Foto: Olival Santos
Em 2019 foram realizados 81 transplantes de órgãos em Alagoas

A doação de órgãos já era considerada um desafio antes da pandemia. A chegada do novo coronavírus tornou o problema ainda maior. É que além da dificuldade encontrada com a liberação pelas famílias, as pessoas que morreram por causa da covid-19 não podem ser doadoras. Com isso, as doações no Estado caíram 87% em comparação ao período de janeiro a junho do ano passado. Quem está na fila, sofre com a demora.

Segundo a coordenadora da Central de Transplantes de Alagoas, Daniela Ramos, no primeiro semestre só houve 26 transplantes de córnea apenas no estado. “Não realizamos nenhum transplante nem de rim e nem de coração”, disse. 

Um dos pontos que ela cita é que uma pessoa que morre por causa da covid-19 não pode ser doadora. “Por causa disso, a nossa situação ficou mais delicada”, acrescentou.

Porém, Daniela disse que como Alagoas vem reduzindo o número de casos confirmados de covid-19 ou de óbitos, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) tem estudado um plano de retomada para as doações.

Recusa é desafio

Entre os principais entraves que contribuem para o insuficiente número de transplantes em todo o Brasil e, consequentemente, em Alagoas está a recusa das famílias em efetuar a doação de órgãos. “As pessoas que querem doar precisam avisar aos familiares e deixar claro o desejo de que ocorra a doação”, explicou.

Atualmente, o Estado tem 377 pessoas aguardando algum tipo de transplante. A coordenadora da Central de Transplantes de Alagoas informou que 2019 foram realizados 81 transplantes em Alagoas, sendo 69 de córnea, cinco de coração e sete de rim. Já este ano foram apenas 26 transplantes de córnea em razão da pandemia da Covid-19, quando as cirurgias eletivas foram suspensas.

Das 377 pessoas que se encontram na fila de espera por um transplante, 234 precisam de uma córnea, 141 têm necessidade de receber um rim e duas aguardam por um novo coração.

Quem espera, sofre

Há 10 anos na fila, o motorista Gildson Ferino, de 51 anos faz hemodiálise porque os rins não funcionam e até agora não encontrou um doador.

“Minha irmã queria doar, mas não deu certo”, contou.  Ao Cada Minuto, o motorista desabafou e disse que está pensando em desistir do transplante devido ao tempo. “Eu optei por viver o presente, aproveitar minha família o máximo que puder”.

Ele completou dizendo que não sabe do dia de amanhã. “Não sei quando Deus vai me chamar, sou bem assistido pelos médicos na hemodiálise, mas não sei se entro e volto vivo”.

Quem também está na espera é Ana Maria. A costureira precisa de um transplante de córnea, mas não conseguiu. Para ela, falta empatia do próximo.

“Eu lamento que algumas pessoas sejam contra a doação de órgãos. Não tem ato mais bonito do que esse de se colocar no lugar do outro e salvar vidas. É questão de empatia, sabe?”, reforçou.

Mas ela garante que não vai desistir mesmo após 3 anos de espera. “Não existe a palavra desistir na minha vida. Sei que uma hora ou outra, um doador vai aparecer, e eu vou enxergar melhor. Faz parte essa demora, nós sabemos”, falou.

Campanha

O Setembro Verde traz a campanha de conscientização para que mais alagoanos se declarem doadores em potencial. Todos os anos, a Sesau desenvolve uma série de ações para trazer o assunto à tona e incentivar a doação de órgãos.

Mas com a pandemia a campanha precisou ganhar um novo formato. “Vamos ter algumas atividades online, algumas palestras; e nos dias 23 e 24 vamos ter o Nordeste transplante para que todos os estados busquem formas de enfrentamento que sejam seguras durante a pandemia”, explicou Daniela.

Entre as atividades de conscientização marcadas para o Setembro Verde está a Webpalestra sobre Comunicação de más notícias, no dia 17. Nos dias 23 e 24 a Central de Transplantes promove a Webinar Transplantes Nordeste e nos dias 28 e 29, às 19h, o médico Oscar Ferro irá proferir palestra para hepatologistas e gestores municipais da I e II Macrorregião de Saúde sobre Transplante de Fígado em Alagoas.