“Assim que cheguei na empresa eu achava a revista uma vergonha. Todas as vezes que nós precisávamos sair da tesouraria, que parecia mais o big brother, pela quantidade de câmeras, nós só podíamos sair da sala quando um vigilante chegava na porta, de lá ele nos acompanhava até o vestiário que ficava em outra sala ao lado. Nós tirávamos nossas roupas, um macacão especial, e ficávamos apenas de cuecas, só depois dessa revista éramos liberados para sair do recinto”.
Esse é o relato de um trabalhador que teve que conviver durante anos sendo submetido a revista íntima para não ficar sem emprego. Mesmo com sua omissão, ele, que preferiu não se identificar, disse que não suportou as humilhações diárias e pediu demissão. A relação de confiança, que deveria existir entre alguns empregadores e empregados no ambiente de trabalho, não é tida em muitas empresas.
Ao contrário do que é previsto em lei, os empregados são expostos ao constrangimento de serem revistado no final do expediente. A revista íntima é uma medida combatida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), mas mesmo assim, continua sendo uma prática constante em algumas empresas em Alagoas.
Somente no ano de 2013, o procurador do Trabalho, Matheus Gama Correia ajuizou sete Ações Civis Públicas e abriu 27 inquéritos de investigação da irregularidade. As denúncias são feitas de forma de anônimas, presenciais, por telefone ou internet, e mesmo com atuação do MPT, as empresas continuam resistentes pelo fim da revista. O que caracteriza a revista é intima é situação constrangedora vivida pelo trabalhador no final do expediente no qual ele é submetido a uma revista em seus pertences e até mesmo no seu corpo.
Na pele
O entrevistado do CadaMinuto Press, que vivenciou na pele o constrangimento, afirmou que devido a roupa que era obrigado a usar, um macacão totalmente fechado com apenas um zíper nas costas, os constrangimentos aconteciam também quando ele precisar utilizar o banheiro. Para fechar era preciso o auxílio dos colegas de trabalho.
“Um dos fatos que mais me chateou foi quando era universitário e precisei levar um aparelho de gravação para a empresa, por seguir todas as noites para faculdade. Logo na entrada éramos obrigados a abrir nossas mochilas. O guarda de plantão viu o gravador e o confiscou, dizendo que na saída ele me entregaria de volta. Para a minha surpresa na saída o meu gravador havia sumido. O vigilante que recolheu o material não deu uma palavra sobre o assunto. No outro dia fui à direção da empresa reclamar o acontecido, no final do expediente eles me devolveram o gravador, que foi tema de uma reunião e o vigilante chegou a receber os parabéns por ter recolhido o ‘material subversivo’. No outro dia a direção da empresa me chamou e pediu desculpas pelo fato ocorrido e me pediu para entender a situação, já que o local era de segurança e tudo precisava ser checado”, relatou o entrevistado.
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