Quando haverá investimentos efetivos e eficazes em políticas públicas que combatam a intolerância no país abençoado por Deus e bonito por natureza?
Até quando o ódio ao semelhante terá argumentos para continuar se alastrando?
Segue um texto revelador do jornalista Saulo Araújo, do Correio Braziliense.
Psiquiatra vai avaliar racista.
Amanhã, a Polícia Federal ouvirá formalmente o analista de sistemas que planejava um massacre contra os estudantes de ciências sociais da Universidade de Brasília. Ele e um comparsa estão detidos, há duas semanas.
Marcelo Valle Silveira Mello será submetido a exames psiquiátricos nos próximos dias. Agentes da Polícia Federal (PF) consideram o laudo médico fundamental para saber como conduzir as investigações sobre a atuação do extremista. O brasiliense de 26 anos foi preso há duas semanas, em Curitiba (PR), com o comparsa Emerson Eduardo Rodrigues, 32. Os dois são acusados de planejar um massacre a estudantes da Universidade de Brasília (UnB).
A defesa do brasiliense deve alegar que ele não é capaz de responder por seus atos. Em 2009, quando foi condenado a um ano e dois meses por ofender negros no Orkut, o analista de sistemas foi considerado semi-imputável. Em 2011, um outro processo foi aberto para apurar novas denúncias de racismo. Mais uma vez, a defesa recorreu à tese de insanidade mental. Marcelo responde também a oito queixas na Polícia Civil, entre elas uma de agressão contra a mãe.
Adiamentos
"A defesa aposta que esse laudo dará positivo para manter esse monstro nas ruas. Infelizmente, é uma estratégia que pode dar certo", afirmou um agente da PF em Brasília que acompanha o caso. O delegado responsável pelo inquérito, Flúvio Cardinelle Garcia, começará a ouvir formalmente Marcelo somente amanhã. A oitiva foi protelada várias vezes por falta de um advogado que represente o jovem. O primeiro defensor abandonou o cliente sem dar explicações. O rapaz ainda recusou um profissional de Brasília enviado pela família. Como o depoimento só pode ocorrer na presença de um advogado, Flúvio foi forçado a pedir a interferência da Defensoria Pública do Paraná. Por enquanto, tudo o que os policiais extraíram dele foi por meio de conversas informais, que não podem ser usadas no processo.
A caçada a extremistas acusados de espalhar mensagens criminosas pela internet contará com o apoio de agentes da PF de Brasília, pois as detenções de Marcelo e Emerson revelaram a provável existência de uma grande rede neonazista, com tentáculos em todo o país. Desde o dia em que a Operação Intolerância foi deflagrada, a PF vem recebendo dezenas de informações a respeito de pessoas que fazem apologia ao racismo, ao estupro e à pedofilia.
Marcelo é suspeito de ser o representante de grupos radicais na capital do país e pode ter reunido uma legião em prol da sua causa doentia. O ataque a alunos de ciências sociais da UnB estava prestes a acontecer, segundo a PF. Alguns dias antes de ser preso, o analista de sistemas recrutava extremistas a pegar em armas e "morrer pela causa". As ameaças,cada vez mais recorrentes na internet, fizeram os estudantes assistirem aula com as portas trancadas. A UnB, depois do episódio, pediu mais segurança no campus.
O empresário Emerson Eduardo, suspeito de ser o seguidor mais fanático de Marcelo, já prestou depoimento à PF. Ele confirmou que Marcelo manteve contato com Wellington Menezes, 23 anos, que em abril de 2011 matou a tiros 12 crianças na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro. Wellington se suicidou após a barbárie.
Admiradores de Hitler
Marcelo Valle e Emerson Eduardo são suspeitos de integrar grupos neonazistas que atuam em Brasília desde 1982. As organizações mais antigas do DF são admiradoras de Adolf Hitler. Em 2007, a Polícia Civil do DF apreendeu um vasto material na casa de dois suspeitos de pertencerem a uma gangue chamada Carecas do Planalto. No material recolhido, chamaram a atenção as fotos do aniversário da filha de um dos suspeitos, cuja cobertura do bolo formava uma enorme suástica. A polícia investiga se os radicais são os responsáveis por pelo menos três assassinatos, um deles o do adestrador de cães Jáilson Oliveira Nunes, em fevereiro de 2007, que teria abandonado o grupo.