Passadas algumas décadas desde que o movimento feminista eclodiu pelo mundo lutando por direitos iguais, nos últimos dias a discussão sobre a violência contra a mulher voltou à tona e mostrou que apesar dos avanços, o preconceito ainda respinga na sociedade e produz resultados preocupantes. Na pesquisa divulgada pelo Ipea na última quinta-feira (27), 58% dos entrevistados responderam que se as mulheres soubessem se comportar, haveriam menos estupros. Em entrevista ao CadaMinuto, o sociólogo Sérgio Coutinho e a Secretária Estadual da Mulher, Kátia Born, afirmaram que o machismo ainda é muito forte também em Alagoas.
A pesquisa que levantou uma discussão em tom de repúdio os números apresentados. Apesar de 91% dos entrevistados terem respondido que defendem a prisão para homens que batem em suas companheiras, mais da metade também concordou que casos de violência dentro de casa devem ser resolvidos entre os membros da família. Entre os entrevistados, 42% acreditam que a mulher é culpada pela violência sexual.
Para o sociólogo Sérgio Coutinho, a corrente do machismo ainda é muito presente na sociedade, já que muitas pessoas defendem que o homem deve impor as condições para as mulheres. Ele afirma que esse pensamento está atrelado à forma como as mulheres são educadas.
“A mulher ainda é educada para obedecer ao homem e muitas vezes ela é mais machista. Isso é um traço cultural forte que aponta para outro fator preocupante: a dupla vitimização da mulher, que é agredida, mas não se reconhece como vítima.”, disse.
Apesar dos números apresentados, Coutinho acredita que mudanças e quebras de tabus acontecem com mais intensidade nos dias atuais e que as mulheres estão começando a buscar seus direitos e denunciar as agressões.
“O futuro é incerto e isso me faz acreditar que as coisas podem mudar para melhor. Hoje já temos uma legislação que cobre a mulher, os jovens estão mais sensíveis e atentos a essa violência. Nas décadas anteriores, as mudanças sociais eram lentas e dependiam de conversas, hoje acredito que esse processo se dê de forma mais rápida, mas ainda assim é necessário ter atenção e repúdio a atitudes preconceituosas”, defendeu.
Um estudo de 2011do Ipea mostra Alagoas com a terceira maior taxa de homicídios contra mulheres no país, 8,84 para cada grupo de 100 mil habitantes. A Secretária de Estado da Mulher, da Cidadania e dos Direitos Humanos, Kátia Born, afirma que a pasta vem realizando várias ações no sentido de minimizar as ações. Ela comentou a pesquisa e fez coro ao sociólogo ao afirmar que o machismo e a carga preconceituosa ainda é muito presente em Alagoas.
“Parece que voltamos aos anos 40 onde a mulher não pode usar uma roupa e tem que se proteger. Os homens expõem os corpos mais que as mulheres e nem por isso são estuprados. Esse estudo mostra como nossa sociedade ainda é machista e o quanto as secretarias especializadas em apoio às mulheres precisam trabalhar, divulgar as ações e orientar as mulheres a buscar ajuda”, afirmou.
Kátia destacou que durante os últimos seis anos de vigor da Lei Maria da Penha os casos de violência tem sido denunciados com mais freqüência e que em algumas regiões do Estado as mulheres estão mais atuantes e buscando auxílio.
“A mulher que apanha, ela apanha todo dia até chegar a hora que é assassinada. Os números mostram que foram registrados mais casos de violência doméstica, mas isso quer dizer também que as mulheres estão denunciando mais. Um dado que nos preocupa é que os casos têm diminuído na capital, mas aumentado nas cidades do interior. Nossa preocupação dentro da secretaria é de levar auxílio a essas mulheres e tentar incentivar as denúncias de agressões e cobrar mais políticas públicas para elas”, destacou.
