Agora eu posso contar.

Em 1970 eu estava servindo ao Exército; num domingo, de guarda, o adjunto do oficial de dia era um aspirante do NPOR, que cursava Medicina na Ufal. Depois da revista à noite ele fez uma inspeção no deposito de armas das companhias – uma por uma.

Na época o 20º BC (hoje 59 BIMtz) tinha cinco companhias.

Na segunda-feira estourou a bomba: sumiram quatro Fuzis Automático Leve, mais conhecido como FAL. Ninguém pôde sair do quartel; durante uma semana ficamos impedidos e submetidos a uma varredura geral – até na caixa d´agua houve vistoria e nada dos fuzis aparecerem.

Mas, quem levou os fuzis sabia o que estava fazendo. Eu servia na 2ª Companhia e lá sumiu o FAL do Liberato, que tinha sido assassinado ao tentar desarmar um cara que matou uma pessoa num bar na Jatiúca.

O Liberato era filho do coronel PM Albuquerque, que foi chefe do gabinete militar no governo Collor.

Da CPP (Companhia de Petrechos Pesados) sumiram dois fuzis, que pertenciam a dois soldados que tinham sido aprovados no curso de Sargento e foram licenciados; e na 3ª Companhia sumiu o FAL do Valdemir, que tinha sido aprovado no Curso de Formação de Oficiais da PM e também foi licenciado.

O FAL montado mede pouco mais de 1 metro, mas você pode dividi-lo em duas partes de pouco mais de 50 centímetros e transportá-lo numa bolsa comum, ou seja,é fácil de levá-lo.

Em 1971 saí do Exército, em 1974 meu primo irmão Ailton Villanova, junto com o saudoso Freitas Neto,inventaram que eu era jornalista e como tal cheguei à Radio Gazeta, onde comecei no Departamento de Jornalismo, e depois à Gazeta.

Em 1979 o Dênis Agra me chamou para a Tribunal de Alagoas, um jornal que estava sendo lançado. Na equipe tinha um revisor que eu logo o reconheci:

- Você foi aspirante do Exército, não foi?

Ele confirmou e eu completei:

- Lembra-se das armas, dos fuzis que sumiram do quartel?


O Dênis Agra deu uma risada e eu não entendi; o Dênis perguntava rindo se haviam roubado muitas armas no quartel e eu disse-lhe que só tomei conhecimento desses 4 FAL.

Só depois o Dênis me explicou que os fuzis foram “confiscados pela revolução” que o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) tramava e do qual eles faziam parte na clandestinidade. Os fuzis foram mandados para Recife, onde o PCBR era mais atuante.

O aspirante do Exército e agora revisor da Tribuna chamava-se Denisson Menezes. Depois que saí do Exército fui para Recife e me desliguei de Maceió; eu sabia por cima a história da prisão de um grupo de estudantes, entre eles o Dênis Agra e o irmão, Breno, mas não me liguei que o Denisson Menezes também tinha sido preso como comunista.

Só depois é que fique sabendo que, além do Dênis e do Breno, foram presos os irmãos Jeferson e Fernando Costa ( este foi vereador em Maceió), o Norton Macedo, o Flávio, além do Denisson.


E bem mais tarde eu conheci a jornalista Iara Malta. Ela me disse que era filha do Denisson Menezes e eu perguntei como tinha sido a prisão dele. A Iara me contou baseada na versão da mãe:

-“Meu pai estava de oficial de dia e disse a minha mãe que ligasse pra ele às 8 horas da noite. Caso ele não atendesse ao telefonema era porque estava preso”.

E assim aconteceu; o Denisson Menezes já era 2º tenente e atuando como militante do PCBR.

O Dênis Agra, o irmão dele Breno e o Denisson Menezes faleceram prematuramente e infelizmente não estão entre nós. E a história da luta desses jovens idealistas, que foram presos e torturados, ficou só com a versão oficial – que, no caso, é a versão da repressão.