Blog do Celio Gomes
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As lives e a publicidade. Caetano e Fernanda Montenegro

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E aí está você, estamos nós, em algum momento do dia ou da noite, diante da obrigação de escrever sobre mais um ano que vai terminando. Meu Deus, é a pauta de meio mundo – ou seria de todo mundo? É hora de fazer o tal balanço de 12 meses. O pior são as crônicas, um perigo mortal – pensando no conceito clássico de crônica. A pandemia de Covid-19 faz de 2020 caso único na trajetória da humanidade. É o que dizem por aí, com base nos dados de uma tragédia que, apenas no Brasil, matou até agora mais de 190 mil pessoas. O Ano da Morte poderia ser o título da crônica – naqueles tempos remotos em que havia cronistas, galos e quintais.

O Ano das Lives também. Não vi quase nenhuma, confesso. Acho melancólico que Caetano Veloso tome conta do noticiário com suas apresentações nessa maratona das lives. Nada contra esse monstro da música brasileira. Mas ele toma conta do noticiário faz cinco décadas... Fora isso, associar o cantor e compositor a uma ideia de rebeldia soa teatralmente fraudulento. Ele foi, aliás, desde o começo, o rebelde que dava piscadelas ao status quo.

(Status quo é homenagem aos tempos de Sociologia nos bancos da Ufal, a caminho do Jornalismo). Voltando ao poeta de Santo Amaro, com ele o nepotismo ganhou uma nova representação nos shows bancados pela Globo e pela empresa do publicitário Nizan Guanaes. Os filhos de Caetano (foto), que ninguém conhece, tocaram ao lado do pai, dividindo um palco reservado aos grandes. Mas os garotos não conquistaram aquilo. Foi herança.

Assombrado, leio que um comercial de Fernanda Montenegro causou comoção em milhões. Dizem que ela declama um “lindo texto” sobre a esperança. O acontecimento explodiu nas redes sociais. Até em O Globo, a jornalista Ruth de Aquino exalta o anúncio publicitário e diz que, sim, ela também foi às lágrimas. Nessas horas, você tem direito de achar que não temos salvação. E, pra completar, a peça com a atriz rende “muita polêmica”.

É que a mensagem de Fernanda Montenegro é uma publicidade do banco Itaú – que não exibe a marca durante o comercial. Por isso que o povo entendeu como um vídeo espontâneo da atriz. Aí é demais. Vi o anúncio no dia da estreia, sem saber nada a respeito. Mas entendi na hora que era uma publicidade “disfarçada”, e que logo saberia qual produto estava na moita. Sem surpresa, era um banco. Tem gente se sentindo “enganada”.

Mas a tragédia nessa história é o oba-oba com o texto que a atriz decorou para ganhar um trocado. É uma coleção de frases açucaradas, na medida para reiterar (e reificar) uma não ideia. E é logo sobre “esperança”. A celebração retardada desse substantivo é, vamos dizer assim, um equívoco de origem em nossa formação. Exaltamos algo como se fosse mágico; como se “ter esperança” fosse o passaporte para a realização do sonho.

Eu falei que milhões se sentem enganados? O caso foi bater entre os mais comentados nas redes sociais também por isso. Primeiro, a vertigem com a maravilha “poética” do comercial que o povo pensou que era arte. Depois, a palavra “decepção” bateu recorde nas manifestações – isso após a revelação de que o autor do texto é um redator da agência África, e não a encantadora Fernanda. “Ah, então era tudo por dinheiro?!” Sim, era só isso.

Consequência automática da pandemia, as lives mudaram para sempre o negócio dos shows. É o que dizem estudiosos, críticos e artistas. A saturação é o lado mais complicado de qualquer novidade avassaladora. Como escapar da mesmice que sucede inapelavelmente a invenção? Sobre isso, muitas páginas ainda serão escritas.    

Como você percebe, acabou que o texto tomou outro rumo, sem balanço nenhum de 2020. É muita coisa para dar conta. Nem falei da política, do governo Bolsonaro, da sucessão americana, de Sergio Moro, do Carlinhos Maia...

SOBRE O AUTOR

Sou formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Tenho quase trinta anos de jornalismo. Comecei, com estágios e trabalhos temporários, a partir de 1990. Em 1991 entrei na TV Gazeta de Alagoas. Na empresa exerci os postos de editor, produtor, chefe de redação e diretor de jornalismo. Depois fui editor de política em O Jornal. Adiante, trabalhei como editor de política e editor-chefe no jornal Gazeta de Alagoas. Tive também uma passagem pela TV Pajuçara como editor de telejornais. Exerci ainda o cargo de coordenador editorial na Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Durante essa trajetória, nos diferentes veículos, escrevi reportagens e tive um blog com textos diários

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