O ex-prefeito de Marechal Deodoro, Cristiano Matheus, foi ouvido pela Polícia Federal (PF) na manhã nesta terça-feira (12) e foi indiciado por cinco crimes. Um dos inquéritos diz à respeito do desvio de R$ 5,8 milhões em recursos federais oriundos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e do Programa Nacional de Apoio ao Transporte do Escolar (PNATE). O ex-gestor também teria utilizado laranjas para lavagem de dinheiro entre os anos 2009 e 2016.

Segundo informações da assessoria de comunicação da PF, o ex-gestor foi indiciado pelos crimes de responsabilidade pelo desvio de milhões; peculato; corrupção passiva; estelionato qualificado; associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Pedidos de prisão negados

As provas contundentes não foram necessárias para a Justiça. A PF realizou o pedido de cinco prisões preventivas, incluindo ao ex-prefeito Cristiano Matheus, e nove prisões temporárias, porém a Justiça de Maceió indeferiu o pedido do órgão federal.

Operação Kali: Laranjas foram usados para cobrir patrimônio adquirido durante mandato

De acordo com o superintendente da Polícia Federal, Bernardo Gonçalves, o ex-prefeito possuía laranjas para inviabilizar as investigações. Amigos, empresários e um motorista particular foram ouvidos pela polícia que afirmaram fazer parte da organização que lavava dinheiro. “Ele possuía amigos e empresários para lavar dinheiro e dificultar os trabalhos da polícia”, disse o superintendente.

As investigações apontam que o motorista particular do ex-prefeito de Marechal era pago pela Secretaria de Cultura do Estado de Alagoas (Secult) e que, durante depoimento, disse nunca ter ido trabalhar na sede da secretaria. Cristiano também possuía uma sala no edifício comercial Terra Brasilis, localizado na Avenida da Paz, no Centro de Maceió, em nome desse motorista, comprado em 2012 pelo valor de 200 mil reais oriundos do dinheiro lavado.

“O motorista serviu para ocultar dois imóveis e uma sala comercial em Maceió. No caso dessa sala comercial, ele nem sequer sabia que era dono. Em 2012, essa sala foi adquirida em nome dele e em seguida foi trocada por outra sala no mesmo prédio. Essa nova sala foi transferida para uma outra laranja que era servidora de Marechal Deodoro. Depois, esta sala voltou para o motorista e, por fim, transferiu para um empresário que também era laranja e que possuía mais outras duas salas no edifício”, explicou Bernardo Gonçalves.

De acordo com o superintendente, o empresário, que não teve o nome divulgado, também é dono do apartamento em que Cristiano Matheus morava e que só em sete meses, entre dezembro de 2015 e julho de 2016, foram movimentados R$ 14 milhões na conta bancária dele, o que revela indícios de um rombo expressivo nos cofres públicos do município.

A Polícia Federal revelou que a quantia apreendida foi encontrada na casa de uma dona de uma construtora que possuía contrato com a prefeitura de Marechal Deodoro. No total, foram encontrados 297 mil reais, 5 mil dólares e 14 mil euros dentro de um cofre.

Bernardo Gonçalves disse que a quantia servia para pagamentos em espécie, visto que os envolvidos estavam com as contas bloqueadas pela Justiça. Em 2014, a dona da construtora arcou integralmente com uma reforma no apartamento de Cristiano Mateus no valor de R$ 104 mil, ao qual ele nega ser dono, apesar da PF apresentar provas e depoimentos de testemunhas que afirmam dizer ao contrário.

“Ele dizia alugar o apartamento a um amigo laranja dele e apresentou, após a primeira fase da operação em julho, recibos de aluguéis quitados, porém ele apresentou um recibo de 17 de dezembro de 2017, data que ainda nem chegou”, disse o delegado Márcio Tenório, coordenador da operação Kali.

Em 2016, ainda prefeito, Cristiano contratou um projeto de móveis planejados em Maceió que custou R$ 110 mil pagos integralmente em espécie. De acordo com o proprietário da loja e de uma arquiteta que planejou os serviços, Cristiano ligou para o secretário de Finanças do município que pegou toda a quantia e entregou nas mãos dele.