Blog do Celio Gomes
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Eleição no Congresso deixa Bolsonaro refém do Centrão

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O Centrão agora comanda o parlamento brasileiro. Mais ou menos por aí. A eleição de Arthur Lira para a presidência da Câmara dos Deputados representa o triunfo do bloco cuja notoriedade não decorre de práticas republicanas. Ao contrário. Segundo ideia consagrada na crônica da nossa política, o Centrão é sinônimo de fisiologismo, clientelismo e jogadas que, com alguma frequência preocupante, estão em desacordo com as leis. A coisa não é nova. Todos os governos lidaram com algo semelhante ao longo das últimas décadas. Mas afinal o que muda a partir de agora com o ambiente político no Brasil da pandemia?

Primeiro é obrigatório registrar a patética postura da turma da “nova política”. Os rapazolas que vibram com o estilo de Jair Bolsonaro, que babam por uma pistola e idolatram torturadores, fingem que nada demais aconteceu. Fingem que Bolsonaro e Centrão estão apenas “construindo pontes” em nome da governabilidade e das reformas estruturais. Até ontem, Bolsonaro e sua turma tratavam o Centrão como um bando de ladrões. 

A prova? Vejam na internet o general Augusto Heleno nas convenções partidárias em 2018. Disse o veterano golpista, cantarolando ao fim de sua fala: “Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”. O trocadilho, desculpem os detalhes, é com o verso de Reunião de Bacana, gravada pela primeira vez em 1981 pelo grupo Exporta Samba. No original, a palavra “ladrão” substitui o “centrão” da paródia feita pelo velhinho troglodita.

Bolsonaro não dizia coisas mais bonitas sobre esses colegas de Congresso durante tanto tempo. Era um “bando de picaretas” que trocava apoio por cargos e verbas. Era a “velha política” que o capitão acabaria de uma vez por todas. Quem não lembra daquela famosa frase de comédia que dizia assim: “Acabou a mamata”! O mito de fato conquistou a turma que estava ávida por um governo baseado na meritocracia e no combate à corrupção. Sacou?

Nem sei o que é mais repulsivo: se o bolsonarista orgulhoso, assumidamente adepto de grupo de extermínio, ou se o inocente que se diz arrependido. Bolsonaro não enganou ninguém, apenas mobilizou terraplanistas de toda ordem. Há ainda os que fingem normalidade, mesmo com o cavalo de pau no discurso do chefe da gang.

O presidente espera domar o Congresso, também com a simpatia de Rodrigo Pacheco na direção da Casa – embora este seja mais discreto que Arthur Lira. Como já escrevi aqui, Bolsonaro conta com o parlamento para tocar seu único projeto de governo: se manter no mandato e pavimentar a reeleição em 2022. Operação de troca.

Do lado do Centrão, o preço é alto. A gestão técnica de Bolsonaro arreganhou os cofres. Entre emendas e cargos, a conta ultrapassa meio bilhão de reais, segundo reportagem do Estadão. Além da proteção ao presidente criminoso, a tabelinha garante também a votação de projetos da chamada pauta de costumes. Tudo isso na teoria.

Na prática, ninguém garante o que virá amanhã. Desconfio que coisa boa, isso nem adianta esperar. O capitão acha que comprou a salvação, mas pode acontecer o contrário. Podemos estar diante de um clássico abraço da morte. A partir de hoje, o inquilino do Planalto é refém de um grupo implacável. Nas finanças e na ideologia.  

A foto lá em cima é emblemática. Mostra o deputado Eduardo Bolsonaro passando o celular pra Arthur Lira. Era a ligação do pai do Zero Três parabenizando o alagoano após a vitória. É uma imagem pra guardar. Quem diria! Os reis da “renovação política” batem continência para os papas do toma lá dá cá e de esquemas nebulosos.

SOBRE O AUTOR

Sou formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Tenho quase trinta anos de jornalismo. Comecei, com estágios e trabalhos temporários, a partir de 1990. Em 1991 entrei na TV Gazeta de Alagoas. Na empresa exerci os postos de editor, produtor, chefe de redação e diretor de jornalismo. Depois fui editor de política em O Jornal. Adiante, trabalhei como editor de política e editor-chefe no jornal Gazeta de Alagoas. Tive também uma passagem pela TV Pajuçara como editor de telejornais. Exerci ainda o cargo de coordenador editorial na Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Durante essa trajetória, nos diferentes veículos, escrevi reportagens e tive um blog com textos diários

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