Dezenove de março. Despontavam os últimos dias do verão de 2007, quando nossas histórias cruzaram-se pela primeira vez. Várias histórias que corriam em paralelo ligaram-se ali de maneira permanente. Antes disso, cada um de nós vivia um sonho dentro de si, de forma calada ou compartilhada, recebendo condições de nutri-lo ou não. Apenas um sonho. Daqueles que nascem feito o sol no começo da manhã, de forma espontânea e intensa. Através dele, trilhamos um caminho árduo que culmina neste dia, escrevendo mais um belo capítulo no livro de nossas vidas. O sonho amorfo de ontem, agora tem linhas, nomes e cores; assumindo outra denominação. Torna-se algo definitivo. Agora ganhamos o direito de cuidar da vida humana, um direito que exigiu de nós tantas privações, um direito que foi conquistado e deve ser zelado. Somos médicos de fato e de direito. Honraremos esse título e faremos dele um instrumento de auxílio aos que mais necessitam.

Antes de médicos, somos gente. Posso dizer que tivemos um convívio muito bom ao longo dos seis anos, apesar dos dissabores comuns a qualquer relação. Hoje, nenhum de nós se ilude a respeito do outro. Sabemos os traços, qualidades e defeitos. E mesmo assim nos amamos. Amamo-nos ternamente e de maneira mais intensa, já que esse amor não se alimenta das perfeições irreais ou imaginadas.

Somos complexos. Cobrimos nossas certezas temporárias, típicas da juventude, com imprecisões e medo, assim como as nuvens fazem com o céu azul. Uma das poucas certezas que temos é a defesa incondicional da vida humana. Vida que é sinônimo de logro ao fim de todos os nossos esforços como profissionais. Encontrá-la gélida, indiferente e sem mistério é perdê-la, e vê-la tal como é, motivo de estranhamento diante de tanta beleza. Durante toda a Universidade, somos ensinados a ter mais medo da morte. Ela é nossa maior rival e como todo rival merece que nós a respeitemos para lutar em condições de igualdade, porém é um momento único e pontual, que não pertence somente a nós. Arrisco-me a dizer que medo maior nós temos diante da vida, pois ela pulsa diariamente. Traz consigo alegrias e decepções que não somos capazes de controlar. A surpresa da vida, essa sim, é o que nos movimenta e nos causa medo.

Somos medrosos. Medo de viver, da liberdade, de dizer, de ser. Penso no medo de duas formas. Por um lado, ele nos livra da displicência de uma existência sem filtros, por outro ele paralisa. O medo que paralisa nos dá o dom do silêncio e o direito de a ele abandonar-se. E a vida vai passando com o tempo a fluir rapidamente. As atrocidades diárias que presenciamos insistem em dizimar nosso dom de calar, mas esse faz oposição com sua massa espessa e pesada, onde todos os gritos se afogam. Sem cessar, indignação e silêncio lutam, sem desfalecer. O grito utiliza-se das imagens que guardamos de desespero e certeza da morte de tantos; e o silêncio brinca com seu desdém da eternidade, sendo conivente com tudo que acontece.
Somos responsáveis por tudo àquilo que dizemos ou não. As forças dominantes mentem que a pobreza não é um resultado da riqueza, mas que é filha de ninguém, vinda ao bojo de uma cegonha má, de um repolho ou da vontade divina. Os ricos comem sonhos e arrotam arrogância. E neste estado de coisas, nós dizemos não à neutralidade da palavra humana e assumimos posição entre explorados e exploradores. Dizemos não aos que nos convidam a lavar as mãos perante as cotidianas crucificações que ocorrem ao nosso redor. E dizendo não ao triste encanto do desencanto, nós estamos dizendo sim à esperança, à esperança faminta e louca que nos trouxe até aqui. Só ela será capaz de nos levar a outra forma de viver.

Este é o momento mais feliz das nossas vidas, mas nem a alegria pode ser irracional. Ela não tem o direito de esquecer algumas coisas. Não podemos esquecer que somos uma parcela mínima da sociedade, a qual teve a chance de entrar em uma universidade pública. Não podemos esquecer que foi o suor de cada trabalhador deste país que nos trouxe até aqui. Trabalhadores que nunca chegarão a entrar na Universidade. Muitos deles não terão o direito de avistar seus filhos graduados, pois vivemos na terra das desigualdades. Dentro desse cenário de injustiça nacional, Alagoas destaca-se. Como diriam alguns, somos uma bela ilha, cercada por canaviais. As usinas, maiores fontes de emprego em nosso Estado, carregam em si o peso de um passado e o presente de exploração humana e acúmulo demasiado de recursos. Da cana, a matéria básica dessa indústria, são extraídos vários produtos, sendo o principal deles a miséria. A verdade é que o sabor doce do mel só é sentido pelo paladar de poucos. O que resta aos demais é o gesto de fel para levar a vida.

A saúde nunca foi prioridade no Brasil, por mais que contradigam os governantes. Destinação insuficiente de recursos, gestão fraudulenta dos contratos e a falta de um programa sério norteador são os grandes entraves para sua melhoria. Sem contar, com o interesse do capital financeiro ligado a saúde, interessado em mercantilizar a vida sem limites, e que exerce enorme influência nos órgãos legislativos e executivos, levando grande parte da fatia dos recursos destinados. No meio de tudo isso, o médico. Figura que, muitas vezes, antepara os erros governamentais, mesmo sem perceber. Para a mídia, somos os culpados pelas mazelas da saúde no Brasil, em uma jogada clara de desresponsabilização do Estado, ludibriando a população. Somos o Estado personificado para alguns. Somos o sinônimo de lucro para outros. As indústrias farmacêuticas têm em nós seu alvo claro para ações. Desde brindes simples até viagens internacionais, são utilizados na tentativa de cooptar médicos a prescrever seus medicamentos, aumentando o lucro. Os ternos e gravatas de seus representantes tentam mascarar o verdadeiro significado daquelas visitas. Eles querem prostituir nossa prática e dizimar os valores que aprendemos. Peço-lhes encarecidamente que não sejamos os índios do século XXI. Que não sejamos aqueles que trocam seu conhecimento por bugigangas.

O desprezo é o que mutila o mundo. Então não poderia desprezar quem esteve diretamente relacionado à nossa formação. A maquinaria da “igualação” humana compulsiva atua contra a mais bela energia do gênero humano, que se reconhece através de suas diferenças e através dela se vincula. À Universidade Federal de Alagoas, nossa mãe institucional, temos muito que agradecer por nos auxiliar, através das pessoas que a constroem, a questionar e não embarcar em uma nau desgovernada que nos leve a mesmice. Formar sujeitos questionadores é o fulcro de uma universidade. O capital dela é o cérebro. Através da Universidade, novos saberes surgem e assim novas formas de enxergar a existência. Faz parte da autonomia da universidade pública uma relação intrínseca com a cultura, que permite que o acesso não seja filtrado por dispositivos discriminadores montados em outras instâncias da vida social. É esta publicidade da cultura, que só na instituição pública pode articular em algum grau, que garante o conhecimento, a apropriação intelectual, a reflexão, a crítica e o debate. Gerar um mundo novo e ser nutriz, esse é o papel da universidade.

Sempre acreditei na democracia universitária, por essa formação holística a que ela se propõe. Talvez por isso, venha a questionar a decisão da aprovação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares sem um debate amplo com a comunidade acadêmica. Tratem como privatização ou terceirização. O fato não muda. O que está posto é uma brecha para que o Hospital Universitário Professor Alberto Antunes possa, no futuro, ter leitos ligados a grupos de saúde privados. Isto foi um atentado contra todos aqueles que acreditam em uma saúde pública e de qualidade, principalmente em um estado com 93% da população exclusivamente dependente do SUS. Isto foi um atentado contra quem acredita na construção coletiva das decisões.

Agradecer aos nossos professores é uma obrigação prazerosa. O papel hoje se inverte. Sou eu quem está na frente, falando o que penso sobre a vida e dividindo com vocês o que introjetei durante meu viver de 23 anos. Muitos foram mestres no conhecimento científico e alguns mestres no viver. Agradeço também a uma minoria de professores, aqueles que pouco fizeram, que utilizam da UFAL somente para receber honorários e os louros de serem professores universitários, pois nos ensinaram forçadamente o que não queremos ser. Mas o meu maior agradecimento fica para os que estiveram ao nosso lado, contribuindo de maneira decisiva para nossa formação médica. Ao atender um paciente, seremos vossas imagens, eternizando tudo aquilo de bonito que vivemos juntos. Espero que sejamos motivos de orgulho, assim como temos orgulho de dizer que somos frutos das experiências que vocês viveram.

Externar a nossa gratidão em relação aos pacientes é reconhecer que nosso maior aprendizado não se deu na sala de aula. Ele aconteceu na conversa fortuita durante as consultas, e da soma de olhares aflitos que encontravam em nós um fio de esperança. Da soma desses olhares, renascemos, experimentamos dimensões da nossa existência que jamais pensávamos adentrar. Àqueles que cederam seu corpo e suas histórias de vida para fazerem de nós melhores, agradeceremos sem fim.

Sem fim também é o amor de nossos pais. Captar o que eles sentem no dia de hoje é algo extremamente difícil. O sabor agridoce que eles experimentam ninguém é capaz de descrever, mesmo assim serei ousado em tentar levantar alguns pontos. A felicidade de nos ver realizados e plenos contrasta com a saída de muitos do convívio diário do lar, restando uma dicotomia que consome noites de sono. Aliado ao fato de nos verem sempre crianças, frágeis e necessitados de vossos cuidados, há a sensação de serem delicadamente menos necessários para nossa sobrevivência emocional. O sacerdócio de ser mãe torna-se menor. Não que a responsabilidade de aconselhar passe. Longe disso. Não que o afeto diminua, mas há uma dor intrínseca de sentir-se, hoje, mais distante que antes. Porém a nutrição afetiva de tantos anos trouxe um sentimento puro e verdadeiro: o amor. E esse é o maior elo que existe. Agora, somos capazes de alçar voos sozinhos, de enfrentar a vida de peito aberto, através do que aprendemos ao longo da vida com vocês. E, apesar disso, vocês serão sempre presenças constantes em nossos pensamentos e atos. A cada passo dado, sentiremos vossas presenças, cada decisão tomada terá um fato de ponderação forte, chamado família. Porém, nem sempre seremos o que desejam, nem faremos o que acharem melhor. Afinal, somos outra vida, outra história, outro mundo e não apenas um reflexo no espelho da visão alheia. Esgotaríamos todo nosso conhecimento léxico na tentativa vã de exprimir o inexprimível. Quando o sentimento é tão intenso, as palavras retraem-se, recusam-se, pois significam menos que deveriam. Mas saibam: o nosso amor por vocês não tem eira nem beira; início, meio ou fim.

Por fim, agradeço aos colegas pela oportunidade de representá-los. Agradeço também pela doce convivência dos últimos seis anos. As palavras de conforto em meus momentos tristes e por compartilharem comigo as alegrias. Gostaria agora de aconselhá-los, para que busquem a felicidade. Não aquela felicidade atrelada ao material, nem a felicidade que um poeta já tentou descrever, dizendo que ela cooparticipa da natureza do caracol, que se retrai quando lhe tocam. Desejo-lhes a felicidade das coisas simples, que nasce sem motivo e existe sem ser notada. Para tanto, devemos saber que somos um desejo sem objeto, uma vontade de desejar e um temor em querer. Porém, lembrem-se sempre do preço dos desejos e que ter não é possuir. Não precisamos proceder como os avarentos, que amontoam ouro só pelo prazer de contemplar. Pode-se ter até aquilo que não se deseja. A posse, meus amigos, é que importa. A posse é o ter e o desfrutar o que se tem. Não corram atrás de dinheiro e de prestígio. Não corram atrás de relações infelizes apenas pelas aparências. Não corram em busca da satisfação alheia. Ao longo da vida, temos várias coisas, mas nada é efetivamente nosso. Lembrem-se da transitoriedade das coisas e vivam. Esqueçam-se do medo da vida. Somente assim, vocês serão felizes para desmentir o poeta. Sigam buscando a vida. Não importa para quem e para onde, o que é preciso é que a vida se projete, que não seja um simples fluir animal e programado, inconsciente como o fluir de uma água na fonte. Mas projetar-se como? Projetar-se para onde? A resposta está dentro de vocês, basta refletir e encontrar. Como disse anteriormente, somos histórias paralelas, que se uniram em determinado ponto. Agora, dolorosamente digo-lhes que nosso ciclo de convívio diário se esvai. Continuaremos com as vidas correndo paralelamente, encontrando-se, como tudo que é paralelo, no infinito. O infinito dos abraços e das boas lembranças que levaremos para sempre. O infinito que não há de caber a saudade que sentirei de todos vocês. Muito obrigado!