de Infraestrutura, registrou sua indignação em vídeo, classificando a obra assim: “Uma homenagem ao extremo mau gosto”.

Se deu mal. Não que eu veja no monumento o exemplo da melhor expressão artística. Mas não é disso que se trata aqui. O secretário se deu mal porque, suponho pelas reações em sua própria publicação, a maioria gostou da ideia. E é fácil entender. O inusitado atrai automaticamente. Aquele tipo de estranheza diante da forma inesperada, fora do repertório consagrado, inquieta nossas retinas fatigadas... É por isso daí que a cadeirona faz sucesso. 

Vi a marmota de perto. Na última quinta-feira, primeiro dia de instalação da cadeira, perambulava pela região quando notei a fila. Turistas fazem o maior alvoroço com o equipamento que serve de moldura para fotos e selfies. Casais, adultos e crianças, famílias inteiras, os grupos se revezam em poses individuais ou coletivas. Há uma visível ansiedade em quem está esperando a vez de pular em cima daquele troço e mandar o recado pelo Instagram.

Ponto instagramável. Esse é o epicentro da escultura gigante em forma de assento. É negócio. A prefeitura de Maceió investe num “modelo de gestão” do turismo cujo eixo principal é criar “espaços instagramáveis”. Isso significa fabricar ambientes que atraiam aqueles à procura de uma paisagem que sirva de “decoração” para o autorretrato.

A orla marítima está engarrafada com esse tipo de escultura. A atual gestão municipal claramente aposta nesse tipo de “investimento turístico”. Ponho entre aspas porque é muito pouco frente a tantas demandas do setor. De todo modo, digamos que a iniciativa cumpre a missão de forjar um cartão postal a cada esquina à beira da praia. Sim, é uma simplória jogada de marketing, sem nenhum requinte de qualquer tipo, nem administrativo e muito menos estético.

Décadas atrás, essa espécie de cadeira de Itu seria catalogada na categoria do kitsch. Mas isso também ficou no passado das teorias da comunicação e da estética de massa. Nada disso está em jogo na polêmica deflagrada pelo vídeo-revolta de Maurício Quintella. Se é feio, se é bonito, taí uma controvérsia que, desde sempre delicada, nos dias de hoje então pode sair até morte.

Se algo pode sobreviver a essa confusão, é o debate sobre investimento na cidade e turismo responsável. A maquiagem de “espaços instagramáveis” está longe de representar o ideal como política pública. Se ficar por aí, é enganação pra turistada. Para um gestor jovem e cheio de energia, vale lembrar que administrar uma capital é um pouquinho diferente de publicar stories no Instagram.

SOBRE O AUTOR

Sou formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Tenho quase trinta anos de jornalismo. Comecei, com estágios e trabalhos temporários, a partir de 1990. Em 1991 entrei na TV Gazeta de Alagoas. Na empresa exerci os postos de editor, produtor, chefe de redação e diretor de jornalismo. Depois fui editor de política em O Jornal. Adiante, trabalhei como editor de política e editor-chefe no jornal Gazeta de Alagoas. Tive também uma passagem pela TV Pajuçara como editor de telejornais. Exerci ainda o cargo de coordenador editorial na Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Durante essa trajetória, nos diferentes veículos, escrevi reportagens e tive um blog com textos diários

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