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Horário reservado à propaganda eleitoral gratuita

“Olá, você talvez não me conheça ainda”. Nós já ouvimos isso por aí. Vamos a uma variação da sentença que abre o texto: Olá, pessoal! Muitos de vocês ainda não me conhecem. Quem fala essas coisas que estamos ouvindo praticamente todos os dias? Sim, são os candidatos a prefeito. Mas não apenas aqui em Maceió-Alagoas – é no país todo. A reportagem do CM deu um “passeio” pelos Guias Eleitorais Brasil afora. Pela internet, é possível acompanhar tudo, em todos os sotaques, de Caxias do Sul a Porto Velho, de Aracaju a Cuiabá. Tem muita coisa sem sentido, ideias engraçadas e muito, muito mesmo, copia & cola. Achar algo original nos programas de TV é uma dura missão.

Mas a originalidade existe. Ao lado da repetição, vemos o oposto também, a bruta novidade – ao menos para quem não é daquele lugar. A diversidade da geografia e dos tipos humanos figura entre as variáveis mais eloquentes no painel brasileiro – no recorte, digamos assim, feito a partir do famoso Guia Eleitoral. Fique dez minutos vendo os programas dos candidatos de Recife, do Rio de Janeiro, de Campina Grande, de Teresina, de Vitória, de São Paulo... É uma sucessão de peças com exaltação reverente às tradições regionais. Cada cidade é apresentada como se fosse o coração do país, a essência de um povo, o ideal de lugar.

De cidade para cidade, nem todas capitais, é curioso ver como vai mudando a paisagem. Pelo Nordeste, asfalto, periferias, sol quente. Pelo Centro-Oeste, plantações, o verde, a fazenda. No Sul, um quadro “europeu”, muita roupa sobre o corpo, a pele branca. Subindo para o Norte, a vastidão de água, prédios baixos, pele preta. Rio e São Paulo, o exagero em tudo, do trânsito aos moradores de rua, da escola distante à madrugada já no batente.

Aí voltamos um pouco a falar do discurso, do texto, das ideias marqueteiras. É a repetição. “Chegou a hora da transformação”, anuncia um candidato. “Pra evoluir, pra fazer a cidade avançar, pra mudar de verdade”, explica outro. Em tom comovido, há sempre uma testemunha (pode ser um amigo ou um parente, a mulher, o marido) a atestar a grande qualidade do candidato: “Sempre gostou de cuidar das pessoas”. Essa ideia parece um mantra, um mandamento, um dogma: está em praticamente cem por cento das campanhas. É a impressão que fica. 

Um clássico nos programas do Guia Eleitoral é o candidato caminhando por diferentes pontos da cidade. É um verdadeiro videoclipe, como se dizia antigamente. Lá vai o sujeito andando com passos firmes, cabeça erguida, olhar no horizonte... Movimentos de câmera e cortes rápidos procuram dar dinamismo à encenação. O candidato para. A câmera arrodeia o rosto, fazendo um giro de 360°. Letras garrafais, coloridas, reforçam expressões e clichês que confirmam o clássico: “Firmeza”, “coragem”, “honestidade”, “vontade de trabalhar”. 

No quesito biografia, os programas dos candidatos também chafurdam na mesmice. Sou casado com A, sou filho de Y e Z; e sou o pai do M e da H. É uma repetição infernal, de ponta a ponta no país. Até parece que os marqueteiros formam uma confraria que obriga a todos da categoria a seguir a mesma cartilha. O cara arregaça as mangas da camisa, e o locutor avisa: esse não tem medo de desafios. E ela, que foi à luta como candidata, é “mulher guerreira”.

Combinado ao aspecto biográfico, há uma exaltação patrioteira da cidade que o sujeito sonha governar. “Sou nascido e criado aqui”, diz o candidato com ares ufanistas. É como se desfilasse na tela um extravagante sentimento que poderíamos chamar de nacionalismo municipal – múltiplo, colorido e amalucado. Em muitos casos, a jogada retórica é puramente oportunista. Na propaganda política, enfim, mudam o cenário e o pano de fundo, o que já é muita coisa. Já no campo das ideias, a regra é requentar o que der pra ser requentado.

Os programas com todos esses candidatos e lugares, disponíveis em diferentes canais da internet, merecem estudos aprofundados em nossas universidades e demais ambientes de produção de conhecimento. Diante do incrível painel que temos de Norte a Sul, de Leste a Oeste, no retrato final do Horário Eleitoral Gratuito, salta um Brasil caótico, vertiginoso, inclassificável.