Fábio Guedes
Fábio Guedes

A genialidade de Celso Furtado

Fábio Guedes Gomes|

Era por volta de 1997-1998. Voltava de ônibus da capital do sertão paraibano, Patos. Tinha aceitado convite de uma faculdade local para participar de um evento alusivo ao dia do economista, no mês de agosto. Carregava na bolsa dois livros: Princípios de Economia Política e Tributação (1817), de David Ricardo, e Formação Econômica do Brasil (1959), de Celso Furtado.

Pelo caminho folheava os dois ao mesmo tempo. De repente, passei a imaginar, com o livro de Ricardo na minha mão, como uma pessoa com os pés fincados naquele sertão brabo pode se tornar um dos maiores intelectuais do Brasil e ganhou projeção internacional.

Meu primeiro contato com a obra de Furtado foi numa disciplina de desenvolvimento socioeconômico, no curso de ciências econômicas da UFPB, antigo Campus II, hoje Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Curioso que nesse curso, uma certa vez, por falta completa de familiaridade com economês, perguntei a professora o que significava “inversões”, termo muito utilizado pelo autor paraibano. Ela parou, me fitou nos olhos e ficou paralisada, não sabia também. Fui em busca de resolver minha dúvida e descobri que era, simplesmente, uma expressão que Furtado utilizava para se referir ao uso do excedente econômico para efeito de aumento da capacidade produtiva.

Chegando em Campina Grande da viagem à Patos, resolvi pensar em um projeto que permitisse aprofundar meu conhecimento na obra de Celso Furtado e aproveitado em um possível curso de doutorado, já que estava concluindo a etapa do mestrado. Entre idas e vindas, terminei um documento e comecei as conversas na tentativa de concorrer a uma vaga no Instituto de Economia da Unicamp. Tive pelos menos dois encontros com Wilson Cano, decano do Instituto, e como sempre era do seu feitio, deu todo apoio e ainda tratou de uma possível ida minha à Campinas, para conhecer a estrutura e sentir o clima do local. 

Por razões pelas quais a vida supera a racionalidade e qualquer planejamento, a ideia de estudar em São Paulo não vingou. Fui parar em Salvador. Mas meu interesse na obra de Celso Furtado não recuou um só centímetro. Muito pelo contrário, aumentou com o passar dos anos.

Furtado é considerado o maior intelectual brasileiro no século XX, aferido pela grandiosidade de sua obra reunida em mais de 30 livros, com traduções em quase 60 línguas diferentes. Ao lado de Oliveira Vianna, Roberto Simonsen, Caio Prado Jr. Florestan Fernandes, Gilberto Freire e Sérgio Buarque de Holanda, foi responsável por construir um método-analítico da trajetória da formação brasileira, interpretando seus meandros, explicando nossas idiossincrasias e apontando os principais obstáculos ao desenvolvimento econômico.

No livro Capitalismo, Socialismo e Democracia (1943), o genial Joseph Schumpeter define o intelectual como aquele que exerce o poder da palavra falada e escrita, que não se deixa dominar, tampouco tem responsabilidades direta com os negócios práticos ou aspectos ordinários da vida. Ademais, ele se caracteriza pela atitude crítica, em função de sua posição de espectador e pela única possibilidade que possui, enquanto o exercício de pensar, de se impor através de sua capacidade real ou potencial de incomodar. No ano do centenário de nascimento, Celso Furtado continua sendo esse intelectual que incomoda, pois, os principais problemas brasileiros, como a injusta distribuição de renda, desigualdade social, desemprego e pobreza, persistem, talvez ainda mais acentuados que naquele momento que ele nos deixou, em novembro de 2004.

Poderia apontar vários aspectos que singularizam a genialidade de Furtado. Entretanto apontarei apenas um, porque muito já foi escrito sobre sua obra e principais teses. 

Em 1936 o mundo conheceu um dos mais importantes livros da ciência econômica, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de John Maynard Keynes. Uma sofisticada análise do comportamento das forças econômicas do capitalismo no alvorecer do séc. XX, uma elegante crítica aos pressupostos da economia clássica e a fundação dos pilares da moderna macroeconomia. 

Pouco menos de uma década, em 1948, após o impactante livro de Keynes, o jovem Celso Furtado defenderia na Universidade de Paris-Sorbonne, sua tese de doutorado L´économie coloniale brésilienne, um esboço avançado do que seria sua obra mais famosa e traduzida para o estrangeiro, Formação Econômica do Brasil.

É aqui que reside um dos aspectos da genialidade de Celso Furtado. Foi o primeiro intelectual a produzir uma obra de análise histórica inserindo categorias econômicas, tanto da escola neoclássica quanto da moderna macroeconomia, nascida a partir do monumental livro de Keynes. Da segunda parte em diante de Formação Econômica do Brasil o leitor não familiarizado com o economês certamente encontra dificuldades, pois o texto não é uma mera peça narrativa, trata-se de uma análise econômica da formação das estruturas de produção e acumulação de riquezas, tanto no período colonial quanto no alvorecer da economia moderna, com o surgimento da indústria transformando-se no segmento central da dinâmica econômica nacional. 

Não há registro que um intelectual tenha feito algo semelhante no mundo: desenvolvido um modelo de análise usando a sofisticação econômica da época para tratar da trajetória histórica da formação estrutural de um sistema econômico da periferia do capitalismo mundial. 

Em seus escritos publicados ano passado na forma de um livro, Celso Furtado, Diários Intermitentes: 1937-2002, organizado por Rosa Freire D’Aguiar, esse projeto já o perseguia desde cedo. Em uma anotação de 20 de agosto de 1938, aos dezoito anos, Furtado diria: 

Quero registrar hoje, aqui, uma ideia que há tempo venho acariciando: escrever uma História da Civilização Brasileira. Seria uma obra completa sob o ponto de vista crítico-filosófico. Não seguiria o plano até hoje seguido pelos nossos historiadores. Ao lado das influências individuais observaria as influências das coletividades. Não me deixaria emaranhar pelos fatos. Não seria uma história das guerras. Vejo dentro de mim todo esse monumento isento de facciosidade, de paixões: a História de uma Civilização." (grifo em negrito nosso) 

Observe caro leitor, em 1938, dois anos após o lançamento du bon travail de Keynes, e dez anos antes de defender sua tese de doutorado, Furtado já tramava algo original e a moderna ciência econômica da época lhe ajudaria muito nesse grandioso projeto.

A obra de Celso Furtado continua autêntica e atual. Sempre que recorro algum texto seu encontro algo novo, diferente da época em que fiz a última leitura, geralmente são análises extremamente úteis, com conselhos fundamentais. A seriedade com que trata os assuntos a que se propõe é uma avalista poderosa da envergadura de seu trabalho. 

Por essa e outras razões, vejo em Furtado uma eterna fonte de inspiração, um mestre com um potencial ainda enorme de continuar nos ensinando e orientando, especialmente enquanto o Brasil não superar as barreiras que impedem sua construção, barbaramente interrompida pelas forças conservadoras e do atraso que constituem o bloco dominante, descomprometidas com a maioria da nossa sociedade. 

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SOBRE O AUTOR

Doutor em Administração com ênfase em Instituições e Políticas Públicas [NPGA/UFBA]. Mestre em Economia Regional e Graduado em Ciências Econômicas [UFPB]. Professor da Graduação em Ciências Econômicas da Universidade Federal de Alagoas [UFAL] e das Pós-graduações em Economia Aplicada [CMEA], em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para Inovação [PROFNIT] e em Administração Pública [PROFIAP]. Membro Associado do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento [Rio de Janeiro]. Diretor do Periódico Científico Revista Brasileira de Administração Política [Escola de Administração, UFBA/Editora HUCITEC, São Paulo]. Diretor Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas - FAPEAL, desde janeiro de 2015.

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