Encontre-se por Carol Fontan
Encontre-se por Carol Fontan

Desamor paterno

Encontre-se por Carol Fontan|

Peço licença para continuar a compartilhar uma experiência pessoal, afinal o meu blog tem o nome de “ Encontre-se”  com a finalidade de ajudar  você a se enxergar através  dos meus textos, e ao meu ver um profissional da área humana deve ter como uma de suas forças pessoais a humanidade, compartilhar minhas experiências de vida pessoal me deixa mais próxima de você e é uma demonstração de humanidade, pois, mais que conhecimento teórico eu tenho como falar sobre vivências e sentimentos que são iguais aos seus. pois é, essa sou eu.

Amar e honrar os pais parece ser uma tarefa difícil quando se está na adolescência, talvez porque a adolescência signifique um segundo nascimento, e diferente do primeiro o HD já não está limpo e já existe marcas de rejeição, da falta de amor que parece nunca ter sido o suficiente. Marcas das magoas e ressentimentos criados pela necessidade de disciplinar e ensinar a vida a um filho… Esse segundo nascimento é como se fosse uma explosão de emoções que ficaram presas durante a primeira infância e que encontrou o momento de se rebelar.

Eu também já fui uma criança reprimida e que me sentia demasiadamente rejeitada, na adolescência eu também fui rebelde e coloquei para fora minha raiva guardada. A adolescência foi passando e aquele sentimento de distanciamento dos meus pais, especialmente do meu pai, ainda permanecia. Em desabafo com amigos eu sempre reclamava em como meu pai era ausente afetivamente e aquilo me afetava. Eu queria tê-lo por perto, não me lembro de ter recebido um beijo. um abraço, um eu te amo, ou um simples “ cuidado filha”…

Nem ao menos as reuniões da escola ou encontros da igreja, aniversários, me buscar na saída da escola… Não, ele nunca estava presente. Ele acha que ser pai é colocar a comida na mesa, era a minha fala aos 11 anos de idade. E sim, meus pais eram casados e morávamos todos na mesma casa.

é claro que esse comportamento do meu pai me trouxe algumas consequências, no meu comportamento, emocional e modelo mental, e para meu irmão também. Sim, minha mãe tem sua parcela de responsabilidade, mas as suas tentativas de aproximação eram mais perceptíveis.

Ok, deixando as lamentações de lado e partindo a olhar com um olhar de observador, como se estivesse de fora da situação. Hoje meu pai é falecido e ele morreu pelo mesmo motivo que manteve ele afastado de nós; O vício  no álcool. Ele era alcoolatra e faleceu de cirrose, antes dele morrer nos aproximamos um pouco e pude enxergar meu pai sóbrio.Essa experiência me despertou o interesse em procurar saber sobre seu passado e o que teria acontecido com ele que o fez levar uma vida se anestesiando em drogas licitas e ilícitas, refugiado em momentos de fantasia, sobrevivendo…. E o que eu descobri refez todo o meu conceito sobre o amor, eu enxerguei nele o amor que ele tinha por nós, o fazendo lutar contra o vicio de uma vida inteira, fazendo sacrifícios, é como se ele estivesse se escondendo dele mesmo para nos dar o melhor que ele tinha para oferecer, mesmo que fosse a distancia. Esse amor foi o que prolongou a vida dele por 62 anos de existência. 

Descobri que em sua juventude ele fazia uso de drogas que são consideradas ilícitas. Os tempos eram de ignorância e responsabilizavam as amizades e influencias, penso que os familiares não tinham conhecimento e bagagem para investigar o que lhe afligia… Ele Casou com minha mãe aos 29 anos depois de engravidar minha mãe do meu irmão mais velho, ele construiu uma família e uma carreira profissional e durante os anos seguintes continuou lutando com o vicio das drogas, fazendo uso de forma escondida e isolada, mantendo as aparências de homem de família, pai, e toda as aparências que o mundo social exige de um homem de respeito. 

Parece que um tempo depois ele conseguiu deixar ou diminuir o consumo das drogas ilícitas e acabou substituindo pelo álcool e aí começou uma nova batalha, pois esse vicio ele podia praticar de forma disfarçada e bem aceita na frente de todos e assim a frequência era bem maior, ou ele estava trabalhando ou estava bebendo.  

Não se tratava de nós, se tratava dele. Ele sofria por ser viciado mas não sabia ser de outro jeito e não poderia contar a ninguém sobre sua dor. Ao ter uma família ele se tornou responsável por outras vidas, trouxe sentido para a vida dele, o fez lutar contra os vícios, o fez tentar varias vezes, foi por nós que ele viveu por tantos anos.

Ele construiu um muro em volta de si com as drogas, com o álcool , com o trabalho, com o silencio, com a sua dor, com a individualidade, ele achava que não tinha mais nada a oferecer. Mas, foi graças a família, a nossa família toda errada e cheia de turbulências que ele encontrou forças e compreensão para saber o que era amor. 

Muitas vezes nos trancamos também no nosso mundo repleto de ego e orgulho e só enxergamos a nossa dor de não receber e somos incapazes de praticar a compaixão e humanidade para com o próximo que esta dentro da nossa própria casa, a ponto de nos colocar no lugar do outro para entender  o porque ele não pode nos dar aquilo que não tem. 

Por trás de cada pessoa ferida existe uma dor que ainda está latente, eu penso que só estaremos prontos para sermos amados quando então soubermos amar.

Honrar pai e mãe independente de como são ou foram, esse mandamento tem muito fundamento para mim, e se caso você tenha ressentimentos e magoas da maneira como foi tratado ou acha que poderia ter sido diferente, eu te convido a fazer o que eu fiz, pesquisa só um pouco da historia dos teus pais enquanto foram crianças e assim você entenderá que eles podem ter até superado aquilo que recebeu para dar mais a você. 

Eu gostaria de ter feito isso antes de meu pai falecer para que eu pudesse ter a chance de dizer o quanto eu admiro a sua força e garra, por ter lutado tanto por nós, que eu o perdoei pela ausência, pois hoje eu entendo seus motivos e que mesmo assim me senti amada pelo seu esforço e sacrifico por nós, eu o admiro principalmente por não ter desistido…. Se você ainda tem essa chance, aproveita, passa rápido. 

 

Carol Fontan 

@carolfontann

99913-5276

 

SOBRE O AUTOR

Especialista em ciência do bem estar, análise do comportamento humano, coaching e psicanálise em andamento eu tenho voltado meus textos a reflexões sobre o autoconhecimento provocativo, comparando aos padrões de comportamentos cotidianos, bem como fortalecimento emocional e gestão das emoções. Pode da uma olhada em alguns que tem no meu Instagram, porém não é o lugar ideias para textos, por isso pensei no blog.

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