Raízes da África
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A preta, Ambrosina Maria da Conceição, gritava em alto e bom som:- meu nome é Miss Paripueira!

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Ela nasceu Ambrosina Maria da Conceição, em data incerta, lá para as bandas do município de Porto Calvo, em Alagoas.

Contam que a menina, aos 14 anos, começou a sofrer de problemas psíquicos e a saúde mental degringolou.

Com a instabilidade psíquica ela assumia personalidades. Foi de beata à miss Paripueira.

Quando recebeu o convite, de um grupo de jovens, para assumir a faixa de miss não contou conversa, aceitou na hora, e encontrou , na nobreza citadina , um  lugar de pertencimento.

A “coroação” do reinado se deu  em um dia de carnaval , em cima de jeep sem capota, e legitimou o cargo para o resto da vida.

A preta Ambrosina, com sua corpo magérrimo, baixa estatura, colares e balangandãs chamativos, roupas estampando o colorido do mundo todo e  óculos escuros,  perambulantes das ruas foi alvo de chacotas, que muitos romantizam como “brincadeiras”. 

Os muitos preconceitos desrotulados  se expandiam em apelidos pejorativos, ofensivos, como Sabiá, ou Canela de Sabiá que tinham o propósito de desestabilizar  a “doida” , tirá-la do sério.

Incomodada Ambrosina, transvestida de miss, fazia das  pedras uma arma que disparava em seus detratores. 

Apesar da  realidade paralela era uma mulher preta, assentada na fantasia de um trono,  provocando revoluções nos estereótipos, rompendo com dogmas.

 A loucura era combustível para a idealização de uma auto-imagem positiva. Se percebia bonita e desejada, alimentando uma auto-estima elevada. 

E mesmo envolvida em um mundo ilusório, a Miss tinha ciência que sua imagem traduzia significativa importância para a narrativa popular, tanto é que “cobrava “se alguém usava sua imagem sem pagamento, ou autorização dela.

“Estou com quem trabalha” foi a expressão que gravou em, 1982, para o Guia Eleitoral da campanha do então candidato  a deputado federal, Fernando Collor.

E foi, regiamente, remunerada pela atuação.

Quando turistas queriam ser fotografados ao seu lado, Ambrosina , na racionalidade da instabilidade psíquica, estipulava uma taxa. Sobrevivia de doações.

Símbolo popular é nome do Mercado Público Ambrosina Maria da Conceição, mas, gostaria de trazer uma reflexão sobre um assunto  relacionado a personagem . É sobre a doença mental como  construção social e, nos tempos da miss, algo, talvez, socialmente, imperceptível. 

 

 Mesmo pouco perceptível de interpretações,  a  noção da loucura de Ambrosina era geradora de outros eventos:  abuso emocional e psicológico, investidas, perseguições, em tom bélico e recreativo, perpetradas por crianças e adultos.

O adoecimento mental demarcando territórios de existências entre os estigmas e as violências recreativas.

Naturalização. Normatização. 

Ambrosina viveu entre os devaneios e o dom da razão e foi assim que  encerrou o reinado em maio de 1998. Deixou uma filha  Almira Maria da Conceição.

E fim!

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